O dia chegou.

Amanhã será iniciada a discussão da famigerada lei que nasceu somente pelo desagrado do prefeito de New York, por eu ter ocupado a SUA Quinta Avenida, e não ter pedido a SUA autorização, não ter solicitado o auxílio do pessoal de SUA confiança e, finalmente, de ter ludibriado, não se sabe como, todo o staff da SUA administração municipal.

Não adiantava titubear mais. Amanhã finalmente saberemos se todos os esforços despendidos foram suficientes para alcançar o objetivo.

Hoje verifiquei se as nossas numerosas equipes estavam mobilizadas e se entenderam bem as instruções. Passei a tarde com as alunas, todas as cinco conseguiram realizar, e repetidamente, os exercícios finais. Fiquei junto delas para inspirar confiança, uma confiança que eu não conseguia ter. Pela primeira vez, desde que começou esta aventura, me senti desconfortável. Numa rápida autoanálise, descobri que tinha cometido muitos erros; que fui muito superficial e pouco prudente, enfim tive um tardio e inútil arrependimento sobre tudo que tinha realizado; depois desta análise interior minhas pernas começaram a fraquejar.

Percebi, enfim, que não tinha estofo para esta tarefa, na realidade para nenhuma tarefa que exigisse segurança e firmeza. Me sentia débil e inseguro. Não, não era que eu me sentia, eu era realmente fraco, inseguro e descrente de mim mesmo. Tinha conseguido chegar até este momento por pura vaidade e nos rastros dos primeiros sucessos.

O colapso do meu ser interior era total, parecia-me de continuar agindo como um zumbi, inconsciente do que estava fazendo. Mas estava. Estava sempre perto das alunas, tentando mantê-las descontraídas e confiante; confiança que eu não tinha e, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, dava ao Justin, longas e exaustivas instruções de como dar continuidade a Escola.

Telefonei para Jane convidando-a a vir amanhã, sem falta, com a sua mãe, deveria ir para um hotel que já tinha reservado e que, mesmo não sendo um dos melhores, era o que estava mais próximo do local do evento, evento que poderia ser um grande fracasso, mas também um sucesso estrondoso.

Será que conseguiria dormir? Será que conseguiria seguir, eu mesmo, os conselhos que dei às senhoras que arranquei do Morro Luminoso? Com esta e muitas outras dúvidas, além de três doses de Martini, fui dormir.

Na manhã seguinte, um pouco revigorado, tomei o desjejum matinal junto com as minhas ex-alunas. Elas oficialmente não eram mais “alunas”, eram o que, então? Convidados especiais, para este desjejum, foram o doutor William e esposa, adorada pelas ex-alunas, e o Justin, também muito estimado por elas, mesmo sabendo que as tinha alcunhado de “distintas senhoras”.

Todos estavam dando demonstração de tranquilidade e alegria, mas era evidente que uma sutil e gélida apreensão estava presente. Resolvi então criar um problema, somente para afastar o pensamento de todos sobre o próximo e incerto futuro.

– Amigas e amigos, antes de deixarmos esta mesa, temos que resolver um problema que é aparentemente simples, porém de grandes repercussões, no futuro, para os alunos da nossa escola.

Tinha aguçado a curiosidade geral.

– Como todos sabem “as distintas senhoras do Justin” que simultaneamente são as minhas ex-alunas, alunas do primeiro curso do nosso Centro, como elas deveriam ser denominadas, agora que superaram todas as provas e foram devidamente aprovadas?

– Um nome né, uma denominação para estas ex-alunas. – Resumiu Justin.

– Sim, inicialmente para as nossas ex-alunas, mas, também, logo mais, para todos que conseguirem superar provas e exames do nosso curso final. A responsabilidade para a escolha de uma boa denominação é grande. Vamos lá… apresentem sugestões. Tem alguma ideia, Louise? E você, Clara? Também não?

– Aviadoras? Um pouco indeciso, sugeriu o Justin,

– Não, não pode ser; este termo já é utilizado para as mulheres que pilotam aviões.

– Mas eu gostaria muito – interveio a Tina – Imaginem este título no jornal de Syracuse “Chegará hoje na nossa cidade a famosa Aviadora Tina”. Não seria fabuloso?

– Seria sim, Tina, mas seria mais fabuloso com uma outra denominação, com um termo mais fabuloso que “aviadora”. Vamos gente, … a Tina e o Justin já se manifestaram. Quero um nome, … um simples nome.

– Astronautas? – Timidamente, sugeriu Louise.

– Não Louise, vocês usam os astros, mas não vão para os astros. Boa sugestão.

– Os “cometas”?

-Não.

– As “nuvens”?

– Não.

– 0s “senhores do céu”?

– Não, deve ser somente uma palavra. Doutor William, não pode contribuir?

– Sim, posso contribuir com… uma aspirina. – Risada geral.

– Os “celestes”?

– Interessante, estamos chegando perto.

– Os “azuis”?

Mais uma estrondosa risada.

– Os “voadores”?

– Correto, mas banal, sem ofensa, Justin.

– Os “nautas”?

– Nauta…? Nauta me parece bom. Quem disse “nauta”? Ah… a Elisabeth. O que acham disso: “Acabou de chegar a nossa cidade a célebre Nauta Elisabeth”?

Todos concordaram. De agora em diante, então, elas todas, não seriam mais as “distintas senhoras” ou as “alunas do domo”, seriam, para sempre: NAUTAS.

***

– Senador Crowdler, conseguiu falar com o relator?

– Para falar, falei. Ele me pareceu surpreso: “Falar com o fautor daquela escola – me disse – para quê?” Respondi que não sabia, mas que poderia ser interessante. “Será que esse sujeito sabe que, a questão toda, não está mais nas minhas mãos”. “Sabe sim, por isso que quer falar com o senhor, não tem mais riscos ou suspeitas de interferências“. “Bem, que venham as quatro ao meu gabinete”, respondi. “Ótimo, senador…, agradeço muitíssimo”. E isso foi tudo…

O senador completou:

– Seria conveniente irmos juntos, chegue no meu gabinete um pouquinho antes, de acordo?

– Sim, estarei no seu gabinete às três e quarenta e cinco.

Tinha chegado o dia, … tinha chegada a hora…

Alertei todos os homens e mulheres chaves da hora da ação que iriamos executar, que agora estava definitivamente fixada. O nosso show iniciaria exatamente às quatro da tarde e duraria dez minutos. Se tudo desse certo, às quatro e cinquenta e cinco decolaria um jato, com as minhas Nautas, para Fort Lauderdale, e para um cruzeiro marítimo do qual desconhecia o destino.

Se tudo desse certo…

Depois das frenéticas últimas verificações, sozinho em um pequeno restaurante, voltei a me recriminar. Para que toda essa parafernália de ações, para conseguir realizar esse tal de show? E para que o próprio show? Tinha alguma finalidade? Algum escopo, por mínimo que fosse? A resposta era: não, não tinha finalidade alguma. Definitivamente. E então, como cheguei a cogitá-lo, … a querê-lo? E quando essa ideia começou a germinar? A regressão na busca da razão primordial estava em pleno andamento.

Não foi fácil descobrir a motivação inicial perdida no meio das centenas de ideias e ações que me tinham ocupado nesses últimos anos. Porém, uma vez descoberta, essa motivação se tornou clara e insofismável. O motivo, mesquinho e infantil, era de jogar na cara do senador Evans, ostensivamente e em primeira mão, a evidência que era possível ao homem deslocar-se no espaço pela sua própria vontade. Pior. A mesquinharia chegou ao máximo do deleite em fazer com que essa demonstração, ser feita por velhas senhoras, fisicamente fracas e sem nenhuma qualificação técnica, salvo, talvez, a de saber fritar batatas.

Chega. Já me confessei o suficiente para mim mesmo. Não adianta mais, a esta altura dos acontecimentos, recriminar-me. Vamos em frente. Um último e desagradável pensamento ainda me perseguiu. Se toda a absurda forma de demostrar a possibilidade de o homem poder se deslocar no espaço, tivesse mesmo por origem o senador Evans, por que continuar depois dele ter saído de cena?

Definitivamente, eu não possuo os necessários atributos que, com extrema pertinácia, estou querendo que os alunos da escola tenham. Se me candidatasse para frequentar a Escola, seria eliminado logo na primeira entrevista na Quinta Avenida. Com esses pensamentos todos, já eram três horas; paguei a conta do restaurante, por um almoço que mal toquei. Sai e fui para o Palácio do Congresso.

Cheguei relativamente cedo no gabinete do senador Crowdler; sentei-me e aguardei o momento em que seria convidado para irmos ao gabinete do senador Mark Epstein, do Delaware, o novo relator que substituiu o senador Evans, o “capeta”, o pesadelo dos meus sonos mal dormidos.

Exatamente aos quinze minutos para as quatro o senador Crowdler, com um gesto, me convidou a segui-lo. Sem uma palavra entre nós, fomos por escadarias e corredores, até uma porta com uma placa que dizia: “Senador pelo Estado de Delaware” e, em baixo, com letras um pouco menores: “Mark Epstein”. Olhei o relógio, faltavam quatro minutos para as quatro.

– Senador Crowdler, podemos aguardar, aqui fora até as quatro horas?

Ele assentiu com a cabeça. Percebi que a cota de favores que ele me proporcionou até o momento, já se tinha esgotado. Ah… como teria gostado de estar a mil milhas daí.

As quatro em pontos entramos.

– Senador Epstein, lhe apresento o senhor Edward Collins, da Escola…

– Sim, sim, … sei, da escola, sim…, mas por favor senhor Collins, queira sentar-se. E você também Crowdler, se acomode.

– Na realidade eu teria um compromisso, logo agora… – Respondeu ao convite o senador Crowdler – Realmente eu deveria….

– Crowdler, … a sua presença me honra muito, eu insisto.

Ficaram evidentes dois fatos: o senador Crowdler não queria ficar aí, talvez testemunha de uma desagradável controvérsia e, pelo mesmo motivo, o senador Epstein, não queria ficar sozinho comigo.

– O que acha, Epstein, convidar alguns dos seus colegas…, os do seu grupo?

– Excelente ideia. Excelente ideia, Crowdler, mas assim você ficaria em minoria, não é?

O senador Crowdler fez um gesto para dizer que isso não era importante. O Senador Epstein passou então a fazer diversos telefonemas, e pelo teor das conversações, percebi que somente dois podiam vir. Enquanto se desenrolavam os telefonemas, olhei para o meu relógio, já se tinham passados seis minutos das quatro; olhei, então, para a janela, tentando ver algo, algo que não estava lá, mas que deveria estar.

– Bem, senhor Collins… – Exordiou o senador Epstein, logo depois de ter deposto o telefone. – Em que posso ajudá-lo?

Não tinha previsto a possibilidade de ter que dizer algo, tinha organizado tudo para fazer com que, as quatro horas apareceriam na frente das janelas dos gabinetes dos senadores, desta ala pelo menos, as cincos Nautas. Cadê elas? O que vou dizer?

– Senador Epstein. Primeiramente queria agradecer a sua gentileza de receber-me…

O interpelado fez gestos como para dizer que isso não tinha importância alguma; tinha que continuar.

– Bem, a seguir tenho que confessar que as divergências entre mim e o senador Evans, infelizmente, ultrapassaram os limites dos contrastes de ideias, de posições, … foram-se transformando em algo pessoal, como disse, infelizmente.

– Não se preocupe com isso, nem um pouco, não é Crowdler? …não é, Crowdler? – Repetiu, olhando para ele.

O senador Crowdler estava olhando através da janela e, mudo, para lá se dirigiu. O senador Epstein, olhou com curiosidade o senador Crowdler e, depois, para a janela. Se levantou com um salto e logo os dois senadores, silentes, estavam olhando para algo lá fora.

Levantei-me, fui para a janela e, sobre os ombros dos dois senadores, consegui ver o que tinha esperado por tanto tempo.

Cincos figuras de cor azul turquesa, estavam se movimentando no ar, a uns cinquenta pés de altura, e a uns trinta ou quarenta pés das janelas dos senadores. As cinco nautas subiam e desciam e se deslocavam horizontalmente continuamente, parecia que estavam inspecionando todas as janelas, talvez procurando alguém.

Olhei com mais atenção, tentando descobrir a identidade dessas indistintas figurinhas que pareciam dançar na nossa frente. Contei de novo, deveriam ser cinco, uns segundos atrás as contei, e eram cinco…, agora via somente quatro,

De repente, a somente dez pés da janela, apareceu, bem clara e distinta, uma figura de mulher de macacão azul turquesa, com capacete da mesma cor e luvas brancas.

Afastei rudemente os dois senadores, abri a janela e gritei a plenos pulmões:

– Tina! Volta já para o grupo!

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