Um dia depois do primeiro telefonema, o “Baltazar”, me telefonou novamente:
– Bom dia senhor Collins. Já temos algumas novidades.
– Bom dia e parabéns pela rápida resposta.
– Obrigado, mas não foi nada demais, foi somente ouvir tudo o que se dizia nos bastidores. Difícil foi extrair as informações verdadeiras do meio de um mar de boatos.
– Conseguiu alguma informação confiável?
– Sim, consegui. Sugiro passar primeiro as informações seguras e analisá-las, depois alguns dos boatos mais atendíveis.
– De acordo, vamos aos fatos.
– O primeiro fato, que reputo o mais relevante em relação a poder retardar o encaminhamento dessa lei ao plenário, é que o presidente do Senado já iniciou as consultas na busca de um novo relator.
– Isto, como você me disse, é muito bom.
– Diria melhor, está andando para um bom caminho; temos que aguardar mais um pouco e ver como vai se desenvolver o processo da escolha do novo relator.
– Aguardaremos, então. Tem outro fato confiável?
– Sim, o fato confiável é que, na mesma noite o senador Evans embarcou num avião comercial com destino a Amsterdã. Daqui em diante posso reportar somente boatos.
– Me diga alguns, dos que reputa mais confiáveis.
– O mais confiável é que, logo na tarde do dia que pediu licença, o senador recebeu um telefonema da sua ex esposa; diversas pessoas ouviram berros, sem, porém, entender do que se tratasse. Acho que seria melhor esperar para saber mais alguma coisa fidedigna, não acho produtivo encher a cabeça com boatos, principalmente porque alguns contradizem outros
– Estou de acordo, vamos aguardar, mas me mantenha imediatamente informado se surgir algum fato novo.
– Farei isso.
Não dava para deduzir muito dos poucos fatos. Não adiantariam especulações inúteis, era melhor aguardar.
***
Justin, depois da apresentação formal dele a todos os chefes de setor, iniciou uma longa visita a todas as instalações, com a única exceção do domo. Ele se manteve sempre afastado de tudo e de todos os envolvidos com o objetivo final da escola. “Melhor assim”, pensei, “mas vai chegar o dia que deverá se imiscuir”.
Esse dia, provavelmente, será o dia em que uma turma dos selecionados na Quinta Avenida, deverá substituir as distintas senhoras, como ele apelidou as minhas alunas.
Fui visitar o chefe da nossa força aérea. Já tínhamos, além dos três aviões em operação contínua, o biplano com esporádicas surtidas e o já consagrado e inútil avião, bonito e rápido, que somente servia para tirar fotografias com alunos e visitantes.
Ralf Donovan, ex-piloto de aviões de transporte da U, S. Navy e ex de muitas outras coisas, era o responsável por nossa estrutura aérea: aviões, oficina, almoxarifado, torre de controle, pilotos, instrutores das várias disciplinas, escalação dos voos de instrução e de diversas outras atividades correlatas.
-Senhor Donovan, boa tarde. Tudo bem, por aqui?
– Boa tarde, senhor Collins. Excluído o lamentável incidente da semana passado, todas as equipes de todos os setores estão funcionando perfeitamente. Pudera, depois da sua chamada as ordens, queria ver se alguém se atreveria a sair da rota.
– Vamos todos esquecer esse episódio, eu já esqueci. Preciso que o senhor planeje uma série de voos com o velho biplano; ele está em condições para fazer umas cinquenta surtidas de umas vinte milhas em média?
– O Biplano está em perfeitas condições, ele é o xodó do Billy.
– Do Billy…? Me diga, em relação ao episódio que nós todos esquecemos, como está a situação dos dois…, o senhor sabe.
– Sim sei. É melhor eu contar o que ocorreu em seguida; informei isso ao senhor Justin, e ele me recomendou não incomodar o senhor…
– É isso mesmo, mas, já que estamos aqui, pode-me contar, quero ver se posso virar, de uma vez, esta página.
– É simples. No dia depois do fato, o Billy veio solicitar-me o seu desligamento do Centro. Disse-lhe que essa era uma atitude equivocada, principalmente face ao que o senhor decidiu a respeito do caso. Ele insistiu, repliquei que, se queria tomar uma atitude de homem, homem de fibra, não deveria fugir, mas enfrentar a situação. Sugeri dois caminhos. O primeiro era de esquecer tudo e voltar a rotina, o segundo era de ir pedir desculpas; recomendei a segunda alternativa.
– Ele pensou um pouco e, logo a seguir, foi falar com o Justin, ele o respeita muito. Coincidentemente o Justin recomendou, também que o melhor caminho seria pedir desculpas. Não hesitou mais, e foi pedir.
– Ufa…. podemos voltar ao planejamento dos voos?
– Certamente, diga.
– Terá que realizar uma série de voos com as cinco alunas, as alunas do domo, veja se seria possível. Inicialmente deveria voar daqui até a autoestrada Eisenhower e voltar, voando a uma altura entre 300 e 500 pés. Deve fazer isso para cada uma das cinco alunas e no mesmo dia.
A seguir repetir o voo, na mesma modalidade, desta vez seguindo a Eisenhower por dez milhas e retornar, e assim em seguida, de dez milhas em dez milhas, aproximadamente, até chegar ao entroncamento da Eisenhower com a perimetral de Washington. Ficou claro?
– Claro. Estranho, mas claro.
– E quem seria o piloto?
– A princípio seria o Billy….
– Que seja o Billy. Gostaria de ver o plano de voo, bem detalhado com as rotas traçada em mapa e quero uma cópia desse mapa; quero também a tabela dos horários planejados. Caso o dia for nublado ou com intempéries, que se transfiram os voos para um outro dia. Também ficou claro?
– Claríssimo, amanhã a tarde apresentarei os planos de voos e os mapas com as rotas.
– Ótimo. Mais uma coisa, o avião e o Billy, a partir de agora, estão requisitados para este serviço e somente este. Estamos de acordo?
– Estamos sim
– E não esqueça de me informar de qualquer problema que possa atrapalhar este programa, por mínimo que seja.
– Pode ficar descansado. Uma pergunta, o que faço em relação ao Justin?
– O informe de tudo isto que definimos. Desculpe essa minha falha. Eu e Justin combinamos que tudo que diz respeito ao domo e as alunas do domo, a jurisdição é minha, todo o resto é com ele. Eu vim aqui somente para verificar as possibilidades desses voos, e terminamos por defini-los, vejo que já entendeu tudo perfeitamente. Planeje, então, e convide o Justin a participar da nossa reunião. Certo?
– Certíssimo.
Nesse mesmo dia, reunidos em frente ao domo e antes de iniciar o último fragmento da última aula, informei as “distintas senhoras” do programa de voos que teriam que enfrentar… A notícia gerou uma explosão de entusiasmo que não esperava. Refletindo um pouco, deduzi que isso se deveu mais a perspectiva de terminar com as maçantes aulas que aos próprios voos.
– Tenho que vos explicar qual é o objetivo desses voos. Partimos do pressuposto que vocês tinham conseguido o controlo do próprio deslocamento no espaço, eu gostaria que todas vocês me fizessem um favor.
– Qualquer favor, qualquer um. – Foi a unânime resposta.
– Obrigado. Gostaria que vocês todas, reunidas como um grupo, se deslocassem para Washington, para um determinado edifício, seguindo estreitamente uma rota que vou definir. É possível?
– Sim, sim.
– Muito bem, para fazer isso com segurança, vocês deveriam – se deslocar mantendo uma altura de cerca 300 pés do solo, a velocidade, se possível, entre 20 e 30 milhas por hora; esta poderá ser melhor definida mais tarde. Quero que vocês decorem o percurso da melhor maneira possível, que detectem todos os possíveis, obstáculos: linhas de transmissão, torres, antenas, edifícios altos, enfim a qualquer coisa que possa se tornar um empecilho ao vosso deslocamento aéreo. Podem fazer isso?
– Sim, podemos – unanimemente responderam.
– Ótimo, já que estão dispostas a fazê-lo, o farão à minha maneira. Quero que cada uma de vocês, imediatamente após o voo, me redija um breve relatório contendo a descrição da rota, os eventuais obstáculos e a maneira de superá-los. Ficou claro?
– Claro.
O tom da resposta denotava um grande decréscimo do entusiasmo inicial.
– Muito bem então, vamos terminar a nossa última aula teórica….
– Oh…., não.
O entusiasmo desapareceu por completo….
– Serei o mais breve possível, mas gostaria que prestassem a máxima atenção. Das quatro e únicas forças do universo, a gravidade, do ponto de vista de efeito sobre uma unidade de matéria, é a mais fraca delas. Sendo que aumenta com o aumento da massa, a gravidade, pelas enormes massas que permeiam o universo, se torna a força mais poderosas de todas. A gravidade cria estrelas… e as esmaga.
Vocês já sabem que a gravidade pode desviar a luz, sabem que ela sempre existiu junto com a matéria desde o momento em que esta foi criada, que lhe é indissolúvel e que decresce com a distância tornando-se sempre menor, mas nunca desaparece.
A gravidade é, também, imaterial, e é definida como um campo de força, e de somente um campo de força.
Exatamente o que os neurônios estavam procurando. Estavam procurando algo totalmente imaterial que poderia ser controlado de alguma maneira, maneira esta que ainda deveriam descobrir, com a também imaterial vontade deles.
E, se conseguissem, isso poderia ser útil e confortável para o corpo hospedeiro. Vejam o que poderiam oferecer:
Poderiam fazer com que, a vontade consciente de um dado grupo de neurônios de um dado corpo hospedeiro, desvie a força de gravidade.
Não a anula nem a destrói, somente a desvia, como já vimos a gravidade fazer com a luz: não a anulou, não a destruiu, somente a desviou.
– E, com isso… FIM DAS AULAS TEÓRICAS!
O entusiasmo foi enorme. Depois de uns bons minutos, continuei:
– As aulas práticas, que começarão amanhã, terão o objetivo de treinar os vossos neurônios a desviar, não a gravidade em sentido genérico, mas as específicas gravidades que já mencionamos, a da terra, a mais incidente sobre nós, e progressiva e decrescentemente a da lua, do sol, dos planetas gigantes e enfim de qualquer corpo com massa.
A primeira coisa que deverão poder fazer, os vossos próprios neurônios, é de identificar e separar cada específico campo gravitacional, e somente depois disso é que poderão iniciar o treinamento para poder desviá-los.
– Claro claríssimo. – Interveio a Louise – Mas qual seria a finalidade do domo e de todos os apetrechos que aí estão?
– Pense um pouco Louise, e vocês todas. Se, durante o treinamento, uma de vocês consegue desviar a gravidade da terra o que aconteceria?
– Seria atraída pela lua.
– Certo. E se este treinamento estivesse sendo feito aqui, onde nós estamos, fora do domo, o que aconteceria?
– Que iriamos nos deslocar rumo a lua.
– …. e morreriam.
– Meu deus… podemos morrer?
– Sim, chegariam no espaço, sem nenhuma proteção e, seguramente morreriam, morte certa.
…, mas nós não queremos morrer, … ainda.
– E não vão morrer. Estando no domo, depois de controlar a gravidade da terra, vocês, paulatinamente, identificarão os campos de gravitacionais dos outros corpos celestes e conseguirão, este é o objetivo do treinamento, identificar e controlar as diversas atrações em intensidades e direção. Posso fazer um exemplo?
– Deve. – Foi a incisiva resposta da Tina.
– Suponhamos que vocês desviaram a gravidade da terra e da lua e que seja meio-dia em ponto, o que aconteceria?
– Subiríamos direto rumo ao sol.
– Lentamente, a gravidade do sol é menor. E se vocês continuassem sob efeitos do sol até, digamos, as seis horas da tarde onde estariam?
– Não saberíamos dizer.
– Mal, muito mal, vocês devem começar a raciocinar e lembrar de tudo que vos disse. Vamos lá, onde estará o sol as seis horas da tarde?
— Perto do horizonte, na direção oeste… perto do…. pôr do sol.
– Exato, nesse momento estariam se deslocando numa tangente em relação a superfície da terra, mais simplesmente se deslocariam horizontalmente sobre a terra.
– Vocês não perceberam, mas, desde meio dia até as seis horas vocês descreveram no espaço uma curva complexa, basicamente uma parábola, sempre que vocês tivessem desviados as forças gravitacionais dos demais corpos celestes.
– Digamos, por exemplo, que as seis da tarde, vocês tivessem perdido o controle sobre Mercúrio, o que aconteceria?
Seriamos novamente atraídas por Mercúrio, e iríamos na sua direção….
– …com um empuxo proporcional a massa e a distância desse planeta. Certo?
– Certo. – Responderam todas.
– Muito bem, para finalizar, desviando a gravidade da terra e da lua, a meia noite; o que aconteceria com vocês?
– Sofreríamos somente a atração do sol…
–E….?
– Seria fraca, …eu acho. – Era a Louise, transmitia a perplexidade de todas.
– Sim, seria fraca e nessa condição, a meia noite, vocês com muita facilidade chegariam a Washington.
***
Baltazar de novo.
– Bom dia senhor Collins, temos novidades.
– Bom dia. As novidades são boas ou ruins?
– Difícil dizer, seria melhor apresentá-las, sem comentário.
– Faça isso.
– A primeira notícia, relativamente boa, é que o presidente do Senado já empossou o novo relator. Com isso já ganhamos dez dias sobre o prazo da licença do Senador Evans…
– Esta é de fato uma boa notícia, qualquer adiamento, por menor que seja, será sempre útil. E quem seria o novo relator?
– É o senador pelo Delaware, Mark Epstein.
– Se sabe algo sobre ele?
– Pouca coisa por enquanto, pode ter certeza de que amanhã a vida dele ficará escancarada. Por enquanto se sabe que ele aderiu a esse movimento recentemente, não se sabe quem patrocinou a sua escolha, mas, com o tempo, descobriremos.
– Acho que está na hora de visitar o senador Crowdler e ver se ainda me apoia.
– Seria muito oportuno, ele deve saber muito mais do que circula nos corredores.
– Outras notícias?
– Sim, e tenebrosas…
– Uh… lá, lá. Tenebrosas?
— Tenebrosíssimas. Podemos começar com o teor do telefonema do senador Evans com a sua ex esposa, o telefonema dos berros do senador. Alguém escutou e, agora, isso se tornou de domínio quase que público. A sua ex esposa informou o senador que o filho deles se encontrava na pior das encrencas em Amsterdã, até, com forte risco de vida. Ela também o acusava, aos berros, que o culpado era o próprio senador, etecetera e etecetera.
– Esta é uma lamentável tragédia familiar. Faço votos que termine bem para o filho do Senador. Lamento mesmo. Algo mais de relevante?
– Não, quero poupá-lo das inúmeras conversas, que estão criando versões, as mais esquisitas, deste caso. Uma coisa é certa, teremos novidade, provindas de diversas fontes, quase que diariamente; acho que devo incomodá-lo telefonicamente com uma certa frequência.
– Sim, está dispensado dos relatórios semanais, me informe telefonicamente quando tiver notícias, em qualquer horário.
– Farei isso.
Enfim terei algum prazo adicional. Pena que isso saiu a custa de uma tragédia familiar. Espero que tudo termine bem. Nem ouso pensar em algo diferente. Acho que vou rezar.