A residência de campo da Embaixada do Reino da Espanha era vastíssima e magnífica. Quando Gilbert August me apresentou ao embaixador Suarez, ousei lhe perguntar o porquê dessa esplêndida mansão.
– Sim, é deveras uma bela residência, pena que eu não consigo vir aqui com muita frequência. Foi uma troca que fizemos com o vosso governo. A sede dos Estados Unidos em Madrid está num dos palácios mais prestigiosos da cidade. O meu antecessor, não quis se mudar de nossa sede em Washington, relativamente modesta, e preferiu manter esta propriedade como casa de campo, quando da troca com o nosso palácio. Acho que ele estava certo.
– Certíssimo.
– Gostaria de ver o que nós preparamos para a sua apresentação?
– Tenho certeza de que será satisfatório, mas, muito obrigado, vamos ver.
De fato, no maior salão da casa, colocaram cerca de oitenta cadeiras e, em cada uma destas, um cartão com o nome do futuro ocupante. Ainda não tinham chegado. Nós, eu, Gilbert e Suarez, chegamos no local duas horas antes para conferir os arranjos todos.
Gilbert me explicou que, por uma antiga tradição, a ordem de precedência entre os embaixadores era sempre definida pela ordem alfabética dos nomes dos países na língua francesa. Tal qual se faz, até hoje, na apresentação das equipes nacionais nas Olimpíadas. “Não tema, Edward” – disse-me Gilbert – “Eles todos estão bem acostumados a esse ritual”
Após as breves palavras de boas-vindas do dono da casa, que avisou que o almoço, muito simples, seria servido logo depois do evento, o decano fez uma breve apresentação de minha pessoa:
– Meus caros colegas, acho que, não tenho nenhuma necessidade de apresentar o senhor Edward Collins, depois do magnífico espetáculo que nós presenciamos nos jardins da Casa Branca. Ele recebeu pedidos de informações da parte de muitos dos nossos colegas do corpo diplomático e, para poder atender satisfatoriamente a todos, pediu ao vosso decano a possibilidade de um encontro. Graças à amabilidade do nosso amigo Suarez, estamos aqui, muito confortavelmente, prontos para ouvir o que o senhor Collins tem a dizer. Por favor, senhor Collins, pode tomar a palavra.
– Bom dia a todos. Sinto-me obrigado, não somente a agradecer aos senhores Embaixadores Gilbert de Le Provoir e Suarez de la Vega, por estarmos aqui, nesta bela residência, mas, também a todos os senhores, aqui presentes, por facultar-me transmitir, de uma só vez, as informações que considero relevantes em relação à minha Escola e que podem, eventualmente, ser de vosso interesse e, por que negar? satisfazer alguma vossa legitima curiosidade.
— Me permitam entrar no âmago das questões. Espero antecipar-me a perguntas mais previsíveis. Caso não conseguir me antecipar a todas, o que será o caso mais provável, informo que estarei à disposição dos senhores, para atendê-los, aqui ou no nosso Centro de Treinamento.
– Tenho boas e más notícias a dar, logo de início. É minha firme intenção instalar uma Escola em cada um dos vossos países, caso a queiram. Essa é a notícia boa. A ruim é que isso não pode ser feito rapidamente. Os tempos serão bastante longos.
Estes tempos longos não se referem às instalações físicas, que todos os senhores poderão ver, como meus convidados, no nosso centro da Virginia, e futuramente no da Califórnia, mas se refere exclusivamente a dois fatores: o primeiro seria a nossa capacidade de formar instrutores, o segundo a da vossa capacidade em selecionar candidatos. Vou explicitar estes dois fatores:
– É de domínio público que o curso completo que propiciamos na nossa escola é de dezoito meses, um ano e meio, e que, até o momento, eu sou o único instrutor. Deriva disso que a tarefa mais imperiosa é a de formar mais instrutores; agora, e em primeira mão, informo que já estamos criando uma escola para instrutores.
— Em um mês ou dois, teremos mais cinco instrutores. Estou trabalhando arduamente para poder fornecer todos os instrutores necessários para todos os Centros de Treinamento que planejaremos para o futuro próximo.
– O segundo fator seria a vossa capacidade de selecionar os aspirantes a frequentar a Escola, na realidade considero este como o fator mais crítico entre todos os fatores críticos. Podemos, sim, colocar a vossa disposição todo o sistema de seleção, aprimorado em mais de dois anos de experiência, mas isso será ainda insuficiente para o escopo. Aproveito para, como inciso, informar que os senhores estão convidados a visitar o nosso centro de seleção em New York. Repito que isso tudo ainda será insuficiente.
O que seria, então, necessário e suficiente para conseguir candidatos aptos a frequenta as nossas escolas? Sempre, evidentemente, no caso que queiram contar com uma escola no país dos senhores, é bom saber que existem condições essenciais a serem atendidas. Estas condições, que logo apresentarei, estão totalmente fora do meu controle. Quero dizer que, mesmo eu querendo alterá-las, não o poderia. E, sem estas condições essenciais, reitero, será impossível conseguir o deslocamento no espaço.
Poderia, dispondo de mais tempo do que temos agora, entrar em detalhes sobre o porquê dessas condições. Nesta oportunidade, somente dispomos do tempo suficiente para dizer que tipo de pessoas seriam aquelas que, nunca, nunca na maneira mais absoluta, poderão se deslocar no espaço. São as pessoas que costumamos classificar genericamente como pessoas más.
Não o poderão fazer, então, as pessoas com tendência a violência, os assassinos, os assaltantes e os estupradores, para ser mais explícito, e também as pessoas que furtam, que enganam, que exploram os outros, as pessoas com o hábito de mentir, de menosprezar os outros e descuidar dos dons da natureza. Também entram nesse rol, as pessoas egoístas, as que pensam somente em si mesmas, as pessoas avaras, que acumulam riqueza sem se preocupar com o seu próximo, próximo que Deus e os seus profetas, instaram a amar. E o que dizer dos orgulhosos, dos vaidosos, e dos soberbos? E ainda teríamos uma longa lista dos vícios que castigam há milênios, o gênero humano.
Poderão concluir que, com estas condições restritivas, poucas serão as pessoas que conseguirão se deslocar no espaço. É verdade, serão poucas, mas poucas ou muitas, estas pessoas existem. As onze pessoas que os senhores viram são o resultado de uma seleção de milhares de candidatos.
E como ficariam as pessoas que não conseguiram passar na nossa seleção? Serão, por acaso, condenadas a serem excluídas para sempre desta possibilidade? Não. Estas pessoas, podem, querendo, se deslocar no espaço, o que devem fazer para conseguir isso é simples: livrar-se dos defeitos impeditivos.
– Ficarei à disposição dos senhores para responder as eventuais perguntas que desejem fazer. Se me permitem, anteciparei algumas respostas, das muitas que já me fizeram.
– Não, não tenho capacidade de me deslocar no espaço e, a mais, não tenho desejo disso.
– Não, não fui eu o descobridor desta possibilidade. Sou somente o operador.
– Sim, sei qual entidade ou pessoa ou grupo de pessoas, que fez ou fizeram, a descoberta.
– Não, não o posso revelar quem foi o autor, não porque eu não queira, mas somente porque isto me foi posto como condição absoluta, caso aceitasse tornar-me o operador; e eu aceitei.
– Sim, a descoberta, pode ter sido realizada por americanos, é uma das numerosas possibilidades; sim, sou americano, e americanos são quase todos os nossos alunos, mas, este que vos direi agora, é um fato essencial e determinante que deve ficar bem claro; esta descoberta não depende de americanos: pessoas americanas, empresas americanas ou governo americano.
— Esta possibilidade, independentemente de quem for o autor, está à disposição de todos os países do mundo, como estou tentando fazer agora. Muito obrigado.
Enfim a mensagem estava dada, agora, ou melhor, em breve, todos saberiam o que teriam que “ser” para poder se deslocar no espaço. Os aplausos, logo depois da minha apresentação não me interessam nem um pouco. A mensagem, acho eu, foi clara. Vamos esperar as perguntas.
– Atenção senhores, atenção… por favor… atenção …. – Era o Gilbert que queria dizer algo – um minuto só… por favor …obrigado. Meus senhores, sem que o nosso ilustre convidado soubesse, permiti-me, desculpe-me senhor Collins – permiti-me gravar a exposição dele e, se ele consentir, enviarei cópia da gravação a cada um dos senhores. Senhor Collins, me autoriza a fazer isso?
– Até agradeço por esta sua ótima ideia.
Não fui eu, a ideia foi do nosso anfitrião. Sugiro uma salva de palmas para o Embaixador do Reino da Espanha, Suarez de la Vega.
Todos aplaudiram, bem entusiasmados.
– Senhores… – de novo o Gilbert queria falar – Senhores, sugiro cinco minutos, ou dez, mas não mais do que isso, de pausa, antes de iniciar a sessão de perguntas ao nosso convidado. Quem quiser fazê-las, fale comigo agora.
Após a pausa, as perguntas iniciaram:
– Senhor Collins, o senhor afirmou que vai demorar a implantação dos seus centros por aí afora, mas afirmou, também, que o Centro da Califórnia está pronto, pode explicar esta aparente discrepância.
– De fato, o Centro de Treinamento da Califórnia está pronto, somente que está inoperante por falta de instrutores. Como disse, estamos treinando mais instrutores, e estes estarão disponíveis em breve.
– Senhor Collins, como se procederá a eventual implantação de um Centro de Treinamento fora dos Estados Unidos? Existiriam algumas condições prévias? E como serão distribuídos custos e responsabilidades?
– Respondo, realçando que são três perguntas e não uma, mas, como são de interesse geral e estão numa sequência lógica, responderei a todas as três:
– A implantação será precedida de uma manifestação de interesse, endereçada aos responsáveis da Escola — eu sou um deles, mas não o único. A seguir, será assinado um Acordo de Cooperação no qual estarão descritas as obrigações de ambas as partes. Do lado da Escola não será feita nenhuma exigência, afora as normais e especificas relacionadas com o seu funcionamento regular.
Realço este aspecto, a Escola não colocará nenhuma condição especial, afora as necessárias ao seu normal funcionamento. Deverá ser cuidado dos responsáveis que assinarão o Acordo de Cooperação inteirar-se perfeitamente das condições da operação da escola, antes de assiná-lo. Os custos e responsabilidades pelas distintas operações serão definidas no Acordo mencionado
Para maior clareza apresento situações possíveis. Caso a Escola, entendo nós aqui na Virgínia, e futuramente na Califórnia, for chamada a prestar um determinado serviço, como por exemplo, a seleção dos candidatos, ou o fornecimento dos instrutores, os custos serão reembolsados à entidade quem prestou esse específico serviço.
É oportuno informar, também, que a quase totalidade do treinamento não é relacionada com o deslocamento no espaço propriamente dito. Posso estimar que entre 90 e 95% da carga didática poderá ser realizada por alguma entidade do próprio país que deseja ter uma Escola.
E já que falamos disso, para esgotar a matéria, mais duas informações: A primeira é que forneceremos os projetos de todas as instalações físicas, diferenciando as que devem ser obrigatoriamente realizadas conforme nossas instruções e aquelas que, querendo, podem ser alteradas, sem prejuízo da finalidade do centro.
A segunda é que, para dar a assistência técnica necessária para manter os padrões obrigatórios da Escola, será definida uma compensação financeira, estabelecida no já mencionando Acordo de Cooperação. Esta compensação financeira será definida como um percentual sobre o preço do curso para os alunos, este preço seria de um valor equivalente a 200.000 dólares americanos, em moeda local e ao câmbio livre. O preço do curso não pode ser alterado e nem subsidiado pelo governo ou quaisquer entidades, pública ou privada.
Acho que esgotei as perguntas, assim espero, porque eu também me esgotei.
— Atenção, meus amigos, – era novamente o Embaixador Gilbert – eu tenho aqui mais perguntas, sugiro, porém, almoçarmos e continuaremos depois do almoço, e de um pouco de “siesta”, como dizem os espanhóis. Todos concordam?
Evidentemente, todos concordaram.
Almoçamos principescamente. O embaixador Suarez tinha dito que seria uma refeição simples. Entendi que queria aproveitar a inesperada oportunidade para fazer a promoção da culinária das diversas regiões da Espanha e dos respectivos excelentes vinhos. Se essa era a intenção dele, posso testemunhar que foi plenamente alcançada.
Em relação às novas perguntas, após a siesta, com exceção da primeira, nada de relevante foi apresentado. Foram sempre as mesmas dúvidas e questionamentos, apresentados com um palavreado diverso.
Como disse, somente a primeira tinha algum valor. Ei-la: “Senhor Collins, o senhor disse que o preço do curso não pode ser subsidiado por nenhuma entidade pública ou privada, como conseguiriam comprovar isto?”
– Ótima pergunta. Ótima, por dar-me a oportunidade de fornecer mais um esclarecimento. Não vamos averiguar nada; o aluno, coitado, poderá fazer tranquilamente o curso todo… somente que não conseguirá deslocar-se no espaço; ele era o fruto de um trambique e, de consequência….
– Mas se, por acaso, ele não participou da falcatrua, ele somente recebeu esta quantia sem nenhuma sua aquiescência e…
– Primeiro, uma observação: cada um, dos bilhões de habitantes da terra, sabe perfeitamente se possui ou não 200.000 dólares norte-americanos. Observação subsequente: nesta discutível hipótese, o sistema se autocorrige. O aluno, uma vez inserido na doutrina da Escola e deslocando-se no espaço, não poderá ser súcubo da entidade que o financiou. Caso quiser atender a este improvável financiador, simplesmente não conseguirá se deslocar no espaço.
Chega de festas e andanças, tenho que me confinar no centro e tentar transmitir os meus conhecimentos aos cinco neurologistas já arregimentados. Este é o novo desafio da Escola. Se não conseguir resultados, adeus novos centros… nem o da Califórnia poderá operar, imagine-se os que ainda estão em construção.
Cerca de uma semana depois do encontro com todo o corpo diplomático acreditado em Washington, recebi um cartão postal da Irlanda. A imagem mostrava uma bela paisagem campestre que induzia a paz e harmonia. Mas quem me poderia enviar um cartão postal da Irlanda?
Vejam só… vejam só…, o cartão postal tinha sete assinaturas, se é que se podia chamar aqueles rabiscos de assinaturas, e uma mensagem claríssima: “A primeira turma parabeniza a segunda”. Esta era a primeira manifestação de alguém da primeira turma depois de terem desembarcado em Veneza. Obrigado, Louise, vejo que estão todas juntas.
Voltei a admirar a paisagem, e percebi um pequeno círculo à tinta sobre algo na fotografia. Peguei uma lupa e vi bem no meio do círculo uma das tantas belas casas que se espalhavam na paisagem luminosa. Ei… espera aí… isto não lembra o morro luminoso? Parece então que a Louise conseguiu reproduzir a antiga residência delas todas nas terras da Irlanda.
Parabéns para você, Louise, e muita felicidade para vocês todas. Merecem toda a paz e felicidade do mundo; sete distintas senhoras, as “velhinhas”, como uma das irreverentes moça da Quinta Avenida as apelidou, foram os primeiros seres humanos capazes a se deslocar no espaço. Felicidade para vocês.
A mensagem da Louise me reanimou o bastante para retomar a exaustiva tarefa que me esperava. Tinha que preparar cinco neurologistas a tornaram-se treinadores de pessoas que queriam, e pagaram caro por isso, deslocarem-se no espaço.
Apesar de eles possuírem uma enorme facilidade em entender e aprender, os mais de dois meses a seguir foram exaustivos para mim. Além dessa tarefa específica, que não era nada fácil, tive que enfrentar uma avalanche de solicitações que vinham, literalmente, dos quatro cantos do mundo.
A minha apresentação na residência de campo da Embaixada da Espanha tinha desencadeado um frenético anseio de dezenas e dezenas de países a querer saber mais, e a querer, não explicitamente, contar com algum privilégio ou primazia. Eu previ isto, mas, estranhamente, ou melhor, estupidamente, não me preparei de maneira adequada.
Além das exaustivas aulas com os neurologistas, tinha, depois do jantar, que me dedicar a interpretar os pedidos de inúmeros países e responder com clareza, prudência e diplomacia. Não era nada fácil, qualquer meia palavra não apropriada poderia me causar problemas, imediatos ou no futuro.
Voltou a Charlene. Bela e tranquila.
– Edward, eis-me aqui de novo.
– Bem-vinda, Charlene. Tudo bem com você? E como correram as coisas, lá, na casa da tua mãe?
– Tudo bem com ela, ela estava felicíssima, e mais feliz ainda por eu ter voltado para casa. Ocorreu, porém, que todos os vizinhos me viram na televisão, e quando souberam que tinha voltado, vieram todos, uma multidão entusiasmada e faminta por notícias… tanto assim que fui forçada, já no segundo dia, a colocar de novo a minha peruca preta e, de carro, eu, minha mãe e uma minha prima que mora com ela, fugirmos para outra cidade.
– Vejo, que as coisas não foram totalmente tranquilas para você.
– Não diria isso. Excluído aquele dia e meio, de todos os vizinhos e de todos os vizinhos dos vizinhos quererem me ver.… e saber… e não sei o que mais… Tirando esses dias, nós três nos divertimos muito… eu sempre com a minha peruca preta.
— Ainda bem que descansou. Te vejo bem disposta.
– Estou sim… se tiver algo para eu fazer, te agradeceria muito. Você me parece mais magro, ou é impressão minha?
– Não sei, não saberia te responder…
-…. e mais pálido. Estaria doente?
– Não, doença alguma, somente muito trabalho e pouco descanso.
– Ora… e por que tudo isso? Imaginei que, depois daquele dia, teria descansado em algum lugar, longe daqui.
Contei, resumidamente, tudo o que aconteceu durante a sua ausência, a respeito do embaixador francês, da reunião de todo o corpo diplomático sediado em Washington e da enormidade de pedidos que tentei conter.
– Escuta Charlene, poderia me ajudar?
– Claro que ajudarei. Mas, em quê?
– Em responder a todos os pedidos que recebo dos países que querem mais informações para conseguir ter um centro de treinamento como o nosso.
– Desculpe…. mas, parece-me que você enlouqueceu; como poderia, eu, ter uma capacidade dessa? Responder a pedidos estrambóticos, feitos, talvez, naquele palavreado incompreensível que eles usam?
– Por favor, Charlene, me escute…
– Acho que, além de magro e pálido você, também, perdeu o sentido das coisas…
– Charlene!
– Sim, Edward.
– Poderia me fazer o favor de parar de tagarelar e me escutar?
– Sim Edward… me desculpe.
– Se quiser ajudar, agradeceria muito….
-Claro que quero.
– Não me interrompa. Se quiser me ajudar, o que deveria fazer é de responder a esses pedidos “estrambóticos”, como você os chamou. Vou dizer-te como fazer isso. Vai me ajudar?
-Sim.
-Pois bem. Como primeiro passo, você deveria ouvir a gravação da minha apresentação e, não somente ouvi-la, mas entendê-la mais que perfeitamente. Sugiro transcrevê-la literalmente… depois transcrevê-la da forma de como você a entendeu. Está claro até agora?
– Até agora é tudo muito simples.
– Feito isso, nós dois examinaremos o que você escreveu, eu e você, entendeu? Devemos chegar a um acordo sobre o significado de tudo que eu disse nessa ocasião; isto é importante, devemos obrigatoriamente concordar com o significado do que eu disse naquela oportunidade, pode discordar à vontade, mas no final devemos concordar quanto ao significado. Também isto ficou claro?
– Sim, mas, e se não chegarmos a um acordo, como fica?
– Acho que chegaremos, mas, se não chegarmos… vamos resolver o que fazer no momento, não agora.
– Entendi. Pode continuar.
– Feito isso, leia, com calma, muita calma, todas as respostas que eu já dei; pode até ser que eu tenha escrito algo inapropriado. Se você descobrir, eu agradeceria muito.
– E você acha que eu vou descobrir, eu… algo de inapropriado no que você escreveu?
– Não disse que você iria descobrir, mas que poderia; e, se descobrir, agradeceria muito, se não descobrir, tudo bem. O que queria dizer é que, devemos concordar, ambos, com o significado dos textos. É complicado tudo isso?
– Não, não é. Não é, depois de explicado.
– Continua achando que não tem condições para redigir as respostas?
– Da forma que você colocou as coisas deveria responder que sim. Porém, posso escrever alguma besteira.
– Quanto a isso não se preocupe. Faremos sempre uma reunião conjunta, examinando pedido e resposta e, juntos, corrigiremos o que deveria ser corrigido. O que acha?
– Fácil, fácil demais. Não entendo por que você não queria me dar esta tarefa. Francamente, não entendo – Charlene disse, sorrindo.
– Eu também não entendo, me desculpe por não ter acreditado na sua capacidade.
-Está desculpado.
***
Depois da Charlene ter entrado em operação, consegui dedicar mais tempo para as demais frentes que tinha aberto. O centro de treinamento da Califórnia já tinha começado a funcionar, os primeiros trinta alunos, já estavam sendo treinados nas disciplinas preparatórias; deveria passar quase um ano, antes de ser necessária a presença de um treinador, o específico para as aulas teóricas e práticas de deslocamento no espaço.
Os centros de treinamento na China, Rússia e Alemanha já estavam em construção. Eu não me incomodava nem um pouco se seguiam corretamente ou não os projetos entregues. Somente acompanharíamos a execução do domo, que deveria ser construído exatamente como foi projetado. Os arquitetos de Washington cuidariam disso.
Em relação à seleção dos alunos que seria realizada nesses países, parece que os processos ficaram um pouco nebulosos. Tínhamos sim, entregue todos os protocolos, procedimentos, formulários e perguntas, bem como a metodologia da avaliação das respostas. Não tinha, porém, como saber, com certeza, se seguiam ou não as instruções repassadas. Como podia verificar isso? Não sabia. Somente estando lá, ou criando um sistema que me permitisse controlar o que estavam fazendo.
Neste momento não sabia como poderia fazer isso; deveria pensar e achar uma solução. De qualquer maneira se os procedimentos deles forem inapropriados o que poderia ocorrer? Se eles forem muitos restritivos, poderia ocorrer que excluiriam bons candidatos e, se fossem mais lenientes, ficariam abarrotados de alunos que não conseguiriam terminar o curso. Dever-me-ia preocupar com isso? A princípio, não; mas tenho que ficar atento a essas possibilidades negativas.
Logo após o término do treinamento dos neurologistas, todos agora plenamente capacitados para me substituírem, os reuni na minha sala:
-Parabéns para vocês todos. Todos vocês passaram brilhantemente nas provas finais, como tinha absoluta certeza. Agora todos vocês sabem, neste tópico, tanto quanto eu… são instrutores que podem treinar pessoas a se deslocar no espaço. São os primeiros. De novo, parabéns.
– Devemos isso a capacidade do nosso instrutor. – Disse um deles.
– Deixem disso. Não menosprezem os vossos esforços e a vossa capacidade. Podemos falar do futuro?
Todos estavam ansiosos em desvendar esse nebuloso futuro.
– Muito bem, vocês já sabem e, caso não o saibam, vos informo que está em andamento a implantação de mais três centros no exterior, precisamente na Alemanha, Rússia e China. A necessidade de instrutores para as aulas práticas será daqui a oito meses, para o centro da Califórnia e de aproximadamente um ano e alguns meses para os centros do exterior. Estes prazos consideram o tempo necessário para terminar as construções, instalar os equipamentos e mais o tempo para terminarem todos os cursos preparatórios. Adianto também que estamos sendo requisitados para implantar mais centros por aí afora, quantos e onde, ainda, não sei; no momento não me preocupo nem um pouco. Sabem qual é a minha preocupação neste momento?
– Eu não sei. – Disse Jan Kennet e, dirigindo-se aos colegas – e vocês, saberiam?
Todos disseram que não o podiam saber.
– A minha preocupação é de como utilizar vocês até o momento de assumirem as vossas funções. Eu tenho necessidade de pessoas capazes e com vontade de enfrentar as dificuldades que poderíamos encontrar no nosso caminho de querer espalhar Escolas pelo mundo. Estão dispostos a enfrentar isso?
Todos anuíram.
– Muito bem, vamos, então, começar resolvendo o nosso problema mais imediato. Todos concordam que o Jan irá para a China porque ele é um dos maiores poetas contemporâneos daquele país.
Todos deram boas gargalhadas.
— Professor, pare com isso… – me interrompeu o próprio Jan Kennet.
— Como parar? O que disse de errado? Você não lê e entende os ideogramas chineses?
– Sim, mas…
– Você não escreveu poesias com estes ideogramas?
– Sim, mas…
– E estas poesias não poderiam ser classificadas como contemporâneas?
– Poderiam sim, mas…
– Você pode concordar comigo que eu não conheço nenhum outro poeta contemporâneo chinês?
– Acho que sim, mas…
– Você concorda que os seus colegas se precipitaram quando riram da sua classificação de poeta chinês contemporâneo?
– Sim, mas…
– O que seriam todos esses, “mas”? Você concorda com tudo que eu disse?
– Sim, mas…
– Mas, o quê?
– Sabe que não sei? Me desculpe professor, pode continuar.
– Como eu ia dizendo, o nosso Jan Kennet, tem o seu lugar assegurado na China. O John Dewey fala francês e, sendo que não temos ainda um centro em construção na França, acho conveniente, mantê-lo de reserva aqui. Restam, portanto, para vocês os três últimos, a Califórnia, a Rússia e a Alemanha. Acho que a melhor solução — para mim, claro — é deixar que vocês briguem entre si, para definir quem vai aonde. Entenderam?
– Sim, entendemos, quando podemos começar a brigar?
– Logo depois de dar-vos algumas informações adicionais e eu afastar-me do local da briga. De acordo?
– De acordo. –Responderam, rindo, os três.
– Primeira informação: os que irão na Alemanha e Rússia, deverão fazer aqui nos Estados Unidos um curso intensivo de três meses nas línguas desses países. Deverão ser cursos simples, do tipo para turista ou viajantes ocasionais; depois disso, já podendo falar o necessário no dia a dia, devem ir para a Alemanha e Rússia e, aí sim, fazer cursos para o perfeito aprendizado da língua. Vou dar uma sugestão para quem vai, para facilitar este aprendizado, ou melhor, para aprofundar o conhecimento da língua: sugiro que arranjem uma namorada.
– E aquele que irá para a Califórnia, o que faria até começarem as aulas?
– Não queria dizer, mas, já que perguntaram, direi. Tenho pena dele.
– E por quê? – Todos os três perguntaram.
– Porque ele, e mais dois nautas desta segunda turma, todos os três, passarão um ano numa oficina mecânica, numa cidade fria. Se alguém de vocês esperava que ir para a Califórnia, seria ir para Los Angeles. Hollywood, ou para belas praias, sinto muito decepcioná-los. Podem me dar uma reposta até amanhã na hora do almoço? Tenho ainda muitas informações a vos transmitir.
Chegado o amanhã, perguntei:
– Muito bem, chegaram a brigar mesmo, para definir quem vai e aonde?
– Não. Discutimos bastante, mas, nem sombra de briga, como o senhor, talvez, almejasse.
– Então, vocês ganharam um ponto positivo, por não terem brigado entre si e, um ponto negativo por ter pensado que eu almejaria algum confronto cruento. Eu disse ontem que “deixaria vocês brigarem”, não sugeri que brigassem, mas, simplesmente deixei vocês livres para defenderem os vossos próprios interesses, se de interesse pode-se chamar esta escolha do lugar de trabalho. Vamos deixar de lado as minhas costumeiras brincadeiras e vamos ao que interessa.
William Rutter se antecipou aos demais e disse:
– Eu irei na oficina mecânica fria, Shepherd Dey quer ir para a Rússia e Alfred Deakin, que gosta muito de cerveja, escolheu ir para a Alemanha.
– Espero realmente que essas escolhas não tenham sido motivo de contraste, de inimizade…
– Nem um pouco – continuou William – quando criança gostava de desmontar qualquer tipo de aparelho, até o dia que meu pai começou a cobrar-me os consertos.
– Como podia te cobrar os consertos, que deviam ser relativamente caros para uma criança?
– Ele excogitou uma maneira fácil e infalível; criou uma conta corrente na qual as entradas seriam as minhas reduzidas mesadas e as saídas os custos dos consertos. Quando percebi que ia ficar sem as mesadas pelos quatro meses seguintes, desisti desse meu hobby.
– Posso concluir que seu pai, sem ofensa, destruiu a carreira de um futuro grande engenheiro mecânico?
– Acho que não, apenas destruiu a minha propensão a destruir.
Vamos, então, aguardar o que você irá fazer, nessa oficina mecânica que, além de fria, é também barulhenta, cheia de fumaça e pó e, adicionalmente, cheia de perigos escondidos. E vocês, Shepherd e Alfred, estão satisfeitos com os vossos destinos?
– Não tenho nenhum motivo especial para ir à Rússia, nem de não ir. Querendo achar algum tênue motivo, apresentarei dois, meu pai gostava de ler Tolstói e eu, quando no colegial, gostava de jogar xadrez. Evidentemente não são motivos para escolha nenhuma, mas, irei com muito prazer, é uma alternativa muitíssimo melhor do que vegetar nas clínicas Ônix.
— Folgo muito em ouvir isso. E você, Alfred, está torcendo para que o centro na Alemanha seja instalado perto de Munique? Lá se bebe cerveja desde as sete de manhã.
– Não é nada disso, é uma brincadeira do William, nada mais. Para mim, como disse o Shepherd, qualquer alternativa às clínicas Ônix é boa, e esta que escolhi é ótima, graças também as inúmeras regalias e oportunidades que o senhor nos deu. Agradeço novamente em nome de todos nós.
– Muito bem, todos vocês têm já definido o próprio local de trabalho; antes de começarem os vossos cursos de língua estrangeira, gostaria de poder ter uma longa conversa com cada um de vocês e, antes que me esqueça, se vocês sabem de algum amigo neurologista que queira se juntar a nós, me avisem. Terei muito prazer em conversar sobre possibilidades de carreira conosco.
– Foi muito oportuna essa sua informação, tem muitos amigos meus, do Shepherd e do William que querem saber se existiria alguma chance de trabalhar nos centros de treinamento. Nunca falamos disso com o senhor porque não sabíamos da acolhida desses pedidos, principalmente pelos momentos turbulentos que tem passado.
– Boa notícia. Avisem esses vossos amigos que terei prazer em conversar com eles. Podem contactar a chefe do nosso escritório na Quinta Avenida, a senhorita Jane, a informarei disso e a avisarei de quando estarei em New York. Tudo claro?
Aproveitando a minha ida para a Califórnia, resolvi tentar falar com o presidente da Boeing, ou alguém de peso dessa empresa. Consegui, depois de muitas tentativas, falar pelo telefone com a secretária da secretaria do Presidente George D. Warwick.
– Sim senhorita, quem fala é Collins, da Escola de….
– Sim senhor Collins entendi, mas, para poder falar com o Presidente, temos que saber do que se trata.
– Quem quer saber?
– Bem… nós.
– E quem seriam esses “nós”?
– Ora, senhor Collins, somos nós, da secretaria da Presidência, do número para o qual o senhor ligou.
– Entendi, então para falar com ele, devo antes dizer do que se trata, é isso?
– É isso mesmo.
– Mesmo que se trate de um assunto sigiloso?
– Sim, acho que sim…
– E se, por acaso, envolver algum aspecto pessoal do Presidente…
– Um momento, senhor Collins, passo a ligação para a secretária particular do Presidente.
– Alo, é o senhor Collins, Edward Collins…
– Sim, sou eu mesmo, estou aqui em São Francisco e gostaria muito de poder falar com o Presidente, deixo em alguns dias o país e gostaria, antes disso, trocar algumas ideias com ele, é possível?
– Devo consultar a agenda…. Vejamos…. Sim, poderia ser possível na sexta-feira da semana próxima ou, se quiser, logo na segunda a seguir…
– Senhorita, por favor… poderia saber o seu nome?
– Acho que não seria necessário, mas, no seu caso, vou dizer: Jennifer Johnson.
– Agradeço a sua gentileza, senhorita Johnson, mas, na sexta feira próxima estarei em Pequim e na segunda, estarei voando para Moscou, acho difícil poder estar em Seattle…. Vejo que o Presidente, apesar de ficar sempre na mesma cidade, tem dificuldade de…
– Não é bem isso, existem compromissos de longa data…
– Entendo, entendo… é uma pena…. sendo assim, vou desistir… Poderia me fazer um pequeno favor?
– Sem dúvida, senhor Collins, diga.
– Informe o senhor Presidente que, se dentro de dez minutos, não falar comigo, passarei o negócio para a General Dynamics. A senhorita já tem o meu número. Agradeço muito e boa tarde.
Fiquei sentado olhando para o relógio. Queria saber como funcionavam as coisas em Seattle… Depois de oito minutos tocou o telefone. A voz da senhorita Jennifer Johnson, educada e controlada me avisou:
– Alô, senhor Collins, o Presidente Warwick na linha.
– Alô, senhor Collins, boa tarde, então o senhor está em São Francisco?
– Sim, senhor Presidente, agradeço muito a sua gentileza em atender-me.
– Não se preocupe. Infelizmente tenho que manter uma barreira…
– É muito compreensível… claro… na sua posição… por sinal, a sua barreira é muito eficiente e educada.
– No que lhe poderia ser útil senhor Collins?
– Gostaria muito, se lhe for possível, ter um breve encontro com o senhor, não mais de quinze minutos, mas o mais rápido possível. Sabe, tenho que…
– Sim, a secretária já me disse. O senhor está em São Francisco, certo?
– De fato estou em São Francisco. Se não for muito incômodo, poderei estar no seu escritório amanhã às dez horas ou na hora que lhe for mais conveniente.
– Acho que às dez horas de amanhã é uma boa hora… sim é uma boa hora. Na portaria diga o seu nome e logo o levarão até a minha sala.
– Agradeço muito a sua disponibilidade. Boa tarde e até amanhã, senhor Presidente.
– Até amanhã, senhor Collins.
Agora tenho que correr, tenho que pedir à secretária do Justin, que me reserve um avião para as nove horas desta noite para Seattle, que me faça uma reserva em um hotel confortável, o mais perto possível da sede da Boeing, me compre quatro boas caixas de chocolates, todas diferentes e, finalmente procure, William, Shepherd e Alfred, que devem estar por aí incomodando alguém, os procure e os mande na minha sala o mais rápido possível.
– Muito bem…já chegaram… cadê o Alfred?
– Ele já vem… em um segundo.
– O segundo já passou…, ah… ele chegou, sentem-se.
– Hoje à noite, as nove horas vamos, de jato alugado, para Seattle. Façam as malas, ficarão em Seattle, se tudo correr bem, por um ano. Chegando, eu irei na Boeing… vocês podem passear e conhecer a cidade, depois, conforme o resultado da conversação com o Presidente da Boeing, poderão começar a procurar um lugar para morar… um minuto …. Sim? O jato está confirmado às nove horas… terminal quatro… sim sei… perfeito… logo que confirmarem as reservas no hotel me avise… sim, os nomes são do Alfred, Shepherd e William, não esqueça de transmitir os nomes completos. Aguardo a confirmação. Obrigado.
– Então, meus amigos, quero vocês todos, no mais tardar às oito e meia no terminal quatro. No avião darei mais informações; podem ir fazer as malas.
– Vão, o que estão esperando?