As três semanas seguintes à visita do senhor Chang foram exaustivas, seja para mim, que para todos os integrantes do nosso centro. Aquele famoso voo panorâmico sobrevoando a Eseinhower, para o qual as distintas senhoras se prepararam e, enfim, não o fizeram, desta vez será realizado. As informações que deixei que vazassem, era que seria repetida a volta ao redor do palácio do Congresso, e, talvez, aconteceria também uma visita aérea ao monumento ao Presidente Lincoln.

Ninguém, excluídos “Peter” e “Paul”, sabia desse voo. Recomendei que se quisessem acompanhar os nautas de helicóptero para as filmagens, ficassem a pelo menos trezentos pés de distância. Nada de lhes atravessar a rota.

Sabia que estava desfavorecendo os demais meios de comunicação, mas tinha que favorecer os que me ajudaram nos tempos críticos, os tempos do “antes da demonstração”. De qualquer maneira, informei aos dois amigos que não faria outra vez algo tão descarado como aquilo.

É oportuno, porém, não esquecer que eu não possuo as qualidades necessárias para poder me deslocar no espaço, logo posso mentir ou fazer muitas outras coisas, coisas que sempre alerto os alunos para não as fazer.

Infelizmente, somente onze alunos conseguiram terminar o curso. Organizei a “demonstração” que estes onze deveriam fazer e que incluía, entre outras coisas, a abertura de uma faixa, bem na frente das janelas do Senado, com os dizeres: “Obrigado, Senador Crowdler”. Achei que isso ajudaria as aspirações políticas dele, quaisquer que fossem.

Estava tudo pronto. Tudo? Não. Eu tinha planejado acompanhar a demonstração desde o início até o fim, como compensação de não ter devidamente acompanhado a primeira. Porém, mais o dia fatídico se aproximava e mais me sentia fraquejar.

Resolvi tomar uma atitude corajosa.

Resolvi, com plena consciência, que NÃO iria ver a demonstração. Depois disso, me senti melhor, e, por isso, podia tomar tranquilamente as últimas providências necessárias.

Entre estas, se incluía a necessidade de falar com os quatros alunos que não conseguiram se deslocar no espaço; neste decepcionado grupo se encontrava, também, o nosso dinamarquês.

– Meus amigos, estou triste, tanto quanto vocês estão. Não sei, talvez, vocês estejam mais decepcionados do que eu próprio; é difícil poder julgar e comparar a intensidade dos sentimentos… é muito difícil.

Para compensar os vossos esforços, que foram grandes, visto as boas notas em todos os quesitos do vosso treinamento, informo que podem, se quiserem e sem burocracia nenhuma, voltar, e participar do treinamento da terceira turma, daqui a três ou quatro meses.

Já podem ter descoberto as razões por não terem conseguido. Pode ser que ainda tiveram algum resquício de vaidade, ou de orgulho, acho isso como a causa mais provável. Seja qual for, cada um de vocês, fazendo um sincero autoexame, poderá sabê-lo e, sabendo, poderá se corrigir e, finalmente, alcançar a meta pela qual tanto lutou.

Depois de longos segundos, um deles respondeu-me.

– Eu agradeço muito a sua generosa oferta, acho que todos nós.…, não é verdade, amigos? …nós todos agradecemos a sua compreensão. De fato, estamos tristes, muito tristes, por não termos conseguido o nosso intento, fazer o quê? …talvez o autoexame que sugeriu nos ajude na próxima tentativa.

Confabularam entre eles em voz baixa, e enfim, um outro deles, continuou:

– Professor Collins, acho que não temos mais o direito de chamá-lo de Edward…

– Não, ao contrário, vocês mais do que qualquer um, podem me chamar de Edward, fizemos esta jornada juntos e, espero sinceramente, que continuemos juntos, … que tentem de novo. Dentro do pouco que posso fazer para vocês, direi que somente vocês podem me chamar de Eddy. Sim, somente aqueles que não desistiram, podem me chamar de Eddy… Vocês vão tentar de novo?

– Sim, Eddy.

– Muito bem. Vamos em frente. Amanhã durante a demonstração, eu e vocês, a acompanharemos dentro de carros com teto solar. Podem levar as vossas máquinas fotográficas… de acordo? Beleza. A propósito, dinamarquês, você poderia vir na minha sala quando puder?

– Sim professor… desculpe, Eddy, quando quiser.

– Pode ser agora? Ótimo. Bem amigos, até amanhã. Dinamarquês, vem comigo, vamos juntos.

Enquanto subíamos para a minha sala, congratulei-me a mim mesmo. Com a ideia de acompanhar o deslocamento da turma de Nautas de carro com os quatros ex-alunos, eu podia tranquilamente, talvez não tão tranquilamente assim, acompanhar a “demonstração” sem olhar para os nautas.

Era o olhar que me constrangia. Esperava sempre um desastre, um desastre incontrolável e, logo a seguir, viria alguém a me culpar, implacavelmente, por este desastre.

Mais uma vez descobri que, nas provações finais, eu sucumbia por covardia. Vai ver que, no meu íntimo, sabia dessa covardia, nunca admitida conscientemente, mas sempre presente nos momentos verdadeiramente críticos. Certamente era por isso que eu nunca quis me habilitar a deslocar-me no espaço.

– Muito bem dinamarquês, você não se incomoda que o chame assim?

– Não, pelo contrário. Chamar-me dinamarquês deu-me um certo prestígio junto aos colegas.

– Que bom que isso te agradou. Escuta bem o que vou te dizer: Confirmo inicialmente o que já disse a todos, querendo, pode vir todas as vezes que quiser para fazer novamente o treinamento prático.

No teu caso particular vou te fazer uma proposta, pode aceitá-la ou não, como quiser. Se te lembra, algo do gênero te acenei tempo atrás, agora formalmente te pergunto: quer trabalhar no nosso centro em Moscou? O salário seria muito bom, e você pode escolher em qual área quer trabalhar. A princípio deveria ser numas das áreas em que você mais se destacou, mas, pode ser qualquer uma.

Para dizer-me o que vai fazer, pode me responder quando quiser, mas, para decidir se aceita ou não esta possibilidade, gostaria de sabê-lo já, agora, somente para a minha tranquilidade. Gostaria muito poder dispor, em Moscou, de alguém de minha inteira confiança.

– Aceito, sim. Quanto ao que poderia fazer, ainda não sei, devo pensar um pouco.

– Pense nisso com toda tranquilidade e.…, a propósito, por já ter aceitado o convite, o salário passa a vigorar a partir de hoje, concorda?

– Se concordo? Essa é pergunta que se faça?

Chegou, finalmente, o dia da segunda demonstração. Estávamos, todos nós, muito mais bem preparados e confiantes do que quando fizemos a primeira. Mesmo assim, me sentia angustiado. Quando da primeira demonstração não senti fraqueza em todo o meu corpo, nem a sensação de irrealidade de tudo que estava ao meu redor. Talvez isso deveria ser atribuído ao enorme cansaço que me acometeu na época. Não sei, somente ambiciono a que tudo termine o mais rápido possível.

Mas nada foi rápido.

Acompanhamos lentamente o “voo” dos nautas pela Eseinhower, eles não iam a mais de 20 milhas por hora, e nós estávamos numa autoestrada onde era permitido ir a 80 milhas. Esta velocidade, era a média de todos os veículos que aí trafegavam. Ficamos o tempo todo na pista de menor velocidade, mesmo assim, fomos objeto de contínuas reclamações sonoras; nem imaginava que poderiam existir buzinas com tantos tons diversos.

Para minha sorte, os quatro companheiros de viagem, tinham obstruído completamente o teto solar, e entre gritos e exclamações, pude deduzir o andamento do deslocamento dos onzes nautas, sem a necessidade de olhar para eles. O motorista da limusine também queria acompanhar a demonstração, mas as reclamações dos demais motoristas não lhe davam sossego.

Chegando finalmente na perimetral, ele descobriu que a saída da autoestrada que queria tomar para ir rapidamente ao palácio do Congresso estava fechada; carros policiais a estavam obstruindo, com alguns deles sinalizando para seguir em frente até a próxima saída.

Deduzi que era a predisposição do controle de tráfego que a municipalidade tinha aprontado. Isso foi acertado com a polícia e o departamento de circulação, e comigo mesmo, semanas atrás. Não me tinha ocorrido que acompanhar os nautas dentro do perímetro urbano seria praticamente impossível.

Chegamos tarde ao local da demonstração, programada para durar somente quinze minutos; aliás, nem conseguimos chegar perto do palácio do Congresso. Já a quatro quadras, o congestionamento era total, conseguimos ver, melhor, entrever, algo se mover no céu, nada mais do que isto.

A decepção dos meus alunos, ou ex-alunos, ou companheiros de viagem – não saberia mais como classificá-los – foi bastante intensa. Sabiam, porém, que teriam plena visão quando da continuação da demonstração.

De fato, de comum acordo com a municipalidade, programei que, dois a dois, os nossos nautas fariam algumas demonstrações singulares em cinco lugares diversos da cidade, sempre em locais já completamente lotados. Desta forma evitar-se-ia uma concentração absurda num único local, como ocorreu perto do palácio do Congresso.

Depois das demonstrações, que não queria que ultrapassassem os quinze minutos, podiam, os nautas, ao longo de uma hora no máximo, responder as perguntas de espectadores sorteados para isso. Não me importavam nem um pouco as eventuais besteiras que podiam dizer. Era tudo uma festa.

Mas não seria uma festa para mim. Tive que concordar em participar de um programa organizado pelo cerimonial da Casa Branca, nos jardins da própria. Fiz tudo o que podia para evitar me envolver numa coisa desse tipo. Sempre consegui evitar as demandas do poder executivo, que não foram poucas, mas a esta última não consegui recusar.

Então seria o décimo primeiro nauta, que era uma nauta, Charlene O’Rouke, – ostentando uma vistosa combinação de voo dourado, que deslumbraria toda a numerosa assistência esparsa nos jardins da residência presidencial.

Um dos pontos de atrito que eu tive com o cerimonial da Casa Branca foi que eles quereriam que Charlene chegasse com um uniforme com as cores nacionais. Por estarem presentes todos os Embaixadores residentes em Washington e as respectivas e distintas esposas e filhos, isso seria a apoteose do orgulho nacional.

Consegui fugir disso, alegando que não podia infringir os regulamentos da nossa escola, que exigiam que se usasse sempre o nosso uniforme oficial e, mais ainda, o que era uma deslavada mentira, que este nosso uniforme incluía alguns dispositivos especiais, indispensáveis para a orientação dos nautas.

Enfim, a Charlene chegou, fez diversos sobrevoos sobre os jardins da Casa Branca, bem lentos para permitir a todos ter a possibilidade de vê-la, fotografá-la e filmá-la.

Finalmente dirigiu-se ao casal presidencial, bem postados num pequeno palco, entregando-lhes um maço de flores…vermelhas, brancas e azuis. A primeira-dama abraçou longamente a nauta, e quando o Presidente cumprimentava a Charlene, a primeira-dama, como uma colegial, pulava de alegria e agitava o maço de flores repetidamente. Acho que todos os membros do cerimonial devem ter desmaiado de felicidade.

Outro ponto de discordância com o cerimonial da Casa Branca era que eles queriam que eu ficasse ao lado do Presidente. “Nem morto”, queria dizer, mas, ao invés disso, argumentei que eu não sabia voar, e quem sabia voar era uma bela mulher com um uniforme brilhante e uma bela cabeleira flamejante e ela acabaria ao lado dele. O que mais podiam querer?

Tinha predisposto, com os meus ex-alunos, que eles ficariam sempre junto de mim, para evitar de ser reconhecido ou interpelado. Andamos, assim, circulando, bebendo e petiscando por mais de uma hora e meia, as vezes nos aproximávamos da banda presidencial que, depois do curto discurso do presidente de boas-vindas a todo o corpo diplomático presente, tocava sem parar.

Quando percebi que diversos embaixadores, depois de cumprimentar o casal presidencial, iam se retirando, aproveitei a oportunidade e, todos nós, sempre juntos, saímos. Tivemos que andar um bom trecho, antes de chegar a nossa limusine e voltar a tranquilidade do nosso centro.

Este estava tranquilo demais. Todos: alunos, instrutores e empregados estavam em Washington. E a Charlene? – cheguei a pensar – como vai escapulir dessa confusão toda? Mas logo me corrigi: Charlene era a única, entre as centenas e centenas de pessoas espalhadas nos jardins da Casa Branca, que podia ir embora rápida e tranquilamente, quando bem lhe aprouvesse.

Dormi, como há muito tempo não dormia. Levantei-me perto das dez horas, e fui à cafeteria, para ver se conseguia algo para comer. Encontrei lá pouquíssimas pessoas e somente uma atendente que, sozinha, esforçava-se para atender a todos os presentes na melhor maneira possível.

De repente, numa mesa perto das janelas, vejo Charlene. Me aproximei e me sentei na sua frente.

– Charlene.

– Edward.

E ambos começamos a rir, a rir sem freio, rir para valer, rir a quase sair lágrimas dos olhos.

– Que dia.

– Que loucura.

– Nunca vi tanta gente.

– Foi a maior confusão que vi na vida.

– Não tinha imaginado uma coisa tão espetacular.

– Quem diria… todos que aí estavam, cerca de um ano atrás, duvidavam,

– Sim, é verdade, no fim dá uma certa satisfação ver que agora acreditam em nós, mesmo tardiamente.

Ficamos em silêncio um bom tempo, somente olhando um para o outro.

– E pensar que você não queria mais fazer o treinamento. Como foi lá na Casa Branca? O que achou?

– Achei tudo maravilhoso, tudo, tudo, mas somente depois de me abraçar com a primeira-dama, antes disso….

– Antes disso, o quê?

– Escuta esta estória, mas, não a conte para ninguém. Depois de terminado todo o cerimonial, recebi muitos comprimentos de embaixadores e embaixatrizes, por ter sobrevoado os jardins lentamente e diversas vezes, até o pessoal do próprio cerimonial me elogiou por isso. Afirmaram que, assim fazendo, todos, adultos e crianças me podiam ver tranquilamente e fotografar à vontade. Quer saber por que fiz isso? Pode adivinhar?

– Francamente não sei, e não tenho nem a mínima ideia.

– Fiquei dando voltas e mais voltas porque não sabia se as minhas pernas me sustentariam quando aterrissasse; … estava totalmente apavorada.

– Eu nem percebi. Cheguei a pensar “que manobra inteligente a Charlene excogitou”.

– Nada de inteligência, era puro pavor.

Ficamos em silêncio por um tempo, depois:

– Charlene, gostou?

– Adorei. Adorei, e devo tudo isso a você.

– Não, eu somente te propiciei a oportunidade, os esforços e os mérito são todos seus.

– Posso te pedir um favor, um favor imenso?

– Pode pedir o que quiser.

– Gostaria de visitar minha mãe, faz muito tempo que não a vejo.

– Ela, porém, deve tê-la visto na televisão. Pode ir quando quiser e fique com ela todo o tempo que ela desejar; você merece umas boas e longas férias. Somente me avise quando voltar. A propósito, não tem receio de ser reconhecida, com todos os incômodos que isso pode te causar?

– Nem um pouco.

– Parece-me que você está demasiada otimista. Tome cuidado.

– Não te preocupe, confio muito na minha peruca preta.

Depois de despedir-me da Charlene, fui para o meu escritório. O telefone estava tocando, atendi.

– Alô.

– Oh… senhor Collins, tenho recebido dezenas e dezenas de telefonemas procurando-o… não sei mais o que dizer para essa gente toda.

– Desculpe o transtorno, Lorena, estou ainda meio abalado… sabe…

– Sim sei… Foi fantástico, senhor Collins, … não acha também que foi fantástico?

– Sim, com certeza que sim… poder-me-ia dar a lista de todos os que me procuraram?

– Posso sim, porém vai demorar um pouco. Estou sozinha… até agora as minhas colegas não chegaram… daqui a pouco terá a lista.

Então, todas as rotinas do nosso centro também, foram para o espaço. Tenho que aguardar alguns dias para poder contar com a estrutura em pleno funcionamento. Foi falha minha, deveria ter programado uns três dias de folga para todos. Deveria ter deixado diversas telefonistas atendendo as chamadas e mantido somente o serviço de vigilância. Agora não adianta me recriminar. Vamos ver esta lista.

Analisei os nomes e cargos dos que queriam falar comigo e excluí de imediato os da imprensa e dos demais meios de comunicação. O que queriam a mais esses sujeitos? Não foi suficiente o espetáculo de ontem? Exclui, também, um bom número de pessoas que não conseguia identificar. Além da chamada do Rudiard, do famoso DRS de Langley, as remanescentes chamadas eram de Embaixadas. Eram muitas, exatamente quatorze. Estavam bem evidentes, para mim, duas circunstâncias: a primeira era que devia atender a quaisquer chamadas do corpo diplomático, a segunda que não tinha meios, e nem cabeça, para conseguir isso. Devia excogitar algo.

Resolvi atender ao Rudiard, talvez ele me pudesse dar a informação que já estava procurando

– Alô… Rudiard… como estás?

– Alô, Edward, estou bem, obrigado. Estou, também, estranhando o teu telefonema.

– E porque estaria estranhando, se foi você que me telefonou, não faz mais de que uma hora?

– O fato é que, antes, você era famoso, agora é superfamoso… Portanto, não teria tempo a perder com simples mortais… mesmo que fossem seus amigos e necessitando muito falar com você.

– Por acaso, eu também sou um simples mortal e, de um simples mortal para outro, te informo que estou à disposição, dia, hora, e local que você achar melhor.

– Muito bem, que tal almoçarmos, às doze e trinta, no restaurante Augustine? Sabe onde fica?

– Não se preocupe, acharei; mais uma coisa, você, por acaso sabe quem é o decano dos embaixadores daqui de Washington?

– Não sei, mas você sabe que posso obtê-la. Posso te dá-la no Augustine?

– Pode, sim, e muito obrigado.

– De nada, até daqui a pouco.

Já eram onze horas, dever-me-ia apressar se quisesse chegar ao restaurante na hora combinada. O meu motorista saberá achar esse tal de Augustine.

Rudiard me acolheu com um grande entusiasmo, inusitado, vindo dele.

-Oh… estamos na presença da mais famosa personagem de Washington. Você sabia que o presidente ficou furioso? Todos os jornalistas credenciados na Casa Branca procuravam falar com você, e não com ELE.

– Não, não sabia, e nem me interessa. Como tem passado, Rudiard?

– Bem, apesar da enorme confusão que você está causando à minha Diretoria, e a muitas outras, como pode imaginar.

-Imagino sim, talvez nós aqui possamos achar alguma maneira de conseguir diminuir essa confusão; a propósito, conseguiu saber quem é o decano dos embaixadores?

– Sim, é o embaixador da França, tem aqui, nome, endereço da embaixada e.… o seu telefone pessoal, gentileza exclusiva da Diretoria de Recuperação de Sistemas.

– Muitíssimo obrigado. Seria então da França? Não gostei muito, nada sei da França, afora que Marselha é a mais feia cidade do mar Mediterrâneo.

– Diga isso para ele, pode ser um bom início de conversa.

– E se ele for de Marselha? Prefiro dizer algo mais positivo, como por exemplo, que gostaria de passar uma semana no Museu do Louvre…

– …e outra no Moulin Rouge…

– Também. Vamos almoçar?

– Sim… se o garçom vier nos atender.

Atualizei o Rudiard de tudo que fiz e não fiz desde o último encontro. Nunca me interrompeu, assim eu não conseguia saber o que estaria pensando. Era um mistério que duraria até ter terminado a minha fala.

– Então, Rudiard, o que achou disso tudo?

– Da tua exposição, ou das situações que você criou?

– Do que você quiser. Querendo, pode opinar sobre a qualidade da minha exposição.

– Pelos nossos padrões, a tua exposição pode ser considerada medíocre.

– Medíocre? Você disse medíocre…? E eu me esforcei em ser sucinto e objetivo! …medíocre… ora…

– Não tem que esbravejar… No nosso meio a necessidade de ser sucinto e objetivo é imperiosa. Treinamos muito os nossos operadores para chegar a um nível satisfatório, e isso leva anos. No teu caso, sem treinamento algum, a classificação de “medíocre” é um elogio. Deveria me agradecer.

– Se for assim, e não acredito muito, agradeço. Continua a me parecer estranho ter que agradecer por ter sido considerado um sujeito “medíocre”.

– Errado, não é você “medíocre”, é a sua exposição que é, quando comparadas com os altíssimos padrões que, por necessidade, nós temos. E não somente nós, mas todas as agências de inteligência.

– Vamos deixar isto de lado, vamos analisar as diversas situações. Começamos com qual?

– Com nenhuma. Temos que definir primeiro as relações entre a minha agência e a tua escola.

– E por que isso? Isso é relevante?

– Não, não é relevante, é fundamental. Deve se lembrar de que, nas nossas primeiras conversações, eu te disse que, a nossa agência, era um braço do poder executivo do nosso país: um parêntese, você por acaso não seria, também, um dinamarquês?

– Não, sou decididamente americano, mesmo não gostando nem um pouco do nosso atual presidente…

– Não gosta? E por que não gosta?

– Não gosto porque é um fanfarrão, em primeiro lugar. A seguir, um canastrão desastrado. Considero ele responsável pela Covid ter atingido tão pesadamente o nosso país.

– Pode então perceber as imensas dificuldades que enfrentamos para defender o nosso país das ameaças externas. Ele é o nosso chefe.

– Lamento por todos nós e, mais ainda, por vocês da agência. Vamos voltar ao que você tinha iniciado a discutir, as relações entre a tua agência e a minha escola. O que você poderia a dizer a respeito disso?

– Está claro que nós somente podemos ter por objetivo a defesa do nosso país das ameaças externas, de qualquer tipo, provindo de qualquer lugar. Ficou também claro que devemos continuar firmes nesta tarefa, independentemente de quem for o chefe do executivo. Não esqueça, porém, que também o poder legislativo, às vezes, cria para nós situações embaraçosas, principalmente o Senado…

– O Senado…? E acha que não sei? Desculpe, continue.

– Independentemente de todas as dificuldades, o nosso escopo continua claro e límpido, como repetidamente já disse: defender o nosso país de ameaça externas, nem sempre facilmente detectáveis.

– Isso, para mim está bem claro, desde quando cursava o colegial. Qual é a relação com a minha escola?

– Vamos, Edward, você sabe muito bem do que estou falando.

– Pode ser que eu o saiba, mas não muito bem. Gostaria que me explicasse, em meu próprio benefício.

– Então explicarei. A tua escola, iniciada nos Estados Unidos, por leais cidadãos americanos, é uma instituição que não é americana. É uma instituição com intuito supranacional com objetivos louváveis que em nada prejudicam os Estados Unidos e, também, em nada contribuem para a sua segurança. Está totalmente alheia a estas questões de nacionalidade e de segurança nacional.

– Bravo. Agora entendi o que seria um relato sucinto e objetivo. Parabéns, … posso continuar a partir do que você, brilhantemente, resumiu?

– Por favor.

– Então as esferas de atuação da agência e da escola são totalmente alheias, uma em relação a outra e, a princípio, não existiria nenhuma possibilidade de interferência, portanto nenhuma controvérsia ou confrontação e que – esta é a parte mais importante – se porventura se prospectasse algo do gênero, os representantes destas entidades, amigavelmente, resolveriam o conflito.

– Bravo. Vejo que rapidamente você aprendeu a ser sucinto e objetivo. O que acha de nos tomarmos mais um digestivo?

– Ótima ideia. Isso demonstra cabalmente que não existe controvérsia a sanar entre as duas esferas.

Voltei ao Centro de treinamento e, logo que sentei na frente da minha mesa, abarrotadas de papéis os mais diversos, pedi a Lorena para chamar, no específico número telefônico que Rudyard me deu, o senhor Gilbert August De le Provoir, embaixador da França nos Estados Unidos.

– Boa Tarde, senhor Embaixador, aqui fala Edward Collins, soube que esta manhã o senhor ligou para mim.

– Sim, é verdade. Boa tarde… me disseram que ainda não tinha chegado no seu escritório. Pudera, depois dos inúmeros shows que o senhor nos propiciou, suponho que esteja bem exausto.

– É verdade, senhor Embaixador, ainda não me refiz completamente, mas faço questão de retornar o seu telefonema. Em que lhe poderia servir?

– Agradeço. Para simplificar o nosso diálogo, gostaria que me chamasse de Gilbert ou, se quiser ser mais formal, de Gilbert August.

– Muito agradecido, Gilbert August, eu sou somente Edward, às suas ordens.

– Muito bem, Edward. Eu estive, como todo o corpo diplomático de Washington, nos jardins da Casa Branca e assistimos, eu e a minha esposa Laurette de Savigní, ao magnífico e inacreditável espetáculo… por sinal, suponho eu que o senhor não estava presente.

– Estava presente, sim. Fiquei quase duas horas andando pelos jardins, vi todas as evoluções e escutei todas as músicas tocadas pela banda presidencial.

– Se estava presente, deveria estar ao lado do presidente. Voilá, você, Edward, era a pessoa mais importante nesse evento, não entendo…

– Não se preocupe, Gilbert, fui eu que não quis, fui convidado a ficar ao lado dele, mas recusei.

– Finesse, ou discordância? Desculpe, não precisa responder…

– Realmente, não saberia dizer. O que sei, com certeza, que preferia não estar lá, somente isso.

– Posso entender perfeitamente, muito mais de que se pode imaginar. Permita-me entrar no tópico do meu telefonema. Seria possível nos encontrarmos, para uma troca de ideias?

– Sem dúvida, Gilbert, pode escolher o dia e a hora. Posso sugerir, ao invés de eu ir cumprimentá-lo em sua Embaixada, você vir aqui visitar o nosso Centro de Treinamento? Não estamos muitos longe de Washington, em meia hora ou quarenta e cinco minutos, dependendo do tráfego, poderia chegar aqui. Seria um grande prazer mostrar as nossas instalações, não tem nada de muito especial, mas…

– Como não tem nada de especial? É um lugar especialíssimo. Gostaria muito de poder conhecê-lo. Mais uma coisa, percebi que o senhor não conhece as façanhas da minha esposa.

– Realmente… me desculpe.

Não tem nada a desculpar. A atual senhora de le Provoir, era, mais de trinta anos atrás, a endemoniada Laurette de Savigní, pilotava aviões e fazia as mais estrambólicas acrobacias. Conseguiu, até conquistar o recorde mundial de altura em avião de cabine aberta. Acho que o recorde continua até hoje. Quem seria tão louco para tentar morrer de frio nessas alturas?

– Gostaria muito que trouxesse sua esposa, será um grande prazer conhecê-la.

– Então podemos chegar amanhã, às dez e meia?

– Esperarei. Almoçará conosco, espero. A visita será um tanto demorada. Alerto que não será nada comparável ao que se pode encontrar na França, ainda mais nestes dias, em que a maior parte dos nossos colaboradores estão ainda festejando.

– Com todo o direito, sem dúvida, com todo o direito. Então até amanhã, Edward.

– Até amanhã, Gilbert.

Chegou, o casal de le Provoir, numa bela viatura, de marca e tipo que desconhecia, dirigida por um motorista uniformizado, até de botas e quepe. Às dez e meia eu me postei no portão principal da entrada de carros com Justin a meu lado, e uma de nossas secretárias com um ramalhete de flores. Desceram do carro, e depois dos cumprimentos de praxe, que incluíram a entrega das flores, nos dirigimos para uma saleta onde estavam preparados alguns refrescos. Reparei que madame Laurette de Savigní, mesmo com os seus aparentes sessenta anos, mantinha uma figura esbelta e muito elegante. Como esposa de um embaixador possuía a elegância adequada à posição e, por ser esposa do embaixador da França, ser muito elegante, era uma obrigação nacional.

– Então, senhora Embaixatriz, constatou que não estamos tão longe de Washington?

– Laurette, por favor. Não estamos, felizmente, numa cerimônia oficial. Agradeço muito por ter sugerido a meu marido trazer-me aqui. O meu dia a dia em Washington é um pouco enfadonho, tenho certeza de encontrar muitas coisas interessantes aqui.

– Espero que sim… Laurette, seu marido me confidenciou, que a senhora…pardón… você, foi uma eximia pilota de avião….

– Oh…, foi há tanto tempo, … quase não me lembro mais, …. até, chego a suspeitar que foi somente a minha imaginação.

– Um recorde mundial não pode ser imaginação. Estão dispostos a iniciar a visita? Sim? Ótimo.

Começamos seguindo o roteiro costumeiro próprio para os visitantes. Excluí, porém, os locais de serviço e restringi um pouco a visita às áreas de lazer. Chegando no pátio dos aviões, deixei Laurette se deleitar com a vista deles todos. Quando ela viu o nosso velho biplano, quase chorou. Chegou perto dele e o acariciou.

– Um antigo amor – sussurrei ao embaixador – do qual não deveria sentir ciúme.

– Ao contrário… a seu tempo, tive que a intimar: escolha: eu ou eles.

– Pelo jeito, ela fez a melhor escolha.

-Assim espero.

– Este avião ainda voa? Era a Laurette que me perguntava, olhando, porém, para o marido.

– Bem, sim. Voar, ele voa, e muito. Suponho que deva estar em manutenção, devo perguntar…

– Não será preciso, não é verdade, Laurette?

– Sim, querido.

– Hum… sugiro, se me permitem, irmos ao domo. É nessa instalação que damos os treinamentos práticos.

Uma boa e longa visita ao domo deveria atenuar, um pouco, a situação constrangedora que o velho biplano causou ao casal. Dei todas as explicações possíveis, dando a maior atenção às perguntas do embaixador. Quando percebi que estavam satisfeitos e exaustos, os convidei para almoçarmos.

– Estamos quase na hora do almoço, podemos ir?

– Podemos sim, e agradecemos o convite:

– Por favor sigam esta simpática moça que vos levará a um apartamento, onde poderão refrescar-se. Os aguardaremos na sala de refeição, é logo no térreo, saindo do elevador, daqui a meia hora, ou quando quiserem.

– Viu, Justin, em que situação o seu biplano nos colocou? Esse troço, quase colocou a perder todos os meus esforços para cativar o embaixador.

– O que aconteceu? Eu acho que nada aconteceu, pelo menos, nada percebi.

– Para com isso. Mais importante, tenta conversar com a esposa… mas não exagere.

O almoço decorreu tranquilo, nenhum sinal de algum dissabor. Pudera, trinta anos de vida diplomática deve ter sido um belo treino para não deixar perceber nada que não seja polido e oportuno. Terminado o almoço, pedi a Laurette, com um certo receio, se podia sequestrar o marido por alguns instantes.

– Gilbert, você já tem percebido que, no vosso mundo diplomático, eu sou como um elefante numa loja de cristais…

– Bem, não é tanto assim…

– Digamos então que seria somente um javali…

– Ainda acho um exagero, mas vamos lá, … suponho, Edward, que tenha algo a pedir?

– Exatamente. Eu mesmo poderia fazer o que estou pedindo, mas com escassas, escassíssimas probabilidades de sucesso. Pode recusar o meu pedido, se achar que não seria conveniente, devido à sua posição…

– Não se preocupe antecipadamente. O que será este pedido tão melindroso?

– Veja, Gilbert, recebi numerosos telefonemas das Embaixadas de Washington, suponho que queiram algumas informações, ou sei lá o que mais. Para atendê-los satisfatoriamente, a todos de uma vez, cheguei a cogitar uma reunião com todos eles, num lugar reservado, assim poderei responder a todos em uma única vez. Cheguei a pensar que, por ser o decano dos Embaixadores, seria mais fácil para você que para mim, fazer o convite.

– Entendo… deixa eu pensar um pouco…inicialmente, acho, que um convite seu seria certamente aceito por todos… concorda? Se telefonaram, já demonstraram um certo interesse.

– Sim, é verdade, mas não todas as embaixadas me contataram, e eu gostaria de atender a todas.

– Atitude louvável, certamente. Sim, talvez, seria mais conveniente eu fazer o convite, naturalmente em seu nome…

– …naturalmente.

– Deveríamos, acho eu, manter esta reunião a mais discreta possível.

– Sem dúvida.

– Devemos excluir este centro, me parece.

– Devemos sim, é muito visado.

– Você sabe se o meu colega da Espanha foi um dos que telefonaram para vocês?

– Não sei, mas vou saber neste instante, permite?

Peguei o telefone, liguei para Lorena, e pedi para verificar isso. Em menos de um minuto veio a resposta. Sim, um dos telefonemas veio da embaixada da Espanha. Comuniquei isso ao embaixador.

– Excelente, excelente. Perguntarei ao Suarez se ele nos pode propiciar a sua casa de campo. É uma residência vastíssima, eu a visitei, acho que tem espaço para uma reunião de todos os embaixadores – sem as esposas é claro – seria um tumulto, com todas elas presentes.

– Claro.

– Seria conveniente fazer isso num domingo. Ficaria mais discreto, não acha?

– Seria, de fato, muito oportuno.

– E aí, você estaria disposto a responder as perguntas de todos eles? Veja bem, serão, penso, cerca de oitenta pessoas curiosíssimas. Vai conseguir responder a todos?

– Espero conseguir. Pretendo fazer uma apresentação com a qual quero me antecipar às principais perguntas; depois ficarei à disposição, não tenho a mínima ideia do que poderá ocorrer.

– Reputo que essa sua apresentação pode ser a solução. Ficamos, assim, em contato telefônico. Para você qualquer domingo serve?

– Digamos que posso garantir os dois próximos; para mim, quanto mais cedo for, melhor.

– Vou colocar todo o meu pessoal a trabalhar nisso; vou te manter informado. “Tres bìen?”

– “Oui, mercí beaucoup”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *