Telefonei para Jane em New York:
– Tem alguma novidade por aí?
– Sim. Ontem à tarde vieram dois “Adidos Comerciais” do… deixa ver.… Bundestag… e mais um monte de consoantes. Eles querem…
– Já sei quem são e o que querem. Você disse para eles que os atenderia logo que possível?
– Sim. Edward, disse isso para eles duas vezes.
– Muito bem. Poderia fazer-me o favor de enviar via e-mail a cópia dos cartões de visita deles?
– Envio agora mesmo. Escuta, Edward, chegou, ontem à noite uma pessoa que você conhece e não conhece, e que quer falar com você, exclusivamente com você, o mais rápido possível. Mais uma coisa, esta pessoa não quer que ninguém saiba disso.
– Uma pessoa que conheço e não conheço? Essa é boa. Quem poderia ser? Me diga Jane, você a conhece?
– Sim, a conheço sim.
– … e a desconhece?
– Não, não… eu a conheço perfeitamente.
– Escuta Jane, estou no período final do treinamento, não posso sair daqui de maneira alguma. Você acha que o assunto que poderia tratar, com esta pessoa que conheço e desconheço, seria tão importante para justificar uma sua vinda aqui?
– Eu acho que sim, esta pessoa insistiu que é urgente, sigiloso e importante, portanto, …
– E você acredita nisso tudo?
– Como posso dizer que acredito ou não acredito, se é sigiloso? Você, Edward, as vezes faz cada pergunta ….
– Muito bem. Já resolvi, aluga um jato e venha com essa pessoa amanhã de manhã, de acordo?
– Sim, de acordo, Edward. Não precisa chegar muito cedo, não é Edward?
– Não é preciso, cheguem quando puderem.
– Obrigado Edward, você é um amor de pessoa.
– Sim, sei. Sempre soube.
Muito bem, amanhã será desvendado o mistério da pessoa que conheço e desconheço. Daqui a pouco receberei os nomes dos dois alemães que querem falar comigo. Justo agora que estou na fase crítica do treinamento? Nada que eu possa fazer, afora de que enfrentar o que virá pela frente.
Meia hora depois estava telefonando para a Embaixada da República Federal da Alemanha. Os numerosos e ponderosos artigos do Financial Times conseguiram diminuir o impacto no mundo econômico e financeiro dos prováveis efeitos do deslocamento no espaço. Não tive então que me preocupar em demasia com a OPEP e outros cartéis oficiais e extraoficiais.
No caso dos governos dos diversos países deste mundo todo, as coisas seriam bem diferentes e difíceis, sabia disso desde o começo. E a ONU? Em teoria seria um dos “lócus” ideais para tratar de maneira global qualquer matéria de interesse mundial. Na prática isso não ocorria mais, desde os tempos de Dag Hammarskiöld. Agora a ONU é somente um imenso e complicado cartório.
– Bom dia, doutor Gerard Klaus, aqui fala Edward Collins, soube que o senhor me procurou, ontem, na nossa sede em New York.
– Bom dia, senhor Collins, é um grande prazer ouvi-lo. De fato, ficamos, eu e o meu colega Konrad Betz, decepcionados em não o encontrar em New York. Achamos que fosse aí, na Quinta Avenida, a vossa sede, ou me engano?
Não, não se enganaram. É lá mesmo a sede da nossa organização. Acontece que estou praticamente em Washington. Estou na Virginia, no nosso Centro de Treinamento, bem perto de vocês, aí na Embaixada.
– É verdade, e nós fomos até New York, quando na realidade em meia hora de automóvel, conseguiríamos encontrá-lo. Poderíamos fazer isso nos próximos dias? Desejamos muito poder trocar algumas ideias com o senhor. Seria possível?
– Sem dúvida que seria possível. Lamento que deva ser aqui no Centro, mas estou muitíssimo ocupado, é o treinamento final da nossa segunda turma.
– Entendo, sim. E lamento muito incomodá-lo num momento tão impróprio, tentaremos ser breves.
– Não é necessário, vindo aqui posso dar-vos todo o tempo que for preciso.
– Muito agradecido pela sua gentileza. Quando pode ser isto?
– Seria possível para vocês virem aqui depois de amanhã? Seria bom pela manhã, quando quiserem. Almoçaremos aqui mesmo, se não for incômodo para vocês.
– Pelo contrário, será um grande prazer, nem sei mais como agradecer tanta boa disposição e gentileza, estaremos aí depois de amanhã, às dez horas.
– De acordo, mais uma coisa, na portaria diga o seu nome e serão rapidamente levados para a minha sala.
– Entendido e até depois de amanhã.
***
Conhecendo Jane, pensei que não chegaria antes das onze horas. Por via das dúvidas, às dez horas estava tudo preparado. Nada de especial, avisei os encarregados da torre de controle de me telefonar imediatamente logo que o jatinho de aluguel provindo de New York entrasse em contato para os procedimentos de entrada no espaço aéreo. Pretendia estar sozinho e isolado na pista, próximo ao nosso terminal, de maneira a não haver testemunhas, caso tivesse que passar por alguma situação escabrosa.
Não atinava quem seria esta pessoa, conhecida e desconhecida, que Jane ia me trazer. Provavelmente seria uma mulher. Para esta eventualidade, mandei vir três maços de flores. Previ que Jane, se a pessoa que vinha fosse mulher, poderia ter convidado a mãe dela. Combinei com o pessoal do nosso terminal, que olhassem bem para a minha mão esquerda posta nas minhas costas, com os dedos mostraria quantos maços de flores deveriam ser trazidos imediatamente para a pista.
Finalmente o avião chegou. Estava, agora, taxiando e vindo para deixar os passageiros perto de mim. Me senti um perfeito idiota para me preocupar tanto com uma pessoa conhecida e desconhecida. Jurei, para mim mesmo, que nunca mais cairia numa situação dessas.
Desceram do avião somente duas mulheres e, enquanto o piloto entregava as leves bagagens, eu fiz o sinal de dois – queria dois maços de flores, de imediato.
– Bem-vinda, Jane querida, que bom revê-la novamente…. e…?
– Obrigado Edward, deixe que te apresento…. – Jane não falou o nome da linda mulher, de evidente ascendência oriental, que me estava observando com um leve sorriso no rosto.
– Miss Universo. Miss Universo de dois mil e…
– Não Jane, não fala o ano, não quero que se saiba a minha idade.
– Ah… sim, agora me lembro, …. a senhora veio naquela oportunidade do programa das Miss Universo dos últimos dez anos, …. Você, deixa pensar um minuto, … você é Lin Bao Chen, a Miss Universo, denominada também de “a bonequinha do mundo”.
Durante essa breve troca de palavras chegaram as flores, as entreguei; o primeiro maço à Lin Bao Chen e o segundo à Jane, ficaram encantadas. Ufa… o cerimonial da chegada tinha acabado.
– Por favor, não me chame de Miss Universo e muito menos de “bonequinha”, me chame de Lin, simplesmente. Sou muita agradecida pelo seu convite, muito agradecida mesmo, eu preciso muito falar com o senhor…
– Edward.
– Sim, Edward, quanto mais cedo, melhor.
– Viu, Edward? Não te disse que você a conhecia e desconhecia? Não te disse?
-Sim disse. Realmente a conhecia, naquela oportunidade me foi apresentada, mas de fato, excluída a apresentação formal, não tive o prazer de realmente conhecê-la. Você se lembra, sumi por um bom tempo. Agora, por favor, sigam essas moças que vos levarão aos vossos apartamentos. A propósito, Jane, Justin quer muito falar com você.
– Comigo? O que ele quer de mim?
– Como eu posso sabê-lo? Pergunte para ele.
– O.K., falarei com ele.
Saí na busca frenética do Justin, quando o encontrei o levei para um canto.
– Justin, chegou a Jane com outra pessoa; eu tenho que falar a sós com esta. Você deve entreter a Jane pelo menos meia hora; eu disse que você queria muito falar com ela…
– Puxa Edward, você gosta muito de me colocar em situações embaraçosas. O que digo para ela?
– Diga o que quiser, por exemplo, que gostaria que as relações entre o setor de seleção e o de treinamento, deveriam ser mais estreitas, inventa alguma coisa. Deveria ser sempre eu a ter que inventar saídas? Oh… Justin, você esqueceu que reclamou comigo por não a ter apresentado? Pois é, agora você a tem aí, a tua disposição pelo tempo que quiser…e não esqueça, tem muitos lugares românticos aqui no centro.
– Escuta Edward, eu já te mandei para o diabo, alguma vez?
– Sim, algumas vezes.
– Então, vá de novo!
Subi para o andar no qual estavam alojadas as duas Miss Universo. Para minha surpresa e alívio, encontrei Lin perto dos elevadores. Com um “vamos”, a puxei dentro da cabine e apertei o botão para o último andar. Não sabia, mas esperava encontrar um lugar sossegado onde poderíamos conversar. Logo que a puxei, Lin exclamou:
– E a Jane…?
– Não se preocupe, alguém virá entretê-la. Vamos ver se encontramos um lugar tranquilo para nós conversarmos. Não era isso que queria? … quanto mais cedo, melhor.
– É isso mesmo Edward, obrigado por isso. O que acha daquela saleta?
– Tendo lugar para poder-nos sentar, será ótimo. Então Lin, fique à vontade e me conte tudo o que você quiser.
– A Jane me contou que você é muito prestimoso, constato que é verdade, em pouco tempo você providenciou o que eu almejava com pouca esperança, de o conseguir. Serei eternamente grata.
– Não precisa tanto tempo assim, dez anos já seriam suficientes.
Ela riu do meu bobo jogo de palavras, mas vi que se descontraiu um pouco – somente um pouco.
– Lin, estamos aqui, sou todos ouvidos. Pode falar do que quiser com toda tranquilidade.
Se ela fosse um homem, teria dito: desembuche de uma vez.
– Obrigado Edward, serei extremamente franca, mas, por favor não comente o que vou dizer com ninguém.
– Pode ficar tranquila, não falarei com ninguém.
– Muito bem, vamos em frente. Você sabe que sou chinesa, de Hong Kong, sim, mas etnicamente e legalmente chinesa. Um dia, altos funcionários do governo da China me procuraram e queriam que eu fizesse algo que eu não queria fazer. Discutimos muitos, resisti quanto pude, mas, enfim, tive que aceitar…. por várias razões.
– O que queriam, estes altos funcionários, de tão terrível?
– Não me olhe assim, fico ainda mais acabrunhada.
– Se quiser, eu olho pela janela, enquanto você fala, está bem?
– Por favor, estou angustiada, não brinque comigo.
– Me perdoe Lin, disse isso para deixá-la mais à vontade, mas fale, fale ao seu amigo Edward.
Amigo de meia hora, mas, o que poderia dizer mais para animá-la a falar?
– Desculpe, estou bem transtornada, enfim, vou dizer: eles querem que eu faça de tudo, tudo mesmo, até seduzir-te, se for necessário, para convencer-te a abrir uma escola na China…
Disse isso, num folego só. As lágrimas que estavam sempre próximas a sair, finalmente saíram. Deixei passar alguns minutos, aguardei que se acalmasse um pouco, esperei que ela me olhasse, quase com ar interrogativo….
– Muito bem, me convenceste.
-Como… como?
– Sim, me convenceste, irei instalar um centro de treinamento na China. Como os seus altos funcionários queriam.
– De verdade? Realmente você vai fazer isso? Não estou entendendo….
– Você entendeu, porém, que o pesadelo que tanto a angustiava, terminou?
– Sim entendi, mas… ainda não posso acreditar.
– Acredite, terminou. E pode dizer aos teus altos funcionários que você se esforçou muito, muito mesmo, mas que, finalmente, conseguiu o que o partido… desculpe, o governo, queria.
– Incrível, nem precisou passar um segundo e você já concordou. Incrível.
– Sim é incrível, mas, temos que fazer que isso seja plausível, não se pode dizer já, imediatamente, o que foi decidido, devemos fazer decorrer um tempo, o tempo necessário para você seduzir-me. Na realidade não deveria demorar muito tempo para uma Miss Universo seduzir qualquer um, poucos segundos seriam suficientes, eu acho.
– Sim, de fato temos que manter certas aparências, concordo sim, mas, como podemos fazer isso?
– Uma das possibilidades seria dizer a Jane que você queria ficar no centro para ver se se anima a fazer um curso de treinamento. Ficando aqui, cada um pode imaginar o que quer imaginar. O que acha?
– Acho que é uma boa saída, talvez a única.
– Também acho; mais uma coisa, sai agora, sozinha, vá no teu apartamento, toma um banho para relaxar e seus olhos desincharem. Eu vou procurar Jane; nós nunca nos encontramos, certo?
– Sim, Edward.
Às dez horas em ponto, os dois adidos comerciais da Embaixada alemã, estavam no portão de entrada dos carros. Às dez horas e cinco minutos já estavam na minha sala.
– Bem-vindos ao nosso centro de treinamento senhores, queiram acomodar-se. Aceitam alguma bebida?
– Mais uma vez, muitíssimo obrigado por nos receber. Não, agradecido.
– O senhor também, doutor Betz?
– Também não. Obrigado.
– Sabem que, anos atrás, conheci um Betz, Ulrich Betz, se bem me lembro, era de Karlsruhe, me lembro porque falava muito da sua cidade, dizia que era a cidade dos sonhos…
– Não, se me permite corrigir, era a cidade “do sonho” do príncipe, ou melhor, do margrave de Durlach – margrave é uma espécie de príncipe. Eu sei disso porque a minha família de origem era, justamente, de Karlsruhe, mas eu nasci e vivi a maior parte da minha vida em Lubeck. Deve ter sido um meu primo distante.
– Que coincidência interessante, muito bem senhores, no que poderia ser vos útil?
– Deve saber que nós, da Embaixada da República Federal da Alemanha, acompanhamos todas as adversidades pelo qual o senhor passou. Um nosso colega, o assessor político da nossa Embaixada, nos relatou dos dissabores que o senhor passou no Senado e que finalmente, pela demonstração incrível que ocorreu ao redor do próprio palácio do Senado, esses terminaram. Parabéns pela sua vitória.
– Muito obrigado.
– Se me permite entrar de imediato na razão de nós aqui estarmos…
-…por favor, fiquem à vontade, vocês têm direito a alguns privilégios, por ter ido inutilmente a New York para me procurar.
– Oh…. Isso já foi esquecido pela sua amabilidade em nos receber. Estava dizendo que o nosso governo ficou muito interessado no vosso tipo de escola e, para ser breve, brevíssimo, gostaria que nos dissesse o que deveríamos fazer para ter o privilégio de ter um centro similar a este.
– Vou atender ao vosso pedido, e já que falamos deste centro, não gostariam de visitá-lo?
– Seria fantástico, se não for muito incômodo para o senhor.
– Incomodo nenhum, me faz bem sair de vez em quando do escritório ou da sala de aula.
– O senhor dá aulas?
– Sim, especificamente as aulas finais do deslocamento no espaço, primeiro as aulas teóricas, depois as aulas práticas; mas vamos indo, depois da visita, retomaremos nossa conversação.
Visitamos minuciosamente todas as instalações, por coincidência era o primeiro dia em que todos os alunos, ostentavam o uniforme ideado pela Charlene. Tinha que reconhecer que faziam um belo espetáculo. Os dois alemães estavam olhando perplexos.
– Esse… esses, todos… seriam…
– Sim, todos eles são alunos, em estágios diversos dos estudos. Vocês podem observar que aqueles que têm um pequeno colibri, um beija flor, no ombro esquerdo já conseguiram o brevê de piloto, passo essencial para continuar o treinamento; já que falamos disso, vamos ver os aviões.
Um estava decolando justamente quando nós chegamos ao pátio, depois que cessou o estridulo som do Stenton, continuamos conversando.
– O que está fazendo aqui esse velho biplano junto com todos esses mais novos?
– É o avião mais importante de nosso centro. O aluno fica na frente, exposto ao ar livre, assim ele vai se acostumando à condição próxima a estar no espaço, …sozinho.
O doutor Betz, fez uma mesura em direção do velho avião e disse:
– Desculpe-me, senhor biplano, não sabia das suas excelentes qualidades didáticas. Queira-me perdoar.
Passamos perante o domo, ficaram impressionados.
– É aqui que fazem os treinamentos práticos?
– Sim, é aqui mesmo. Vamos entrar, assim explicarei melhor.
Depois do passeio, que incluiu uma visita às cozinhas, já em pleno fervor para preparar os almoços, voltamos à minha sala.
– Agora, acho que gostariam de uma bebida refrescante, não é?
– Sim, é verdade. – Responderam simultaneamente.
– Bem enquanto as bebidas não chegam, vamos continuar nossa conversação. Então o vosso governo quer saber o que deveria fazer para poder ter um nosso centro na Alemanha. Bem, não deveria fazer nada, somente aceitar o centro.
– Somente isso? Parece incrível, sem nenhuma condição?
Nenhuma, mesmo?
– Nenhuma, mesmo. Já devem saber que o centro tem as suas próprias regras, de amplo conhecimento público. É de se esperar que o vosso governo as conheça e, se as conhece e as aceita, não tem nada mais o que poderíamos discutir.
– Me permite desabafar? Ach…. – Falou algo em alemão para o colega Betz, e continuou:
– Nós pensávamos de ter que fazer muitas tratativas, muitos discursos, muitas concessões, para conseguir um centro como este na Alemanha. O nosso Embaixador vai cair duro da cadeira, quando o souber.
– Então, tirem uma fotografia dele, quando cair e a enviem pra mim.
– Com certeza a mandaremos.
– Chegou a hora do almoço, podemos ir. Agora que estamos já acertados, não acharão muito incômodo almoçar com o Diretor Geral do centro e o seu futuro substituto?
– Incômodo algum, até será um prazer conhecer o Diretor Geral deste centro, o senhor disse que virá também o seu substituto?
– Sim, o atual sairá em breve, logo depois da prova final da segunda turma. Ele chefiará o nosso novo centro na Califórnia.
– Um novo centro? – Exclamaram os dois.
– Sim, um novo centro na Califórnia, e estamos fazendo os primeiros contatos de um ulterior novo centro na Alemanha. Me parecem um tanto decepcionados, não sabiam desse novo Centro?
– Não, não sabíamos. – Eles se entreolharam, imaginei que chefe da inteligência da Embaixada iria receber uma solene queixa.
– De qualquer forma, agradecemos a gentileza de nos informar sobre esse novo centro. Se não for indiscrição, quando vão começar a dar aulas na Califórnia?
– Logo que se formar a segunda turma aqui e, o Diretor Geral, Justin, puder sair para assumir o seu novo posto. Acho que entre dois meses ou pouco mais.
– Uma pergunta mais, quanto tempo demora para a construção de um centro de treinamento?
– Entre um e dois anos, para as instalações físicas; para montar o quadro dos instrutores, não é possível agora fazer previsão, depende do material humano disponível na época e lugar.
– E este material humano, os treinadores do último estágio, para nos entender bem, onde podemos nós, na Alemanha encontrá-los?
– No momento, acho que na Alemanha, ou em qualquer outro país do mundo, certamente não vão encontrar este tipo de instrutor. Por esta razão estamos iniciando o treinamento de novos instrutores dessa disciplina. Nos acordos que firmaremos com o vosso governo, certamente incluiremos que vocês, alemães, poderão nos mandar pessoas qualificadas para serem treinadas aqui, até, naturalmente, vocês mesmos, se assim desejarem, terem a própria escola de treinadores.
– Francamente estou estonteado. Você, Betz, não está estonteado também, depois disso tudo?
– Sim, estou sumamente surpreso, nem sei como, na Embaixada, vão digerir estas informações todas.
– Para isso eu vos posso ajudar. Por que não convidam o vosso Embaixador a visitar o Centro?
– Podemos fazer isso?
– Podem sim. Aliás, eu gosto de criar situações inusitadas. Em lugar de ser eu a mostrar todas as instalações, façam isso vocês mesmos, já conhecem o circuito principal, podem ir aonde quiserem.
– O senhor não para de nos surpreender, não saberei o que dizer.
– Pode ser que não saiba agora, no futuro, saberá. Eu sei de uma coisa relevante de vocês dois, aliás, de todos os membros da vossa Embaixada. Tenho quase certeza de que ninguém de vocês da embaixada, está a par dos requisitos para frequentar a nossa escola. Sabiam, por exemplo, que vocês poderiam mandar mil alemães para serem treinados e que, certamente com instalações maiores, os treinaremos convenientemente? Surpresos? Se ficarem surpresos é porque não atinaram, ainda, com o escopo último na nossa escola. Mas acho que de surpresas já tiveram bastante. Chega por hoje?
– Ya, main Gót.
Tenho que parar de me divertir com certas situações, mas as vezes é impossível resistir, como no caso destes alemães. Não são somente eles, são muitos os governos que querem ter uma escola e acreditam que devem fazer concessões de vulto para a conseguir.
Na realidade não é necessário dar nada em troca, somente é indispensável ater-se às regras da Escola. O engraçado é que estas regras são públicas e notórias há mais de um ano e meio e, incrivelmente, os serviços de inteligência de certos países ainda não as descobriram.
Pode ser que, por ser de domínio público, os serviços de inteligência acham que não devem ser relevantes. Provavelmente estão esperando algo oculto; se for oculto, eles devem tentar descobrir, é o trabalho deles. Teria cabimento um serviço secreto, apresentar ao presidente do próprio país informações de domínio público?
Tenho de parar, também, de fazer elucubrações, tenho muitas coisas a fazer, são as últimas cinco semanas de treinamento, o treinamento prático dos quinze alunos desta segunda turma. Estarão presentes, nestas aulas, também os cinco neurologistas, eles devem aprender a ensinar, eles devem aprender a fazer o que eu faço. Isto é fundamental se quero espalhar estas escolas para o mundo todo.
***
Me telefonou o Ernest.
– Edward bom dia, conforme você me alertou, um tal de…sei lá… Chang… alguma coisa, perguntou-me se podia visitá-lo amanhã, e a qual hora.
– Bom dia Ernest, diga a ele que sim, e que, se lhe for possível, às dez horas. Diga-lhe também que, dizendo o seu nome na portaria, será suficiente, alguém o levará diretamente na minha sala. Já que estamos conversando, me diga, como está indo o cronograma físico-financeiro do centro da Califórnia?
– Basicamente tudo normal, salvo alguns pequenos atrasos que eles prometeram recuperar. Na questão financeira, continua a persistente tendência a ultrapassar os valores orçados, esta, porém, é uma tendência que vem desde o começo, deve ter sido elaborado, inicialmente, um orçamento otimista. De fato, pelos vários controles que fiz, os valores despendidos são perfeitamente aceitáveis.
– E a qual seria o valor a mais, sobre o orçamento inicial? Pode me dizer em percentual, mesmo aproximado?
– Não deveria dizê-lo, porque está definido, até a segunda casa decimal, no relatório quinzenal que já deve estar na sua mesa há, pelo menos, uma semana, mas, por eu ser bondoso, te informo de novo, são 6,76% a mais.
– Desculpe Ernest, estou assoberbado, você sabe…
– …sei sim, são as últimas semanas. Edward, fique tranquilo, do nosso lado, aqui em New York, tudo está sob controle.
– É muito bom ouvir isso… muito obrigado Ernest.
– É a nossa simples rotina, Edward, fique totalmente despreocupado.
***
Prazer em recebê-lo senhor Chang…, é assim que posso chamá-lo?
– Sim é assim mesmo. Sou eu que agradeço a sua rápida aceitação da minha visita.
– Não precisa agradecer, estava esperando uma visita de alguém da vossa Embaixada há bastante tempo, até cheguei a pensar que se esqueceram de nós.
– De maneira alguma, senhor Collins, trabalhamos duramente, para poder atender ao seu pedido, levado a nós, pela senhora Lin Bao. Agora finalmente podemos comunicar-lhe que tudo será feito conforme requerido.
– E o que seria este “tudo”, se me permite a pergunta?
– De início informo que chegará, na próxima semana, o nosso Ministro das Ciências e Tecnologia, Fung Daoching; oficialmente ele virá para assinar acordos com o governo do seu país na área de telecomunicações, mas, será ele que assinará o documento requerido pelo senhor. Eis aqui uma cópia do que ele e o senhor assinarão. Ele também lhe entregará uma mensagem, declaração, não sei ainda bem o que seria, do líder de nossa nação.
– Vejo que atenderam perfeitamente aos meus pedidos, por isso agradeço muitíssimo. Poderá o vosso Ministro visitar o nosso centro de treinamento? Será para nós uma grande honra.
– Infelizmente, isso não será possível. Uma visita dele deixará claro ao vosso governo que o acordo sobre telecomunicações não seria mais que uma cobertura a essa visita. Isso não seria conveniente para as amistosas relações entre os nossos dois países.
– Entendo. Poderia então alguém da comitiva dele fazer esta visita?
– De novo tenho que declinar a sua gentil oferta. Tudo o que farão ou disserem os membros da comitiva do nosso Ministro, estará sob os olhos vigilantes da inteira nação americana, a partir dos políticos até a grande imprensa e televisão, e, antes que me pergunte, nesse período, até uma cozinheira da nossa Embaixada será objeto de atenção.
– Não me resta então que convidar o senhor mesmo a visitar as nossas instalações, faço questão, o senhor já está aqui, já estaria então comprometido, …. que se faça a visita então, e seria também um grande prazer se aceitasse almoçar comigo, pode ser no restaurante dos professores, ou, se quiser, numa sala somente para nós dois. De acordo?
– É muita amabilidade sua, aceito ambos os convites, a visita e o almoço.
– Antes que eu me esqueça, deve-me instruir de como entregar o projeto desta instalação, que já está pronto, em papel, e formato eletrônico, … É um volume considerável, devem ser mais de dez quilos.
– Como eu disse, seria conveniente se possível, entregar este material antes da visita do nosso Ministro.
– Poderia ser, então, amanhã às dez horas, por exemplo? Alguém levará até a portaria da Embaixada um pacote em seu nome.
– Isto seria muito conveniente, agradeço muito.
– Finalmente, para deixar a visita mais completa, gostaria que o senhor tirasse todas as fotografias que quisesse do nosso centro.
– Agradeço a sua gentileza, mas não trouxe nenhuma máquina fotográfica.
– Isso não será problema, posso emprestar-lhe uma das minhas.
– É muita gentileza sua, mas não será preciso, uma visita a este centro já seria bastante gratificante.
***
As aulas teóricas tinham terminado. Nas últimas quatro semanas, todos os cinco neurologistas as presenciaram, com enorme curiosidade dos demais alunos. Quem seriam estes cinco sujeitos que, de repente, chegaram bem no meio do curso, sem ter feito nenhum dos maçantes treinos preparatórios?
Quem seriam estes sujeitos que, depois das aulas regulares, tinham outras longas conversações, sozinhos, com o “professor”? E por que estavam sempre juntos e não confraternizavam com os demais alunos? Sim, eram educados e cordiais, mas pareciam, meio alienados. E, falando em alienação, sugeriu o gaiato da turma, o médico pediatra. – Será que não seriam alienígenas, travestidos de humanos? Não, não o poderiam ser, contestou um outro aluno — Se fossem alienígenas não ficariam olhando, do jeito que estão, para as garçonetes.
Aproveitei a semana de descanso que precedia as aulas práticas para ir na Califórnia e averiguar o andamento das instalações do novo centro. Todo mês, o Ernest e o Justin passavam uma semana no centro de treinamento para verificar o andamento das obras. Colocar como supervisora a empresa de arquitetura de Washington foi uma medida bastante oportuna; as obras todas tiveram um andamento célere, melhor até, de quanto estava definido no cronograma inicial.
Constatei que construção progredia de forma bem mais rápida de que as da Virginia. Era o aprendizado. Deveria pensar de manter essa equipe de Washington para supervisionar os eventuais novos centros.
Convidei o neurologista Jan Kennet a vir comigo na Califórnia. No longo voo até São Francisco ele me explicou por que não quis entrar nas clínicas Ônix.
– Todos sabem, mas ninguém fala disso, que as clínicas Ônix, são do reitor de Harvard. Ele foi, a seu tempo, um grande neurologista. Tinha começado a montar a primeira clínica Ônix, quando foi convidado a assumir a reitoria da universidade; como condição natural e derivada, deveria desligar-se de qualquer negócio comercial que envolvesse neurologia.
Assim ele vendeu a clínica Ônix e, dizia ele, que, apesar tê-la vendido, sempre dispensava um carinho especial para ela por ter sido uma sua criação. Este “carinho” fez com que a rede das clínicas Ônix se espalhasse em toda a costa leste, agora querendo se se expandir para o oeste.
– E como ficavam envolvidos os neurologistas egressos de Harvard?
– Por uma feliz coincidência, um dos seus primeiros alunos, quando era catedrático de neurologia em Harvard, ganhou o prêmio Nobel. Talvez por isso ele foi convidado a assumir a reitoria, não sei, é mera suposição. Ele se aproveitou desse fato e, aos melhores alunos, fazia chegar, da Ônix, boas ofertas de emprego.
Quase todos aceitavam, o patamar de remuneração inicial era bastante elevado e a maioria aceitava, somente anos depois e que percebiam que estavam envolvidos em um sistema que somente queria arrecadar dinheiro. Adeus, sonhos de um dia ganhar um Prêmio Nobel.
– E você percebeu isso e recusou entrar nas clínicas Ônix.
– Não fui eu a discernir isso, foi um outro neurologista que estava nas clínicas há mais de três anos que me confidenciou isto.
– Um grande amigo seu, imagino, para falar de coisas um pouco escabrosas?
– Não, ele era somente um grande beberrão; o conheci numa festa de confraternização, estava bem bêbado e se agarrou a mim e não consegui livrar-me dele, me contou essas coisas todas, nunca mais o vi, nem sei o seu nome; mas, as informações etílicas não saíram mais da minha cabeça. Investiguei um pouco e ficou confirmado o que o bêbado me tinha dito, e isso é tudo.
Chegando no centro visitei minuciosamente todas as instalações, sempre com Jan Kennet perto de mim, no jantar do segundo dia, enquanto saboreávamos as sobremesas, ele me interpelou:
– Posso supor, se me permite, que o senhor, está cogitando que eu futuramente venha aqui neste centro?
– Permissão dada, pode perguntar à vontade, a resposta é: Sim e Não.
– Resposta ambígua, me parece.
– Não é ambígua. Se colocar a resposta na linha do tempo, verá que “sim” poderá, se quiser, vir a trabalhar aqui na Califórnia. Depois, porém – novamente, se quiser – “não”, porque não trabalhará aqui, mas em um outro lugar.
– E que lugar seria este? Fiquei muito curioso, poderia me dizer?
– Não, não seria eu a dizê-lo, seria você mesmo.
– Eu? Como poderia sabê-lo?
– Sabe sim, mas não sabe que o sabe. Vou parar com este pueril jogo de palavras. Seu pai é Embaixador, não é?
– Sim, é Embaixador no Reino Unido.
– E antes disso?
– Bem, que eu me lembro, foi inicialmente Embaixador na Jordânia, depois foi na Indonésia e finalmente na China, onde ficou oito anos, mais ou menos isso.
-… e você sempre junto?
– Naturalmente, toda a família: mamãe e todos os meus irmãos, o mais novo nasceu na Indonésia.
– E você ficou na China desde os quinze anos, até os vinte e três. Não se admire muito, tudo isso foi você mesmo que o escreveu na sua ficha, quando da sua seleção. Correto?
– Evidentemente, sim.
– E você voltava para cá durante as férias escolares.
– Sim, íamos sempre na casa dos avós, os pais da minha mãe.
– …. e você resolveu, além de estudar no Colégio Americano em Pequim, estudar também numa escola local, parece até que se formou em algo, o que seria?
– Nada de especial, é o mais baixo grau de pedagogia, somente posso ensinar nos cursos primários.
– E acha pouco?
– Não acho nem pouco nem muito, para mim, parecia tudo natural, vivi ali e não gostava de viver somente no “gueto” de língua inglesa.
– Parece que você publicou até poesias em chinês.
– Oh… meu Deus. Parece até que escrevi coisas como o Milton ou o Emerson. Nada disso, foram somente poesias simples… publicadas num jornal escolar.
– … simples? …em chinês? …com os ideogramas?
– Sim, com os ideogramas, com estes fica muito mais fácil expressar as nossas ideias, os nossos sentimentos… Faço uma pequena correção ao que disse há pouco, o chinês que se fala em Pequim se denomina de “mandarim”. As pessoas de outras regiões da China, de Guanzu, por exemplo, tem dificuldade a entendê-lo e vice-versa, porém todos leem corretamente os ideogramas; somente que os sons correspondentes são diversos.
– Interessante, mas já sabia disso…
Certamente, então saberá que, querendo, nós poderíamos, nos Estados Unidos, continuar falando inglês, mas escrever com os ideogramas, seria muito mais conveniente do que usar a nossa rudimentar escrita fonética.
– Agora, sou eu que digo: “Oh…meu Deus.” Que coisa impressionante, então você seria somente um mero professor de escola primária…?
– Exatamente.
– …na China.
– Exatamente.
– É exatamente impressionante. Perdi o rumo da minha conversa, do que queria dizer.
– Estava dizendo que “sim” eu poderei vir a trabalhar aqui nesse centro e que “não”, futuramente iria para um outro lugar.
– Obrigado por colocar-me no rumo da conversa inicial. Como eu disse, é você mesmo que diria onde futuramente poderia ir trabalhar,
– Na China?
– Sim, na China.
– Oh…meu Deus…
– Parece que, o nosso Deus, ficou muito evocado durante a nossa conversa. Seria bom ir dormir, amanhã cedo devemos nos encontrar com os técnicos que vão fazer as instalações elétricas e eletrônicas no domo. Vamos continuar esta nossa conversação, interessantíssima, logo depois de desjejum.
Infelizmente, logo depois do café da manhã, tivemos que passar muitas horas com os técnicos responsáveis das instalações do domo. Tivemos, também, que opinar sobre os móveis das salas de jantar, depois ver e aprovar, sem entender nada da matéria, os equipamentos dos SPAS, existiam dois. E depois mais isso e mais aquilo e, assim, chegou a hora do jantar… novamente.
– Parece que durante o dia não nos deixam um tempo livre. Está gostando do que estamos fazendo, ou melhor, vendo?
– Sim muitíssimo, lá na Virginia somente nos víamos as instalações prontas para funcionarem, aqui não, as vemos crescer, estamos vendo as entranhas dessas instalações todas, dessa forma até parecem mais amigáveis….
– Boa observação. estou pensando se não seria oportuno que os seus colegas neurologistas, passassem uma semana aqui durante as instalações dos sistemas, estes se tornariam, então, mais amigáveis., como você afirmou à pouco.
– Pode ser.
– Estaria disposto, então, a ficar aqui e orientá-los? Se sim, aviso o Justin para virem de imediato.
– Para mim, tudo bem.
– De acordo quanto a isso. Vamos continuar a nossa conversação de ontem. Resumindo e finalizando, você estaria disposto a trabalhar num centro de treinamento na China e, é claro, numa posição de relevo?
– Deixa-me explicar primeiro a minha situação. Por ter recusado ir trabalhar nas clínicas Ônix, eu fui marcado negativamente como elemento rebelde, não confiável, este tipo de informação, informalmente, circula no nosso meio; já percebi algumas dificuldades em encontrar uma colocação razoável. Enfim, até o mês passado, poder-me-ia considerar um desempregado com dificuldades para conseguir um emprego. Agora me foram abertas possibilidades ótimas, no centro da Virginia, e mais, uma posição deslumbrante numa área que gosto num país que admiro. E ainda me pede se eu aceito? Aceito sim, e agradeço imensamente por esta oportunidade sem par.
– Estou satisfeito por ter aceitado a minha oferta. Deve, porém, considerar que, se não seria um bom candidato para uma posição nas clínicas Ônix, será um colaborador estupendo para a nossa organização. Somos nós que temos que agradecer, por ter aceitado…
– Está me deixando constrangido. Espero poder atender às suas expectativas.
-Tenho certeza de que as superará. Vamos falar do nosso centro de treinamento na China, teria alguma observação a fazer, dado que você é o mais “chinês” de todos nós?
– Tenho que pensar um pouco. A primeira que me vem em mente seria: o atual governo chinês, concordaria com uma escola desse tipo?
– Muito bem colocado, desculpa-me se eu estou sorrindo, esta também foi a primeira observação que eu me fiz. Continuando e admitindo que este governo chinês concorde, o que se pode deduzir?
– Está fazendo perguntas difíceis; são muitas as variáveis envolvidas…
– Vai falando.
– De começo, podemos admitir que, o governo chinês, como qualquer governo, agora que o deslocamento no espaço se demonstrou uma possibilidade real, não queria ficar alheio.
– Muito bem, até agora, as nossas análises coincidem. O que mais?
– Vamos ver… Esse governo, hipoteticamente, pela sua própria natureza, não gostaria de ver seus cidadãos assim, soltos e livres pelo espaço. Deve cogitar algum tipo de controle, qual, não saberia dizer.
– Pode parar. Até aqui coincidimos perfeitamente na avaliação de o que o atual governo chinês pensa da situação. Vamos considerar que o que dissemos seja um fato. Continuamos, sempre hipoteticamente, que, quem poder-se-á deslocar no espaço deve, como condicionante essencial, possuir um cérebro sem vincos impeditivos, tais como tendência a violência ou extremado egoísmo e, teoricamente, o governo chinês, como qualquer outro governo, não deveria ter nenhum temor desses seus cidadãos livres e soltos pelo espaço. Concorda com isso?
– Completamente, porém…
– … porém, quem tem o cérebro profundamente vincado, até de boas intenções, não consegue admitir que, outros seres humanos como ele mesmo, possam não ter segundas ou terceiras intenções…
– …daí surge a necessidade imperiosa de manter o controle sobre estes cidadãos.
– Chega por hoje, já fizemos muitas ilações. Já sabe que, quando na China, poderá encontrar situações desconfortáveis, disse que poderá, não que seguramente as encontrará. Gostaria que o que nós conversamos aqui fique em sigilo absoluto e que, chegando lá, estas considerações estejam sempre presentes na sua mente. Estamos de acordo?
– Estamos sim.
– Ótimo. Podemos pedir outra sobremesa?