Tinha que dar a última aula teórica sobre o deslocamento no espaço. Uma chatice tremenda, dificilmente elas, as minhas distintas senhoras e alunas, compreenderiam as implicações derivadas dos princípios que já apresentei e que, ainda, apresentarei. Eu já me satisfaria somente com o entendimento delas para a mera aplicação destes princípios.

Estava chovendo na hora da aula, assim tive que ministrá-la numa das tantas salas que estavam à disposição. A gravaria, para poder aprimorá-la para os demais alunos, estes poderiam ser mais exigentes de quanto foram estas boas senhoras, arrancadas de um morro luminoso e tranquilo, para uma – quase – base espacial.

– Minhas amigas, estamos terminando a preparação teórica, imagino que nenhuma de vocês teria imaginado que chegaria tão longe. E para dar uma ideia de quão longe vocês chegaram, fiquem sabendo que ninguém, considerando toda a humanidade que existiu até hoje, chegou tão longe tanto quanto vocês chegarão ao fim desta aula. Se concentrem, portanto.

Na última aula, se bem lembram, nós terminamos com a sensacional descoberta que os neurônios querem fazer mais, muito mais do que fizeram até hoje, para o seu hospedeiro e, evidentemente, também, para a continuação da existência deles mesmos.

Não vamos discorrer sobre como isto foi descoberto, nem o porquê os neurônios assumiram e manifestaram esta intenção ou, por outro lado, de como nós, os corpos hospedeiros, ficamos a par deste fato. Nos concentraremos somente sobre o “que” e “de que maneira”, os neurônios, poderiam fazer a mais para nós, além dos inestimáveis serviços que sempre prestaram aos nossos corpos.

Devem ter percebidos que apresentei os neurônios como parte distinta do corpo hospedeiro. Isto, porém, é discutível. Para melhor entenderem considerem a famosa figura do yang e yin dos povos orientais. São como duas “vírgulas”, uma branca e outra azul, que se integram dentro de um círculo. Poderíamos, querendo, supor que esta figura representa os neurônios e o corpo hospedeiro.

Se nos considerássemos uma linha que diametralmente dividisse este círculo em duas partes, descobriríamos que as porções brancas e azuis, cortadas por essa linha, uma cor, em cada semicírculo, terá uma área sempre equivalente a outra cor. Cada cor cobre exatamente a metade da superfície, seja do círculo, que de qualquer semicírculo que se queira criar.

Simbolicamente isso demonstra que yang e yin, são indissolúveis em qualquer condição, tanto quanto os neurônios e o seu corpo hospedeiro. A apresentação que faço, de neurônios e corpo hospedeiro como entidades distintas, tem finalidade somente didática, claro?

Quem de vocês poderia dizer-me o que representariam todos os infinitos diâmetros que separam o círculo em duas partes? Ninguém se arrisca? Então eu vos darei a minha interpretação.

São todas as tentativas infrutíferas, em todos os sentidos, de querer separar os neurônios dos corpos. Os corpos das almas. Os sentimentos da lógica. O espírito da matéria e assim em diante.

Vejo que vocês estão cansadas, ou melhor, saturadas destas argumentações todas. Chegaram alguns relatórios que eu tenho que examinar imediatamente, vamos suspender esta aula e a retomarmos logo depois do almoço? Concordam?

– Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.

Chegaram os relatórios dos Três Magos, as notícias não eram boas, aliás, eram péssimas. O “Capeta” era o epíteto que tinha aplicado ao senador Evans, que liderava a arregimentação dos senadores contra a Escola. Ele conseguiu que o projeto de lei fosse aprovado, até na última comissão, antes de ser posta a avaliação e votação do plenário do Senado.

No Senado estava se destacando a figura do Senador Crowdler, do Tennesse, que liderava o bloco dos que se manifestavam contra a aprovação desse projeto de lei. Argumentavam que já existiam leis, códigos e instituições que atendiam perfeitamente as necessidades da sociedade na questão em pauta, sem a promulgação dessa lei esdrúxula.

O Baltazar, o rei mago do legislativo, acrescentava que, pelas diversas sondagens realizadas, o grupo liderado pelo senador Crowdler, era consistente, mas inferior em número, aos que apoiavam o projeto de lei. Informava adicionalmente que, o número dos senadores que não se manifestaram era, ainda, considerável. A partida, portanto, estaria em aberto, mas com viés negativo bem acentuado, devido ao fato que o projeto de lei, semana mais, semana menos, iria para a apreciação do plenário. Não existiam mais, nem tempo e nem possibilidades, para engendrar medidas protelatórias.

O Gaspar, o rei mago do judiciário, deu notícias que, aparentemente pareciam boas. A Suprema Corte iria analisar a constitucionalidade da lei somente depois de aprovada no Senado; não estava claro se em primeira ou segunda instância. Isso tudo não me seria de muito alívio considerando que, pelos escassos indícios, a constitucionalidade dessa lei seria, quase que certamente, consagrada rapidamente pela Corte.

As tramitações protocolares no Supremo me dariam, no máximo, mais uma ou duas semanas e, infelizmente, durante o período de avaliação da lei, se esta tiver sido promulgada pelo Presidente, poderia ser aplicada até o dia da eventual declaração de inconstitucionalidade.

Tinha certeza que mesmo estando em vigor por um curto período, supondo uma improvável rejeição no Supremo, os estragos na minha organização seriam terríveis.

Finalmente algumas notícias provindas do poder executivo. O Presidente, na conferência semanal com a imprensa, interpelado sobre as medidas repressivas contra fautores de coisa impossíveis, matéria, que já estava se tornando popular, respondeu que aguardaria, constitucionalmente, a soberana manifestação do poder legislativo. Ficou, como se usa dizer, em cima do muro, apesar da sua boa maioria na Câmara e de discreta no Senado. O executivo não iria me ajudar, isto ficou bem evidente.

Com todos os problemas graves que me assolavam, tive que preocupar-me de um problema doméstico que não podia deixar de atender. Tratava-se de uma discussão, com vasto emprego de palavras de baixo calão, entre o mecânico de manutenção dos aviões e um dos instrutores de voo.

O fato, como facilmente apurei através das numerosas testemunhas, foi o seguinte: quando Billy, o mecânico da manutenção, ia terminar a usual revisão das quinhentas horas de voo de um dos aviões, estando prestes a decolar para o ensaio final de uma hora de voo, viu um aluno andando com o capacete de voo e o convidou a ir consigo. O aluno acedeu e logo, lá se foram os dois pelo céu. O instrutor de voo desse aluno, cerca de quinze minutos depois, ficou a par do ocorrido e, rapidamente, foi para a torre de controle para que intimassem o piloto ao imediato pouso.

– Eu sou o responsável da manutenção deste avião, e continuarei voando testando os sistemas, respondeu o Billy ao operador da torre de controle.

O operador, retransmitindo as palavras do instrutor, respondeu:

-Está transportando um aluno, sem a autorização do seu instrutor.

– Não sabia que, para voar de carona, um aluno precisaria ter a aprovação de um instrutor qualquer.

Esse “qualquer” fez o instrutor ficar possesso, arrancou o microfone do operador e berrou:

– Dessa imediatamente. Entendeu?

– Sim entendi, câmbio e desligo.

E continuou voando pelo restante do tempo da hora preestabelecida.

Quando finalmente aterrissou já se tinha formada uma numerosa assistência que queria ver o desfecho daquela desagradável controvérsia. De fato, logo desligado o motor, o instrutor dirigiu-se rapidamente ao avião. Er43dw Ninguém ouviu, mas deve ter falado algo que o Billy não apreciou.

Enquanto Billy, seguido do instrutor, se dirigia para o hangar, onde já estava reunida uma atentíssima plateia, o aluno escapuliu, para evitar ser questionado por alguém. Sempre andando, seja na pista que no hangar, os dois homens, cada um irritando mais ao outro, continuavam a altercação. A contenda terminou somente quando se separaram, bem perto da saída do hangar.

Depois de ter tomado ciência dos fatos, interrogando separadamente algumas das testemunhas, também separadamente conversei com os atores deste desagradável episódio. Fiquei, depois disso tudo, no meu escritório meditando, não somente sobre o fato, mas também sobre a situação geral no Centro.

Constatei que, fazendo uma regressão de causas e efeitos de numerosos ocorridos, eu resultava sempre como o maior responsável, para não dizer culpado, das lamentáveis ocorrências que, sempre, permeiam qualquer organização.

De fato, descobri tardiamente que, enquanto estava presente no Centro, todos, quando necessário, se reportavam a mim. Durante as minhas frequentes ausências, cada chefinho ou chefete de cada setor se sentia livre e solto e, neste ambiente, os menos sábios expunham os seus egos. A culpa, então, era minha e, por consequência era eu mesmo que tinha que remediar essa situação.

Cheguei à conclusão que devia achar alguém, um gestor, que assumisse o comando do Centro durante as minhas ausências. Onde encontrar tal gestor? Justin, o presidente do nosso vizinho aéreo clube, poderia me indicar mais um bom profissional?

Depois de todas estas elucubrações, convoquei todos os funcionários na sala das conferências, a maior de todas as salas do Centro. Para conseguir isso – todos os funcionários de Centro estarem presentes – enviei grupos de alunos para preencher provisoriamente os pontos principais: os portões de entrada, a torre de controle, apesar de ter mantido todos os aviões no solo, o centro médico e o centro de computação. Seria por meia hora, no máximo.

Logo que a sala ficou repleta, tinha colocado duas funcionárias da administração a conferir as presenças, e com os dois causadores da confusão ao meu lado, tomei a palavra.

– Meus amigos e colaboradores, é triste que a primeira das nossas reuniões, tenha tido como motivação uma discórdia entre nós. Resolvi de imediato tomar duas medidas que, com outras que implantarei a seguir, deverão eliminar por completo qualquer possibilidade de algo similar voltar a acontecer.

– A primeira é que considerarei que este episódio não ocorreu; peço, portanto a todos que o retirem completamente da memória. Esta aparente magnanimidade é devida somente ao fato que, eu próprio, me sinto culpado pelo episódio; as minhas demasiadas e frequentes ausências devem ter permitido que se formasse um clima favorável a este tipo de ocorrência.

A segunda medida é que, independentemente de quem foi o iniciador ou causador, todos os envolvidos, todos, serão despedidos e, adicionalmente, se existirem condições para isso, serão também perseguidos, por nós, nas esferas cível e criminal. Esta medida drástica, que será aplicada a partir deste momento, será aplicada dentro da nossa ética e da legislação em vigor, e tem como único escopo a de proteger o maior capital da nossa organização, que seria a harmonia e cordialidade entre nós todos. Ressalto, também, que o respeito mútuo entre todos os que aqui trabalham em quaisquer das funções, repito, em toda e qualquer das funções, deve ser uma constante. Podem voltar ao trabalho.

***

– Boa noite Justin, teria um momento para mim?

– Certamente Edward, boa noite também, fiquei sabendo que ouve uma bela confusão no teu Centro hoje; lamento muito, e lamento mais ainda porque os dois envolvidos na confusão foram dois dos meus recomendados.

– Não se preocupe com isso, uma parcela considerável do ocorrido foi culpa minha; fiquei demasiado tempo ausente e não deixei ninguém tomar conta do Centro durante as minhas ausências.

– E vai querer que eu te indique um eventual gestor dessa joça toda?

– Exatamente isso, tirou as palavras da minha boca.

– Mesmo depois que foram dois dos meus recomendados que fizeram toda essa confusão?

– Se não foi você que armou tudo isso, não tem problema. Pode indicar alguém para assumir a posição de gerente do Centro?

– Acho difícil; a organização do seu centro é muito complexa, não sei onde encontrar alguém com todas as qualificações necessárias.

– Não é bem isso. Praticamente, o meu centro, com a exclusão do meu curso, não é nada mais que um aeroclube de luxo, grande, se quiser, mas é somente um aeroclube, com um único sócio e alguns cursos de pilotagem.

– Da maneira de como você apresenta as coisas, até parece que eu mesmo poderia servir.

– E por que não? Você seria um ótimo candidato, aliás, seria o único candidato no qual eu confiaria cegamente.

– Não está brincando, não?

– De maneira alguma, aliás, você teria inclusive a vantagem que mais de meia dúzia dos atuais funcionários foram seus recomendados.

– Vejo que você está falando sério.

– Falo sério, sim, e te apresento uma proposta formal: Justin, quer assumir a gerência do meu Centro de treinamento? Pago bem e terá todos os benefícios do nosso Centro, que não são poucos.

– Eu aceitaria, mas, existe um problema…

– Já sei, você não acredita no objetivo final da Escola…

-Não é bem isso, teria que me desligar do cargo de Presidente do aeroclube.

– Não tem um Vice-Presidente?

– Tem sim… e eu teria que falar, também, com os demais sócios.

– Faça isso. Devo, porém, informar-te de um fato relevante. Está em andamento no Senado um projeto de lei que, se aprovado, criaria grandes dificuldades a Escola, podendo chegar a fechá-la.

– Obrigado pela informação, mas, em relação a isso, posso tranquilamente enfrentar o risco.

– Estamos combinados então?

– Combinados.

-Mais uma coisa. Seria possível, se tiver tempo livre, poder passar algumas horas por dia para poder-te entrosar com todos os sistemas?

– Sem dúvida alguma. Posso garantir, desde já, umas quatro horas por dia.

– Ótimo, então. Até amanhã no Centro, nas horas que quiser.

***

-Queridas amigas, parece que nunca vamos concluir essa nossa última aula. Ontem, como certamente ficaram sabendo, um lamentável incidente impediu-me de concluir essa bendita aula.

– Edward – era a Louise que me interpelava – como ficou a situação daqueles dois?

– Não sabia que vocês eram tão curiosas. Querem saber mesmo?

– Queremos, sim – Todas responderam.

– Muito bem, vou atender a vossa curiosidade. Devem saber antes disso que, esta vossa curiosidade, irá resultar em um ponto negativo, bem pequenininho, mas sempre negativo, na vossa ficha de aproveitamento das aulas.

– Professor, nos dê um motivo, para esta… esta… – interveio a Tina que não conseguia definir o que seria essa “esta”.

– Darei dois. O primeiro e mais obvio, é que, com esta vossa curiosidade, que poderiam ter satisfeito interpelando outra pessoa, em outra hora e em outro lugar, atrasaram mais uma vez esta aula, e mais, com o agravante que tinha acabado de mencionar as dificuldades em terminá-la. Querem que eu diga o segundo motivo?

– Nos desculpe, Edward – era uma Louise um pouco envergonhada – desculpe mesmo, acho que fomos levianas, como velhas senhoras tagarelas. Sim, gostaríamos de ouvir também o segundo motivo, será mais uma reprimenda merecida.

– Não Louise, não é uma reprimenda, mas um esclarecimento muito oportuno. Nunca se perguntaram por que depois da louvável sua iniciativa, sempre incentivei a vossa participação no nosso treinamento e na condição privilegiada de serem as primeiras?

– Sim, sempre ficou nos nossos pensamentos. Seria uma curiosidade lícita, acho; não como a que fizemos a pouco.

– E por que não a fizeram? Era perfeitamente legitima.

– Falo por mim – respondeu a Louise – somente por mim. Tudo que aconteceu, desde o nosso primeiro encontro, parecia-me um sonho, um lindo sonho e, tinha receios que, perguntando, este sonho desvaneceria.

– Oh querida, queridíssima Louise, e vocês todas, todas queridas, poderiam ter perguntado, e eu teria respondido. O sonho não desvaneceria, ou melhor desvaneceria em parte, a parte que me diz respeito. Não teria mais a vossa melhor consideração. Ficariam sabendo que eu sou um mercenário interessado somente em conseguir os meus intentos.

– Não acreditamos em nada que está dizendo – respondeu-me a Louise, com o assentimento mudo das demais.

– Muito bem, então vos direi o segundo motivo: constato que, pela terceira vez, não vou conseguir terminar a aula final; mas não importa, o que vou dizer é tão relevante quanto o que aprenderiam no final desta fragmentada última aula teórica.

Por que incentivei vocês? A resposta que vou dar, explicará também a perda de um ponto da vossa avaliação que, até agora, era a máxima possível. Todas vocês estavam livres de ambições, orgulhos, invejas e outras tantas “virtudes” que assolam a maioria das pessoas; isto se deveu, certamente, ao fato de que, todas vocês, deliberadamente, escolheram, abandonar os últimos fragmentos de vida que viviam e foram, em paz e em harmonia com o próximo, aguardar tranquilamente o fim inevitável, lá, no Morro Luminoso.

A mais, em lugar de perder o pouco tempo que vos restava, em atividades banais ou inúteis, se apegaram a Louise que, com o vastíssimo conhecimento que adquiriu viajando o mundo e conhecendo inúmeras pessoas, enriqueceu os vossos espíritos, inserindo, também, uma compassiva aceitação dos defeitos do próximo.

Todas essas qualidades que vocês casualmente tinham, as consegui encontrar somente, e com enormes dificuldades, entrevistando dezenas de milhares de pessoas. As que selecionamos para o treinamento no nosso Centro, ainda não tinham as qualidades necessária no alto grau que vocês já possuíam no Morro Luminoso. Acreditem, todos os alunos que aqui estão possuem sim, as boas qualidades necessárias, mas ninguém, ninguém mesmo, no nível que vocês já possuíam.

A condição essencial, para uma pessoa poder se deslocar no espaço, simplificando ao extremo, é ade amar ao próximo como a si mesmo; o porquê disso ficarão sabendo na última aula. O que vocês devem saber e que esta informação, da forma como a transmiti agora, não deve ser divulgada em absoluto. Posso então contar com a vossa discrição?

– Sim. Foi, a muitas vozes, a unânime resposta.

– Vejo aí, há bastante tempo na porta, a minha secretaria irrequieta e nervosa com um papel na mão. Querem apostar que será mais um motivo para interromper a nossa aula?

Era.

Baltazar, o rei mago do legislativo, estava insistindo há quase uma hora com a minha secretaria: queria falar comigo e com máxima urgência; estava lhe telefonando de cinco em cinco minutos. A minha secretaria, coitada, sabia que, terminantemente, não queria ser interrompido quando estava dando aulas para as “alunas do domo”, como eram apelidadas. Angustiada, escreveu num papel o nome do rei mago e, esperava que, através a porta de vidro eu a notasse, como aconteceu.

Nem precisei ligar de volta, quando entrei na minha sala o telefone já estava tocando. Era ele.

– Senhor Collins, finalmente, estou tentando falar com o senhor há mais de uma hora, a sua secretaria……

-Já sei, tinha ordem minha de não me interromper; a sua espera não é culpa dela. Diga-me, a que devo este inusitado telefonema?

– Uma notícia grande, inesperada, talvez boa….

– Então me diga.

– O senador Evans…

– O Arthur H. Evans?

– Sim ele mesmo, o relator da lei. Ele, ontem à noite, apresentou ao presidente do Senado um pedido para ausentar-se por trinta dias e de ser liberado das suas funções de relator. O presidente aceitou o pedido.

– Estranho, não é?

– Sim muito estranho, estranho sim, mas, pode resultar em boa coisa.

– Que coisa boa poderia ser?

– Por exemplo, uma demora para a lei ser encaminhada ao plenário.

– E como poderia ser isso, se a lei, na sua versão final, já foi aprovada pela última comissão e estava pronta para ser encaminhada ao plenário?

– Mas, ainda, não tinha sido encaminhada.

– E.…?

-…e sendo que deve ser encaminhada pelo relator e não existindo mais o relator, pelo menos ganhamos trinta dias ou mais.

– Tem certeza?

– Absoluta. Existem ainda muitas outras possibilidades em aberto.

-Por exemplo?

-Por exemplo, o presidente do senado pode requerer que seja escolhido um novo relator, e isso vai nos dar mais tempo ainda, pela demora usual para a escolha do relator.

– Acho que não vamos ganhar mais tempo, não. Se a escolha passar dos trinta dias, o Evans volta e encaminha a lei.

– Nada disso. Quando começa o processo de escolha do relator, nada o poderia interromper. O Evans se foi, para sempre, eu acho.

– E, já que está conjugando o verbo achar, por que você acha que o processo de escolha vai demorar bastante?

– É que os candidatos serão muitos.

– E por que acha que os candidatos serão muitos? Parece que estamos conjugando muito este verbo achar.

– É verdade. Então direi diversamente. É muito provável que a escolha do relator demore bastante tempo porque, com certeza, muitos serão os candidatos. A posição de relator, para qualquer projeto de lei, mesmo para uma lei insignificante, é sempre muito cobiçada por colocar em relevo a pessoa do relator perante o seu eleitorado. No caso desta lei, pela atuação decididamente contraria do senador Crowdler, ela está se tornando bastante discutida e, portanto, mais cobiçado, é o cargo de relator.

– Então temos que aguardar os acontecimentos que virão, com um certo otimismo.

– Diria, com bastante otimismo.

– Gostaria que você tentasse descobrir a razão desse afastamento, poderá fazê-lo?

– Certamente. Será o mais fácil dos meus trabalhos.

– Ora, e por que isso?

– É porque todos estão querendo saber, e todos estão investigando.

– Boa notícia e me mantenha informado. Avisarei a minha secretaria da prioridade das suas chamadas.

– Obrigado por isso, o manterei informado.

– Vamos tentar terminar essa aula recordista de interrupções?

– Vamos. – Responderam, sem muito entusiasmo, as minhas alunas.

O resquício de entusiasmo era causado do fato de nos estarmos de novo ao ar livre, na frente do domo, num belo dia ensolarado, e não pelas maçantes argumentações que teriam que ouvir.

– Vamos direto ao assunto; sem recapitulações, já fizemos muitas, chega. Chegamos ao ponto no qual a pergunta era “como” os neurônios poderiam prestar mais e melhores serviços ao seu hospedeiro. Nada que fosse matéria poderia estar envolvido no processo.

Como guia vamos examinar os nossos cinco sentidos. Primeiro o tato, é o mais facilmente descartável, envolve a matéria de maneira direta. O olfato… me digam, o olfato está livre de estar envolvido, de alguma maneira, com a matéria?

– Sim, não tem nenhuma matéria envolvida. Algumas responderam.

– Errado, tem matéria sim. Os odores captados pelo olfato não são mais que minúsculas partículas, portanto matéria, captadas e analisadas pelo órgão olfativo. Passamos ao som. Ele é geralmente gerado pelo contato de diversos tipos de materiais; reparem na miríade de instrumentos musicais. Também a voz, humana ou animal não é derivada da matéria?

– Sim. Assim responderam a maioria delas.

– Passamos então para o sabor. A situação é similar ao olfato. E finalmente vamos então à visão… A visão é a capacidade de ver objetos quando, e somente quando, este é iluminado pela luz, e sem luz não veríamos nada. Vamos então analisar a luz que, parece, não teria nenhuma conexão com a matéria; sim pode ter sido gerada por matéria, mas repito, parece, não é matéria.

– A luz que nos captamos são radiações de uma faixa de frequência relativamente estreita; as de frequência maiores e menores são denominadas de infravermelho e ultravioleta porque o vermelho e o violeta são as cores extremas da faixa de radiação que podemos ver.

Fora desta nossa estreita faixa de luz visível – melhor seria dizer, das radiações que nos permitem discernir – existem fenômenos correlacionados com a frequência dessas radiações, algumas delas, como os denominados raios X, permitem analisar, além do interior do nosso corpo, também o inteiro universo, e por isso são extremamente úteis para nós, outras, ao contrário, são mortais para a vida orgânica, como seria o caso dos raios gamas.

Em relação à luz, que pareceu um bom candidato para o escopo dos neurônios, nos deparamos com um fato deveras estranho, a luz, como afirmado é um fenômeno ondulatório. Descobriu-se, porém, que a luz é formada de partículas, os denominados fótons. Por via das dúvidas, os neurônios resolveram desistir de utilizar a luz.

Existem inúmeros e misteriosos outros fenômenos e componentes no universo, como os neutrinos, raça de partículas infinitamente pequenas, infinitamente numerosas, infinitamente velozes e infinitamente poderosas, elas atravessam a terra em menos de dois segundos. Os nossos corpos são atravessados por neutrinos constantemente. Acrescentarei, finalmente, que para qualquer efeito prático, estas partículas são, que os cientistas me perdoem, perfeitamente inúteis., pelo menos para nós.

– Antes de continuar, com este escandalosamente simplificado resumo, recomendaria que vocês pesquisassem sobre tudo que vos acenei. Trouxe de New York numerosos livros que poderiam vos esclarecer melhor; reparei que até o momento, ninguém, repito ninguém, aqui no Centro, os consultou. Recomendo alguns de mais fácil leitura, preparei uma lista dos que, repito, seriam mais apropriados para vocês todas. Podemos voltar ao nosso tema?

Os murmúrios de concordância foram fracos, fraquíssimos.

Ficaram então para serem analisados dois fenômenos: o tempo e a gravidade. O tempo, vocês já sabem é uma dimensão da matéria e afora do que flui em uma única indefectível direção, pouco mais se descobriu. Existe até um cientista que tenta demonstrar que o tempo não existe. Para as finalidades dos neurônios o tempo, existindo ou não, não serviria para o escopo deles. Restava a gravidade.

A gravidade, já sabem, é um atributo indissolúvel da matéria, mais matéria mais gravidade e, também, maior a força de atração que exerce sobre qualquer outro corpo. Já sabem, também, que a atração, entre os corpos, é recíproca e que, finalmente a força gravitacional diminui com a distância.

Acrescento eu, a título pessoal que, esta força, nunca se estíngue.

Os neurônios resolveram então utilizar este último fenômeno que lhes restava, para o escopo deles de melhor servir o corpo hospedeiro. Bem no começo do século XX, Einstein, propôs e demonstrou matematicamente, que a gravidade podia afetar a trajetória da luz; vocês já devem saber que a luz não se propaga instantaneamente, mas viaja, da fonte emissora para o receptor, a uma velocidade enorme, mas por isso, finita.

Algumas décadas depois, cientistas constataram que realmente isso acontecia. A luz de uma estrela longínqua foi ligeiramente desviada por uma potente atração gravitacional de corpos extremamente massivos. No rastro dessa descoberta, finalizo mais este fragmento desta bendita última aula – vejo algumas de vocês bocejando – dizia, se descobriram lentes gravitacionais, que para as nossas finalidades podem esquecer completamente. Vamos para o nosso almoço e, depois façam uma visitinha à biblioteca com a lista dos livros que recomendei.

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