Deveria explicar tudo direitinho ao “Peter” e ao “Paul”, o que pretendia fazer, talvez uma reunião no costumeiro restaurante fosse uma boa ideia.

– Estamos de novo aqui! – um eufórico “Peter” entrou no restaurante no qual eu tinha chegado somente minutos antes.

– Alô “Peter”, para que esta euforia toda?

– Antes de mais nada, aviso que o “Paul” vai chegar um pouco mais tarde, ele insistiu para que nos iniciássemos o almoço e conversássemos com tranquilidade, não é preciso esperar por ele. A minha euforia? Ora, é simples, cada vez que venho a este restaurante saio com projetos que me deixam mais rico. O que temos desta vez?

– Fico feliz que se sinta feliz. Mais que ficar ricos, eu gostaria que vocês se tornassem sempre mais influentes no campo da televisão.

– E não ficamos? Eu e o “Paul” passamos da quinta e sexta posição entre as redes de New York, para a terceira e quarta; “Paul” está quase encostando na segunda. Acha pouco?

– Acho bom, eu não sabia. Tenho planos para vocês investir dinheiro, caso não o tenham gastado tudo que agora ganharam em balas e sorvetes.

– Estou de ouvidos abertos. Oh, olha lá, o “Paul” chegou, vamos aguardar um pouco antes de conversar.

– Já que veio, vamos antes almoçar e depois falaremos juntos os três. De acordo?

– De acordo, e bom apetite.

Desta vez nenhum dos dois pediu os aperitivos costumeiros. Na hora do café e digestivo apresentei umas sugestões.

– Acho que não preciso recomendar sigilo sobre o que vou dizer, mas recomendaria, se possível, uma certa rapidez, as informações que vou dar podem fugir do meu controle.

– Já entendemos, vá falando.

– Pretendo montar um outro centro de treinamento na costa oeste, não escolhi ainda em que estado. Acharia muito oportuno que vocês comprassem duas pequenas redes de televisão… e depois as tornassem grandes.

– E como faríamos isso? – Interveio “Paul”, que ainda não tinha entrado no clima de negócios no qual o “Peter” já estava mergulhado.

– Ora, é simples, vocês teriam, o monopólio das notícias relativas ao novo centro de treinamento. Garanto uma boa série de notícias interessantes, bem mais interessantes das até agora conseguidas.

– Dê nos um tempo para investigarmos um pouco. Em relação à costa oeste, poderia ser mais específico?

– Poderia sim, mas acho que não vai restringir muito o campo; Califórnia e Nevada são os estados em cogitação. Daqui a um mês posso dizer, não somente o estado, mas até o local exato.

– Isto facilitaria muito a nossa vida. – Interveio o “Paul” – não é conveniente circular muito demonstrando que existem interessados. Bom seria, justamente, saber qual é o local certo, assim poderíamos apresentar uma oferta irrecusável a rede regional mais interessante. Outra coisa, Edward, você acha que devemos comprar uma rede, nós em conjunto, ou comprar duas? Não sei se na região que vai escolher vão existir duas redes que atendam aos nossos objetivos.

– Vejo que tenho de acelerar o processo de seleção. Em relação a ser uma ou duas, deixo a critério de vocês e, naturalmente, da situação local. Gostaria de lembrar que temos que incrementar a nossa campanha, agora não mais subliminar, mas aberta e claríssima, que somente gente de bem pode se deslocar no espaço. Não veremos, em hipótese alguma, bando de assaltantes voadores, nem de agiotas e gente do gênero, etecetera, etecetera…

– É somente nos passar o material que o transmitiremos; não queremos que escape alguma asneira. O que acha de te mandar o nosso melhor programador na Quinta Avenida e tratar tudo com ele?

– Boa ideia. Então, que venham em dias separados, os vossos dois melhores programadores. Não na Quinta Avenida, mas no meu escritório particular, bem perto da nossa sede,

– Ué, você mudou de escritório e nem nos avisou?

– Mudei ontem. É um escritório pequeno, nem tenho secretária. Tive que mudar, até mudei de apartamento; por causa de duas redes de televisão escandalosas que não paravam de transmitir notícias relativas a gente que se deslocava no espaço. Uma aberração.

– Falando em aberrações,… o que achou da nossa cobertura em Washington?

– À cobertura, você disse, “Paul”?

-Sim “as” coberturas, a minha e o do meu concorrente aqui, que está rindo não sei por quê.

– Eu sei por que o “Peter” está rindo. Você quer saber qual o motivo?

– Não, não me interessa; somente quero saber de qual, das coberturas, gostou mais, da minha ou do “Peter”, seja franco, nós não vamos ficar melindrados, seja qual for a melhor, no seu entender.

O “Peter” tentava esconder o riso com o guardanapo, mas com escasso sucesso.

– Me desculpem, “Paul”, e você também, “Peter”, mas, infelizmente, não tive tempo de ver nenhuma das vossas coberturas.

– Impossível…inacreditável…, mas que diabo, … por que você não as viu? Você, “Peter”, sabia disso? Ah… sabia e não me disse nada? Que raça de amigos que eu tenho.

– Veja, “Paul” … eu também fiquei estarrecido quando soube disso, mas não queria que se aborrecesse também… cuidado de amigos, né?

– Desculpem…, a culpa é minha, mas no meu entender, não deveriam se preocupar muito. O tempo que eu não gastei vendo as vossas coberturas, eu o gastei para proporcionar melhores negócios para vocês dois. Posso me considerar perdoado?

– Posta a questão dessa forma, você está automaticamente e permanentemente perdoado.

Voltei para o Centro de Treinamento e depois de dar a minha costumeira volta inspecionando, mesmo que superficialmente, todas as instalações, chamei o Justin na minha sala.

– Bom dia, Justin, tudo tranquilo por aqui?

– Tudo tranquilo sim, mas tenho que te avisar, mais uma vez, que daqui a cinco semanas, onze alunos, ou mais, estarão habilitados a fazer o último estágio do curso. Me corrija se eu estou errado, você ultimamente está desertando este centro, digo bem?

– É verdade Justin, pode ter certeza, porém, que não é por falta de interesse, mas simplesmente por pura falta de tempo.

– Vai dar o treinamento no domo?

– Claro que sim, a propósito… como está o domo, as instalações?

– Estão em perfeitíssimas condições, os alunos estão treinadíssimos, só falta… deixa eu pensar o que poderia faltar…hum… eu acho…, não, não pode ser.…, mas, sim, … acho que falta o professor… falta, sim.

-Acho que não. O tal de professor estará a postos no dia certo ou, no máximo, na semana a seguir.

– Assim espero. Posso perguntar para que diabo vieram esses dois enviados seus?

– Criaram algum problema?

– Absolutamente nenhum. Você disse que podiam vistoriar tudo o que quiserem, e é isto que estão fazendo. Educadamente sim, mas esquadrinham tudo, até a contabilidade… aliás Edward, falando disso, não está querendo ver se eu estou cometendo alguma falcatrua? Se acha isso, diga logo.

– Para com isso, Justin. Responda a esta minha pergunta: você se dá bem com esses dois?

– No limite do espaço que eles dão para mim, diria que sim. Mas eles são meios caladões em relação ao misterioso trabalho deles.

– Esta é uma boa notícia. Agora Justin, o que vou falar é sigiloso, posso contar com isso?

– Certamente, do que se trata?

– Estes dois caladões, como você os apelidou, serão seus subordinados daqui a um tempo.

— Estranho, não vejo, no momento nenhuma função, pelo menos de relevo, para mais colaboradores.

– Está certíssimo, Justin, somente que eles serão seus subordinados no nosso novo centro de treinamento na Califórnia.

– Na Califórnia… um novo centro?

– Pode ser na Califórnia ou Nevada, ainda não sei, esses dois, o Zbigniew o construirá e o Robert fará a administração legal e financeira. Tu chefiarás tudo isso.

– Mas…, mas…

– Em vez de ficar aí, de boca aberta, você deveria se mexer para achar e treinar seu substituto aqui, neste centro. Claro está que, se você não gosta da Califórnia ou Nevada, terei que procurar outro.

– Eu… eu…

-Sei, sei. Você. Você o quê?

– Esta é uma surpresa, uma grande surpresa.

– E por ser uma surpresa te deixo um dia inteiro, inteirinho, para tomar a sua decisão. Eu volto para New York amanhã de manhã, poder-me-ia dar uma resposta antes de eu sair?

– Darei sim, aliás, acho que não vou me arrepender, …. Califórnia ou Nevada você disse? Acho que a resposta é sim … mas, pelo amor de Deus, não faça mais estas brincadeiras comigo.

Somente a Ester tinha o número de telefone do meu novo escritório e do meu novo apartamento. Por isso, quando atendi ao telefone, disse logo:

– Bom dia Ester. Algum problema?

– Nenhum problema, senhor Collins, somente que tem aqui uma pessoa aflitíssima para falar consigo.

– Acho que tem pessoas demais querendo falar comigo. O que aflige tanto a esse sujeito em específico?

– Ele alega, e por isso me permiti telefonar, que o senhor o convidou para a inauguração da nossa sede e, infelizmente ele estava no exterior. Ele se chama Denham Dixon, da clínica neurológica de…

– Segura ele aí, Ester, chegarei em dez minutos.

Eram três quadras até a nossa sede da Quinta Avenida, mas ainda tinha que colocar gravata e sapato, neste escritório, estando sozinho, as vezes relaxava um pouco, mas cheguei na minha sala na Quinta Avenida em doze minutos.

– Bom dia, e me desculpe o atraso senhor Denham. Vejo, no seu cartão de visita, que a Clínica Neurológica Ônix tem filiais em muitas cidades aqui na costa leste.

– Sim senhor Collins, temos sim; mas inicialmente devo corrigir a informação que a senhorita Ester repassou ao senhor; ela telefonou na minha presença.

– Fique à vontade doutor, o seu cartão de visita diz que é doutor, em neurologia, acredito.

– Exato, mas o que eu queria corrigir, é que, não fui eu pessoalmente o convidado, mas a Diretoria da Clínica.

– Correção anotada. Pode ficar à vontade, estou a seu dispor.

– Muito obrigado. Não sei se o senhor sabe, mas as clínicas da rede Ônix estão muito ligadas ao reitor de Harvard. Ao seu tempo, ele foi um grande neurologista, agora, infelizmente para nós neurologistas, há mais de dez anos, se dedica somente à gestão da universidade.

– Folgo em saber, seria ele então o convidado?

– Não, não. O convite veio para a clínica Ônix de New York, e pelo inusitado do convite, o nosso diretor achou conveniente contatar o reitor. – Richard Robert Hardigan é o nome completo dele – raramente ele vem a New York, enfim…nós não atendemos ao seu amável convite e….

– Não se preocupe nem um pouco, isso é passado; o que temos para o futuro?

– Agradeço a amabilidade. Posso entrar direto na questão?

– Sem dúvidas, e fique inteiramente à vontade, se quiser posso manter em sigilo essa nossa conversação.

– De novo agradecido, não seria sigilo, seria, porém, sempre algo reservado, dependendo da sua resposta.

– Diga lá, então.

– Muito bem. A sua escola de treinamento, de uma certa forma envolve a neurologia, acho que pode concordar.

– Concordo plenamente.

– Deve convir que dentro da curiosidade geral, os mais curiosos e interessados em saber algo mais, se for possível, seriam justamente os neurologistas. Eu estou aqui justamente para saber se seria possível satisfazer a esta curiosidade e de que forma isso poderia ser feito.

– Sou eu que, agora, tenho que agradecer. O senhor foi muito claro e respondo também claramente. Gostaria que fixasse bem em mente o que vou dizer.

– Pode ter certeza de que não esquecerei nem uma sílaba.

– Ótimo. Eu, Edward Collins, darei todas as informações necessárias. A forma de fornecê-las a classe dos neurologistas, deixo a vosso critério, ou melhor, se bem entendi, a critério do reitor de Harvard. Um parêntese se me permite. O senhor não estudou em Harvard, certo?

– Certo, não estudei lá, mas como deduziu isso?

– Eu conheço-os bem os ‘harvardianos’ e o senhor não é desse tipo, mas vamos em frente; eu disse que vocês neurologistas podem escolher a forma de transmitir as informações. Eu acatarei.

– Isso é estupendo. Veja, existem diversas possibilidades, pode escolher a que mais lhe convir: a primeira, o senhor escreveria um ensaio que seria publicado nos anais de Harvard e, naturalmente, divulgados convenientemente; a segunda, seria o senhor dar uma palestra ou quantas necessárias, para os neurologistas de Harvard; estas palestras seriam gravadas e, depois de revisadas e autorizadas pelo senhor, também publicadas nos anais e divulgadas, e a terceira e última, seria de convidar os neurologistas da Associação Americana de Neurologia, a A.A.N., e dar uma palestra de mais amplo escopo, sempre em Harvard. O que acha?

– Acho que vocês conseguiram um bom leque de alternativas, iniciando com uma mais comedida e alargando o círculo sempre mais.

– O que o senhor escolheria então?… oh, desculpe, longe de mim pressioná-lo. Não precisa responder neste momento, fique à vontade.

– Estou à vontade e agradeço imensamente esse convite. Devo, então, fazer uma escolha. Gostaria, porém, que o senhor mesmo a fizesse; se estivesse no meu lugar, o que escolheria?

– Não saberia dizer; como posso estar no seu lugar?

– Não se preocupe, diga francamente o que escolheria?

– …se eu estivesse no seu lugar…, bem, que isso fique somente entre nós.

– Dou a minha palavra.

– Eu escolheria o congresso nacional dos neurologistas.

– E o porquê disso, sempre somente entre nós dois.

– A primeira alternativa, pelo histórico, seria somente uma forma protocolar de divulgação, na realidade não haverá divulgação alguma, mas somente um registro de propriedade intelectual, não vai resultar em divulgação real.

– E a segunda?

– A segunda pode ser manipulada ou, dependendo dos interesses em jogo, poderá ser amplamente divulgada ou amplamente…ignorada.

– Agradeço imensamente os seus conselhos, pode ficar tranquilo que ninguém, afora nós dois, saberá disso. Oficialmente poderá dizer que agradeço imensamente este convite para interagir com os neurologistas, e que, a forma de fazer isso será acordada no imediato futuro.

– Perfeito. Transmitirei isso, literalmente.

– Ótimo. Não sei qual é a sua posição na clínica Ônix, nem o seu relacionamento com o pessoal de Harvard, mas eu gostaria, em todo caso de contar sempre com a sua presença. Não se preocupe, serei eu a fazer esta exigência no momento oportuno.

Uma semana depois, resolvidas ou encaminhadas as questões mais urgentes, voltei para São Francisco.

Não sei se foi por eu ter adquirido mais traquejo, ou por ser um hábito californiano, mas as coisas correram com mais facilidade aqui do que na Virginia; em dez dias já tinha um contrato assinado. Acabei de comprar, por um preço absurdo, o aeroporto de Lodi, uma cidadezinha entre Sacramento e Stockton. O aeroporto está bem na margem da estrada 99, portanto de fácil acesso a São Francisco.

Na realidade toda a região: Sacramento, Stockton e Lodi são o interland de São Francisco, logo antes da floresta de Stanislaus, contiguo ao mais conhecido parque nacional de Yosemite.

A pista do aeroporto era relativamente curta, mas tinha espaço, desde que negociado, para um acréscimo de um quarto de milha e, apesar da sua pista curta, já estava homologado para operar jatos. Em relação às facilidades aeroportuárias a situação estava entre discreta e boa. O caminho crítico era, também aí, a construção das instalações do futuro Centro. Tinha que excogitar uma maneira de conseguir acelerar sua construção.

Logo que consegui o acordo verbal para a compra do aeroporto, mandei vir o Robert e o Zbigniew. Já estavam aqui há cinco dias, mas os deixei livres para procurar as próprias acomodações e se ambientar com a cidade.

Enquanto eles ficam vasculhando o aeroporto e arredores, irei procurar um bom escritório de advocacia, isto é fundamental. A busca de um escritório de contabilidade deixarei para o Robert fazer. Ele deverá também constituir uma empresa distinta daquela que administra o Centro da Virginia.

Telefonei para o “Peter”, dando a notícia da aquisição e da localização, agora eles podiam se movimentar para adquirir uma ou duas redes de televisão, dependendo do que vão encontrar por aqui. Acho que me convém trazer também o “meu” escritório de arquitetura de Washington. Poderá resultar, talvez, mais caro, mas em compensação não terei que me deslocar com excessiva frequência. Enfim, o segundo Centro de Treinamento estava em andamento e, pelos cuidados que tomei, ninguém, ainda, sabia disso. Assim esperava.

Chegou também a hora de definir o Centro de Treinamento europeu. Ficaria na terra do “dinamarquês”, ou onde mais? Eu já sabia onde deveria ficar, mas essa escolha não poderia ser minha, absolutamente, não. Como chegar a isso, teria que descobrir. O longo voo para New York me daria tempo para fazê-lo.

Fiquei uma semana inteira ocupadíssimo em New York, inicialmente com o nosso escritório da Quinta Avenida, o pessoal tinha aumentado tentando atender a massa de pedidos de inscrições e ao processo de seleção, agora mais ágil pela experiência adquirida. Estava-se formando a avalanche que eu esperava e temia. Constatei que o substituto do Robert estava dando conta do serviço. Escolhido por Robert, exímio contabilista, somente poderia ser bom.

Tinha pela frente uma semana turbulenta: encontros com “Peter” e “Paul” para confirmar as notícias telefônicas, encontro com o doutor Dixon para dar os primeiros passos para uma reunião com os neurologistas; acompanhar, com uma leitura atenta, os “Suplementos Especiais” do Financial Times: já tinha em casa três suplementos que aguardavam a minha leitura.

Ainda, tenho que acompanhar, pela televisão, as campanhas que tinha elaborado para divulgar, da maneira mais explícita possível que, malandros, aventureiros e doidivanas, não conseguiriam se deslocar no espaço e que perderiam, se quisessem tentar, o dinheiro do curso.

Com tudo isso, tive que atender Jane, que voltando do Canadá, tinha encontrado o seu lugar ocupado por uma eficientíssima Ester. Depois das efusões com todas as conhecidas, e dos cumprimentos pelas novas aquisições, Jane me empurrou para dentro da minha sala e, sem muitas cerimônias, me enfrentou.

– Pelo jeito que as coisas estão por aqui, acho que perdi a minha posição. Será que você me despachou para o Canadá para facilitar a minha saída? Confessa.

– Oh Jane, não confesso nada, porque nada tenho a confessar. A mais, sou eu que tenho que me queixar com você, logo chega e faz absurdas conjecturas. Você deveria ser mais polida, mais delicada, deveria dizer, suavemente, algo como: “Você me chutou a pontapé, seu calhorda”?

Jane ficou estarrecida, perdeu o rumo do seu discurso e, antes dela se recuperar, continuei:

– Eu me esforcei para achar duas boas alternativas para você, e você veio com estas acusações ridículas. E para deixar tudo bem claro, … sim, a Ester está no seu lugar, ela encontrou tudo prontinho, porque você deixou tudo bem organizado, não sei se ela teria capacidade para isso. Agora me diga, quer mesmo saber o que eu tinha em mente para você?

Ela ainda não sabia o que dizer.

– Sente-se aí, peça um chá para nós dois e escuta. Tenho duas posições para você, uma para já e outra para mais tarde, talvez daqui a um ano. Quer ouvir a alternativa imediata?

– Me desculpe Edward, mas chegando aqui, com todo este fervor de atividades, me senti excluída, me perdoa, sim?

– Está perdoada. Vamos em frente. A posição imediata seria a de você assumir o meu lugar, aqui, na Quinta Avenida, com certas condições; na realidade não seriam condições, seriam conselhos.

– Oh Edward, … que maravilha, … obrigada, mas será que vou conseguir?

Claro que vai. Escuta, agora, os meus conselhos: primeiro deixa a Ester fazer o serviço dela, você não deve competir com ela, você tem uma posição superior, e um bom superior nunca se deve intrometer. Somente, se for o caso, orientar e, nunca, nunca mesmo, manifestar a sua superioridade, se fizer isso ele demonstra que é um simples babaca. Segundo conselho: tendo a Ester na retaguarda, você pode olhar para fora, ver o que está acontecendo no mundo, acha pouco?

– Você me está deixando envergonhada.

– Esqueça isso e vá dar a boa notícia para a sua mãe.

– Farei isso sim, mas qual seria a outra alternativa?

– Ora. Não é suficiente esta que te dei?

– Sim, claro que sim… mas a curiosidade…

– Está bem, mas não comente com ninguém, se comentar…. adeus.

– Pode deixar, segredo absoluto. Posso contar a mamãe?

– Sim, pode. Daqui a um ano vamos abrir um novo centro na Califórnia.

– Na Califórnia? Na Califórnia? – Estava gritando.

– Não grite … fala baixo, … melhor … vá para casa.

Finalmente, depois de quase um mês e meio de lua de mel e uma semana em New York para arranjar um apartamento satisfatório para um casal, o Ernest apareceu na Quinta Avenida.

– Enfim Ernest, você se lembrou do nosso endereço aqui na Quinta Avenida? Como foi a viagem, tudo tranquilo?

– Tudo maravilhoso. Não foi “uma viagem”, mas sim, “a viagem”. Edward, te devo mil agradecimentos, a Bettina também, ele virá visitar-te, logo que terminar de arrumar o novo apartamento.

– Não se preocupe com os agradecimentos, você e Bettina merecem. Ela, porém, dificilmente me encontrará aqui.

Contei, então, para ele, do meu pequeno escritório, do meu novo apartamento, tudo para fugir da curiosidade geral e contei, por alto, dos últimos acontecimentos, inclusive que a Ester pegou o lugar da Jane e a Jane assumirá o meu.

– Então eu posso me considerar desempregado?

– Tecnicamente sim, o seu lugar já está bem preenchido pelo profissional que Robert escolheu. Não tem mais lugar para você aqui na Quinta Avenida, aliás, não tem lugar nem para mim. Acho que estamos ambos desempregados; então, sugiro que você deveria procurar um bom escritório, aqui perto, bom mesmo, com, no mínimo, cinco salas e uma sala de reunião para uma dúzia de pessoas. Se a achar, nós dois podemos contar com um novo emprego.

– Eu sei que está brincando. Mas, diga-me claramente, o que vai fazer, neste novo escritório, e mais, o que eu deveria fazer?

– Explico. Aqui tudo está funcionando com pessoas capacitadas e de confiança, a nossa tarefa inicial está terminada. Mas tenho muitíssimas coisas para fazer, e preciso de um bom escritório. A tua função, neste novo escritório, que você dirigirá, seria de centralizar todas as iniciativas que estou promovendo, com exclusão das atividades de seleção e treinamento.

Para começar, acho que as receitas da Escola conseguem sustentar, com folga, as despesas da Quinta Avenida e do Centro de treinamento. Providencia uma separação formal entre a Escola e nós dois; crie uma outra empresa que terá sede no novo escritório. Finalmente, meu caro Ernest, você que já é o meu homem de confiança, vai se tornar o meu substituto, sempre que, por uma razão ou outra, eu não consiga atuar. Verifique com os nossos advogados que tipo de procuração tenho que te dar.

– Agradeço imensamente a sua confiança, pode ter certeza…

– Não agradeça, você não tem ideia dos problemões que terá que enfrentar.

Voltei para o Centro de Treinamento; em lugar do costumeiro trem, aluguei um jato que aterrissou no nosso aeroporto. Tinha muitíssimas coisas a fazer e pouco tempo. Tinha que abdicar das confortáveis e longas viagens. Pena.

– Justin, entra e fecha a porta. Tudo bem com você? Nenhum problema aqui no Centro? Não. Que beleza. Escuta Justin, você estudou, tudo que podia sobre a Rússia? Sim. Maravilha. Ninguém percebeu o que você estava pesquisando?

– Não, tomei os devidos cuidados: ia na biblioteca quando não tinha ninguém e, as pesquisas na internet as fazia somente no meu apartamento.

– Ótimo. Você percebeu que enquanto nós aqui, nos Estados Unidos, fizemos uma corrida para o oeste chegando até a Califórnia. Eles, os russos, fizeram uma expansão para o leste, praticamente dez vezes maior do que a nossa para o oeste. Chegaram perto de Seattle, eu disse perto, não até Seattle. Coisas deste tipo, são coisas tais que fazem, qualquer russo, se orgulhar.

– Sim, pesquisei nesta linha, como você me disse, descobri, por exemplo, que os únicos aviões bombardeiros quadrimotores, durante a primeira guerra mundial, eram russos. Depois descobri uma longa lista de cientistas russos e das descobertas que fizeram. Até fiquei impressionado. Francamente, porém não atinei, até agora para que serviria tudo isto.

– Está na hora de te explicar, mas tem que manter segredo absoluto, se você falhar sou obrigado a mandar que te matem. Está claro?

– Claríssimo, não precisa fazer melodramas, entendi perfeitamente.

– Acho que você não entendeu. Se eu mesmo não te matar, com certeza outros o poderão fazer, e com muitíssimo prazer. E se não acredita no que digo, experimenta começar a falar e veja o que vai te acontecer.

– Edward…, agora você me assustou. Em que diabo de encrenca você me quer meter?

– Ainda em encrenca nenhuma, mas a partir de amanhã, se você concordar em fazer o que vou te pedir, os riscos que você vai correr, tagarelando por aí, serão enormes.

– Não tem nada a ver com a Califórnia?

– Não, nada. Se você, amanhã, fizer corretamente o que vou te explicar, ninguém de nós vai correr quaisquer riscos e você poderá se mudar tranquilamente para a Califórnia.

***

O amanhã chegou, com uma reunião com o dinamarquês e o Justin; restava saber no que iria resultar.

– Muito bem, como vai o nosso dinamarquês? Continua sempre entre os primeiros nos estudos? Já sabe que entre duas ou três semanas vão começar as aulas teóricas do último estágio?

– Sim, estou me esforçando muito, espero conseguir.

– Eu também espero que todos consigam. A primeira turma de cinco, passou completa; espero que isso se repita. Agora devemos ver se chegamos a um acordo de onde dever-se-ia instalar o nosso Centro de Treinamento europeu. Vou chamar o Justin, nos três temos que decidir, e quanto mais cedo, melhor.

– Bem-vindo, Justin, você tem um tempo para nós? Devemos escolher em que país tentaremos implantar o nosso centro europeu?

– Como tentar? – Logo falou o Justin, depois de se sentar.

– Sei lá. Você tem certeza de que todos os países europeus gostariam de ter um centro de treinamento?

– Não, não tenho certeza, mas acho…

-Não vamos de novo conjugar o verbo “achar”. Vamos começar?

– Sim. – Ambos responderam.

– Muito bem, partimos do pressuposto que a Dinamarca é um país muito pequeno para abrigar um nosso centro de treinamento, não porque não caberia, mas porque deveria se prospectar para toda a Europa. Assim de saída podemos excluir todos os países da dimensão da Dinamarca e, claro, os menores deste. Concorda, Justin? Concorda, dinamarquês?

– Que bom. Eu acho que, se esta escolha tivesse sido feita nos séculos XV e XVI, esta recairia sobre a Espanha, a maior potência da época, e bastante expansionista. Se fosse no século XVII e XVIII o país a escolher seria a França. Sem a menor dúvida, no século XIX seria o Reino Unido, e se fosse no século XX, apesar de ter perdido duas guerras de âmbito mundial, a escolhida seria a Alemanha. Principalmente por causa de Adenauer, não somente por ter reerguido a Alemanha, mas por ter, junto com os líderes da Itália e da França, criado a Europa, pondo fim as guerras que, desde o início dos tempos, assolavam esse continente. Então por isso tudo, o meu voto, por enquanto, é pela Alemanha.

– Muito bem posto Edward, muito bem mesmo, porém, você viu o passado, eu olho para o futuro e dando uma olhada para nós, caucasianos, pressionados entre africanos e asiáticos, eu optaria pela Rússia.

– Ora…. a Rússia? Apesar de ser o maior país europeu, no que poderia contribuir para contrastar, amigavelmente claro, os asiáticos e africanos?

– Com africanos não sei, não são um perigo imediato, apesar dos problemas que temos aqui com uma boa parcela de afrodescendentes, mas, em relação aos asiáticos gostaria de lembrar que a Rússia, com a ferrovia Transiberiana, conseguiu se confrontar com as duas maiores potências asiáticas: China e Japão.

Sabia que a distância entre um território “russo” e o Japão é de somente poucas milhas?

– Não, não sabia, e onde seria isso?

– As ilhas Kurilas, são ilhas japonesas administradas pela Rússia após a segunda guerra mundial. Independentemente disso, mesmo retornando as ilhas Kurilas ao Japão, a distância permaneceria a mesma, porque a última das ilhas Kurilas está, novamente, a poucos milhas do continente russo. E pode reparar que a mais relevante ilha da região, Sacalina, povoadíssima com russos e russas, está a somente vinte milhas do Japão.

– Estou vendo que você domina bem a geografia.

– Não esqueça que eu fui navegador na Força Aérea e, um navegador deve ter bons conhecimentos geográficos.

– Entendo, mas o que tudo isso tem a ver com o que você disse: conter os asiáticos?

– Sempre de forma amigável, como você disse, para conter os asiáticos devemos estar na vanguarda científica e tecnológica e, não esqueça que no mesmo século que você atribuiu a primazia à Inglaterra, e sem tirar nenhum mérito a esta, a Rússia no mesmo período contribuiu, nos campos da ciência, com grandes cientistas e grandes descobertas.

– Você está agora olhando para o passado. Você mesmo disse, olhamos para o futuro, me fale do futuro.

– O futuro é a ferrovia Transiberiana, uma tênue linha caucasiana que sai de Moscou e chega a Vladivostok, na frente do Japão, ao lado das Coreia e nas costas da China. Tudo que se pode fazer para reforçar esta linha, será benéfica para os caucasianos, para nós.

– E você acha que um Centro de Treinamento em Moscou, por exemplo, ajudaria a reforçar a tal linha caucasiana?

– Certamente que sim; na pior das hipóteses, não prejudica. O meu voto, também por enquanto, é Rússia. Vamos ouvir o “dono” do Centro de Treinamento? Afinal de contas, este deveria estar na Dinamarca.

– Ouvi, com muita atenção ambos os argumentos. – Exordiou, um pouco titubeante, o nosso dinamarquês – Para mim ficou claro que a Dinamarca está definitivamente excluída. De outro lado as duas opções são ambas aceitáveis, não saberia o que escolher.

– Vamos, dinamarquês, escolha. – Falei incisivamente – É você que vai decidir, combinamos que a maioria decide, …vamos então a esta decisão.

– A responsabilidade é grande…

– Não se preocupe, se a escolha resultar em um erro, ninguém, afora nós, ficará sabendo. Ademais, a humanidade já fez tantas escolhas erradas que mais uma não fará a menor diferença.

– Muito bem, vou decidir. – O dinamarquês, agora com voz mais firme, se manifestou. – Sim, realmente de um lado temos uma maior comodidade para todos os alunos europeus, a Alemanha está quase no baricentro do continente, de outro lado, deve-se considerar que poderíamos reforçar a presença caucasiana no planeta. Opto para esta segunda alternativa.

– Muito bem, está decidido, será na Rússia. Me diga Justin, você na minha ausência, não ficou doutrinando o nosso amigo?

Não! – Responderam, juntos, Justin e o dinamarquês.

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