A segunda turma de alunos aptos para iniciar o último estágio do treinamento, era formada por quatorze deles. Três a mais do previsto um mês atrás.
– Bem, amigos, dou-vos os parabéns por terem chegado até esta última etapa. A primeira turma, de cinco mulheres idosas, depois de quase três meses de treinamento, passou tranquilamente no exame final. É de se esperar que vocês, bem mais jovens e, em média, muito mais instruídos, deveriam completar o curso em, pelo menos, dois meses. Concordam?
Ficaram confabulando entre si, e pelo que eu podia deduzir, nem todos concordavam.
– Professor, nos desculpe, nós não sabemos o que temos pela frente, portanto, não podemos nem concordar nem discordar, mas, somente, confiar no que o senhor considera possível.
– Pontos para vocês, fizeram uma boa avaliação. Agora vou relembrar algo que vocês já sabem, mas que sempre reitero no início desta última e fundamental etapa: apesar dos vossos esforços e dos esforços do vosso instrutor, que seria eu mesmo, nem todos chegarão ao objetivo final… se deslocar no espaço.
Em teoria, todos vocês poderiam. Mas, realmente, não sabemos o que os vossos cérebros decidirão fazer. Gostaria que essa primeira aula iniciasse com a apresentação de cada um de vocês, e que também informassem por qual motivo quiseram fazer este curso, e o que pretendem fazer após completá-lo com sucesso. Eu os chamarei pelo nome, e todos vocês me podem chamar de Edward.
Neste primeiro nosso encontro no momento, eu me apresento. Me chamo Edward Collins, sou arquiteto, trabalhei diversos anos na prefeitura de New York, no departamento de análise e eventual aprovação dos projetos de edificações. Quando terminar de dar aula de deslocamentos no espaço, procurarei uma boa praia deserta e lá ficarei por umas dezenas de anos.
Agora, é a vez de vocês…
***
– Justin, parabéns para todos, pensei que iria ter onze alunos e constato que são quatorze.
– Na realidade seriam quinze os qualificados, mas um desistiu, uma mulher.
– Que coisa esquisita. Por qual razão ela desistiu? Talvez por ser a única mulher do grupo?
– Não, acho que não, ela é muito segura; até agora enfrentou tranquilamente esta situação.
– Ela ainda está aqui no centro?
– Com certeza sim, disse que não continuaria com o curso, mas não disse que ia sair daqui imediatamente, por acaso você quer falar com ela?
– Seria uma boa ideia, acho conveniente conseguir descobrir quais os motivos desta sua estranha atitude. Me poderia trazer, antes, a pasta com todas as informações dela?
– Seguramente. Depois, quando você quiser, mando chamá-la.
Então, Charlene B. O’Rourke, não quer continuar o curso…. Vejamos: 32 anos, 1,72 de altura e 72 quilos…, a fotografia não é muito boa, mas parece ruiva…, casada e divorciada no mesmo ano…. as notas, vejamos… discretas no começo…, mas sempre crescendo…, a nota dos instrutores de voo é a máxima, tem poucos alunos com estas notas. Não dá para entender…, tenho que falar com ela.
– Bom dia Charlene, posso chamá-la assim?
– Bom dia. Sim, é como todo mundo aqui me chama.
– Ótimo, você, por ter chegado ao último estágio… Por favor pode me chamar de Edward, de acordo?
– Sim, Edward. De acordo.
A voz dela era clara e tranquila e, de fato, era ruiva. Pela cor do rosto, era uma ruiva natural.
– Muito bem Charlene, penso que você já deve saber porque a chamei.
– Sim, imagino que seja por não querer fazer o último estágio.
– Exatamente Charlene, não dá para entender. Com certeza sabe que milhares ou, até milhões de pessoas gostariam de estar no teu lugar. Você teve boas notas, goza de boa saúde, não teve problema algum durante toda a sua estadia aqui, todos a respeitam: instrutores, alunos e todo o pessoal de serviço. Estes, até, a consideram a mais educada e simpática das alunas. É um mistério. Teria algum problema em desvendá-lo?
– Não, a princípio não teria problema algum, acontece, porém, que eu mesma, não atino com o porquê desta minha decisão.
– Ora, ora, ora… O mistério em lugar de se esclarecer, torna-se mais denso. Se quem tomou a decisão não o sabe, quem mais pode me esclarecer?
– Francamente, não saberia dizer.
– Sei… entendo. Somente fiz uma pergunta retórica. Estou pensando, se você, Charlene, concordar, podemos fazer um jogo de detetives, tentando descobrir, quem é o “criminoso” que não deixa a Charlene voar. O que acha?
– Para mim, tudo bem, eu também gostaria de saber quem é este criminoso, tenho suspeitas, mas gostaria de sabê-lo com segurança.
– Muito bem, já estamos no bom caminho. Tenho que avisá-la que a investigação pode conduzir a perguntas de caráter pessoal, para as quais, talvez, não se sinta muito à vontade em respondê-las… ao menos responda-as com sinceridade.
– Não tinha pensado nesse aspecto. É um pouco melindroso, não é?
– De fato, é. Quero sugerir um método que, talvez, torne as perguntas “não melindrosas”, o que acha?
– Isto é impossível.
– E se consigo convencer-te que é possível? Podemos até fazer uma aposta, o que acha?
– O que vamos apostar?
– O que você quiser. Coisas simples, como, por exemplo, um jantar.
– Isto está me parecendo uma cantada. Elegante, mas uma cantada. Um jantar à luz de velas?
– Sem velas, com a maior claridade possível; se quiser, o jantar pode ser um almoço, ou até um lanche na cafeteria. Era somente para realçar a aposta. Não tenho nenhuma segunda intenção, se é isso que a preocupa.
– Geralmente, é a não existência de nenhuma “segunda” intenção que preocupa a maioria das mulheres. No seu caso, acho bobagem que o senhor…
– Edward…
– Sim, Edward… que você possa ter segundas intenções.
– Ora, e por que não as teria? Você é uma mulher jovem e atraente, deve ter recebido inúmeras cantadas…
– O senhor, desculpe…. Edward, você sabe perfeitamente o porquê.
– Negativo. Não sei, nem perfeitamente, nem imperfeitamente. Não sei. Poderia elucidar-me?
– Desculpe, Edward, entramos numa conversa muito melindrosa e por minha culpa. Podemos voltar aonde chegamos antes da aposta?
– Voltamos, sim. Um dia, porém, quando tiver vontade, poderia me esclarecer por que eu não poderia ter segundas intenções a seu respeito?
– A culpa é toda minha por ter sugerido que o jantar seria uma cantada. De castigo, então, direi por que falei isso.
– Como, castigo? Não entendo.
– Vai entender. A simples razão que você não poderia ter segunda intenção é porque você tem coisa muito melhor do que eu, muito melhor… e todo mundo sabe disso.
– Agora sou eu que estou melindrado. E o que seria esta “coisa muito melhor,” que todo mundo sabe e eu não sei?
– A Miss Universo.
– Miss Universo?
– Sim, Miss Universo, e mais precisamente, Miss Universo 2020.
– Ah… ah… agora entendi. Você acha que eu e a Miss…
-É o que todo mundo diz.
– Por acaso tem nome esse “todo mundo”?
– Sim, diversos.
– Deixa eu adivinhar…, não seriam por acaso um, ou todos, os quatro primeiros alunos? Os pioneiros, como eles gostam de ser chamados?
– Sim, são eles que garantem….
– Garantem… é? Por acaso eles falaram da viagem que fizemos juntos, eles, eu e a tal de Miss Universo 2020 que, para clarear a história toda, é a chefe do nosso escritório de seleção em New York?
– Sim, falaram, também dessa viagem.
– Gostei desse “também”. Poderia ser mais específica? Não, não…, deixamos isso tudo de lado, não vamos transformar a nossa conversa em um “disse me disse” de comadres. Te asseguro que nunca existiu nada do que estão dizendo os quatro cavaleiros do apocalipse. Absolutamente nada. Podemos continuar com a nossa conversa de antes da infeliz aposta?
– Podemos, sim, e me desculpe por tudo isso.
– Não tem nada a desculpar… Até que gostei de ser considerado o tal… de uma Miss Universo. Voltamos ao assunto sério. Eu tinha prometido que, quando fizer uma pergunta melindrosa, você mesmo, com o meu sistema, não a achará melindrosa.
– Vamos a isso, estou curiosíssima.
– Seria o seguinte, quando eu te fizer uma pergunta a qual você não se sente à vontade em responder, você não a responde e fará, a mesma pergunta para mim: eu me comprometo a respondê-la.
Preste atenção; quando você, repete a pergunta para mim, isso vai significar duas coisas, a primeira é, que você não quer responder a essa específica pergunta, e a segunda seria que, por eu ter respondido, talvez, você se anime a fazer o mesmo. O que acha?
– Quer dizer que, por exemplo, que se você queria saber a minha idade, e eu não quero que se saiba, pergunto a sua e você é obrigado a dizê-la, é isso?
– Perfeitamente isso. No exemplo que você fez, eu tenho uma vantagem indevida, eu sei a tua idade e você não sabe qual é a minha… para emparelhar, a digo: tenho 34 anos.
– O começo é fácil, no teu fichário consta que oito meses depois de casada já divorciou… amigavelmente. Isto é muito incomum, deve ter havido algo muito forte, até violento, acho. Poderia esclarecer?
– Não é uma pergunta melindrosa, talvez somente um pouco difícil de explicar. O meu ex-marido provinha de uma família que possuía muitos postos de serviço… postos de gasolina. Portanto, nenhuma dificuldade financeira. Ele se ocupava intensamente com os negócios. Aconteceu que eu me formei em “belas artes”, e tinha pretensões de me tornar uma estilista de moda feminina, é uma pretensão boba eu sei, mas…
– Não acho boba, não. Se é o que gostava, tinha todo o direito de o querer. Continue, por favor.
– Enfim, por ser de origem italiana, ele pretendia que eu ficasse em casa, aguardando-o, esperando ter filhos e me tornando uma “mamma”, como a sua. Não tinha como conciliar estas duas aspirações tão diversas.
– Imagino, e o que aconteceu?
– Aconteceu que eu consegui, depois de muito procurar, um emprego de estilista em uma fábrica de roupas “pret a porter” e, toda feliz, anunciei esta minha conquista ao marido. O céu veio abaixo. Ele gritou comigo e, nem pensar que eu ia poder sair de casa e andar por aí… não explicou o que seria este “andar por aí”, porém devia ser algo terrível, porque toda a família dizia que eu “não podia andar por aí”. Passamos semanas turbulentas…, no fim aconteceram duas coisas, eu perdi o emprego, … não tinha ânimo para trabalhar e perdi o marido. Fizemos um divórcio amigável, sem muito estardalhaço. “Não ficaria bem para a família” dizia a “mamma”. Enfim, foram generosos, me deram duzentos e cinquenta mil dólares para sair discretamente da “família”.
– Entendo. É tudo muito triste, mas nada de melindroso. Eu também me divorciei, mas numa situação bem mais simples, não tinha uma “família” no meio; com todo o respeito às famílias, claro. Continue.
– A parte escabrosa vem agora….
– Vá contando, não pare.
– Vi o anúncio da sua Escola…. Voar…voar…. Então pensei de inscrever-me, frequentar o curso e, pensamento de criança, voltar para a “família” dizendo: Estão vendo? Eu estou “andando por aí“, enquanto voaria ao redor da casa deles. Infantil e ridículo.
– Infantil sim; ridículo não. Você ficou muito magoada com a obtusidade deles, é uma reação natural querer dar o troco, neste caso um troco deveras inofensivo. Como já disse, infantil, mas isento de ódio.
– Obrigado pela compreensão. Continuando, nesses meses todos passados aqui, em um ambiente no qual a cordialidade, a compreensão das aspirações dos outros, as sinceridades no convívio diário, aos poucos, lentamente, me fizeram entender a infantilidade da minha motivação em voar. Ou, como vocês todos gostam de dizer, de se deslocar no espaço. Fim da história.
– Parabéns. Conseguiu contar tudo. Constato que não tinha nada de tão melindroso.
– Ah, é? Você não acha melindroso que uma mulher adulta se comporte como uma criança de cinco anos? Eu acho vexatório. Fico tremendamente envergonhada.
– Se você se sentir envergonhada, deve considerar isso como uma boa coisa, quer dizer que superou este momento da sua vida. Pode agora seguir em frente. O que pretende fazer agora?
– Como já disse, a motivação para estar aqui desapareceu por completo. Até acho, me desculpe Edward, uma tremenda de uma bobagem querer se deslocar no espaço. Para que, afinal?
– Posso contar com a sua discrição?
– Claro que sim.
– Não espalhe, se você divulgar o que vou te dizer, seria o fim do meu empreendimento.
– Pode falar. Não sou uma faladeira. Pode dizer o que quiser, será nosso segredo.
– Confio em você. Vamos lá, … eu também considero uma baboseira querer ir, por aí, no espaço. É uma baboseira como querer um carro possante, uma casa extremamente luxuosa, ser admirado pelas multidões, e assim em diante. Em relação a estes comportamentos, o tal de “homo sapiens”, está ainda na idade da pedra, ainda é escravo de desejos insignificantes. Atualmente, alguém disse que o “ter”, tornou-se mais relevante que o “ser”. Continuando na nossa conversa: o que pretende fazer quando sair daqui?
– Voltar à estaca zero. Procurar um emprego do qual eu possa gostar… de estilista, se possível… sei lá, tenho que ver o que seria possível.
– Você disse que estudou “belas artes”? E por que isso?
– Desde criança eu desenhava, pintava, vestia bonecas, com roupinhas que fazia… minha mãe me incentivou a fazer esse curso. Coitada, se endividou toda, e eu não consegui, ainda, fazer nada que compensasse o sacrifício dela. Coitada da minha mãe.
– Deixa pensar um pouco. Quanto você ganhava, na tal fábrica?
– Cerca de seiscentos dólares por semana, mais alguns bônus, por modelos que vendiam mais, coisas assim.
– Entendi, entendi… Vejamos… e, se eu te oferecesse dez mil dólares por mês, você aceitaria?
– Dez mil dólares por mês? Mas isso é um monte de dinheiro. Seria fantástico…, mas, espera um pouco, não seria uma espécie diferente de cantada? O que deveria fazer?
– Cuidar da imagem visual da Escola; ainda não temos um emblema, ou algo do gênero, que nos identifique, não temos uniformes exclusivos para os nossos alunos e alunas, não temos uniformes para os nautas, apropriados para cada sexo, enfim, no campo da comunicação visual, somos um desastre.
– Interessante. Você acha que eu posso conseguir fazer isso tudo?
– Deveria, deveria sim, em homenagem aos sacrifícios da sua mãe.
– Deveria tentar, então. Muito bem, aceito, com uma condição.
– Qual?
– Se eu não conseguir atender às tuas expectativas, você me avisa, e eu sumo.
– Um pouco drástica, eu acho.
– Pode ser, mas é uma condição necessária para a minha autoestima.
– Entendo, condição aceita. Um momento, antes de nós brindarmos a esta feliz ocorrência, tenho outra proposta a fazer. Você poderia acumular outro serviço? Se a resposta for sim, ganharia, então, … deixa eu ver…. quinze mil dólares ao mês?
– Meu Deus… o que é isto? A escalada ao paraíso? Espera um pouco, o que deveria fazer para ganhar tudo isso? Nada de comprometedor, espero.
– Nada mesmo. Você deveria terminar o seu curso, pelo qual pagou, aprender a se deslocar no espaço e tornar-se a garota símbolo da nossa escola.
– Uma garota um pouco madura, não acha?
– Pode ser, mas de cabelos vermelhos. Você deveria fazer umas roupas exclusivas para a garota símbolo da escola de deslocamento no espaço.
– E se eu não conseguir aprender? Você sempre disse que existe esta possibilidade.
Bem, nesse caso, terei que rebaixar o seu ordenado mensal para quatorze mil e novecentos dólares. As tarefas continuariam as mesmas, com um pouco menos de “glamour”. Claro.
– Talvez irei me arrepender, mas aceito, … aceito o desafio, me coloque de novo no curso, sim?
– É assim que se fala, e que se faz, parabéns.
***
– Alô, Dixon! … É o Edward Collins que fala.
– Alô, senhor Collins, tentei falar com o senhor, mas não consegui. Na sede da Quinta Avenida ninguém quis me dizer onde o senhor estava.
– De fato, dificilmente passo por lá, tenho outro escritório ali por perto. Me desculpe se eu saí correndo, mas tinha que dar a primeira aula para os meus alunos. As aulas de deslocamento no espaço… tem que entender que me pagam uma bela quantia para fazer isso.
– Acho que não tem problema, dia mais dia menos não deve fazer muita diferença. Queria informá-lo de que aquela possibilidade que fiz circular por aqui, deu algum resultado. Cinco laureados com PhD em neurologia já estariam dispostos, dois que ensinam aqui na universidade e três que já atuam nas clínicas Onix. A princípio, estariam dispostos, precisam, porém, saber algo mais do que pude transmitir. Como podemos conseguir isso?
– Boas notícias, Dixon, agradeço muito. O que acha deles todos, no próximo sábado de manhã, pegarem um jato e descer aqui, diretamente, no centro de treinamento? Teríamos um fim de semana inteiro para esclarecimento mútuo.
– Boa ideia, como posso processar isto?
– Fala com o Ernest, ele vai providenciar tudo. Me avisa se der tudo certo. Nesse caso vou transferir a aula que daria pela manhã para a tarde, assim eles, assistindo, poderiam ter uma ideia melhor do que se trata. Combinado?
– De acordo. Um momento, se aparecer mais um ou dois, posso enviá-los também?
– Pode sim, e não esqueça que você deve vir também.
– Acha necessário?
– Acho indispensável. Mais uma coisa… se, por uma razão ou outra, o pessoal da clínica Onix ficar sabendo disso tudo, e criar alguma dificuldade para você, não esqueça que aqui será sempre muito bem-vindo.
O jato aterrissou às dez horas e um minuto do sábado a seguir. Para a oportunidade fiz estender o tapete vermelho, que estava previsto para alguma alta autoridade, mas que, até o momento, nunca foi utilizado. No futuro deveríamos dispor de um cerimonial de chegada, tenho que pedir a Charlene que pense nisso.
Vieram os cinco neurologistas acompanhados do Dixon e, para minha surpresa, também o Ernest e a Bettina “Temos que tratar de diversas coisas” confidenciaram-me Ernest, logo na chegada. “Problemas?”. “Não, somente a tomada de decisões para o negócio da Califórnia”. “Entendido, logo que for possível, falaremos disso.”
– Por favor senhores, me sigam. Bem-vindos ao Centro de Treinamento da Virginia. Vamos entrando. Por favor, Dixon, poderia fazer as apresentações?
-Sim, senhor Collins. Apresento-lhe os senhores Ettore Masina e Cristiano Niardós, das Clínicas Ônix e os senhores Emilio Zelasky e Ernesto Ruaiér (se escreve: Royer) de Harvard e finalmente, Jan Kennet, que saiu recentemente de Harvard e está procurando uma colocação; recusou-se ir para as clínicas Ônix.
– Muito bem, meus senhores. Eu me chamo Edward, e sou o dono dessa escola, como creio que já saibam. Estas moças simpáticas os levarão aos vossos apartamentos, marcamos de nos encontramos aqui às dez e meia. É possível? Ótimo.
Fomos todos, excluídos Ernest e Bettina, dar um bom passeio visitando todas as instalações. Eles, evidentemente não esperavam esse luxo todo, mas nada disseram, até chegar ao domo.
– É aqui que fazem os treinamentos?
– Sim, é aqui mesmo. Se vocês concordarem, sugiro de continuar a visitar as instalações do centro até a hora do almoço, depois farei uma apresentação geral do complexo com o Diretor Geral deste centro, o senhor Justin, que se juntará a nós no almoço. A seguir darei a minha aula aos meus quinze alunos…
– Seriam aqueles que… logo mais… eles…
– Exatamente, eles estão aqui há mais de um ano; em cerca de dois meses se deslocarão no espaço, como fizeram as alunas da primeira turma. Depois da aula, estarei à vossa disposição para dar todos os esclarecimentos necessários. Amanhã de manhã, pode ser às dez horas, visita ao domo e explanação sucinta de como será utilizado.
– Antes das dez horas podem aproveitar as instalações do centro, a piscina, o spa, a biblioteca, tudo que está aqui fica ao seu dispor. Finalmente, depois do almoço, darei os esclarecimentos finais para vocês todos poderem tomar uma decisão. Combinado assim?
Todos concordaram, e assim fizemos.
***
Nenhum problema vindo da Califórnia, o programa continuava dentro do planejado. A Califórnia foi somente uma desculpa do casal fazer um passeio, “Já que o avião vinha, dois a mais, não fazia diferença, o preço era pela viagem, não pela quantidade de passageiros…”. Assim justificou-se Bettina.
– Bem meus amigos, por serem, todos vocês, recomendados pelo Dixon, podem ser considerados como já contratados. Não, não, esperem… é claro que vocês devem saber muito mais para ponderar bem uma vossa decisão, somente queria informar que, para mim, não precisam me demonstrar nada. Por serem, todos vocês, Ph.D. em neurologia, vocês são amplissimamente qualificados, muito mais do que eu mesmo, para o trabalho que estou fazendo.
Aliás, gostaria de alertá-los que, se aceitarem trabalhar para este centro ou outro similar, acho que não serão bem vistos pela maioria dos vossos colegas. Isso deve ser considerado como um aspecto negativo, talvez único, de trabalhar nas Escolas. A perplexidade, para não dizer, aversão, a esta novidade, é ainda grande, deve passar ainda muito tempo até que isso desapareça. Mas, vamos em frente. Vocês todos, assistiram a minha palestra, vocês viram e ouviram tudo o que fazemos aqui no centro, posso, a qualquer momento, dar mais e melhores explicações, se necessárias….
– Com exclusão das que não quer dar…. – Interrompeu Ettore Masina.
— Exatamente. Parece-me ter explicado, com suficiente clareza, as razões; posso repeti-las quanta vezes vocês queiram. Chegará o dia em que tudo será explicado. Até lá, terão que aguardar. Na realidade, o maior prejudicado sou eu mesmo, que tenho que sempre contar a mesma estória. Vamos ao que interessa, e peço uma certa discrição sobre o que vou dizer.
Já estamos bem adiantados na construção de um novo centro de treinamento, similar a este, na Califórnia, perto de São Francisco. Evidentemente, eu não posso estar em dois lugares distintos, tenho, portanto, que “treinar treinadores”. A melhor alternativa é de procurar estes futuros treinadores na classe dos neurologistas. Isso me pouparia do imenso trabalho de complicadas explicações. Tratando-se de neurologistas, somente algumas noções a mais, serão suficientes para habilitá-los a tal tarefa.
Uma outra condição necessária, seria de dispor de alguns conhecimentos básicos de física e de cosmologia. Coisas corriqueiras que, se já não as possuem, rapidamente poderão obtê-las e facilmente aprendê-las. A secretaria do Diretor Geral deste centro, a senhora Maryan, que eu sequestro sempre quando estou aqui, vos fornecerá um CD, com algumas das minhas aulas. Isto vos facilitará na compreensão do vosso trabalho de “instrutores para o deslocamento no espaço”.
Adianto, e por enquanto recomendo o máximo sigilo, em relação a nossa intenção de instalar centros de treinamento em outros países. A ideia geral, por enquanto, seria de ter um centro de treinamento em cada continente num prazo estimado de cinco anos. Dois destes já estão sendo discutidos. É muito oportuno que vocês saibam o que está sendo tratado. Já está claro, para vocês, que pessoas com o cérebro deturpado, seja por que razão for, não conseguirão se deslocar no espaço. O cérebro deve estar, o mais possível, livre para poder-se dedicar a esta sua nova função.
O que agora devem saber é de que nós, do Centro de Treinamento, não consideramos nacionalidades, crenças, etnias, e não sei mais o que, como fatores discriminatórios, para nós da Escola são somente características socioculturais. Este é um aspecto que estamos discutindo com as autoridades dos países onde pretendemos instalar os novos centros.
Se, estas autoridades não concordarem com as nossas condições, não haverá centro de treinamento nesse país. Entendam bem, temos o maior respeito pelas autoridades de cada país, mas não abdicaremos, de maneira alguma, dos nossos princípios. Será a humanidade, no seu todo, que se deslocará no espaço, e não americanos, russos ou japoneses.
– Acho que todos nós entendemos, e até louvamos, esta postura. – Interveio Emilio Zelasky, porém não será toda a humanidade, mas somente uma parcela desta, os “eleitos”, diria.
– Boa observação Emilio. Recomendo, porém, não utilizar jamais o termo “eleitos”. Todos, repito todos, podem se deslocar no espaço: somente precisam, atender a algum requisito, como, por exemplo, não serem assassinos ou exploradores da ingenuidade ou ignorância dos outros. Isto é difícil?
– No momento, sim, para muitas pessoas.
-Muito bem, enquanto estas pessoas não possuem as condições essenciais… ficam aqui embaixo, presos a terra. Assim como, quem não tem condições e treinamento para dirigir um veículo ou um avião, também ficará a pé… ou no solo.
Voltando ao nosso interesse imediato, gostaria de dar mais algumas informações. Todos os presentes, podem optar ou não para se tornarem “treinadores”, mas, todos vocês, a qualquer tempo, podem entrar e fazer parte da nossa organização. Outra informação: a carga de trabalho é relativamente leve, portanto, vocês terão condições de continuar estudando o que quiserem. Finalmente, para deixar tudo bem às claras, direi que não deveriam se preocupar com o vosso ordenado. Tenho certeza de que o acharão satisfatório.
– Como pode ter certeza disso? – Interveio novamente Emilio Zelasky.
– É simples. O dobro do que você estaria ganhando agora, seria satisfatório?
– Muito satisfatório. – Disse um deles. – Deveras, muito satisfatório. Quando posso começar?
Foi uma gargalhada geral.
***
Justin me procurou, agitadíssimo, depois da minha aula matutina.
– Estão duas pessoas de uma embaixada aqui de Washington, que querem falar consigo, e com a máxima urgência.
– Ah, sim, de que país são? Já recebi a visita de representantes de muitos países.
– São da embaixada russa, por isso os deixei entrar. Algum problema?
– Problema algum. Onde estão?
– Na minha sala.
– Acompanha-os até a minha, por favor. Outra coisa, talvez, eles não gostariam de ter que falar com um terceiro presente, entende?
– Entendo perfeitamente, aliás, prefiro ficar fora destes negócios misteriosos.
– Errado Justin, deve começar a entrar nestes negócios misteriosos, certo?
— Se você o diz….
***
Por favor, meus senhores, queiram se acomodar. Aceitam alguma bebida?
– Muito agradecidos, mas, não. Devemos, antes de tudo, nos desculpar por esta invasão, sem nenhum pré-aviso, mas, parece que estão precisando de uma resposta de imediato…
– Um momento por favor. Nenhum problema com a vossa visita, serão sempre bem-vindos. Somente terão que me explicar quem são aqueles que querem uma resposta imediata e, em relação a qual questão.
– Mil desculpas. Começamos um pouco atabalhoadamente. Recomeço. Eu, Victor Kirischenko, e o meu colega aqui, Dimitri Ivanovich, somos adidos culturais da embaixada da República Federativa Russa em Washington, eis aqui os nossos cartões de visita.
– Muito prazer, senhores Kirischenko e Ivanovich, eis aqui o meu cartão de visita. Mas, sem dúvidas, já sabiam o meu nome.
– Exatamente, recebemos boas informações a respeito do senhor e da sua escola.
– Agradeço.
– Recebemos, esta manhã, bem cedo, um pedido do nosso Ministério do Exterior em Moscou, de averiguar, expressamente com o senhor, se é verdade que estaria disposto a instalar um Centro de Treinamento na Rússia.
– Sim, é verdade. Estamos, nós da Escola, do centro de treinamento para deslocamento no espaço, intencionados a criar um centro de treinamento similar a este, em Moscou. Claro, se o vosso Governo aceitar as nossas condições, e nós aceitarmos as condições do vosso Governo.
– Excelente. Fantástico. Nos temíamos ter uma acolhida bem mais difícil, mas constato que em poucos minutos temos um seu posicionamento basicamente favorável. Excelente. Deve, porém, saber que não será conosco que as tratativas deverão ser feitas. As iniciais deverão ser entabuladas com o nosso Embaixador. Ele nos autorizou, se nós descortinássemos alguma possibilidade, a convidá-lo à nossa Embaixada, no dia e hora que quiser… basta somente telefonar para o meu número, ou para o número de Ivanovich.
– Posso marcar desde já, se não for inconveniente; o que acham às onze horas de amanhã?
-Melhor, impossível. O aguardaremos na entrada, e o levaremos, sem muitos entraves até a sala do Embaixador.
– Agradeço a gentileza. Posso convidá-los para ver as nossas instalações? Não tem nada de muito especial, mas, estamos abertos a visitas ilustres. Quando o vosso Embaixador quiser visitar, basta somente vir. Nesse caso, devo chamar o Diretor Geral deste centro para ele saber… afinal eu nem sempre me encontro aqui.
***
– Senhor Embaixador, quero agradecer o convite de Vossa Excelência para visitá-lo, e assim esclarecer alguns aspectos de uma nossa possível colaboração.
– Permita-me discordar, somos nós da embaixada que queremos agradecer a sua tempestiva anuência ao nosso pedido. Por favor, não estamos numa solenidade pública, portanto não precisa tratar-me de “Vossa Excelência”. Se não for muita ousadia da minha parte, pode, aqui em privado, chamar-me de Yuri, simplesmente Yuri. O meu nome é compridíssimo, sem contar os títulos. Nas solenidades é uma chatice ouvir toda essa lenga lenga.
– Novamente agradeço por essa sua liberalidade; isso tornará a nossa conversação mais célere. Evidentemente, pode me chamar de Edward.
– Muito bem Edward. Vamos começar. É verdade que prometeu, parece-me, a um nosso cidadão, de querer instalar um centro de treinamento, você sabe do quê… lá em Moscou?
– Sim, é verdade.
– Essa é uma informação bastante relevante. O nosso governo não entendeu porque o interessado – você, Edward não manifestou diretamente esta sua intenção.
– A explicação é bastante simples, acho eu, que a vivi. O vosso cidadão, que por acaso também se chama Yuri, esteve fazendo o nosso curso, passou brilhantemente na seleção e ficou mais de um ano, aqui na Virginia no nosso centro, treinando. Como já deve saber, ele não conseguiu chegar à meta, que tanto ambicionava, mas isto não deve ser considerado como um demérito, acontece. Um dado cérebro, às vezes, por razões que ainda desconhecemos, se recusa a operar no sentido que nós, aluno e instrutor, queremos.
Quando da sua despedida, considerando o seu excelente desempenho, o informei que, se o governo do país dele aceitasse uma instalação de treinamento nossa, ele seria um dos dirigentes desse centro. Pelo fato de nós estarmos aqui, quer dizer que ele, realmente, conseguiu despertar o interesse do seu governo.
– De fato, Edward, você esclareceu tudo, agora tudo parece simples e natural. Vejo, também, que você é muito modesto. Deve ter recebido inúmeras proposta de outros governos, para implantar um centro ou qualquer outro tipo de colaboração.
– Certamente que sim. Muitos, até. Acontece que essas propostas não se enquadravam nos nossos planos ou nos nossos princípios.
– E que planos e princípios seriam estes, se for lícito perguntar?
– Com prazer, respondo. O plano seria – repare que é um simples plano, não é ainda um programa completamente definido – seria, de conseguir instalar cinco centros de treinamento, um em cada continente, num horizonte temporal de cinco a dez anos. Mais que um plano, seria uma intenção. De fato, seria uma imensa distorção, considerar um centro para cada continente, compare a Ásia, com quase metade da população do mundo, com a Oceania, que não chegará a 1% desta.
– Era essa a observação que ia fazer, mas folgo em constatar que já percebeu. Imagino que deveriam existir outros condicionantes, além da população.
– Claro que sim, estamos sempre estudando essa questão, que, pode imaginar, Yuri, é bastante complexa e controversa. Porém, alguns avanços já ocorreram. Com o Yuri, da nossa escola, eu e o Diretor deste Centro, analisamos qual seria o melhor lugar para instalar o nosso centro europeu. A escolha foi a Rússia.
– Agradeço a confiança no nosso país.
Não me agradeça muito. Eu votei para outro país, fui voto vencido. Somente a priori percebi que foi uma boa escolha.
— Agradeço a sua franqueza, deveras incomum. Parece que a questão dos planos foi bem esclarecida. Resta saber quais seriam os princípios.
– Não acho fácil explicar numa única reunião; é uma matéria muito sensível, e sujeita a mal-entendidos. Posso sugerir de tratarmos mais tarde e com mais calma deste argumento? Poderia ser na oportunidade de uma sua visita ao nosso Centro de Treinamento; o que acha?
– Agradeço o convite, irei sem falta, temos muitas coisas ainda a tratar. Posso fazer um resumo sintético da nossa conversa, que transmitirei para o meu governo?
– À vontade.
– Então, fato número um. É verdade que os responsáveis pelos centros de treinamento para o deslocamento no espaço, convidaram o outro Yuri a verificar o interesse do nosso governo em ter um desses centros? Correto?
– Corretíssimo.
– Fato número dois, nos planos de expansão desses centros pelo mundo afora, para a região europeia foi escolhida a Rússia. Certo?
– Certíssimo.
– Fato número três. Que, as condições, as que você, Edward, chama de princípios, deverão ser discutidas entre as partes em momento oportuno, ainda a definir. Que tal?
– Simples, resumido e correto, parabéns.
– Obrigado, é o meu trabalho. Posso fazer uma pergunta, extraoficial, que não constará em nenhum relatório da Embaixada e que fica exclusivamente a seu critério, responder ou divulgar?
– Fiquei curioso, o que será isso?
– Simples, o que pensa o seu governo, o governo do seu país, a respeito disso, do seu empreendimento, do que está fazendo e planejando?
– É uma estória longa, que posso relatar melhor na oportunidade da sua visita. O que posso adiantar é que, o nosso Executivo, nunca quis, antes da demonstração, imiscuir-se. Agora, não teriam moral de falar comigo, pelo menos, até agora não o fizeram. Uma grande oposição, que quase acabou com a Escola, surgiu no Senado. Ali, mesmo tendo valentes apoiadores, numericamente eram em quantidade inferior aos que me queriam pôr na cadeia. O poder Judiciário? Ficou na arquibancada querendo ver o final do jogo.
– Agradeço a sua boa disposição para comigo. O que acha nós almoçarmos aqui na Embaixada?
– Será um duplo prazer. Obrigado.
– Duplo, por quê?
– Primeiro, pelo amável convite. Segundo, porque imagino que a refeição deve ser maravilhosa.
– Não espere muito, porém. Nós estamos numa das periódicas fases de contenção de despesas. É cíclico.