Circulei por mais de meia hora no bairro onde se concentravam a maioria das lojas e empresas que negociavam ouro, joias, objetos de arte e, também, quinquilharias.  Queria me entrosar com a vida e a atmosfera local.   Lia as placas das lojas, metade, pelo menos, tinham nomes judaicos, como era de se esperar.  Quando cheguei mais perto do setor de pedras preciosas, apareceram nomes russos e outros que, imaginei, poderiam ser indianos ou, sei lá, de qual origem.

Eu não tenho nenhuma capacidade comercial, por isso estava circulando por aí, na esperança de que algo me inspirasse a fazer o que tinha que fazer. 

 No bolso interno do meu casaco tinha um embrulho contendo uma dúzia de papelotes; cada um continha um diamante lapidado, todos do mesmo tamanho que, talvez, podia ser de um quilate, ou um quilate e meio.  Não entendo de diamantes, mas tenho que aprender rápido.

Num grande edifício, coração do comércio de diamantes, depois de muito titubear, finalmente entrei numa instalação comercial bastante movimentada.   Fiquei aí parado por um bom espaço de tempo.

– O senhor foi atendido?

– Não, ainda não.

– No que podemos servi-lo?

– Gostaria de saber se poderiam avaliar uma pedra que eu tenho.

– Certamente, posso vê-la?

Tirei do bolso um, somente um, dos papelotes e o entreguei ao atendente. Ele pegou um monóculo de um bolso do seu jaleco, abriu o papelote e observou a pedra.  Depois de uns segundos tirou o monóculo e olhou para mim.

– Poderia, por favor, entrar numas das saletas ali no canto?

Respondi que sim, sem saber bem o que pensar.  Fiquei na saleta angusta por alguns minutos.  Finalmente entraram, o atendente acompanhado com um homem de mais idade.

– Interessante esta pedra, falou o homem mais velho, deveras interessante.   Sabe qual seria a sua proveniência?

– Proveniência?

– Sim, a proveniência: África do Sul, Rússia ou Índia, a proveniência.

– Não, não sei. Somente sei que é uma das coisas que a minha tia me deixou… ela morreu há três meses.

Largos sorrisos se espalharam sobre o rosto dos dois homens.

– Estaria disposto a vender esta pedra?

– A princípio sim, depende do valor.

– E qual o valor que o senhor desejaria?

Os sorrisos continuavam tranquilos no rosto deles, mas eu tinha quase certeza que logo desapareceriam.

– Talvez o seu colega não o tenha informado que eu queria somente uma avaliação do valor da pedra.

Os dois se entreolharam, pediram licença por um momento e saíram.  Voltou, depois de uns dez minutos, somente o homem mais idoso, acompanhado de outro mais idoso ainda.

– Sim avaliamos a pedra, tem um certo valor, mas, é natural que podemos pagar algo a menos, devemos comercializá-la a terceiros, entende?

–Perfeitamente.  Basta somente dizer–me o valor.

Os dois homens se entreolharam, O mais velho, enfim disse:

–Que tal 47 mil dólares?

– Hum… deixa eu pensar um pouco; e diga–me, de que forma pagariam?

– À vista claro, com um cheque ao seu nome, senhor…?

– Edward, … Edward Collins.  Poderia, caso aceitasse, ser 10.000 em dinheiro e o resto com um cheque?

– Sim, sim, aliás podemos fazer mais, dez mil em notas e um cheque de quarenta mil.    Fechado?

– Fechado.

Tive que esperar quase meia hora naquela salinha, mas, finalmente, voltou o homem de menor idade – nunca se dignaram de apresentarem–se – trazendo e me entregando o cheque de quarenta mil e o maço de nota dos dez mil pactuados.  Enquanto eu assinava recibos e outros papéis, o homem ia dizendo: “Sabe temos que comercializar e, sem o certificado de proveniência, o valor de aquisição deve ser mais baixo.  Pedra interessante, é a mais transparente que eu vi… e a lapidação, perfeita.  Pena que não tem o certificado de proveniência.

E, enquanto embolsava cheque e dinheiro, perguntei.

– E como se obtém a certificação?

São várias as maneiras, a primordial, é o certificado emitido por uma mina que recebeu a concessão de exploração.

– Existem minas de diamantes nos Estados Unidos?

– Sim, porém são poucas e pequenas; a maioria é de depósito aluvial, sabe, rios….

– Sim sei, rios que erodem a rocha matriz e levam os diamantes até centenas de quilômetros, criando jazidas com os teores de diamantes os mais diversos, dependendo da velocidade da correnteza, não é?

– Sim, sim, é isso mesmo.

– Bem, muito obrigado e vou ver se acho alguma coisa a mais, nas coisas da minha tia.

– Faça isso, sim faça isso e, se encontrar algo, pode voltar aqui.

Saí, com o estado de ânimo bem diferente de quando entrei.

As pedras do “coiso” tinham valor.  Eu, ficou bem claro, fui enganado no valor da venda, porém, além do dinheiro, tinha obtido uma série de informações valiosas. E o resultado mais relevante era que não tinha mais receio em ofertar as pedras.

No resto do dia preocupei–me com a Carol, e com Robert, claro.  Foram extremamente atenciosos, devem ter enviado os três mil dólares retirando–os da conta bancária deles.  Sabiam que não correriam riscos, o meu carro continuava lá na garagem à disposição.  Pagar as contas atrasadas e avisar a Lynn, isto sim foi um grande gesto.  Devo descobrir do que o Robert gosta; uma caixa de Johnny Walker Gold Label                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         deveria servir, para a Carol já sabia: um monte de chocolates belgas.

Tenho que telefonar para ela para saber quando posso visitá-los, imagino que o convite será quase de imediato.  A curiosidade deve ser enorme e eu tenho que me lembrar das mentiras que contei.

Dois dias depois voltei para o mesmo edifício, e deixei em três empresas diversas uma pedra, pedindo, gentilmente e se possível, uma avaliação desta.  Somente uma das empresas interpeladas disse que podia fazê-lo contra uma pequena taxa, as demais a fizeram gratuitamente.

As ofertas que todos fizeram variavam entre 70 e 80 mil dólares.   Assim pude avaliar o tamanho do meu “prejuízo” com a primeira transação.

Com uma destas empresas resolvi estabelecer um arranjo permanente.  Eram dois irmãos. O pai, recém-falecido, era holandês.  O retrato dele destacava–se bem no meio do escritório.   Talvez isso tenha ajudado na minha escolha.

O acordo era que eu deixaria com eles uns diamantes para serem comercializados, e eles me pagariam o valor conseguido, deduzido de 7% de comissão.  Depositariam o dinheiro num dos cinco bancos nos quais abri contas.  Diverti–me muito vendo os saldos aumentarem com relativa rapidez.  Esta diversão durou somente até o dia em que os bancos começaram a querer que fizesse “aplicações”.  Fizeram me perder a paciência muitas vezes.   Por fim intimei a todos eles que os “investimentos” fossem feitos somente com títulos do tesouro americano.  Protestaram, queixaram–se, alegando que queriam “servir” melhor o cliente, mas, ao fim, cederam.

Poderia contar como consegui, cerca de um ano depois, obter uma concessão de mineração e, de consequência emitir os meus próprios certificados.  Essa, porém é outra história que não entra, por enquanto, nesta história.

Nas semanas seguintes fiz diversos arranjos, digamos, domésticos: vendi casa e carro, adquiri um pequeno, porém bom apartamento no centro da cidade. Contratei a Lynn para cuidar deste por três dias por semana. Abri, como já disse, contas bancárias em cinco bancos diversos e, como medida de precaução, que se mostrou oportuna, contratei um escritório de advocacia geral e um escritório de consultoria contábil e tributária.

Enfim, bem arrumadas as bases de apoio, nos meses a seguir dediquei–me as tarefas principais, das quais foi incumbido, e que tinha planejado realizar.

Uma das primeiras, e bastante trabalhosa, foi tentar comprar um aeroporto no estado da Virginia.   Visitei quase todos eles, excluídos, naturalmente, os grandes.  As minhas propostas esbarravam em muitas dificuldades: comerciais, tributárias, de concessões intransferíveis, de contrastes entre sócios, e dezenas de outros empecilhos.  Recebi uma oferta de um bom aeroporto situado na Carolina do Sul, mas tive que a declinar, pois estava longe demais de Washington.

Consegui, finalmente depois de muitas andanças no estado por mais de um mês, um acordo razoável com um aeroclube.  Os proprietários eram uma vintena de sócios que não se acordavam sobre as necessárias melhorias que a pista requeria. A minha proposta foi de alongá-la de um quarto de milha e refazer o capeamento da pista e, também, de renovar todo o equipamento elétrico.  Em troca disso, queria que me cedessem toda a área de propriedade deles do lado oposto aos hangares do clube.

Quando souberam que queria instalar uma escola de pilotagem, inicialmente se ofereceram com diversos tipos de colaboração, mas, após agradecer e recusar as ofertas, eles quiseram que dobrasse a largura da pista.  Era um custo relevante, porém considerei que a relativa vizinhança a Washington era uma boa compensação.

Junto com os sócios do aeroclube, constituímos uma empresa para administrar as obras a realizar.  A previsão era de que em sete ou oito meses as obras estariam concluídas.  Evidentemente todos os desembolsos ficariam a meu cargo; a eles, caberiam as tarefas de elaborar os projetos necessários, contratar as obras e fiscalizar a execução.

Constituí com um pequeno escritório de arquitetura de Washington, outra empresa detendo a maioria das ações.    A tarefa desta era de projetar as construções necessárias a futura escola de pilotagem.  Quando mostrei o esboço do que eu queria, um profundo silêncio foi a resposta, expressiva e educada à minha explanação.  Suspirei.

Declarei, então, que aceitaria críticas e sugestões ao meu projeto.   Assim, seguiram–se uma série de críticas, sempre mais contundentes.   Deixei que eles esgotassem todos os argumentos.

Eles não poderiam saber que esse projeto estava, na minha cabeça de arquiteto, bem fundamentado há bastante tempo.  Enfim, dei fim as críticas:

– Bem amigos, obrigado pelas contribuições.  Pelo que ouvi acho que escolhi corretamente os colegas que projetarão essas construções.   Porém, por vocês desconhecerem por completo quais são os objetivos da minha escola de pilotagem, tenho, infelizmente, que declinar quase todas as vossas colocações; o projeto deverá ser basicamente como delineado no esboço que apresentei.  Alguma observação adicional?

– Sim, falou o mais experiente deles todos. Temos diversas observações possíveis, mas, a principal é que, o conjunto todo, parece mais um hotel de luxo de Miami Beach, que uma escola de treinamento para pilotar aviões.

– Boa observação.  Porém a minha escola, como já disse, é bastante incomum.  A maioria destas escolas de pilotagem primária, conseguem dar a instrução básica para a obtenção do “brevê” em três meses ou pouco mais.  Na minha escola, após este primeiro degrau, terá um segundo, que será a pilotagem de turbo hélice, seguida a de jatos.  Mas não termina aí, como futuramente ficarão sabendo. 

 O curso completo, quando em tempo integral, demora 18 meses e, por 18 meses os alunos devem ficar no local do aprendizado.  Se eles não dispuserem de instalações agradáveis e bem diversificadas, duvido que os alunos conseguiriam ficar muito tempo nas acomodações da escola.  O meu desejo é que os projetos, que os senhores irão elaborar, resultem em instalações superiores, muito superiores, ao melhor hotel resort de Miami Beach ou de qualquer outro lugar.   Fui claro?

Os murmúrios de assentimento permearam a sala.

– Outra coisa, por favor, o tempo é curto, vocês são responsáveis, também pela implantação do complexo;  procurem desde já prever todas as instalações e serviços auxiliares necessários, suponho que a cidade próxima não terá condições de prover o que o complexo vai requerer; lembrem–se que, além dos alunos, deverão morar nesse conjunto residencial professores de diversas especialidades, instrutores de voo, administradores, mecânicos, cozinheiros, camareiros e camareiras, pessoal da limpeza e da lavanderia, e finalmente não esqueçam um centro médico bem equipado. Para facilitar a compreensão imaginem que este complexo, mais que um hotel resort, se assemelha a um navio porta-aviões, e dos grandes.

Deixei todos eles digerirem as instruções e voltei para New York.

Comecei, logo que cheguei, a tarefa mais chata e cansativa do ano: achar uma boa sede administrativa para a futura escola.

Mesmo com o apoio valioso das agências imobiliárias, a busca foi penosa.  Tinha que dizer que um dado imóvel, muito bonito e bem localizado, não me servia.   Melhorou um pouco quando apresentei uma longa série de requisitos.  Assim, finalmente, encontrei o local, quase ideal, na Quinta Avenida; endereço mais que glamuroso, e um ótimo edifício.   O mais relevante era que o conjunto que ia alugar tinha uma entrada separada, bom espaço no térreo, uma série de pequenas salas no primeiro andar e, finalmente, no andar principal, grandes e belas salas que permitiam uma ótima visão da avenida.

Disse quase ideal; “quase” devido ao aluguel bem elevado, e ainda tive que depositar como garantia um valor equivalente a seis meses de aluguel.  Como efeito colateral, tive que enviar para os meus comerciantes de diamantes alguns de maior peso.

Porém não me preocupei em demasia.   O “coiso” era grande e não tinha sequer utilizado a metade da primeira das oito gavetas superiores; nem por isso deixei de aplicar da melhor maneira possível o dinheiro conseguido.  Para mim estava claro que o imenso valor contido no coiso, agora bem escondido, era como se fosse um empréstimo e que, ao fim e ao cabo, deveria prestar conta do seu uso.

Logo em seguida à assinatura do contrato de aluguel, contratei uma conceituada empresa especializada em decorações e mobiliário.  Expliquei o que gostaria e pedi que me apresentassem diversos esboços do que sugeririam para poder tomar uma decisão a respeito.

Enfim, arrumado tudo isso, dediquei–me a tarefa que esperava ser a mais prazerosa de todas:  procurar a Miss Universo do ano anterior.   Ela morava ainda na casa de pai e mãe, em New Jersey.  Tive dificuldades em encontrar o endereço e, mais ainda, encontrar alguém que me a apresentasse.   Imaginei que no ano do seu reinado deve ter mantido contato com inúmeras pessoas e deve ter recebido inúmeras propostas… inclusive de casamento.

Já se tinham passados três ou quatro meses desde que ela voltou a vida normal e, talvez, teria algumas chances, dependendo bastante do “peso” da pessoa que ia me apresentar.  Por uma feliz coincidência, o mesmo escritório de advocacia que tinha contratado, era o escritório que atendia as necessidades legais da organização que promovia o concurso de “Miss Universo”.

Fomos então para a casa dela, eu com o doutor Andersen, o advogado que cuidava dos interesses da família da Miss Universo por conta dos organizadores do concurso.  Eram inúmeras as tarefas as quais o advogado tinha que cuidar; a maior parte eram participações em contratos de publicidade.  Basicamente, os organizadores desse concurso queriam, entre outras coisas, que ao término do ano de reinado, a pessoa que representou “Miss Universo” pudesse se encontrar em uma situação financeira confortável.

Em New Jersey nós entramos em um bairro agradável, e chegamos a uma bonita casa que, supunha, deve ter sido adquirida com os proventos das atividades da Miss.  Fomos atendidos por uma senhora de uns cinquenta anos, elegante e atenciosa que, depois de ver o advogado que lhe tinha propiciado assistência ao longo de um ano, se iluminou toda.

– Entre, entre Anderson…, que prazer em revê–lo.  Espero que não seja por algum problema.

– Não, não, problema algum.   Vim aqui expressamente para apresentar o nosso estimado cliente e amigo do nosso escritório, que, por uma coincidência feliz, queria apresentar uma proposta a sua filha Jane.

– Não será proposta de casamento, espero.   Já recebeu muitas, felizmente agora começaram a escassear.

Achei por bem intervir na conversação.

– Não, minha Senhora, apesar da beleza da sua filha, que conheço somente de fotografias, como disse o nosso amigo Andersen, tenho uma proposta de emprego, ou melhor, de colaboração; imagino que também desta espécie tenha recebido muitas.

– Sim, é verdade…  mas não seria melhor chamarmos a interessada?

– Sem dúvida, fazendo o favor.

A senhora, se levantou, e subiu no andar superior, demorou alguns minutos descendo com a loira que todos, ou quase todos, ficaram conhecendo exaustivamente no ano anterior.

A bela Jane cumprimentou efusivamente o advogado, e eu ganhei um leve aceno de cabeça.   O meu guia e fiador repetiu à filha o que disse há pouco à mãe; porém, era evidente que esta já lhe tinha dito do que se tratava.  Os sinais, até o momento, não eram auspiciosos.   Resolvi enfrentar a situação com decisão.

– Senhorita Jane, posso chamá-la assim?  E com o assentimento dela pelo leve aceno da cabeça, continuei.   Como já disse à senhora sua mãe, gostaria de apresentar–lhe uma proposta comercial.   Deve já ter recebido centenas, mas acho que esta que apresentarei, se me permitirem, deve pelo menos suscitar algum interesse ou, na pior das hipóteses, uma boa gargalhada quando da recusa.   Acha que posso continuar?

Finamente ouvi a voz dela.

– Sim, já que está aqui, gostaria de saber do que se trata.

Nada animador, mas continuei.

– Evidentemente esta proposta não terá o glamour das muitas outras que, com certeza, recebeu.   Em compensação, terá muitas outras boas qualidades que apresentarei.  Antes disso, porém, devo fazer uma confissão, confissão que pode parecer rude, mas é necessária.   

Não conheço, infelizmente, as suas qualificações e, menos ainda, as suas aspirações, mas, entendo que as primeiras serão muito provavelmente satisfatórias para atingir os objetivos que lhe serão confiados, quanto às suas aspirações, posso garantir que dependerão somente da sua vontade em consegui–las.    Desculpe se fui prolixo, mas para mim é fundamental que isso fique bem claro.

– Sim, foi bem claro, não é mamãe? – E após o assentimento mudo dela, continuou:

–  O senhor foi muito claro, gostaria, porém, de ouvir a sua confissão e, naturalmente, também a proposta.

– Constato que a vivacidade e inteligência parecem ser suas qualidades; até me sinto constrangido em ser rude com a minha confissão, já perdeu muito da sua validade.

– Por favor, tem aqui duas mulheres, deve saber que a curiosidade faz parte do nosso ser, por favor.

– Touché.  A motivação principal para apresentar a nossa proposta, confesso o óbvio, é que você é Miss Universo.

– Não: ex Miss Universo.

– Sim e não.  Na verdade, é Miss Universo 2020.  Não existe uma ex Miss Universo 2020.  Concorda?

– Bem, sim, pode ser.

– Muito bem, vamos a proposta:  Estou constituindo uma escola de formação de pilotos de avião muito peculiar, reputo, muitíssimo peculiar.

 Já está em fase de projeto e construção em um aeroporto perto de Washington, com instalações principescas para alunos e instrutores.  Além dos cursos básicos para iniciante, terá cursos adiantados com aviões a jato. Mas, mais importante é que tudo isso será mera preparação para um curso muitíssimo mais avançado.

A seleção dos alunos será realizada no nosso escritório na Quinta Avenida.  Também a seleção será peculiar, mas, o que interessa é que a maior parte do pessoal será feminina.   O ambiente, por razões diversas: psicológicas, estratégicas e outras, será de extremo luxo.  Precisamos de alguém que lidere este conjunto. E por isso que eu e o Andersen estamos aqui.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, analisando todas as informações transmitidas, que não foram poucas.

– Devo convir, não sei como dizer, que a proposta parece atraente. Poderia até fazer um curso de pilotagem, não é?

– Sem dúvida.

– Mas, o empreendimento todo me parece estranho…. Tem alguma agência governamental no meio?

– Não, nenhuma, e antes que pergunte, não tem nenhum outro governo da terra envolvido e, tampouco, nenhuma das grandes corporações ou grandes bancos; somente eu.

– Tudo isto deve envolver uma quantia considerável de dinheiro.

– Certamente. Estou esperando obter algum retorno financeiro somente daqui a três anos ou mais.

– Isso quer dizer que deve possuir um monte de dinheiro…  – Disse, dando uma risadinha.

– Talvez uma mina de diamantes ajude.

– Uma mina de diamantes? Uma mina de verdade?

– Sim, uma mina em operação, e outra em projeto.

– Não tem dúvida alguma que diamantes, casacos de visons e champanhe, conquistam qualquer mulher.    No meu caso, para poder dar uma resposta a sua proposta, além de me consultar com minha mãe, terei de saber mais, muito mais, principalmente das tarefas que deveria cumprir.

– Mais do que justo.  Tenho uma sugestão; contratei uma empresa de decoração para arredar o escritório, poderíamos visitar este, agora vazio.  Também, podemos visitar a própria empresa encarregada do arredamento; tenho certeza de que as suas sugestões serão melhores que as minhas.   Pensando bem, arredar a sede da empresa na Quinta Avenida pode ser uma das suas primeiras tarefas. O que acha?

– É uma miríade de informações que devo processar, precisarei de tempo para refletir.  De qualquer forma a proposta de visitar o local e falar com os encarregados pelo arredamento parece–me interessante.  Evidentemente, deveria ser também a oportunidade para maiores esclarecimentos em relação às minhas atividades, não é verdade?

– É sim, pode escolher o dia que mais lhe convier.

Assim ficamos, e nos despedimos com muito mais cordialidade do que quando nós entramos.

No carro, na volta para New York, agradeci o advogado pela sua valiosa participação.

– Que nada – respondeu – eu que tenho que agradecer por ter testemunhado como, depois de um começo glacial, você conseguiu terminar entusiasmando ambas as mulheres.

– Ambas?

– Sim ambas, eu observava a mãe e posso garantir que você, com sua hábil argumentação a conquistou completamente.

– Mas os diamantes ajudaram bastante, não acha?

– Acho sim.   Enfim, missão cumprida.

Foi então nesta ocasião que tomei a decisão de ter uma mina de diamantes e, portanto, essa história que não está na história, entrará na estória.

Dois dias depois encontrei–me com Jane, visitamos o local alugado, estava passando por uma limpeza geral, e visitamos a empresa de arrendamento.  Tive que passar muitas horas assistindo a troca de ideias entre a Jane e este pessoal.  

Constatei que, para esta tarefa, ela foi uma boa escolha.   Durante o tardio almoço, dei–lhe mais informações, mas não muitas, somente as necessárias para ela ter que pensar… e decidir.

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