Fui visitar o Senador Crowdler. Devia lhe uma visita há muito tempo. Ele batalhou muito para conter os avanços da lei que poderia acabar com a Escola.
– Senador Crowdler, bom dia. Tudo bem com o senhor?
– Bom dia, novaiorquino. Tudo bem, aí em New York?
– Provavelmente sim, mas realmente não sei, faz mais de dois meses que praticamente fico nos arredores de Washington, no Centro de Treinamento.
– E como as coisas vão por lá?
– Razoavelmente bem. A primeira turma já terminou a parte teórica, agora estão bem no meio das aulas práticas…
– … para se deslocar no espaço.
– Exatamente. O resultado não vai demorar muito. As alunas, na parte prática, estão se saindo bem…
-… as distintas senhoras, como você as chama?
– As distintas senhoras, sim.
– Escuta, novaiorquino: Já é difícil acreditar que alguém se desloque, como você diz, no espaço, e ainda devemos acreditar que isso seria realizado por um grupo de velhas senhoras caducas…?
– Não são caducas.
– Mil perdões, não queria ofender, somente classificar. Suponho que seriam mulheres de vida doméstica, sem nenhuma preparação científica, técnica, ou sei lá….
– Para deixar tudo mais claro: sim, não possuem nenhuma qualificação técnica, são simples mulheres de vida estritamente normal, de pequenas burguesas se quiser; e mais, estão no final da vida e eu as arranquei de uma casa de repouso onde estavam esperando… já sabe o quê.
– Este novaiorquino quer me deixar louco. E por que logo essas velhinhas foram escolhidas? Sabe quantos anos de treinamentos tiveram que arcar os astronautas da NASA para conseguir a capacidade de ir para ao espaço? Uma dezena de anos, e sem contar que cada um deles devia ter já uma dezena de anos de experiência como piloto de jatos supersônicos.
– Entendo senador, mas a comparação não procede. Estas velhinhas somente se deslocarão para ir ao supermercado…
-…voando?
– Sim, voando. Senador, vamos deixar o tempo ao tempo. Vim visitá-lo para agradecer todo o inestimável apoio que a sua atuação no Senado está me proporcionando.
– Você sabe, porém, e repito mais uma vez, que não acredito nem desacredito. Fico, como você sugeriu, aguardando no que dará. A minha férrea oposição à lei é porque ela é inútil, é completamente inútil, e tudo que é inútil, é potencialmente prejudicial, de uma maneira ou de outra. Já possuímos uma farta legislação apta a coibir as falcatruas, que infelizmente se tornam sempre mais sofisticadas e requerem um contínuo aprimoramento da legislação, mas, não certamente essa lei que estão tentando nos impingir. Essa é uma lei com um único objetivo: destruir a sua escola. Não é admissível que uma lei persiga um objetivo específico, que vise uma única entidade. Isso não é atitude republicana.
– Concordo completamente com a seu posicionamento, senador e, mesmo não tendo por objeto a proteção da escola, a sua atuação é muito preciosa para nós, o tempo que ainda dispomos para alcançar o nosso objetivo é relativamente escasso. A saída abrupta do senador Evans foi uma feliz ocorrência, no sentido de nós ganharmos mais tempo. Evidentemente lamento, e muito, a razão do seu afastamento.
– Lamentável mesmo, era, o melhor, é o seu filho único. Graças a deus o nosso governo soube prevenir algo mais grave.
– O nosso governo? Algo mais grave? Não entendo.
– Infelizmente disse algo que não devia. As notícias que temos aqui no Senado, e que não deveríamos divulgar levianamente, é que, o filho do senador Evans, Rubens, é o nome dele, por acaso como o do pintor holandês, estava meio perdido no meio de drogas e mulheres. O que, por estar em Amsterdam, não é estranho, aliás é quase que obrigatório. Envolveu-se com um grupo de desvairados, de pretensos terroristas; eram amadores, até péssimos, assim me disseram. Quando souberam que era filho de um senador dos Estados Unidos, quiseram explorar essa condição para armar alguma chantagem ou algo do gênero.
– Que história. Eu fiquei sabendo que ele correu sério risco de vida.
– É verdade. De fato, ele se recusou a participar dessa trama e os “terroristas” o mantiveram preso para coagi-lo a colaborar. E foi nesse momento que o nosso governo interveio.
– O nosso governo? Como poderia saber disso tudo?
– Uma das nossas agências de inteligência, rotineiramente vigia grupos de potenciais terroristas; quando souberam que um americano, filho de um senador, estava envolvido, estreitaram a vigilância, e logo que descobriram que o Rubens estava num cativeiro, informaram as autoridades locais, que interviram, prenderam os sequestradores, liberaram o Rubens e o entregaram ao pai, que tinha ido a Amsterdam logo que soube do ocorrido. Agora ele tem que ficar em Amsterdam até terminarem as investigações e o inquérito. Naturalmente o senador ficou por lá, junto ao filho. Felizmente a história teve um final feliz.
– Felizmente. Agradeço a sua confiança em mim, relatando-me este caso.
– Queria que não comentasse com ninguém essa informação.
– Pode estar descansado, senador Crowdler. Gostaria de saber se, digo se, os objetivos da minha Escola forem alcançados, poderia eu dizer que o senhor foi de inestimável ajuda para nós?
– Voltamos aos “se”, então? Se e se. Não esqueça, porém, que, especificamente agi para obstar essa lei inútil. De outro lado, você já sabe, as declarações do xerife Stodler me deixaram muito perplexo, muitíssimo. Pedi e já recebi as declarações do xerife e de todas as testemunhas dos fatos. Na verdade, são fatos simples que, no conjunto e considerando as suas reticências, resultam num quadro bastante misterioso. Não direi inexplicável, mas seguramente misterioso; principalmente porque você não quer falar do que se trata.
– O que é isso, senador? Tudo o que poderia dizer, já o disse.
– “Poderia”, você disse? O que você disse não tem nenhum valor ou interesse. Poderia ter interesse uma conversação telefônica com a sua ex esposa? Poderia ter interesse as informações de um tal de Pellet? Claro que não. Não sabemos como e porquê, um arquiteto de New York, que sumiu por três meses, aparece no Tennesse e, a seguir pretende ensinar a voar, assim como os pássaros. Fique bem claro, novaiorquino, que você até agora não disse nada de nada. Absolutamente nada. Você deixa as pessoas imaginar algo, algo indefinido e, a maioria das pessoas se satisfaz com isso.
– Senador Crowdler, a sua análise é correta. Estou devendo muitas informações e estou tentando adiar o momento de ter que as dar, pelo mesmo motivo que apresentei ao xerife Stodler um ano e meio atrás. Se eu der todas as informações que, corretamente, o senhor mencionou, o objetivo final de todos os meus esforços não seria alcançado.
– Vejo que voltamos ao ponto inicial. Suponho que o objetivo final não seria promover revoadas de senhoras para um supermercado?
– Evidentemente que não. Essa revoada, como o senhor definiu, é somente um meio para atingir um objetivo que nunca declarei, mas que será de público domínio em curto prazo, assím espero.
— Depois da revoada, imagino…
– Sim, depois da revoada.
A conversação com o senador Crowdler foi muito constrangedora. Ele, no fim das contas, seria um aliado e, como aliado deveria ter direito a mais informações, informações que, até hoje, consegui escamotear. O truque foi de incentivar a descrença sobre a possibilidade de voar, e eu insistindo que é possível, ficando a discussão somente nisso. Evitei, assim as perguntas, cruciais, como o senador fez.
Interessante é que ninguém me perguntou, como eu poderia ensinar a voar; ficaram presos a questão da impossibilidade ou não de voar. Ninguém me perguntou se eu saberia voar, mas sim se “eles”, mesmo não acreditando, o poderiam fazer.
Outra questão que surgiu da conversa com o senador Crowdler é da atuação de uma nossa agência de inteligência em Amsterdam; tenho que averiguar bem isso. Não agora, agora tenho muitas outras coisas a fazer. Se as ”distintas senhoras” continuarem com os progressos que fizeram até agora, o dia do desfecho estará próximo. Primeiramente, tenho que falar com “Peter” e “Paul”
– Alo “Peter” – (claro que o chamei pelo seu nome verdadeiro).
– Alo Edward, como vão as coisas por aí?
– Relativamente bem e é por isso que estou telefonando. Uma pergunta primeiro, quanto tempo vocês demorariam para enviar-me, aqui em Washington, duas equipes, do menor tamanho possível, mas formada pelos vossos melhores profissionais?
– Que tipo de trabalho seria isso? Interno ou externo?
– Seria externo, de não mais de meia hora. Eu daria a localização para ter a melhor tomada.
– Se for simples assim, posso sim te enviar duas equipes de somente dois homens; presumo que deveriam ser os melhores, não?
– Correto, devem ser os melhores. Quanto tempo vão demorar depois de um telefonema meu?
– Podem ser seis horas até o aeroporto em Washington, com voo comercial; com jato particular seriam três horas.
– Acho que não será necessário um jato particular, penso de informar-te pelo menos um dia antes; como sempre, avise o nosso amigo “Paul” para preparar, ele também, duas equipes pequenas e competentes. Poder-me-ia fazer este favor?
– Sem problema. Posso eu fazer um pedido?
– Faça-o. Se puder, com certeza o atenderei.
– Poderia acompanhar as minhas equipes?
– Deixa-me pensar um pouco…. Sim, pode ser, mas não com as duas equipes das quais tratamos, dessas sou eu que devo cuidar, mas, se quiser, de uma terceira equipe, pode ser numerosa, que deve fingir que vão fazer um filme, o que acha?
– Maravilhoso, vou fingir de ser um cineasta, é isso que você quer?
– É isso mesmo. E você sabe como tratar disso com a polícia, sabe?
— Se sei…? Eu comecei a minha carreira como repórter televisivo de rua, o que acha?
– Sou eu que agora digo: maravilhoso. Mas tem uma coisa, em relação a esta terceira equipe não podemos ter duas; se o Paul quiser ir também pode, mas deveria ficar com você; o que acha?
– Perfeitamente possível; ele nunca fez trabalho de rua, vai gostar de ver.
– Alô, Ernest, tudo bem por aí?
– Continuamos na rotina, sem muitos contratempos.
– Ótimo. Eu precisarei da tua presença em Washington, por três ou quatro dias, é possível?
-Não somente possível, será um prazer. Uma pergunta, posso levar a Bettina?
– Infelizmente não nesta oportunidade, mas imediatamente depois, sim, vocês dois poderão fazer um belo passeio. Os vossos passaportes estão em dia?
– O meu sim, sempre o deixo pronto para uma viagem que nunca acontece; o da Bettina, não sei, tenho que perguntar.
– Faça isso e o mais rápido possível. Outra coisa… pode providenciar substitutos de você e da Bettina?
– Da Bettina com facilidade, para a minha posição não saberia. Seria somente por três dias?
– Não. Seria por um mês ou dois.
– Um mês ou dois? Mas isso é muito tempo.
– Você não disse que esperava poder fazer uma longa viagem no exterior? A viagem chegou.
– Incrível, é mesmo incrível. Agradeço muitíssimo…
– Não precisa agradecer, tem muito serviço ainda a fazer.
– Pode mandar
– Você, sempre com muita reserva, deve procurar duas boas empresas de segurança daqui, e estas devem poder dispor de oito homens cada uma. Estas empresas devem ter um bom relacionamento com a polícia local; oficialmente vamos fazer um filme com personagens de relevo, nada mais do que isso, está bem?
– Perfeitamente claro.
– Tem mais, deve alugar quatro carros grandes com motorista, estas viaturas serviriam para transportar os homens da segurança, quatro em cada carro. Tem que alugar também um carro com motorista para você e um para mim, estes não precisam ser grandes.
– Anotado.
– Finalmente, você deve predispor a disponibilidade de dinheiro, a maior parte em espécie.
– Quanto?
No momento não saberei dizer, tenho que calcular, te informarei logo que for possível. Uma parte deve ser em cheque de viagem, para as nossas distintas senhoras e para você e a Bettina, e uma parte em dinheiro mesmo. Deve prever que podemos necessitar de valores extras, além das despesas com as empresas de segurança e os carros. Avisa dois dos nossos bancos que precisamos dispor de uma boa quantia em Washington dentro de alguns dias.
-Eles irão perguntar qual seria o valor.
– Diga dois milhões de dólares, um de cada banco; acho que precisaremos bem menos do que a metade, mas peça isso.
– Isso é tudo?
– Sim, é tudo por enquanto; não acha que é o bastante?
– É o bastante e será tudo feito bem e rapidamente, somente fica em aberto a questão de achar o meu substituto. Quando tiver algum candidato, posso telefonar?
– Deve.
Voltei para o nosso Centro, não poderia deixar de continuar com o intenso treinamento das “distintas senhoras”. Elas me pareciam um pouco exaustas, talvez um dia de descanso extra seja oportuno. Falarei com elas.
– Bom dia minhas amigas, estou notando um certo cansaço de quase todas vocês, o que acham de um dia de descanso?
– Seria ótimo – confirmou a Louise.
– Muito bem, estão dispensadas até amanhã às dez horas. Alguém de vocês tem alguma sugestão de como vamos “descansar”?
– Quais seriam as opções? Uma delas perguntou.
– Vocês conhecem tudo que tem aqui no Centro, adicionalmente posso sugerir, se não vão demorar muito para se aprontar, que podemos almoçar em Washington.
Com exclusão da Clara, que ia dormir depois de uma boa massagem, e da Tina que queria boiar na piscina sem pensar em nada, as demais concordaram.
Nós nos apertamos um pouco na limusine de aluguel, mas era necessário para podermos falar sem o motorista ouvir.
– Notei que as inspetoras se dividiram, para poder vigiar quem vai e quem fica.
– Foi por acaso.
– Imagino que sim. Quero parabenizar todas vocês pelos grandes avanços que fizeram. Gostaria que tudo que falaremos aqui seja transmitido às duas que ficaram. Uma pergunta antes e uma informação depois. Decoraram a rota que irão fazer?
– Sim, gostamos muito, era uma bela diversão depois da chatice das aulas teóricas; teria sido mais divertido ainda se não tivéssemos que fazer aqueles relatórios todos. Respondeu uma delas.
Era necessário, para vocês se acostumarem com o ambiente que logo mais poderá se tornar o vosso habitat usual.
– Entendemos isso Edward – era Louise que respondia – mas acha realmente que nós, depois de ter aprendido a nos deslocar no espaço, faríamos isso o tempo todos?
-Não, acho que não. O importante é que vocês o façam, pelo menos uma vez, no local que já vos mostrei e, por dez ou quinze minutos. aliás, esqueci de vos dizer que resolvi facilitar a vossa missão. Em lugar de fazer aquele longo percurso do nosso centro até o local da exibição, resolvi que seria melhor, muito menos cansativo, ir lá, belas e folgadas, de limusine. O que acham?
Não ouve concordância entre elas, duas estavam perguntando o porquê do longo e cansativo treinamento para dominar a rota até Washington.
– Ora bolas, mas vocês não disseram que esse treino foi divertidíssimo?
– Sim. – Respondeu-me Louise – foi divertido e cansativo ao mesmo tempo.
– Muito bem, colocamos em votação. Escolham como querem chegar ao local da exibição.
Depois de cinco bons minutos de confabulações a opção foi pela limusine. Por dentro de mim, dei um suspiro de alívio. Nunca teria deixado elas irem pela Eisenhower; se tivessem escolhido esse caminho, teria que achar uma nova desculpa para conseguir que desistissem.
– Muito bem será a limusine, serão duas, vocês sete mais dois acompanhantes, quatro pessoas e meia por viatura. Agora vem uma minha pergunta; depois da exibição o que vocês pretendem fazer?
– O que pretendemos fazer? Por acaso não podemos continuar no Centro? Uma Louise, algo angustiada, me respondeu.
– Podem sim, mas não teriam algo melhor em mente?
– Por exemplo?
– Por exemplo o que acha você, que é a esperta na matéria, levar as suas amigas por um longo cruzeiro marítimo?
Ficaram todas pasmas, passou um bom momento, até a Louise se refazer da surpresa.
– Seria possível?
– Possibilíssimo. É somente vocês quererem.
Passaram todas, da surpresa ao entusiasmo com os correlatos gritos e abraços.
O dia depois voltei a falar com Louise, a sós.
– Louise, vocês todas foram maravilhosas, e eu somente tenho que agradecer. Vocês conseguiram que eu alcançasse o meu objetivo com seis meses de antecedência. Penso que agora que já dominam bem o deslocamento no espaço…
– …dentro do domo.
– …dentro do domo, podemos agora passar ao ar livre, ao espaço aberto.
— É isso que apavora nós todas, dentro do domo nós brincamos à vontade, mas fora…?
– Não devem se preocupar demais. Como já vos disse, no lado externo do domo existe uma série de anéis, nestes serão enganchadas cordas elásticas, vocês treinarão ao ar livre bem presas a estas cordas, assim não poderão fugir para a lua ou um planeta qualquer.
– Bobo, ninguém quer fugir daqui; as tarefas que você nos deu, foram pesadas, mas acho que, nós todas, passamos aqui os momentos mais entusiasmantes das nossas vidas. Imagine, passar dos jogos infantis e dias monótonos no morro luminoso, a voar sobre a autoestrada Eisenhower rumo a Washington.
– Concordo com você. Nós iremos fazer o nosso show, somente depois que cada uma de vocês achar que está perfeitamente apta. Assim não devem ficar preocupadas. O que quero, é que me digam o que querem fazer depois disso. O que me vem em mente, agora, e de inúmeros cruzeiros marítimos. Você vai se deleitar em levar as nossas amigas para os exóticos lugares que você conhece. Não acha uma boa ideia?
-Acho sim, mas o custo disso tudo?
– Será uma bagatela comparado com o que a Escola vai faturar depois do vosso show. Mais uma coisa, aliás duas: a primeira, que vocês devem viajar em incógnito, se alguém descobrir quem vocês são, vão ter uma vida infernal. Resolvi que o Doutor William e a bela enfermeira com a qual vai casar-se, irão com vocês, sempre. Assistência médica gratuita; você sabe que a assistência médica nos navios é precária e caríssima.
– Sei disso por experiência própria.
Com vocês, irá também o casal Ernest e Bettina, para dar a cobertura legal e financeira. E, a propósito de finanças, vou te devolver o teu cheque, nunca o descontamos.
– Mas…
– Não tem, “mas…”; tem que arrumar os passaportes.
***
O novo relator foi rápido. Fez algumas pequenas alterações às” Justificativas” da lei, as apresentou ao grupo restrito dos fautores desta e, imediatamente, logo após a concordância deles todos, a remeteu ao presidente do Senado para ser posta à apreciação do plenário.
O processo, irreversível, estava agora novamente em andamento. Faltava somente saber qual a data, que o presidente do Senado, como presidente da mesa diretora, marcaria para o início das discussões.
Não saberia que outra manobra poderia fazer para atrasar o processo. O Senador Crowdler já me tinha informado que, qualquer medida protelatória feita por ele, poderia enfraquecer a sua posição dentro do grupo dos opositores à lei. Eles estavam ansiosos para poder discuti-la no plenário. Acreditavam, imaginem, que, por ser uma péssima lei, podiam, com argumentos racionais, derrubá-la. Tem gente que acredita realmente em coisas irreais.
Não me restava outro caminho, afora o de acelerar a nossa preparação: o treinamento das alunas e a organização do nosso show e do imediato pós show. O rebuliço que ia resultar, dando tudo certo, seria bem considerável.
Uma das minhas preocupações era de retirar rapidamente as nossas “astronautas” do local e despachá-las para longe e em incógnito. O que tinha programado era que, logo depois do voo, elas “aterrissariam” perto de duas ambulâncias, protegidas por um cordão de agentes de segurança privadas e, nestas, iriam, com as sirenes ao máximo volume, para um hospital pré-determinado. Lá trocariam de roupas e, em outros automóveis, onde as estavam aguardando o doutor William e esposa, iriam para um dos pequenos aeroportos dos arredores de Washington; onde Ernest e a Bettina as esperariam perto de um jato alugado e todos, finalmente, voariam para Fort Lauderdale.
Era assim que, esperava, que tudo acontecesse. Tínhamos feito simulações e treinos para essa necessária retirada estratégica. Desde o final do show e até a decolagem para Fort Lauderdale passariam somente cerca de quarenta e cinco minutos. Devia agradecer ao Rudiard do DRS pelos passaportes, com outros nomes, das nossas distintas senhoras. Sim, iria agradecer por este favor e tentar esclarecer uma dúvida que não me saia da cabeça.
Desta vez fui rapidamente atendido pelo Diretor dos Serviços de Recuperação de Sistemas. A sisuda secretária com um parco sorriso introduziu-me no escritório de Rudiard G. Garrigam.
– Bom dia, Rudiard, e obrigado pelo rápido atendimento.
– Bom dia, Edward, é para compensar a demora da outra vez. Me traz algumas novidades?
– Não especificamente, venho principalmente para agradecer pelos passaportes das nossas distintas senhoras com os novos nomes.
– Não deve nos agradecer muito. Com as novas identidades, ninguém mais as encontrará… fora do que nós, evidentemente.
– Não tinha pensado nisso. Tem lógica, mesmo assim, agradeço.
– Diga-me Edward, o que o aflige?
– O que me poderia afligir?
– Não sei, você é que me deve dizer. Certamente não veio até aqui por meros agradecimentos.
– É verdade. Tem alguns aspectos do caso Evans que me parecem estranhos.
– Estranhos como? Que aspectos?
– Talvez tenha sido uma estupidez minha vir aqui, aliás, é uma estupidez, sem “talvez”. É que o episódio me favoreceu bastante….
– …e acha que me deveria agradecer por isso, certo?
– Certo.
– Errado. Nós não tivemos nada a ver com o episódio, foi um caso fortuito; as vezes acontecem. A única coisa que nós fizemos, depois de saber que um senador do seu círculo de amizades, estava envolvido, foi de acompanhar atentamente o desenrolar da situação, prontos a intervir se for necessário. Não foi necessário. Fim.
– Não me resta então que agradecer a vossa boa predisposição, e me despedir.
– Muito bem vamos nos despedir cordialmente e….a propósito, os preparativos para o evento já estão concluídos?
– Que evento…?
– Não sei, é você que sabe. Somente queria saber se está tudo pronto. Os passaportes para a fuga já foram entregues… precisa de algo mais?
– Desta vez, você me pegou direitinho. Sim, está tudo pronto. Não, não é uma fuga, é somente uma saída da cena. A utilidade delas terminou. E já que estamos falando disso, você não gostaria assistir a alguma coisa, talvez interessante?
– Gostaria muitíssimo, se fosse possível.
– Sem dúvida que é possível, aliás é o mínimo que devo fazer para agradecer-te. Não tem que se preocupar, te avisarei com boa antecedência dia, hora e local, combinado?
– Combinado e… boa sorte.