Uma vez decidido que aceitaria fazer uma apresentação perante os neurologistas da Associação Americana de Neurologia num dos auditórios da Universidade de Harvard, o processo decorreu com relativa rapidez. Isto contrariava o meu desejo íntimo: não tinha vontade alguma de me confrontar com UM neurologista, imaginem com MUITOS. Infelizmente não podia fugir, sabia, desde o início, que teria que enfrentar situações desagradáveis; e esta, com certeza, seria a mais desagradável.

Foi pior, muitíssimo pior, do que a minha mais pessimista expetativa. Fui conduzido para um auditório gigantesco e repleto; me sentia como o rei Luís XV quando levado à guilhotina, e ainda com uma desvantagem a mais: ele, finalmente, saiu da cena, eu, infelizmente, deveria viver, ainda, o “após execução”.

A situação, já ruim de por si só, somente piorava. Quando o mestre de cerimonias apresentou os nomes das mais ilustres presenças na plateia, descobri que estavam presentes dois ganhadores do prêmio Nobel em neurologia. Cogitei seriamente a alternativa de fugir. Que mal me poderia ocorrer além da repulsa da classe dos neurologistas?

Infelizmente, percebi que as portas de saída estavam relativamente longe e, ainda, que estavam barradas com uma quantidade enorme de jovens, deveriam ser os estudantes, amontoados, de pé, em todos os espaços disponíveis……

Muito bem, já que vou ser massacrado, vamos sucumbir lutando.

– Meus senhores – exordiei como Hegel fazia com os seus alunos – estou na presença da elite dos cientistas e profissionais da neurologia, o que muito me honra e desespera; desespera porque, na realidade, eu entendo menos de neurologia do que poderia entender o menos preparado dos estudantes do primeiro ano desta prestigiosíssima universidade. Não é figura de retórica, é um fato; eu sou um arquiteto, que o acaso trouxe, contra todas as improbabilidades, até aqui e até este momento.

O que eu posso fazer e farei, e de relatar tudo que sei com a máxima franqueza que me for possível; se isso contraria ou não o atual estágio da ciência neurológica, não posso saber e, peço, como caridade, que não me culpem e não me questionem excessivamente. Eu somente posso dizer o que sei, não o que não sei.

Apresentarei então a teoria do cérebro livre, livre tanto quanto possível. De fato este, desde o nascimento e até antes, já está sendo condicionado por situações que, aparentemente neutras, já criam características específicas.

O que seriam estas características específicas, que com o tempo irão sempre mais se consolidando? Seriam “caminhos preferenciais” dos neurônios, entre os inúmeros caminhos possíveis. O que significa “preferencial”? Significa que, em qualquer situação em que este caminho pode ser “uma” alternativa, ocorrerá que essa será “a” alternativa escolhida, por aquele que convencionamos chamar do “eu consciente”.

Quanto mais caminhos preferenciais existirem, menor será a capacidade do cérebro buscar alternativas livremente e em função das conveniências que o sujeito se quer dar, tornando, o “eu consciente” progressivamente menos consciente, isto é, “inconsciente”.

A legislação penal de muitos países considera que uma pessoa nestas condições não é responsável pelos seus atos e que, se estes atos levassem uma pessoa “normal” à condenação, esta pessoa gozaria, no nosso sistema legal, de fortíssimas atenuantes. Ousaria dizer, fugindo do tema: bom para ele, ruim para a sociedade. Deriva disso, então, que a própria legislação, criação dos homens, reconhece a existência destes “caminhos preferenciais” que podem ser eliminados somente com processos longos e discutíveis, se e quando detectados.

Posto isso, podemos concluir que, existindo caminhos preferenciais, o cérebro não estaria livre e desimpedido para examinar “todas” as possibilidades. Isto, porém, é verdade somente em parte. Constatei que certos caminhos preferenciais são, de fato, fortemente impeditivos para os demais caminhos; existe, porém, uma outra categoria, nesta, o impedimento, mesmo existindo, é muito mais fraco, chega a quase não existir. A que se pode atribuir isto?

Uma das minhas conjecturas é que a primeira classe, as dos caminhos preferenciais fortemente impeditivos, seriam formado por caminhos que se inclinam para a violência, para o extremado egoísmo que, por sua vez, conduz a ganância, ao desejo incontrolado de “ter”, de ter sempre mais e mais. Os defeitos mais leves, ou os mais graves em grau ínfimo, que podem não prejudicar uma pessoa na sua vida, dependem da sua relevância global em relação à livre atuação dos neurônios.

Ainda, devemos considerar, entre estes caminhos preferenciais, os que levam as pessoas a serem avarentas, a acumular riqueza sem nenhuma função social, sem considerar, portanto, que a riqueza, mesmo sendo titulada a uma pessoa, tem uma incontornável função produtiva de âmbito coletivo.

Existem muitos outros caminhos preferenciais impeditivos da livre circulação dos neurônios, o caminho dos violentos que, com a força, querem satisfazer os seus apetites e que descartam caminhos mais sadios sim, mas mais trabalhosos para poder satisfazê-los. Enfim, sabemos que existe uma longa série de comportamentos que podemos considerar como inadequados para o convívio com os demais seres humanos.

Como consequência prática desta distinção entre caminhos preferenciais “fortes” e caminhos preferenciais “fracos”, o nosso processo de seleção de candidatos, alerta, insistentemente, que violentos, assaltantes, estupradores, ladrões, exploradores, egoístas, mentirosos e, se me permitem um meu acréscimo de cunho pessoal, os mal-educados e os cáusticos, não devem, por ser inútil, frequentar os nossos cursos. Eles, jamais, conseguirão terminá-lo.

Mas, enfim… qual é o escopo de dispor de um cérebro desimpedido destes caminhos preferenciais “fortes”? Não é certamente por algum imperativo ou necessidade ética ou moral, mas, simplesmente para permitir, ao próprio cérebro, explorar com mais facilidade as suas potencialidades. Os caminhos preferenciais fortes são, portanto, um grande obstáculo ao fluir livre dos neurônios.

Sabemos, ou melhor, acreditamos, nós leigos em neurologia, que, atualmente, estamos usando uma fração mínima do potencial dos nossos cérebros. Admitindo que isso seja verdade, não seria conveniente fazer com que estes cérebros se desenvolvam muito mais do que conseguiram até agora? A resposta a esta crucial pergunta é: “sim”.

E, como consequência deste “sim”, “alguém” conseguiu descobrir como fazer isso. Uma das primeiras conquistas, desse aumento da capacidade de processamento do nosso cérebro foi a da possibilidade de se deslocar no espaço, utilizando todas as leis da física e da cosmologia que já são de nosso domínio.

Quem seria este alguém que o conseguiu? Quem…? Absolutamente não direi. Sei, mas não direi. Posso até explicar por que não o direi. Estou impelido, de maneira inexorável, a não o dizer. Posso, porém, apresentar hipóteses plausíveis, muitas. Entre estas que apresentarei, pode estar incluída ou não, a verdadeira.

Vamos a primeira destas hipóteses: suponhamos que um neurologista, ou melhor, um grupo de neurologistas, de vossos colegas que poderiam até estar aqui presentes, descobriram a maneira de fazer trabalhar mais e melhor o cérebro e que, por não terem vaidade ou, mais simplesmente, para não serem incomodados, escolheram, não sei com quais critérios, um pobre arquiteto, para implementar UMA das possibilidades do cérebro potenciado.

Posso fazer outras mil hipóteses, aliás cada um dos presentes pode cogitar tantas quantas bem entender. Uma das mais populares seria a de alienígenas benevolentes; outra, que um poder superior, que podemos classificar, até, como “Deus”, cansado da nossa condição de eternos pecadores, finalmente, resolveu intervir.

De fato, não devemos esquecer que no último século, mataram-se mais de cento e cinquenta milhões de seres humanos. Mortos por outros seres humanos, todos eles classificados como “homo sapiens” e ninguém, que eu saiba, está se importando com essa espantosa incongruência.

Falarei brevemente do fenômeno do homem em se deslocar no espaço. Os cérebros exploram as suas imensas faculdades, como entidade imaterial. Os neurônios são sim matéria, mas o resultado das suas atividades, as ordens ou sugestões, são imateriais. Pulando uma série de deduções e descobertas, chegamos finalmente, a descobrir que a gravidade, a mais poderosa das forças do universo, por ser também imaterial, gerada sim pela matéria, mas, ela mesmo imaterial, a gravidade, podia ser controlada pelo cérebro.

Controlada, não quer dizer que pode ser anulada ou destruída, mas, simplesmente, manipulada, no nosso caso específico, desviada. Falando em desvio, famoso e bem conhecido, Einstein predisse e calculou que fortes campos gravitacionais podiam desviar a trajetória da luz. Fato comprovado décadas depois.

Finalmente consigo ensinar, a muitas custas claro, aos meus alunos a desviar, localmente e ao redor de si mesmo, as forças gravitacionais dos diversos corpos celestes. Todos já sabem, quanto maior a massa, mais intenso o campo gravitacional, mas quanto maior a distância da fonte do campo gravitacional, menor a atração.

No espaço vastíssimo ao nosso redor existem campos de força gravitacional, os mais diversos em relação à intensidade e, ainda, provenientes em infinitas direções. Todos sabem, ou deveriam saber, que, até um minúsculo empuxo, se permanentemente aplicado, poderá gerar grandes velocidades, e, portanto, cobrir imensas, distâncias. Na nossa Escola, ainda, estamos bem longe disso.

Ensinamos a desviar as forças gravitacionais mais intensas, para nos entendermos melhor, as da terra, da lua e do sol, ficando, então, sujeitos, somente às fracas intensidade dos planetas e outros corpos celestes do nosso sistema planetário. Sabendo selecionar a intensidades e direções que permeiam o espaço, é possível nos deslocarmos nesse, a nosso bel prazer.

Terminei a minha exposição, se foi maçante, me desculpem.

***

Depois de terríveis segundos de silêncio, começaram a pipocar aplausos que rapidamente se tornaram uma ensurdecedora avalanche. Sempre achei que a intensidade dos aplausos era proporcional à chatice de uma exposição, justamente para poder sair do torpor que essa exposição teria causado.

Infelizmente a provação, ainda, não tinha terminado. Depois dos aplausos, seguiram quinze minutos de confusas e generalizadas conversações, até o moderador iniciar a apresentar as perguntas que lhe tinham sido enviadas pela plateia. Sendo que não poderia responder a quinhentas perguntas, o moderador, escolhido pelo reitor da universidade, resolveu que ele selecionaria, entre as centenas de perguntas, as que julgasse mais interessantes. A pergunta selecionada seria verbalmente exposta pelo seu autor, eu devia responder, e o moderador iria decidir se a resposta era satisfatória. Tentei convencê-lo a não ser muito exigente comigo, lembrando-lhe que eu não era um neurologista e nem pretendia sê-lo.

A primeira pergunta veio de um estudante, entusiasmadíssimo por ser o primeiro.

– Senhor Collins, o senhor pode se deslocar no espaço?

Como dizem os franceses, ocorreu um tremendo “frisson” na plateia. Deixei que este frisson se extinguisse…

– Não, não posso. Como acho que, agora, todos já sabem, quem tem o cérebro contaminado com alguns vícios, não conseguirá, jamais, se deslocar no espaço. Sendo que eu sou um mentiroso, além de possuir outros defeitos, não teria nenhuma chance de poder conseguir essa façanha.

Poderia aduzir em minha defesa que eu sou somente um mentiroso funcional, isto é, a minha mentira tem como objetivo somente fazer com que um objetivo maior seja alcançado, portanto nunca mentiria para o meu próprio interesse.

Tratar-se-ia, então, de uma versão do conselho que Machiavel dava aos gestores da coisa pública, “o fim justifica os meios”. Este conselho é abominado quase que universalmente. Na seleção que fazemos na nossa Escola, se esta postura ou predisposição for detectada em um candidato, ele seria inexoravelmente barrado. Eu não fui barrado. Não fui barrado pela simples razão que sabia que não conseguiria ser admitido no curso de treinamento e, portanto, nem cheguei a tentar.

– Senhor Collins, o senhor alega que não é neurologista, porém atua, com sucesso, no campo da neurologia, como pode explicar isso?

– Pode ter a certeza de que, absolutamente, nada sei de neurologia. Afirmei, há pouco, que alguém descobriu isso, não eu. E este alguém pode sim, ser um neurologista e, pelo resultado, muito bom. Apresentei, entre outras possíveis hipóteses que o autor dessa descoberta poderia ser, com grande probabilidade, um grupo de neurologistas, e não somente um só. Por sinal, muito provavelmente, eles estariam agora neste auditório e, eu imagino, se divertindo imensamente.

Realço, mais uma vez, que eu sou somente um mero operador… além de um possível mentiroso funcional.

– Senhor Collins, o senhor evidentemente é um simples operador, sem demérito algum; todos, porém, tem absoluta certeza de que o senhor não ignora quem seria o autor dessa inacreditável descoberta.

– Também a esta pergunta já respondi antecipadamente. Sei quem é ou são, mas não o direi jamais. Informei, também, que me foi expressamente proibido de revelar esta identidade. Direi, agora, algo mais, que nunca disse antes: a condição número um, a condição essencial, para eu tornar-me o operador disso tudo é a de não divulgar essa identidade. Não sei, mas presumo que, faltando ao prometido, cessarei de ser o operador.

– Senhor Collins, o senhor há pouco disse que era um mentiroso, funcional até, e nem imagino o que seja isso. Porém, por ser um mentiroso é plausível que tudo que nos diz é uma deslavada série de mentiras. Em consequência, entre as tantas possibilidades existe também, a de o senhor mesmo, ser o autor desta incrível descoberta.

– Agradeço o elogio. Chamo a testemunho de que não poderia ser o descobridor deste poder do nosso cérebro, todos os neurologistas que já entraram em contato comigo. Todos eles podem jurar, sem medo de perjúrio, que eu absolutamente nada entendo de neurologia. Para deixar isso mais claro, se quiser, eu tenho capacidade para projetar a sua residência, o que faria com muito prazer e competência, quanto a neurologia… bem… até pouco tempo atrás, nem sabia que existia uma ciência com este nome.

O moderador, depois da nona pergunta, interveio.

– O nosso ilustre conferencista até o momento, conseguiu dar uma resposta a todas as nossas perguntas, na realidade foram todas “não respostas”, baseada na afirmação de que, por forças superiores à sua vontade, não pode responder.

Esta é mais uma informação sem fundamento real, sem nenhuma prova de que seja verdade, mas, como o nosso conferencista confessou – me perdoe Senhor Collins – ele é um mentiroso, funcional como ele mesmo disse, portanto em base a esta funcionalidade, podemos concluir que nada de relevante, no campo da neurologia foi apresentado, afora, naturalmente, que ele conseguiu fazer o homem voar. Tenho que me corrigir: conseguiu fazer as mulheres a se deslocarem pelo espaço.

Em função disso tudo, constatando que nada virá de esclarecedor para a neurologia, escolhi como última pergunta, uma totalmente estranha ao nosso campo de estudos. Por favor, Philippe Kaster, faça a sua pergunta.

– Senhor Collins, o senhor não estaria ganhando muito dinheiro com os cursos a 200.000 dólares e sem garantia de sucesso?

– Não, não estou ganhando dinheiro, mesmo cobrando 200.000 dólares para o curso. Um jornal, me parece de Albany, destrinchou todos os custos e concluiu que, o curso, era extremamente barato. Resultava que, pelos cálculos deles, o custo do curso propriamente dito, excluindo as principescas acomodações, seria de somente 30.000 dólares. O custo de um Focus ou de um Cruze, por exemplo; por ano se vendem milhões desses carros, portanto, o curso estaria ao alcance de milhões de pessoas.

Vejam bem, considerando que eu forneço para os alunos acomodações superiores a um hotel cinco estrelas e dividindo os famigerados 200.000 dólares pelos dias da duração do curso, temos 18 meses, que correspondem a 540 dias. Dividimos esses 200.000 dólares por 540 e resultará que o preço por dia seria de 370 dólares. Todos sabem que uma diária em hotel cinco estrelas, varia deste valor para acima, muito acima.

Considerem, ainda, que oferecemos muitos cursos preparatórios, entre os quais, o curso para obtenção do brevê de piloto de avião, pode-se concluir que os 200.000 dólares são uma quantia razoável, e que esta não me permite ganhar muito dinheiro, somente um pouco, muito pouco.

Percebi uma frenética conversação entre o moderador e Philippe Kaster, ao fim o moderador me interpelou:

– Senhor Collins, pelas regras que acordamos para este debate, não seriam concedidas réplicas, se eu julgar que a reposta foi adequada. Neste caso o Philippe Karsten, reputa que poderia fazer um adendo a sua própria pergunta. Sendo que considero que o senhor respondeu exatamente aos termos da pergunta, peço ao senhor, se estaria disposto a responder ao “complemento” da primeira, como está solicitando o senhor Karsten.

– Não tem problema algum, até gosto de esclarecer tudo que for possível. Senhor Karsten, pode perguntar.

– Considerando que os 200.000 dólares cobrem os custos diretos do curso, de onde o senhor obteve as ingentes somas para implantar o Centro de Treinamento na Virginia e as instalações, luxuosíssimas, como me informaram e o senhor confirmou, da vossa sede na Quinta Avenida?

– De fato a pergunta é pertinente à primeira, portanto não faço nenhum favor ao senhor Karsten em responder. As ingentes quantias, o valor me é desconhecido, mas, para quem estiver interessado neste aspecto, nada neurológico, do meu empreendimento, autorizo o meu diretor financeiro a fornecê-lo.

Esse valor me foi, digamos, “emprestado” pela mesma entidade que permitiu ampliar a capacidade do cérebro. O que quer dizer “emprestado”? Quer dizer somente que, ao fim da operação toda, devo prestar contas. Tenho vastos recursos à disposição, mas não certamente para meu prazer. Por exemplo, não comprei nenhum Aston Martin ou Ferrari, para me deslocar, nem adquiri mansões hollywoodianas para morar e, apesar das aparências em contrário, não usufruo de nenhum harém para me deleitar.

O moderador considerou a resposta satisfatória, lembrando que, mais uma vez, entrou na resposta o misterioso “quem”, sempre habilmente escamoteado pelo palestrante. “Enfim”, disse ele, “temos que considerar esta circunstância, do nosso conferencista não responder as perguntas cruciais, como um fenômeno da natureza, existe, e nada, ou muito pouco, podemos fazer para controlá-lo.”

Depois disso veio o costumeiro “pós palestra”. Fui cumprimentar, e fui cumprimentado, pelos reitores presentes e pelos dois neurologistas prêmio Nobel. Um dele, o mais velho, em voz baixa me segredou “Parabéns, nunca vi ninguém conseguir falar por tanto tempo sem dizer nada. Gostei”. Finalmente depois de todos os protocolos cumpridos, me encaminhei para a saída. Avancei a muito custo tentando ultrapassar uma barreira de uma centena de pessoas interpostas entre mim e a saída. Vieram perguntas, sucintas, como sucintas eram as minhas respostas.

– Sim, é possível…

– Não saberei dizer, mas, suponho que não….

– É uma hipótese deveras interessante…

– Muito obrigado.

– Não, não disse isso, consulte a gravação…

– Desculpe-me, mas não posso…

– Muita gentileza sua…

– Pode passar lá na Quinta Avenida, eles vão informá-lo corretamente…

– Sim, acho também…

– Obrigado…

– Muito obrigado…

– Sim, poderia ser uma possibilidade futura….

– Não, não fazemos nenhuma discriminação….

– Foi exatamente o que eu afirmei….

– Não, não sei onde elas estão…

– Muito obrigado…

– Sim, se o reitor me convidar novamente, com muito prazer…

– É muita bondade sua, não mereço tanto…

– Obrigado….

– Sim, sem dúvida alguma…

– Não, foi somente uma, entre tantas, hipóteses plausíveis.

– Muitíssimo obrigado, é gentileza sua….

– Obrigado….

– Obrigado……muito obrigado.

– Infelizmente isso não é possível…

– Obrigado…

– Muito obrigado…

– Obrigado…

– Obrigado…

Ufa… consegui sair… Dirigi-me para o carro onde me estavam esperando o Ernest e a Bettina e, antes de me considerar a salvo, fechando a porta do carro, saudei uma vintena de pessoas, que ainda me seguiam, com um forte “Agradeço a todos.”

– Vamos Ernest, me tira daqui logo… não aguento mais…

– Parabéns chefe, foi muito seguro… enfrentou bem a turma toda…

– O que é isso, Ernest, você é amigo do Billy?

– Billy… Que Billy é esse?

– Ora, Billy, o mecânico dos aviões, lá no Centro…

-Ah, esse Billy. Sei, sei…, mas porque falou que eu seria o amigo dele?

– Porque somente ele me chama de “chefe”.

– Não entendo, francamente…

– É que você, agora há pouco, me chamou de chefe.

– Quem? Eu? Nunca o chamei de “chefe”.

– Chamou, sim.

– Chamei, não.

– Bettina você ouviu? O Ernest não me chamou de “chefe”? Ele disse: “Parabéns chefe, foi muito seguro…”

– É verdade Ernest, você disse, talvez sem querer, mas, disse. O Edward tem razão.

– Me desculpe Edward, se falei; como disse a Bettina, foi sem querer.

– O que tem para desculpar? Nada, achei somente estranho, como disse, é somente o Billy que me chama assim. Muito bem, onde nós vamos comemorar o fim desse pesadelo neurológico?

– Onde quiser, chefe.

Peguei, para voltar ao Centro de Treinamento da Virginia, um avião de carreira direto para Washington, queria falar com Thomas Wilbur, o arquiteto chefe da empresa que tinha constituído para projetar e implantar o nosso centro.

– Bom dia, Sr. Wilbur, tudo tranquilo por aqui? E o senhor, como tem passado?

– Muito bem obrigado, bom dia também. Sim, aqui tudo tranquilo e com bastante trabalho também, pelo serviço que nos solicitou.

– Tanto assim? Parecia-me uma coisa simples.

– Aparentemente pode parecer simples, mas, organizar tudo que fizemos no formato que o senhor determinou, não foi nada fácil. Gostaria de ver o resultado?

– Agradeceria muito.

Vieram dois jovens arquitetos que depositaram, na grande mesa de reunião, diversos volumes. Thomas Wilmar, logo me apresentou, detalhadamente, cada um desses volumes.

– Este primeiro aqui, contém uma descrição sucinta de todas as instalações, com um índice remissivo para encontrar os projetos, os cálculos, os custos e todos os outros detalhes, nos demais volumes. Neste volume estão incluídos, também, um cronograma resumido e uma também resumida apresentação dos custos, custos no mercado americano, evidentemente.

Neste secundo volume são identificadas todas as normas, nacionais e internacionais adotadas, e os critérios de projeto que utilizamos. Nestes outros três volumes, estão contidos os projetos de todas as instalações do Centro de Treinamento, incluindo o domo. Para cada estrutura, ao final da sua apresentação, incluímos um cronograma do tempo necessário para a construção desta, finalizando com a lista dos materiais e dos equipamentos utilizados bem como, os seus custos, evidentemente, na data de hoje e em dólares americanos.

Neste último volume, inserimos uma série de fotografias mostrando o progresso de cada estrutura específica. Para concluir, nesta caixa, estão os pen drives que contêm, em modalidade eletrônica, tudo que está vendo em papel. Era isso que queria?

– Exatamente isso. Parabéns para todos vocês. Poderíamos ficar a sós, eu e o senhor, um minuto? – disse, me dirigindo ao sócio majoritário da empresa.

Todos saíram, inclusive os demais arquitetos, sócios da empresa, que assistiram à apresentação do exaustivo trabalho deles.

– Bem, senhor Thomas Wilbur… posso chamá-lo somente de Thomas?

– Certamente, o senhor fez nos ganhar bastante dinheiro, pode me chamar de Thomas à vontade, até de Tommy, se quiser.

– Então me chame de Edward e me dê um dólar.

– Como?

– Como, “como?” Eu pedi para me dar um dólar, é tão difícil entender isso?

– Não, não, eu entendi bem… mas não entendo…

– Thomas, você me parece um pouco confuso, entende e não entende. Entendo eu que você não quer me dar um dólar.

– Não, não é bem isso… – Buscou freneticamente nos seus bolsos – Eis aqui o seu dólar! Está bem?

– Parabéns Thomas, você e seus sócios acabaram de comprar sessenta por cento das cotas desta empresa, os demais vinte por cento ficam para os meus colaboradores, o Ernest e a Jane que, ainda, nada sabem disso; você me faria um grande favor se os avisasse e providenciasse, de imediato, as transferências das titularidades. O Ernest tem a minha procuração, pode tratar de tudo que for necessário. Podemos agora falar de coisas sérias?

– Oh… não sei… não sei o que falar…, sei lá… obrigado será suficiente?

– Podemos falar de coisas serias?

– Sim, claro que podemos. Sim, podemos… diga.

– O trabalho de vocês me parece ótimo, gostaria que me mandasse uma cópia de tudo que me mostrou, lá no centro, para poder analisar com calma o conteúdo. Enquanto faço isto, gostaria que você providenciasse as traduções desse conjunto todo, em diversas línguas.

– Quais?

– Direi, logo mais, … por favor, não me interrompa, senão perco o rumo do que tenho que dizer.

– Desculpe.

– Está desculpado, não se preocupe… Ia dizendo… Já te disse que todos os custos da tradução você deve debitá-los ao Ernest?

– Não, não disse.

Está vendo no que dá interromper-me? Já te disse de como quero que se façam as traduções?

– Não, não disse.

Está vendo…? Bem, para cada língua que indicar, deve contratar uma empresa que fará as traduções, não um tradutor individual, mas uma empresa, e depois, contrate outra empresa para revisar, em profundidade, a versão da primeira. É muito simples… deu para entender?

– Sim, é simples e entendi.

– Para treinar o sistema que vai implantar, vamos começar com o francês. Serão muitas línguas no total. Pensando bem, deve providenciar que as empresas de tradução assinem um documento de confidencialidade, com os nomes de todos os envolvidos na tradução, e estabeleça penalidades elevadíssimas, tão elevadas que, quem divulgar qualquer notícia a respeito, até o simples fato de estar fazendo a tradução, deve vender a mãe dele para poder arcar com as penalidades. Não sei se entendeu o espírito da coisa?

– Sim entendi, mas será que encontraria empresas que aceitariam estas condições, esta penalidade tão alta como você sugere?

– Não estou sugerindo, estou determinando. Claro que as encontrará, comece pagando o dobro da tarifa normal ou até mais, até aceitarem as penalidades brutais que você estabelecerá. Acha que tem estômago para fazer isso?

– Se o Ernest tem o dinheiro, pode ter certeza de que terei estômago para isso tudo.

– Antes que eu esqueça, você e a sua mania de interromper-me…

– Foi somente uma vez.

– Sim, e com esta última são duas. Se você não me interromper mais, gostaria de continuar: vocês arquitetos, me podem criar algumas alternativas de capas? A selecionada seria a capa de todos os volumes de uma dada edição. Gostaria de ver nestas capas, o domo, com o emblema da escola com a escrita “Centro de Treinamento” em inglês, e mais abaixo, com letras um pouco maiores ou de cor diferente, o mesmo na língua utilizada nos volumes. Estes esboços, logo prontos, você poderia enviá-los para mim no Centro?

– Isso é fácil, é o que todos aqui gostamos de fazer.

– Maravilha, deixe-me ir correndo ao centro de treinamento, tenho um monte de coisas para fazer, não posso ficar aqui, tagarelando, o dia todo.

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