Chegamos, finalmente. Na entrada do prédio principal da Boeing, logo que disse o meu nome, fui conduzido, diria melhor, fui empurrado rapidamente para a sala do Presidente. Suponho que alguém deve ter levado uma boa reprimenda por não terem me atendido rapidamente quando telefonei. Enfim um último empurrão, e eis-me aqui, na frente do Presidente da Boeing. Mal tive tempo de deixar as caixas de chocolates numa mesa qualquer.
– Bom dia, senhor Presidente, agradeço novamente ter-me recebido, desculpe a minha insistência.
– Não se preocupe com isso, por favor sente-se e fique à vontade. Algo para beber? Não? Muito bem, sou todo ouvido senhor Collins. Antes de iniciar, queria parabenizá-lo pelas façanhas incríveis que o senhor realizou.
– Obrigado… obrigado… É justamente dessas, como o senhor disse, façanhas, que queria trocar umas ideias com o senhor.
– Vamos a isso, então, quais seriam então as suas ideias que, suponho, envolveriam a Boeing.
– Bem colocado. Iniciarei lembrando que os meus nautas, os que podem se deslocar no espaço, o fazem a alturas modestas, algumas centenas de pés, não mais do que isso. O senhor sabe, muito melhor do que eu, que, maior a altitude, menor será a temperatura. Se queremos que subam mais, teremos que dotar, estes nautas, de traje adequado. Imagino, somente para explicitar melhor, que se projetaria um traje para circular até três mil pés, ou se quiser, até a temperatura correspondente a aquela altitude. Esse hipotético traje deveria permitir, digamos, circular confortavelmente a essa altitude, mas, a não mais de que essa altitude, pelas características próprias desse traje. Fui claro até agora?
– Claríssimo e, para demonstrar que entendi, me permite continuar?
– Com prazer.
– Serão projetados então diversos tipos de trajes, para altitudes sempre maiores, e implementados nesses dispositivos de suporte a vida, como se usa chamá-los. Correto?
– Corretíssimo, pode continuar.
– Será que posso? Não sei qual seria o limite de altura a qual esses… esses…
– Nautas.
– Sim, nautas. Não sei… até que altura esses nautas poderiam chegar?
— Gostaria, se me permite, mudar um pouco a sua pergunta: O correto seria dizer: “A que distância da terra poderiam chegar?”
– Meu Deus…. É isso, então?
– Sim, é isso. Acho que não preciso continuar na descrição dos diversos tipos de trajes e equipamentos que serão necessários para as diversas situações possíveis. Acho melhor passar a discutir um acordo entre a minha Escola, que é uma entidade jurídica privada nacional, e a Boeing.
– Concordo; posso fazer uma pequena pergunta? Por que escolheu a Boeing?
– É facílimo responder. Quando voo com um avião da Boeing, principalmente com o Boeing 747, é como se estivesse em casa, realmente me sinto tranquilo como se estivesse num teatro, num restaurante, em um lugar qualquer, mas… no solo.
– Magnifica definição. Agradeço muito. Sabe que, se permitir a Boeing divulgar essa sua declaração, nós a poderíamos pagar muito bem…. Imaginem: Collins, o homem que fez com que os homens fossem para o espaço, prefere voar Boeing”, ou algo parecido.
– Nenhum problema com isso. Acho, porém, que temos coisas mais importantes para discutir.
– É verdade, me desculpe, é que achei fantástica a sua declaração. Vamos em frente, o que sugere?
– Apresento duas ações possíveis, somente como meras sugestões, será o senhor que irá decidir se são viáveis.
– Pode apresentá-las; creia, sou todo ouvido.
– A primeira sugestão seria criar um grupo misto de, digamos, técnicos da minha escola e de técnicos da Boeing, para definir as diversas condições nas quais esses trajes deveriam ser utilizados e, a seguir, o projeto do próprio traje. Adianto que nós sabemos bem o que queremos, ou melhor, do que nós necessitamos. O que acha?
– Acho que seria o normal. Posso colocar os melhores técnicos da Boeing a disposição desse seu grupo misto, me dê um tempinho que já defino os nossos integrantes.
– Ótimo. Os integrantes da escola já estão aqui, e podem começar a trabalhar logo depois do almoço.
– Outra vez devo dizer: Meu Deus… O senhor estava assim tão confiante da minha concordância?
– Não, mas confiava na sua inteligência, no seu tino comercial e, evidentemente, também da sua curiosidade.
– Acertou em tudo. E qual seria a segunda sugestão?
– Seria a de criar uma companhia especifica para administrar tudo que virá pela frente nesta área, e, posso garantir, virão muitas novidades. Sugiro uma participação paritária entre a minha escola e a sua empresa, o que acha?
– Acho outra boa ideia, paritária sim, ninguém quer se sobrepor ao outro. Qual nome sugere para esta companhia?
– Deixo a seu critério.
– Obrigado. Sim….então…, poderia ter o nome da Boeing?
– Claro que sim, imagine … como não ter o nome da Boeing?
– O que acha de Boeing Collins Company?
– Não é necessário colocar o meu nome, não tenho nenhum interesse nisso.
– Mas teria uma assonância perfeita.
– Como seria esta assonância?
– Veja bem, a maior parte do mundo civilizado conhece a BBC de Londres, logo mais vão conhecer a BCC de Seattle, o que acha?
– Para mim, tudo bem. Para acertar toda a parte legal enviarei aqui, no dia em que o senhor considerar oportuno, os meus advogados e o meu procurador, para formalizar tudo o que estamos acordando O que me interessa agora é poder sentar-me com os vossos técnicos, para definir tudo o que nós agora prospectamos. Reputo que não teremos problema algum para fazer o que delineamos, somente queria explorar uma possibilidade que, se se concretizar… bem, isso sim seria uma revolução.
— Se o senhor o diz, tenho até pavor em perguntar. Deixa-me chamar o nosso maior entendido em tudo que voa.
Pegou o telefone e disse quase sem qualquer intervalo:
– Alô, Jennifer, chame Gustav Tilling, diga-lhe de vir o mais rápido que puder na minha sala.
Desligou, e tão sem pausa como antes, continuou:
— Enquanto aguardamos a chegada dele, o que me diz da concorrência, que seguramente virá.
– Talvez eu seja simplista demais ou, quem sabe, ingênuo, mas os trajes BCC, serão os únicos e exclusivos, recomendados e garantidos pela Escola. Cuidado com as imitações, a sua vida pode estar em jogo. Seria suficiente?
– Mais do que suficiente, nem precisaria mencionar o perigo da vida. Ah… eis aqui o nosso Tilling…, apresento o senhor Collins. Posso fazer um resumo do que acordamos, para ele entrar no espírito da coisa?
-Fique à vontade e, já que temos aqui o vosso técnico mor, poderia convidar a minha equipe para participar? Tenho pouco tempo…
– Sim sei, Pequim, Moscou…
– Isso mesmo… posso tentar interceptá-los para virem aqui?
– Faça isso, direi a Jennifer para aguardá-los no saguão da entrada, qual é o nome do líder deles?
– William Rutter.
Quando apresentei as qualificações deles, percebi uma postura de maior respeito em relação a minha equipe; pudera, um PhD em neurologia e um dos maiores pediatras do estado de New York, um….
– Pediatra? Pediatra, você disse…?
– Sim pediatra, especializado nos fundamentos da vida. — Ninguém pode negar, pensei comigo mesmo, que sou um bom mentiroso, e até rápido. — Gostaria de esclarecer que estes meus técnicos poderão mobilizar colegas, aqui de Seattle, para colaborar nas pesquisas, as custas de nossa Escola, naturalmente. Apreciaria qualquer indicação de profissionais locais de alto nível.
– Sim, podemos fazer isso, senhor Collins. A palavra continua sua.
– Apresento aqui, pela primeira vez, uma dúvida que é também uma esperança. Sabemos que um nauta, consegue desviar o campo gravitacional ao seu redor e sabemos, também, que ele pode selecionar os diversos e entrelaçados campos que permeiam o espaço. O que não sabemos, até agora, qual seria o raio de influência, aquilo que acabei de definir como “ao seu redor”. Sim, ao seu redor… Mas, quanto? Será, uma polegada ou será uma jarda? Não poderá ser uma milha? Não sabemos e, uma das tarefas do nosso grupo misto é de descobrir isso. Percebo agora que não informei que dois dos membros da equipe da escola que permanecerão em Seattle todo o tempo necessário, são nautas. Me desculpem a falha, mas gostaria que isso ficasse o mais reservado possível. Precisando fazer algum ensaio utilizando a capacidade deles, peço que se faça de maneira reservada, será possível?
– Claro que será possível, a Boeing tem inúmeros locais disponíveis, acharemos um apropriado.
O Presidente continuou, desta vez dirigindo-se aos demais:
– Até aqui eu entendi, será que todos entenderam? Está claro para você, Tilling?
– Claro está, sim. Mas que é estonteante… certamente também é; tenho que me acostumar sempre para mais novidades surpreendentes.
– É assim mesmo, senhor Tilling, todos nós devemos nos acostumar a coisas sempre mais surpreendentes. Continuando… Suponho, e é somente uma minha suposição, que não existirá o que há pouco conjecturei ser um limite de uma polegada, uma jarda ou uma milha; a minha intuição me sugere que a influência do cérebro em desviar, identificar, selecionar e utilizar os diversos campos gravitacionais num ponto qualquer do espaço, não será definido por nenhuma medida exata e específica, mas sim, como um enfraquecimento progressivo da capacidade do cérebro manter os controles que citei.
– Um momento, senhor Collins….acho que entendi, mas não tenho certeza disso, mas por serem já uma e meia da tarde, acho devemos almoçar, aqui na Boeing, e continuarmos depois. De acordo?
Ninguém discordou. Voltamos à sala do Presidente por volta das três e meia. Ele tomou, e ofereceu a todos, um digestivo.
– Senhor Collins, para digerir todas as informações que o senhor nos brindou, acho que nem uma garrafa inteira disso resolveria.
– Entendo, mas tenho que complementar o que o senhor disse agora, eu repassei informações sim, mas o que apresentei logo antes do almoço foram meras conjecturas…
– Que fazem todo o sentido, se eu bem entendi. Senhor Collins, pode continuar… e se tiver mais surpresas para nós, não tem problema, estou quase me acostumando.
– Obrigado. Acho, porém que esvaziei completamente o meu saco de surpresas. Gostaria, porém, de apresentar a última das minhas conjecturas, na realidade não seria bem uma conjectura, mas somente uma derivada lógica das conjecturas que fiz.
– Diga logo, pelo amor de Deus, já começo a ficar preocupado quando o senhor começa a falar…
– Desta vez não será nada estranho, e fique tranquilo senhor Presidente, depois desta minha última colocação irei pegar o avião, que está me esperando, e voltarei para São Francisco.
– Faça então esta última colocação, logo depois… tomarei duas ou três aspirinas.
– Direi então que se realmente, como penso que seja, a influência do cérebro em controlar os campos gravitacionais existentes ao seu redor diminui com a distância, a última tarefa que deixo para o nosso grupo misto é de descobrir qual seria a distância útil, útil para as finalidades que podemos querer e, ou melhor, as diversas distâncias úteis para as também diversas finalidades de nosso interesse. Obrigado a todos. Todas as aspirinas necessárias a todos, podem ser postas na minha conta.
***
Cheguei em uma sala reservada, num hotel de São Francisco, poucos minutos depois de Jane e Ernest terem chegados juntos. Eles tiveram a boa ideia de se hospedar no mesmo hotel que eu indiquei para realizar uma reunião importante. Depois dos abraços e troca de notícias pessoais entre nós, informei Ernest dos acordos feitos com a Boeing; ele, em conjunto com todos os advogados, nossos e associados, devia formalizar todos os acordos comerciais com eles.
Chegou o Justin, e as atenções do Ernest e Jane se direcionaram para ele. Logo a seguir chegou Denham Dixon, o apresentei a Justin, o único dos presentes que ainda não o conhecia. Logo a seguir recebi um telefonema da recepção do hotel:
– Senhor Collins, tem aqui um senhor que não quis se identificar e diz que, dizendo-lhe estas três letras, o senhor o atenderia, as letras são…
– …’’de’’, ‘‘erre’’, ‘’esse’’?
– Essas mesmas, ele disse que seria melhor o senhor descer…
– Estou descendo.
La estava ele, Rudiard, o do “de”, do “erre” e do “esse”. Relatei os acontecimentos ocorridos depois do nosso último encontro, e repassamos os termos do nosso acordo. Enquanto nós conversávamos, vi o senador Crowdler dirigir-se à recepção e logo a seguir ser acompanhado para a sala do último andar onde estava programada a nossa reunião. Achei melhor aguardar alguns minutos para ele ser apresentado pelo Justin aos demais. Depois disso, entramos no elevador e subimos.
– Nada de nomes….
– Nada de nomes.
Entrando, após cumprimentá-lo, agradeci o Senador por ter aceitado o meu convite, e me desculpei por tê-lo arrancado das suas pesadas atividades. Ele era agora o vice-presidente do Senado, ou algo parecido.
– Senhor Collins, não sabe quanto lhe sou grato por me ter dado uma boa desculpa para sair de Washington, e mais ainda, para vir na Califórnia. Conheço São Francisco somente pelos filmes aqui ambientados.
– Ótimo, assim o Justin poderá bancar o guia turístico para todos os que não conhecem São Francisco. Poderá fazer isso Justin?
– Sem dúvida. Será um prazer me desligar um pouco do centro de treinamento. Fica claro, porém que estão todos convidados para visitá-lo….
Enquanto estávamos entretidos nessas amabilidades, acomodei o Rudiard, que não apresentei, na cabeceira da mesa oval, eu tinha ocupado a outra extremidade. Não deixei a conversação esmorecer para tentar desviar a atenção sobre Rudyard; se perceberam isso não sei, contava com o fato que todos estivessem curiosos pelo estranho convite e imaginei, também, que ninguém teria a ousadia de publicamente me pedir para apresentar esse desconhecido.
– Meus amigos, agradeço a presença de todos aqui. Esta reunião não é uma reunião, é “a reunião’’, a mais importante da nossa Escola. Possivelmente, é a mais importante de todos nós. Falta somente a presença de Jan Kennet, que está agora em Pequim e que, logo mais, tomará o meu lugar….
Tive que parar, as exclamações de surpresa e os protestos vieram de quase todos eles, somente o desconhecido não fez nenhum aceno a este fato que foi surpreendente para os demais. Finalmente, consegui continuar.
Resolvi, e está resolvido… deixarei a direção da nossa organização a vocês todos, como colegiado, com as funções específicas que sugerirei….
Vieram mais alguns protestos, e a Jane, intempestiva, exclamou:
– E a Charlene? A Charlene não deveria estar aqui?
– Jane, querida, por que a Charlene deveria estar aqui?
– Não sei… acho…
– Se você não sabe, vamos esquecer esta interrupção. Jane ficou vermelha… de raiva mal contida.
– Como ia dizendo, Jan Kennet, que não sabe nada disso tudo, será o meu substituto; a seu cargo estará a definição da estratégia geral da organização. O doutor Denham Dixon seria uma espécie de “diretor científico” ele, para quem ainda não sabe disso, é PhD em neurologia, e irá abrir um instituto de neurologia a serviço dos objetivos da nossa organização. A senhorita Jane será a responsável dos sistemas de seleção e avaliação de todos os centros de treinamentos nos Estados Unidos e de todos os demais que se irão se espalhar pelo mundo, assim espero. Ficou claro para você, senhorita Jane?
– Sim — Ficou claro, também, que continuava irritadíssima comigo. Ela é muito temperamental.
– O nosso anfitrião, Justin, terá a seu cargo a operação dos centros dos Estados Unidos e dos centros no exterior, nos países que queiram contar com a nossa administração. Como certamente já sabem, diversos países estão implantando centros de treinamento seguindo as nossas orientações. Existem acordos de cooperação bem detalhados, com cláusulas de cunho financeiro as mais diversas. Estes acordos estão custodiados pelo Ernest que, além de ser o meu procurador legal, será o procurador do meu substituto. Está tudo claro até aqui?
– Sim, está clara toda a organização, o que não está claro é qual a causa do afastamento. Acho que esta é a pergunta que todos se fazem.
– Explicarei também isso no final. Ainda têm muitas coisas a serem definidas. Este colegiado deve se reunir periodicamente, vocês escolham a frequência, o local, e os procedimentos. O importante é que gravem a reunião e que esta gravação seja remetida, em duas vias, ao Senador Crowdler. Sinto muito, senador, ter que lhe dar trabalho.
– Não se preocupe, estou envolvido nisso tudo há muito tempo, pode contar comigo.
– O Senador Crowdler não irá interferir nas vossas atividades, mas, eventualmente, poderá dar alguns conselhos, seja para o colegiado, seja para cada um de vocês singularmente. Eu, estando no vosso lugar, prestaria muitíssima atenção aos conselhos dele. Como disse e, talvez, nem perceberam, solicitei que enviassem a gravação das reuniões do conselho para o senador Crowdler em duas vias, será o Ernest que cuidará disso, uma das vias será remetida, pelo próprio senador Crowdler — será mais uma gentileza dele — ao senhor que está sentado na minha frente, que não apresentei e nem irei apresentar.
. Devem somente entender que os conselhos que porventura estes dois cavalheiros poderão transmitir para vocês, são para o bem da nossa organização e, principalmente, para a vossa própria segurança. Será que alguém me poderia dar um copo de água? Obrigado, Jane, você é sempre gentil.
– Claro, tudo isso? Ótimo. Passo agora, ao penúltimo tópico da minha agenda. O senhor Ernest, como meu procurador e procurador do meu substituto, e como responsável financeiro da nossa organização, está a par de alguns arranjos societários e financeiros, definidos por mim, que envolvem todos os senhores. Esclarecimentos ou queixas são com ele mesmo.
– Agora, Justin, quanto às justificativas que vocês e os demais estavam esperando. Sinto decepcioná-los um pouco. As justificativas serão dadas pelo Jan Kennet, que no momento não sabe nada disso, mas, em breve, saberá, e dirá tudo o que vocês querem saber. Sugiro que realizem uma reunião do colegiado logo que ele voltar para os Estados Unidos.
– Acho que isto é tudo que queria dizer; resta somente agradecer o trabalho, os esforços e a fidelidade de vocês todos. Tudo que eu queria fazer, e consegui, foi graças a vocês. Muitíssimo obrigado.
A Jane, chorando, se abraçou comigo, os demais, sem muitas palavras me abraçaram. Era uma daquelas situações das quais sempre tentava ficar longe, mas não desta vez. Estava me despedindo das pessoas que possibilitaram que alcançasse o meu objetivo; e o fiz graças a eles.
– Edward, você disse que vai sair, mas não disse aonde vai…, poderá satisfazer a nossa curiosidade? Acho que é legitima, depois de anos de convívio e trabalho juntos.
– Tem toda a razão, Justin. Amanhã à noite irei para Pequim com um voo direto de São Francisco.
– Não é isso que queremos saber… mas você sabe disso. Adeus, então.
***
Telefonei para o Jan Kennet, no hotel onde estava hospedado em Tóquio.
– Alô Jan, nenhum problema em chegar à Tóquio?
– Nenhum Edward. Eu os informei que tinha que recepcionar uma amiga que nunca esteve em aqui… deram um sorrisinho, e aqui estou eu.
– Confirma o que me disse…. ou melhor… o que você me induziu a pensar?
– Completamente.
– Poderia me dar alguns detalhes do “probleminha” que você encontrou?
– Posso sim. São dois grupos distintos, ambos de onze membros, com um líder; os demais oito são completamente diversos, com nenhum padrão particular, afora naturalmente de terem o mesmo “problema” dos demais vinte e dois.
– E você deduziu isso, somente consultando as fichas, falsas naturalmente, e as entrevistas?
– Exatamente, depois de souber que, com menor tempo de treinamento, os alunos de Moscou e de Munique já estavam se deslocando, me preocupei… assim, comecei a consultar a documentação deles todos e, em dez dias, cheguei a esta conclusão…
– Tem certeza disso?
– Qualquer um dos meus colegas chegaria a mesma conclusão, e não esqueça que eu fui sempre o primeiro colocado em quase todas as matérias.
– Não esqueci, pode ficar certo disso. Muito obrigado pela análise, será de grande ajuda, embarcarei daqui a algumas horas, já os informei da minha chegada com o voo da Air Canadá. A propósito, já chegou a sua amiga?
– Sim há cerca de duas horas… neste momento está tomando um banho, e irá se vestir para sairmos. Não quis descansar, quer se adaptar o mais rápido possível a este fuso horário. Mais uma coisa, ela insistiu em querer saber por que você tem que ir para Pequim antes de vir para Tóquio.
– O que você respondeu?
– Que o chefão de lá queria te ver com a máxima urgência.
– Ótimo, devemos sempre, dizer as mesmas mentiras, caso contrário… você sabe…
– Sim, eu sei.
***
Logo depois do avião ter taxiado e parado, uma aeromoça me convidou a ir para a porta de desembarque com todos os meus pertences. Ali estava me aguardando um sorridente chinês que quis pegar a minha maleta e me levou, depois de atravessar rapidamente túneis, corredores e barreiras, a um grande veículo preto. Perto deste estava me esperando um outro sorridente chinês, que se identificou como o primeiro assistente do vice-presidente das Ciências e Tecnologias.
– O Vice-Presidente dá-lhe as boas-vindas em Pequim e quer agradecer, pessoalmente, por ter atendido tão rapidamente ao pedido dele. O levarei ao seu hotel, e quando estiver disposto, o levaremos diretamente ao Vice-Presidente.
– Muito obrigado pela acolhida. Gostaria, se for possível, deixar as malas no hotel e tomar um rápido banho. No máximo será meia hora, será possível me aguardar?
– Aguardaremos e informaremos o Vice-Presidente disso. Acho que ele apreciará muito esta sua presteza.
Eis-me então, finalmente, na presença do Vice-Presidente que tinha assinados todos os acordos e protocolos, acordados entre o governo chinês e a Escola. Tinha cópias desses documentos todos na minha pasta e, no bolso interno do meu casaco, a declaração, escrita de próprio punho, do Presidente da Zhonghua Renmin Gongheuo, isto é, da República Popular Chinesa e, não se deve esquecer, também e principalmente, Secretário Geral do Partido Comunista Chinês.
– Bem-vindo à Pequim, senhor Collins e muito obrigado por atender tão rapidamente ao nosso chamado.
– Obrigado senhor Vice-Presidente, vir à Pequim para atender ao seu chamado é, para mim, uma obrigação e um prazer.
Tinha reparado que, entre eles, não usavam mais o termo “camarada”, e por não terem ainda chegado a utilizar “senhor”, ficaram no meio termo… sem utilizar nenhum prefixo. Acho, porém, que os estrangeiros deveriam, se polidos, utilizar um termo reverencial apropriado, daí o meu “Senhor Vice-Presidente”.
– Como pode supor, no meu pedido de vir com a maior brevidade possível, não podia ser muito explicito. Acho que compreende os motivos.
– Justamente por entendê-los, vim o mais rápido que pude.
– Agradeço novamente a sua boa disposição conosco. O chamamos porque, infelizmente, estamos com um enorme problema, e esperamos que o senhor nos ajude a resolvê-lo.
– Senhor Vice-Presidente, pode estar certo de que, tudo que estiver ao meu alcance para resolver o vosso problema, o farei.
– Muito obrigado e, se quiser, pode me chamar de Jiang, assim o nosso diálogo ficará mais fácil.
– Obrigado… Jiang, e fique à vontade, me diga qual seria este problema.
– Vou ser direto. Sabemos que os alunos dos centros de Moscou e de Leipzig, a maior parte deles, pelo menos, já estão bem adiantados nos treinamentos. Eles… eles já estão… entende?
– Entendo, sim. Presumo que, mesmo tendo iniciado bem antes deles, vocês não tiveram resultados, digamos, tão satisfatórios…
– Não tivemos “resultados, digamos, tão satisfatórios”? Não tivemos resultado algum.
– Como assim?
– Ninguém, ninguém dos trintas alunos, conseguiu se deslocar no espaço. Ninguém.
– E o que achou disso o Kennet? Ele era o instrutor, deveria supor algo.
– Ele também estranhou, tentou descobrir, consultou a documentação deles todos, mas, ao fim, desistiu. Foi ele que nos aconselhou a chamá-lo.
– Agora entendi as reticências dele em me dar melhores informações. Isso tudo é reservado, não é?
– Pode ter certeza.
– Vejamos… acho que para começar devo me inteirar bem da situação. Para isso, o melhor caminho seria consultar toda a documentação que o Kennet já analisou, é possível?
– É possível, fácil e rápido. Fiz trazer toda a documentação que ele consultou, está guardada na sala a aqui ao lado, poderíamos ir lá agora?
– Quanto mais cedo, melhor.
Saímos da sala do Jiang e, no mesmo corredor, entramos numa sala vigiada por duas pessoas em trajes civis.
– São a segurança da Vice-presidência.
– Entendo.
Entramos numa ampla e bela sala. No meio desta, uma grande mesa oval ostentava diversas pilhas de pastas.
– Meu Deus, vou demorar um bom tempo para analisar tudo isso. Seria conveniente iniciar de imediato.
– Não quer deixar para depois do almoço? Está quase na hora.
– Não, obrigado. A comida do avião, apesar de saborosa, me embrulhou o estômago, se for possível, iniciarei a análise imediatamente. Gostaria apenas de uma xícara de chá e alguns biscoitos…. e, se, não for muito abuso, alguém que me ajude a ordenar e movimentar estes papéis todos.
– Enviarei a minha secretária, menos pessoas envolvidas melhor.
– Sem dúvida… muito obrigado. Então, vamos a isso.
Veio o chá com biscoito e veio a secretária, que me ajudou bastante na busca dos documentos que queria ver. Estava curiosíssimo para averiguar o que o Kennet tinha descoberto. Claro está que, para mim, foi muito mais fácil, já sabia o que tinha que procurar. Fiquei até por volta das nove horas, já com sono, apesar da farta dieta de chás e biscoitos. Tinha agora bem claro o que o esperto Kennet tinha percebido.
A secretária do Jiang ficou o tempo todo junto comigo, somente se ausentou uma meia hora, provavelmente para uma rápida refeição. Nunca aceitou o chá que ofereci. Ao fim do longo dia a agradeci pela ajuda. Enquanto um carro me levava de volta para o hotel cheguei à conclusão de que as coisas estavam se encaminhando satisfatoriamente: eles tinham constatada a minha boa vontade, eles tinham acompanhado os meus esforços em desvendar algo, e, finalmente, eles estavam ansiosos para uma solução. Iria agora dormir, amanhã será o grande dia, ou, talvez, um péssimo dia. Veremos.
– Bom dia, senhor Collins, descansou bem?
– Bom dia, Jiang, descansei bem, obrigado.
– Apreciei muito o seu esforço, depois de quatorze ou quinze horas de voo, mais umas dez, trabalhando duro e sem comer quase nada, para tentar descobrir o mistério.
– É obrigação minha fazer o que fiz. Enfim, descobri o que você chamou de mistério
– Oh…que bom.
– Ao contrário… nada, nada mesmo, de bom.
– Mas, não disse que descobriu?
– Disse, sim. Quer saber o que descobri?
– Certamente.
– Dos trinta alunos, vinte e dois formavam dois grupos distintos de onze elementos, dez subordinados a um chefe. Dos outros oito, não consegui descobrir muito, afora que, como os demais, faziam parte de alguma organização governamental. Não eram alunos… alunos de verdade, quero dizer.
– Oh…
– Todos eles devem ter fortes vincos profissionais nos próprios cérebros, portanto sem a mais remota possibilidade de conseguir se deslocar no espaço.
– E como deduziu tudo isso? Através de todos aqueles papéis?
– Sim, através desses papéis todos. São as entrevistas padrão da nossa escola, cruzadas com as informações fornecida pelo “aluno”. A análise conta ainda com um pouco de linguística e de enfoque comportamental. Não existe a mínima dúvida, eles todos são agentes do governo, ou do partido, se quiser. Se não acredita em mim, podemos ir naquela sala e, em algumas horas vou te demonstrar tudo o que disse.
– É incrível…
– Oh Jiang… como incrível, se foram vocês que fizeram isso?
– Tem tanta certeza?
– Absoluta. Somente não sei se você está diretamente envolvido nisso ou não. Isso, porém, não tem importância alguma. O importante, imagino eu, é resolver este problema, o que pode ser possível, mas, certamente não no prazo que, por vaidade, vocês acordaram com russos e alemães.
– Como vaidade?
– Sim, vaidade de todos, ninguém queria ser o terceiro ou quarto a se deslocar no espaço, assim acordaram de fazer isso no mesmo dia, no mesmo momento, qualquer que fosse o horário desse momento nestes países.
– Sim, foi isso mesmo, um acordo entre Presidentes. Todos estão envolvidos…
– Mas somente vocês não irão conseguir.
– Você teria alguma maneira de remediar esta situação?
– Tenho sim, e diversas. Tenho, porém, que apresentá-las ao Presidente.
– Não será necessário, ele me deu carta branca para resolver este problema.
– Infelizmente acho que a sua “carta branca” não resolverá o problema.
– E por que chegou a esta conclusão?
– Fácil. Caso a Rússia queira metade da Mongólia e a Alemanha a província de Harbin, a tua carta branca te permitirá aceitar isso?
– Tenho certeza de que não pedirão nada de tão absurdo, como isso que está dizendo.
– Também acho. Dei os exemplos para demonstrar que poderão vir pedidos que a sua carta branca não poderá sustentar. Deverá ser algo a ser acordado de Presidente para Presidente, ou de alguém com poder de sustentar o acordo. E, tem mais, também do outro lado a situação será a mesma.
– Deveria, então, envolver o Presidente nisso?
– Não, você não vai envolvê-lo. Ele já está envolvido. Deve ter escutado um mau conselheiro que, com absoluta certeza, não leu o acordo de cooperação entre o vosso governo e a minha Escola.
– Por que pode afirmar isso com tanta certeza?
– Porque está bem claro no acordo que os candidatos devem ser livres cidadãos e não pessoas arregimentadas em qualquer organização de qualquer tendência e muito menos de organizações policiais como, talvez, seja o caso.
– O que direi ao Presidente?
– O que quiser, somente não esqueça que, sejam os russos ou os alemães, não vão querer perder esta oportunidade de deixar para trás a China.
– Mas você disse que tinha diversas maneiras de resolver esta situação.
– Sim existem diversas possibilidades, mas somente o Presidente, pode decidir qual a mais conveniente, ou melhor, qual seria a menos inconveniente.
– Fará isso? Apresentará alternativas possíveis?
– Farei isso sem dúvida. Penso de voltar para o hotel e descansar um pouco mais; o cansaço dos dois últimos dias está se fazendo sentir agora. Mesmo assim, estarei à disposição do Presidente a qualquer hora.
Dormi tranquilo até a manhã seguinte. As oito horas o Jiang me acordou, avisando-me que às nove viria, ele mesmo, me buscar no hotel para irmos direto ao Presidente Lin Jimkao.
– Senhor Presidente Lin Jimkao, apresento as minhas mais respeitosas saudações, e agradeço imensamente ter sido recebido.
– Sim, também agradeço a sua prontidão em nos atender…. o senhor, se não entendi errado, teria várias alternativas para nós sairmos desta situação.
– Diria que sim, mas cada uma delas terá um certo custo, seja político, seja de prestígio, ou de imagem, será o senhor que decidirá qual seria a melhor.
– Perfeito, pode começar.
– Somente depois que todos os demais saírem desta sala.
– Como? Como seria isso? Isso contraria todas as normas…
– O problema que estamos enfrentando, juntos espero, é algo que contrariou normas. As normas do nosso Acordo de Cooperação, que o senhor mesmo assinou.
– Quem assinou foi o Vice-presidente da Ciência e Tecnologia, com o meu consentimento, claro.
– Claro.
– Muito bem, por favor, poderiam nos deixar a sós. Muito obrigado. Obrigado, Jiang.
– Então, estamos aqui somente nós dois.
Agradeço. Vou entrar no âmago da questão. Eles, russos e alemães, gostariam muito de deixar vocês chineses em apuros, seja no que for, concorda com isso?
– Concordo, qualquer país gostaria de passar na nossa frente, somente que será difícil…
– Sei, sei, deixamos este tipo de conversa de lado. Existem duas opções iniciais. Uma seria de não se importar com o fato de não conseguir estar a par com eles nesta questão e, a outra opção, seria de consegui-lo de uma maneira ou outra. Qual escolhe?
– A princípio seria de conseguir, depende do que precisaria dar em troca.
– Bem colocado. Com esta alternativa em mente, vejamos… existem duas possibilidades: a primeira é de tentar manter o prazo, faltam dois meses e meio, seria apertadíssimo, mas é uma possibilidade.
– E como faria isso, já sabe que não temos candidatos com as suas especificações.
– Posso trazer aqui, mais instrutores. Vocês poderiam convidar todos os pilotos de aviões a hélice, e não comprometidos com exército, polícia e coisa do gênero. Devem existir, o que acha?
– Sim devem existir, não sei quantos.
– Poderia ser cem, mil ou mais de mil? Faça uma estimativa.
– Pelo menos mais de mil.
– Ótimo. Nesse caso, além de trazer mais instrutores, trarei os meus técnicos em entrevistas e avaliação de candidatos. Com mais instrutores, é possível que consigamos chegar na data marcada. Possível, mas, não com certeza, ainda existem muitos imponderáveis.
– E a outra opção? Adiar a data?
– Esta seria a mais fácil, desde que nós dois ajamos de comum acordo.
– Como seria isso?
– Ainda não tenho tudo bem claro, mas… vejamos. Façamos a hipótese que eu, com o seu telefone direto, falo para o Vladimir, e digo. “Oi Vladimir, eu pensei de aproveitar a ação conjunta que vocês inventaram, para mandar uma mensagem de paz para o mundo todo, o que acha? Ele deveria responder algo assim: “Pode ser uma boa ideia e como seria isso”. Aí eu diria “Já convenci o Lin a adiar o dia do início do deslocamento no espaço que iríamos fazer concomitantemente para o dia primeiro de janeiro, o dia internacional da paz, você conseguiria convencer a Ângela a fazer o mesmo?”. Se ele concordar, conseguimos.
– Se concordar.
– E por que não concordaria? Por acaso ele sabe desta confusão em que você se meteu?
– Acho que não. O curso está parado porque o vosso…. o vosso instrutor foi para Tóquio para encontrar-se com uma… das amiguinhas dele. Isto é de domínio público. Eles devem estar acompanhando o nosso programa… como nós acompanhamos os deles.
– Ótimo, assim, sem muito alarde, temos tempo de colocar mais alunos no circuito, o que acha?
– Acho uma ótima solução, desde que o Vladimir aceite…
– Dito por mim, aquele que concordou em colocar um centro de treinamento em Moscou, deveria resultar. Claro que se isso for pedido por você, meu caro Lin, a resposta seria diferente.
– Vamos a isso. Lú, ligue para o Kremlin e pergunte quando o Presidente Vladimir poderia falar comigo.
***
– Alô Vladimir, – o Lin, estava falando em russo, não entendi nada, foi ele depois, que me repetiu o diálogo.
– Vladimir, está aqui na minha frente um amigo seu, ele me fez uma proposta que, no fim, aceitei… poderia falar falar com ele?
– Lin, você sabe que não tenho amigos na China…
– mas ele não é chinês…. Ele é americano.
– Também lá não tenho amigos…
– Este, porém é teu amigo, e te admira muito.
– E quem poderia ser…., um amigo, você disse…um americano? Não será por acaso aquele maluco… o Collins?
– Ele mesmo, ele quer te fazer um pedido, quer falar com ele?
– Quero, sim.
– Oi Vladimir…