Estava indo para me reunir com as minhas alunas, que já estavam perto do domo, quando um guarda da cancela de entrada, correndo, me alcançou e me entregou um cartão de visita.
– Tem um carro grande, com três sujeitos, que querem falar com o senhor. Um deles me deu este cartão.
Rudiard G. Carrigan…? Quem seria…? Ah sim…. é o tal “Diretor da Divisão de Recuperação de Sistemas” que visitei em Langlei, faz umas três semanas.
– Por favor, deixe o carro entrar, são amigos.
Será? Um carro grande e tenebroso com vidros escuros, veio, lentamente, na minha direção. Francamente não me sentia confortável. O que poderia querer o diretor da DRS?
O carro parou a uns passos de mim; abriu-se uma porta e um sorridente Rudiard G. Carrigan, desceu.
– Bom dia senhor Collins, espero que esta minha improvisa visita não seja inoportuna.
– Bom dia senhor Carrigan, seja bem-vindo. Na verdade, estava indo dar aula às minhas alunas. E as indiquei.
– Vejo…
O que ele estava vendo era um multicolorido grupo de mulheres que, sob vistosos guarda sois, estavam rindo e parecia, até, dançando. Não… era a Tina que estava praticando ginástica rítmica, recomendação do doutor William.
– Vejo, senhor Collins. Poder-me-ia dar alguns minutos do seu tempo?
– Certamente. Se não se importa, podemos ir para um lugar mais confortável?
– Podemos sim, e agradeço. Instalações magníficas as têm aqui, deveras impressionantes.
O conduzi para o meu escritório, os dois sujeitos que o acompanharam ficaram no carro, no estacionamento.
– Aceitaria uma bebida?
– A esta hora da manhã um bom café iria bem.
Chamei uma copeira, solicitei dois cafés e pedi que ela fosse no estacionamento e pedisse às duas pessoas que estavam em um carro grande e preto o que desejariam tomar.
– Muito bem senhor Carrigan, no que lhe posso ser útil?
Já foi útil, senhor Collins. Eu vim aqui, talvez fora de hora e sem avisar, para pedir-lhe dois favores. O primeiro é de se quiser, matricular um dos nossos operadores na sua escola.
– Sem problema. Deve se lembrar que eu ofereci o curso a quantas pessoas queira enviar.
– Sim, lembro-me perfeitamente. O segundo pedido seria que, excluído o senhor, ninguém fique sabendo que é um nosso homem.
– Entendo. Para conseguir isso, facilmente, e sem ninguém saber, ele teria que ir a New York, fazer uma entrevista, fazer alguns exames médicos de rotina, assinar um contrato, etecetera e etecetera, e não precisaria pagar, mas, se quer manter reserva em todos os aspectos, seria conveniente que fique registrado o pagamento… depois, posso reembolsar-vos.
– Obrigado pela cooperação. Não acha que podemos pagar?
– Não, não é isso. Se bem se lembra, fui eu que lhe ofereci o curso.
– É verdade. E já que estamos progredindo cordialmente, devo parabenizá-lo pela sua perspicácia.
– Minha perspicácia?
– Sim. O aluno dinamarquês que matricularam na sua escola é, exatamente, o que o senhor previu que fosse.
– Oh… meu deus. Esta sim… imaginava, mas não esperava.
– Queremos acompanhar o nosso amigo e ver o que pretende.
– Suponho que a vossa organização não acredita no objetivo da escola.
– Tanto quanto o dinamarquês e seus colegas. Nós, e pelo que vejo, também os “dinamarqueses”, nem acreditamos, nem desacreditamos, somente averiguamos.
– Não sei se devo ficar feliz ou não, com tudo isso. Uma eventual confrontação não seria útil para a Escola.
– Não haverá confrontação, posso lhe assegurar.
– Assim espero.
– Senhor Collins, não sei o que vai dar tudo isso, fica, porém, registrada a sua colaboração. O que nós podemos fazer para retribuir?
– É embaraçoso, deveras embaraçoso, se bem que a sua oferta muito me lisonjeia. Presumo que isso nada tem a ver com o objetivo final da Escola.
– Exatamente. O objetivo da sua Escola, a princípio, não nos interessa, mas, se eventualmente interessar a outra agência, automaticamente, a nos interessa. O que estava, porém, dizendo, é que nós estamos devendo algo para o senhor Collins, não para a Escola, ou seja lá o que for.
– Entendo e agradeço novamente. Faço uma hipótese: se alguém atentar contra a Escola, e isso entristecer profundamente o senhor Collins, os senhores, poderiam intervir?
-Digamos que sim, dependendo do que se trata, evidentemente; temos as nossas limitações legais e funcionais e, também, os nossos etecetera e etecetera.
– Está claro. Poderia dizer-lhe algo que, se não tiver nenhum prosseguimento, o senhor esquecerá completamente?
– Certamente. Essa é a minha especialidade. Por sinal, já esqueci do que estivemos falando até agora.
Essa assertiva me deu uma certa tranquilidade. Na verdade, estava totalmente inseguro até minutos atrás. Resolvi contar-lhe o meu problema que, na essência, era o de ganhar tempo. Contei-lhe do prefeito de New York, das ações de alguns senadores, de uma lei, contra os objetivos da escola, falei também do senador pelo Tennesse, enfim dei a ele o quadro completo da situação em que me encontrava.
Ficou em silencio por um bom tempo, reclinado na poltrona e com os olhos fechados. Parecia uma “reprise” do nosso primeiro encontro.
– Bem senhor Collins, serei bem claro. Nessa estória estão envolvidos o poder legislativo e judiciário do nosso país. São poderes independentes do poder executivo do qual eu faço parte. A princípio não poderia imiscuir a agência; a nossa tarefa é proteger o nosso país das ameaças externas que, evidentemente, não poderiam ter origem nos nossos três poderes. Posta assim a situação, nada poderíamos fazer.
Acontece, porém, que um agente estrangeiro se infiltrou numa organização americana que tem objetivos que, se conseguidos, seriam de grande importância para o nosso país. Não deveríamos, pela segunda vez, deixar que os “dinamarqueses”, coloquem um seu homem no espaço antes de nós. Que tal?
– Brilhante.
– Obrigado. Agora me diga, de quanto tempo precisa?
– É bem difícil quantificar. Trata-se dos procedimentos usuais da elaboração e aprovação de uma lei. Os imponderáveis são muitos, francamente não poderia dizer quando e se, esta lei, poderá ser promulgada; talvez o senador Crowdler do Tennesse, teria mais condições de fazer um prognóstico. Do meu lado, as incertezas são bem menores, mas existem. Eu estarei pronto para enfrentar qualquer investida, provinda de onde for, num prazo entre três e quatro meses. Se a lei for promulgada antes disso, … adeus, Edward Collins.
– Está tudo muito claro. Verei o que posso fazer.
– Muito obrigado pelo interesse. Não gostaria de visitar as instalações? Realmente não existe nada de especial afora o domo.
– Aquela construção gigantesca, perto das moças que estavam estudando?
-Sim, é esse mesmo. As moças, porém, são senhoras de uma certa idade e não estavam estudando, estavam somente aguardando a minha chegada.
– Perdão pelo meu equívoco, e diga-me: tem muitos alunos?
– Agora já temos quase sessenta, considerando todos os cursos. Por incrível que possa parecer, apesar da descrença generalizadas, continua crescendo a quantidade de interessados, já são quase dez mil. Os aprovados são uma parte muito pequena, pequeníssima desse todo. Somos muitos exigentes em verificar se os candidatos têm as qualificações necessárias.
– Muito interessante, futuramente, se tudo der certo, posso visitar… bem… as instalações?
– Com certeza. Será sempre bem-vindo.
Voltei para as minhas alunas.
– Desculpem-me, sim? Surgiu um imprevisto e tenho que acelerar um pouco. Tudo claro sobre o que foi posto até agora? Nenhuma dúvida? Ótimo. Agora vamos entrar numa seara bem diferente da anterior.
– Quem de vocês sabe alguma coisa dos, assim chamados, movimentos reflexos, os reflexos condicionados? Vejo que ninguém quer se comprometer. Então eu direi o que dizem sobre estes movimentos reflexos, são movimentos que o nosso corpo realiza sem a participação do nosso eu consciente. Alguém me saberia dar alguns exemplos? Sim Tina, diga.
– O andar, manter o equilíbrio no andar.
-Sim, mas tem outros mais interessantes.
– A mastigação, … a língua que não se deixa mastigar.
Quem falou isso foi a Elisabeth e, todas as demais, riram. Parece que ela é a glutona da turma.
– Muito bem, o exemplo é perfeito. Então temos uma língua que não se deixa morder, e isso sem uma ordem direta nossa como, por exemplo, seria movimentar uma mão para pegar um objeto. De onde provém estas ordens, diretas e reflexas?
Vou parar de fazer perguntas, temos pouco tempo; é melhor entrar direto no assunto. As ordens, todas, vem do cérebro. O cérebro tem múltiplas funções, entre as quais a de movimentar a mão, conscientemente, para pegar um objeto, e de, inconscientemente, mastigar sem morder a língua. Qual seria a origem desse último movimento?
Para poder responder, devemos voltar aos nossos ancestrais de cem mil anos atrás, talvez de um milhão de anos…
Façamos a hipótese de que, um milhão de anos atrás, os nossos ancestrais deviam conscientemente ordenar a língua de não se intrometer nos dentes durante o processo de mastigação. Teria sido um processo cansativo para os nossos avós. Suponhamos que, alguns neurônios específicos, controlados conscientemente, atuavam no controle dos movimentos da língua em relação ao movimento dos dentes.
Depois de milhares de repetição das mesmas ordens, por milhares de vezes ou por milhões de vezes, os neurônios que cumprem esta específica tarefa se cansam e, para facilitar a vida do corpo que os abriga, resolveram dar as ordens diretamente, sem a intervenção da vontade do seu hospedeiro. Não esqueçam que o cérebro quer que o seu hospedeiro, o corpo, se sinta confortável. Sim, Clara, quer dizer algo?
– Sim, parece-me estranho que o cérebro, que atua no sentido de propiciar o maior conforto ao seu… sei lá, corpo, hospedeiro; no exemplo que apresentou, parece que agiu para o seu próprio conforto. Cansou, de fazer uma dada função, e resolveu fazer algo diverso e menos complexo. É aceitável esta hipótese?
– Viva! Parabéns! Demostrou que está atenta e que procura a lógica nas minhas argumentações. Tem razão, a hipótese não é aceitável. Vou apresentar outra: os neurônios que operam dentes e línguas, para coordenarem-se entre si, não se cansam, continuam no seu monótono mister, recebendo, de outro grupo de neurônios, as ordens do eu consciente.
– Podemos admitir facilmente, não é Clara, que depois de cem mil anos desta função ter-se transmitido por milhares de gerações, estes últimos neurônios se adaptem a essa monótona ação, tornando a ordem direta do eu consciente, desnecessária. Temos, desse fenômeno, inúmeros exemplos na vida animal e vegetal.
Lembro também, que ao longo das gerações, as mudanças necessárias para o melhor conforto de uma espécie no seu próprio ambiente, se integram no DNA, do qual todas devem ter ouvido falar e, por meio do DNA transmitidas às gerações futuras com as novas características necessárias para a perpetuação dessa específica espécie.
Através deste processo, portanto, o primeiro grupo de neurônios se adaptou a realizar autonomamente as funções que antes lhe eram transmitidas pelo eu consciente. Pode acontecer isto?
– Acho que pode. Eu, porém, não garanto. – Disse em voz bem alta uma das alunas. Risadas gerais das demais senhoras que demonstraram, assim, que estavam bem atentas.
– Esta aula foi bastante pesada e vamos parar por aqui. Ficarei fora por uns dias e gostaria que vocês pesquisassem, até na internet, na pior das hipóteses, tudo o que podem encontrar em relação às funções do cérebro e de como os neurônios agem e interagem.
– Atenção, sendo que tratamos de cérebros, gostaria que cada cérebro de vocês utilizasse os próprios neurônios sem a ajuda dos neurônios de outro cérebro. De acordo? Outra coisa, na biblioteca temos agora a Enciclopédia Britânica, uma fonte confiável de informações, a consultem.
Em New York conversei com a Jane, confirmei que o dinamarquês era gente boa e que podia atender tranquilamente ao seu pedido de uma certa reserva. Disse-lhe também que seria oportuno que, ela e sua mãe fossem visitar o Centro, antes que ficasse abarrotado.
– Mas você não disse que estava quase vazio?
– Disse e repito. Somente acho melhor agora, que num futuro próximo, quando poderá estar cheio de alunos.
– Como pode ser isto, se ao máximo, conseguimos dez ou doze alunos por mês?
– É o meu sentimento, Jane… é o meu sentimento que me diz que podemos ter uma avalanche de alunos a curto prazo. Acredite, mas faça como achar melhor. Por favor, poder-me-ia chamar o Ernest, sim?
– Bom dia, Ernest, tudo tranquilo por aqui?
– Bom dia, Edward, sim, tudo tranquilo.
– Não ficará por muito tempo. Posso te pedir uma tarefa que não faz parte das suas obrigações?
– Sim, do que se trata?
– …e das quais não deve informar ninguém além de mim mesmo?
– Nem a Jane?
– Nem a Jane. Estive tentado em dizer-lhe: principalmente à Jane, mas me contive.
– De todos os jornais e revistas, entre os de menor relevância, tem algum com o qual voce tem mais intimidade, sei lá, por alguma razão?
– Teria sim, mas não é bem um jornal. É o boletim do sindicato dos motoristas de táxi de New York, que publica notícias de interesse da própria categoria, às vezes, algo produzido por alguns dos taxistas: contos, piadas, casos que aconteceram. Tem uma seção interessante de estatísticas e fatos curiosos sobre a cidade. É isso. Serve?
– Qual a tua relação especial com este boletim?
– Não é tão especial assim. É um meu primo que o produz.
– E qual seria a tiragem?
– Não sei ao certo, somente sei que são cerca de dez mil os taxistas sindicalizados e que eles recebem toda segunda feira, sete exemplares para deixar no táxi, um por dia, de manhã, à disposição dos passageiros.
-E como é que eu nunca vi este boletim?
-Não sei. Talvez nem todos o deixem a disposição ou talvez, ele é levado por um passageiro, logo nas primeiras horas de manhã; francamente nãosei.
– Interessante. Você acha que poderiam publicar um texto meu?
-Depende… do que trataria?
– Seria um texto que falaria sobre os candidatos aprovados, as características psicológicas deles. Quais destas características facilitariam a aprovação e quais as dificultariam, coisas assim, bastante simples. Pode telefonar para o teu primo para saber se o quer publicar? Diga-lhe também que somente ele receberá este artigo e mencione a posição que você tem aqui.
– Me dê um tempinho.
Passado esse tempinho, Ernst veio com a resposta:
– Ele concorda. Concorda, desde que seja apresentado como: “Fonte exclusiva do Cidadão”.
– Que cidadão seria este?
– “Cidadão” é o nome desse jornaleco.
– Beleza. Vou preparar o artigo e, antes de enviá-lo, dê uma olhada nele e me diga se pode servir.
O artigo dizia, desde a primeira até a última palavra:
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E D I Ç Ã O E X T R A O R D I N Á R I A
_________________________________________
De uma fonte exclusiva do CIDADÃO
VOAR COMO O SUPERMAN?
Tivemos acesso a informações, em primeira mão e exclusivas, sobre as características dos candidatos a frequentar uma escola que, alega a mesma, ensinaria a voar. Voar no espaço como o Superman.
Milhares de candidatos já foram avaliados por esta escola que pretende ensinar a voar. Os aprovados seriam somente poucas dezenas selecionados de milhares de candidatos.
O que reprova a grande maioria destes?????
Más condições físicas 21 %
Predisposição a violência 18%
Acentuado egoísmo 17%
Tendência a mentir 9%
Vaidade 9%
Orgulho e soberba, (acumulados) 5%
Idade (acima de 75 anos) 3%
Defeitos congênitos 1%
Outros não especificados 6%
SOMENTE PASSARAM NESTA PRIMEIRA SELEÇÃO 4,6 % DOS CANDIDATOS
Os futuros interessados, agora e graças ao “Cidadão”, estão sabendo o que os pega na seleção.
Atenção: Nada foi informado sobre a bagatela do custo do curso. de
SOMENTE 200.000,00 DÓLARES… PAGOS ADIANTADOS
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Encontrei-me, com “Peter” e “Paul”, no mesmo restaurante e com os mesmos aperitivos do encontro anterior e, depois dos cumprimentos de praxe, entrei no âmago do assunto:
– Meus amigos, em prazo relativamente curto, dois meses, talvez três, é difícil fazer uma previsão mais precisa, dois fatos podem ocorrer: primeiro: Ninguém voa e provavelmente serei processado e condenado; segundo: Alguém conseguirá voar, e eu ficarei feliz.
– Parece-me – disse o Peter – que você não está muito preocupado com a primeira alternativa, digo bem?
— Sim de fato. Não porque tenho alguma carta milagrosa na manga, que não tenho, mas porque estou tão empenhado em conseguir o que me propus, que não tenho tempo para outras preocupações.
– Compreendi, “Paul” você também compreendeu? – E depois da afirmativa dele, continuou: – Edward, pode ter certeza de que torcemos para o teu sucesso, apesar de uma certa descrença da parte nossa, que você deve achar natural. Você nos convidou, o que mais tem de novidades?
– Não tem novidade, além do que vos disse. Tenho apenas uma sugestão para os amigos. A nossa sede da Quinta Avenida é agora sobejamente conhecida depois dos vossos programas televisivos; o centro de treinamento na Virginia não. Lá existem muitas coisas que ficariam bem na televisão. A minha proposta seria de aproveitar este momento, no qual tudo funciona perfeitamente, lá no Centro, e fazer uma bela e completa reportagem. Aliás, duas. Melhor, quatro.
– Explique-se – disseram os dois comensais em uníssono.
– No caso de alguém voar, o reboliço será enorme, todas as televisões hão de querer mostrar algo do centro e eles não terão nada para mostrar, ao contrário de vocês, que terão horas e horas de imagens inéditas.
Também, no caso de que ninguém voe e que eu, como disse, seja processado, vocês também podem levar ao ar um belo programa, belo porque vocês terão o tempo necessário para fazer um bom trabalho. Evidentemente, para esta possibilidade o enfoque será diverso.
– Pensou em tudo, me parece – disse o Peter.
– Por que quatro programas? – falou o Paul.
– Seria um programa para cada uma das eventualidades. Se me permitem a sugestão, cada um de vocês deveria realizar o seu próprio programa, terão assim imagens exclusivas para os vossos patrocinadores.
– Pensou em tudo mesmo; e quando podemos ir?
– Quando queiram, e não esqueçam que tem alojamento, alimentação e serviço de quarto para todas as vossas equipes; somente venham em período diferentes. Estamos combinados?
– Combinadíssimos.
Voltei para o Centro de Treinamento para dar continuidade a chatice do funcionamento do cérebro. Chato, mas necessário.
– Muito bem, minhas futuras astronautas, fizeram o dever de casa? Sim? Então; me entreguem os vossos trabalhos, os lerei esta noite e amanhã discorreremos sobre o que vocês todas descobriram.
No nosso último encontro parece que ficaram estabelecidos os seguintes pontos: a) os neurônios operam os nossos movimento, os ordenados pelo eu consciente e os controlados autonomamente pelo cérebros por serem extremamente repetitivos; b) os neurônios “sabem” que estão confinados num corpo e que a existência deles depende do bem estar desse corpo; c) as mudanças necessárias para o bem estar do corpo, e as adaptações às cambiantes condições do ambiente, são identificadas e postas no DNA e deste, transferidas às sucessivas gerações.
– Continuando, acrescento agora: d) o potencial do cérebro que nós conseguimos utilizar é extremamente diminuto, até Einstein utilizou somente uma pequena fração do seu cérebro e, se a fração que ele utilizou foi pequena, imaginem quão minúsculo seria o tamanho que nós mesmos conseguimos utilizar. É bom que saibam que, quando foi analisado o cérebro do Einstein, depois da sua morte, claro, não encontraram nenhuma diferença, em relação aos cérebros que a maioria das pessoas possuem.
A mais: e) os neurônios analisam os fatos que atingem o corpo, com mais acuidade do eu consciente, derivam disso, todas as constatações, a posteriori, dos “eu sabia” e todas as premonições, mais ou menos acentuadas e que ocorrem na vida de todas as pessoas.
Até este ponto, tudo que foi apresentado é corriqueiro, até a Wikipédia chega perto disso tudo. O que vou dizer agora, porém, não consta nem na Enciclopédia Britânica. É uma descoberta recente, de conhecimento de poucos e, se for divulgada, encontrará a mesma oposição que, por exemplo, o doutor Líster encontrou quando disse que o pus de uma ferida, seria a causa das mortes que ocorriam com extrema frequência nos hospitais de Londres no tempo dele.
– A descoberta, simplificando ao extremo, é que os neurônios, ou o cérebro se vocês preferirem, “gostaria de ser mais utilizado”. Esta manifestação é bastante comum; muitos bons profissionais, para dar um exemplo, podem se sentir subutilizados e, de consequência “gostariam de serem mais utilizados”. Deriva desta descoberta, uma outra, que apresentarei na última aula da preparação teórica, … uma chatice, não é? Depois, finalmente, entraremos no domo para vocês poderem aprender a deslocarem-se no espaço utilizando as atrações gravitacionais dos planetas do nosso sistema planetário.
– Podemos, então, parar por aqui; vão se preparar para o jantar de acolhida da senhorita Jane, a chefe do nosso escritório de New York, e da senhora sua mãe. Elas estarão na mesa principal, junto conosco. Convidei, mas não estarão na nossa mesa, alguns integrantes do aeroclube, os que nos ajudaram para construir este nosso Centro. E, não esqueçam, após o jantar, teremos dois eventos que ocorrerão simultaneamente: no salão azul se apresentará um quarteto de cordas de Atlanta, com músicas do XV e XVI séculos e, no salão turquesa, preste atenção Tina, um conjunto de rock, daqui mesmo de Washington.
Finalmente, para dar mais movimento à festa, em benefício dos nossos alunos que são preponderantemente de sexo masculino, convidei professoras e alunas do colégio feminino da nossa cidade vizinha.
Um lembrete que darei aos alunos: não esqueçam que, quem acedeu a vinda das alunas e das professoras, foi a Diretora do colégio; ela virá com um longo de cor bordô escuro com discreto decote e que, pelo contraste das cores, ressaltará vivamente o fino fio de ouro branco com esmeraldas que ostentará; os sapatos serão de cor vermelho vinho e com salto baixo, para poder dançar a noite toda.