Estou viajando no antigo MagRail, indo de Boston para New York. Já dei duas palestras no MIT, e agora darei mais duas na Universidade de New York e mais uma, a última, em Harvard. O plano original era, a partir de fevereiro do próximo ano, dar uma série de palestras em mais universidades. A minha indicação ao prêmio Nobel induziu algumas universidades a solicitar–me que antecipasse alguma destas.
Aceitei de bom grado, passaria a maior parte do mês de novembro nos EUA, saindo da traumática espera do desfecho da “indicação” em Dwunska Wola e, ainda, com a trabalhosa revisão dos meus planos. Acompanhar a construção da minha casa me parecia, inicialmente, um alívio, mas, não foi. Todas as vezes que um arquiteto ou um construtor me punham alternativas de solução, solicitando–me uma escolha, distraidamente indicava uma das alternativas postas, sem o menor interesse. Não conseguia concentrar–me nessas banalidades.
Ao contrário, aqui nos Estados Unidos, preparar–me para as palestras, viajar, encontrar outras pessoas com interesses similares aos meus, foi uma boa saída, contrastando com o contínuo e inútil remoer de ideias, muitas delas absurdas, no meu apartamento em Dwunska Wola.
Após a minha última palestra, troquei algumas ideias com o secretário–geral da Reitoria de Harvard, Douglas G. Clifford – o homem responsável pela minha vinda – em seu escritório.
– Pessoalmente, professor Cristiansen, gostei muito da sua palestra. Ficou bem claro o como e o porquê as novas tecnologias afetam, mais profundamente do que se poderia imaginar, as nossas vidas, os nossos costumes.
– Isto, na realidade, não é novidade alguma, ao longo da história das civilizações isto sempre aconteceu e, às vezes, tinha alguém que reparava nisso.
– Pode ser, mas de qualquer maneira a sua palestra foi brilhante e, merecidamente, muito aplaudida.
– Bondade deles, sim, bondade deles. Mas, falando em bondade… posso pedir um favor pessoal ao senhor?
– Certamente que sim, professor Cristiansen, estando ao meu alcance…
– Gostaria, se for possível, de ouvir… já a li, mas queria ouvir, a palestra que deu Edward Collins, aqui, duzentos anos atrás… vocês têm gravada a palestra, imagino.
– Surpreendente o seu pedido, claro que a gravamos e, também claro, que a poderá ouvir….
– Ora…. Por que, surpreendente?
– É que, na oportunidade das comemorações dos duzentos anos do deslocamento no espaço, tínhamos supostos, nos aqui em Harvard, que muitas pessoas, jornalistas, pesquisadores, ou meros curiosos, se interessariam por essa palestra. O que aconteceu? Nada. Ninguém se interessou.
– Realmente é muito estranho… ninguém se interessar, por essa palestra, muitíssimo esclarecedora, proferida perante centenas de neurologistas… estranho mesmo.
– Sim, iremos ouvi-la. Quer também ouvir os debates?
– Sem dúvida que sim, e agradeço muito.
Ouvimos integralmente e por duas vezes, palestra e debate. Perdemos o horário do jantar programado, mas nem eu, nem o secretário geral, nos importamos.
– Senhor Secretário, é realmente extraordinário que…
– Douglas.
– Como?
– Pode–me chamar de Douglas, não tem ninguém aqui que pode reparar nisso.
– Obrigado, claro está que pode me chamar de Cristian. Como ia dizendo, é extraordinário, no sentido negativo, que essa palestra, uma das manifestações mais significativas de Edward Collins e, sem dúvida alguma, a mais bem registrada, não provocou nenhuma curiosidade na oportunidade das comemorações dos duzentos anos.
– Sim, de fato, é extraordinário e.…decepcionante. Graças a você Cristian, os nossos preparativos para ouvir, na melhor maneira possível, o evento, reproduzindo, inclusive, o clima que se criou nessa circunstância, foram finalmente recompensados.
– Aprecio muito as suas considerações, Douglas, mas, mais do que mérito meu, seria demérito dos que não atentaram para o valor desta gravação. Por exemplo, reparou na persistente posição, do seu antecessor no posto de secretário da Reitoria, de franca e constante crítica aos pseudos esclarecimentos do Collins?
– Agora que o disse, sim, de fato ficou bem evidente, mas, porque chama de “pseudos” os esclarecimentos do Collins?
– Tanto ele mesmo, quanto o moderador, sabiam perfeitamente que a palestra, e as informações nela contidas, faziam parte de um jogo de cena, objetivo do próprio Collins. De outro lado, a tentativa, do moderador, em induzir a plateia a buscar a verdadeira questão, tão bem escamoteada pelo esperto Collins, não deu resultado.
– Interessante a sua colocação. Depois de ouvir duas vezes a palestra dele e a sua explicação, isto tudo ficou bastante evidente; por que será que isso tudo não se tornou de domínio público?
– Não saberei dizer. Se é para apresentar hipóteses, diria que, novamente, constatamos a esperteza do Collins em desviar a atenção da plateia da única questão relevante.
– E qual seria?
– Quem.
– Pardón, não entendi.
– Quem engendrou tudo isso. Quem deu a ele os poderes para isso. Quem lhe deu as condições materiais. A verdadeira e única questão é: quem?
– Oh….Deus. Impressionante a sua colocação. Então o Collins conseguiu, até na presença de dois prêmios Nobel em neurologia, desviar a atenção de todos da única questão relevante?
– É isso mesmo, não se deixe impressionar com os dois prêmios Nobel, eles eram a sumidade em neurologia e, como todos os especializados em uma dada matéria, poucos afetos a outras matérias que não sejam a sua. No caso, a lógica. Lógica esta que era o campo de atuação do seu antecessor, o brilhante moderador.
– Entendo. Noto, porém, que o Collins, apresentou diversas alternativas sobre a identidades deste “Quem”. Esta questão, me parece, estava no centro das atenções de todos os presentes, como pode asserir que ele escamoteou esta específica questão?
– E teria uma melhor maneira do que escancarar junto a outras possibilidades?
– De fato essa seria uma manobra inteligente.
– Sim o Collins, mais que inteligente, era esperto e se divertia criando situações absurdas….
– Como assim absurdas?
– Uma das hipóteses, talvez a que poderia parecer a mais plausível, como ele queria, era de que o “quem” poderia ser um coletivo, por exemplo, um grupo de neurologistas, e que, ironicamente, estes poderiam estar aí presentes, juntos com todos eles, aí mesmo, na plateia.
– Cristian, pode parar, você me deu uma série enorme de possibilidades a analisar. Que tal irmos jantar?
– Vamos jantar, sim, mas não se preocupe muito com o Collins, provavelmente ele deve estar morto há pelo menos, cento e cinquenta anos.
– Provavelmente?
– Sim, provavelmente. Você preferiria que dissesse “possivelmente”?
– Não saberia dizer….
– Espera, talvez, que eu diga ”certamente”? Por qual carga d’água deveria eu dizer isso?
– Não diga nada, somente vamos jantar.
– Vamos, sim.
***
Fiquei mais uma semana em New York, tinha muitas coisas interessantes para ver, certamente mais interessantes das que podia encontrar em Dwunska Wola ou mesmo em Lódz. Na realidade, não se tratava de coisas interessantes ou não; a questão era que não queria ficar sozinho com os meus problemas. Para isso, as mil novidades que encontrei nesta cidade foram um bom diversivo.
Douglas me informou que o Vice–Reitor, Charles Montagu, queria ter a oportunidade de despedir–se de mim. Sendo que o meu sub–orb sairia às 13 horas, ou como, irracionalmente, os americanos diziam, a uma hora post meridiem, combinamos que, às nove horas, naturalmente antemeridianas, eles viriam no meu hotel para tomarmos juntos o café de manhã.
– Senhor Vice–Reitor, não precisava se incomodar para vir na minha despedida, a vossa universidade já me prestigiou em demasia.
–Nada disso, professor Cristiansen, o senhor, pelas brilhantes palestras que instigaram sobremaneira, não somente os alunos, mas também, muitos dos nossos professores, merece isso. Quando digo muitos, entenda: todos os que ouviram as suas palestras.
– É muita gentileza de vocês todos.
– Pode ser, mas, merecida. Devo confessar que vim vê–lo, também, pelas colocações extraordinárias que o senhor fez em relação a palestra que Collins proferiu na nossa universidade. O senhor Clifford me disse que, conversando sobre isso, parecia que a palestra tivesse acontecido ontem….
– Douglas… – perguntei surpreso. – como você chegou a concluir isso?
– Não sei, realmente não faço a mínima ideia, somente que me parecia realmente que estivéssemos discutindo sobre o conteúdo de uma palestra ocorrida há pouco tempo.
– Como vê, professor Cristiansen, se o senhor conseguiu impressionar o senhor Clifford, um dos mais racionais componentes da nossa universidade, pode imaginar como eu mesmo fiquei. Realço que, mais que racional, o nosso comensal aqui, que tenta se esconder atrás do seu guardanapo, ele é o cético mor de Harvard, portanto todos, até o nosso Reitor, ficou impressionado com o entusiasmo do Clifford a respeito das suas colocações. Não é isso senhor Clifford? Diga.
– Realmente, não sabia que era considerado o “o cético mor de Harvard” que, convenhamos, é sempre um belo título…
O meu telefone fez sinal que tinha uma chamada internacional, queria colocar na condição de espera, mas, o Vice–Reitor, fez sinais para eu atender…. Era o Günter, mais uma vez, alvoroçado.
– Desculpe Cristian, me desculpe mesmo incomodar você, mas tenho uma notícia que tenho que te transmitir imediatamente…
– Entendo Günter, neste momento, estou numa reunião importante, poderia me telefonar mais tarde?
– De maneira alguma, a notícia é importante demais…
– Então diga!
Sentia–me constrangido e irritado. não tinha dito para ele que me encontrava numa reunião importante? Por que insistir?
– Serei sucinto, escuta bem. O colegiado dos Reitores, chegou a um acordo com os suecos, você sabe quem são, definindo que em troca da retirada da tua indicação, eles garantem o teu prêmio daqui a dois anos, que tal Cristian, não é fantástico? É garantido! O que me diz?
– Digo que agradeço muito a tua gentileza, a notícia, como você pode imaginar, me deixa bastante satisfeito. Te agradeço e te telefonarei logo a seguir.
– Boas notícias, pelo que entendi. – Supôs o Vice-Reitor.
– De fato, foi uma boa notícia para mim… retiraram a minha indicação para aquele famoso prêmio.
– Mas, como? – Ambos surpresos, os meus dois convidados exclamaram – Por que fizeram isso?
– Como posso saber? Não entendi por quais razões fui indicado e, da mesma maneira, não sei por que fui… desindicado. Acho que foi muito oportuno os senhores terem estado presentes ao telefonema, assim ficaram sabendo disso em primeira mão; se sintam liberados dos compromissos que foram acordados.
Douglas – o “senhor Clifford”, como o chamava o Vice–Reitor – atropelou a hierarquia e o formalismo e, com voz um pouco mais alta do normal, e com uma certa veemência, me questionou:
– Que estória é essa de nos sentirmos liberados dos compromissos? Por acaso você pensa que o fizemos por ter sido indicado a esse prêmio? Nós o tínhamos convidado antes dessa indicação. Esta somente nos fez antecipar as datas das palestras, prevendo que, após a confirmação, não teria muito tempo disponível.
Douglas, após este desabafo quase que incontrolado e um pouco constrangido, se dirigiu ao Vice–Reitor.
– Peço desculpas, senhor Vice–Reitor, peço mil desculpas pelas minhas intempestivas colocações, se me permite, quero retirar tudo que disse.
– Ao contrário, expressou perfeitamente o posicionamento da nossa instituição. Nós não somos certamente atraídos por sinais aparentes de capacidade, mas somente pela capacidade real dos nossos convidados para ministrar as melhores palestras possíveis. Senhor Clifford, as suas palavras são as minhas. Professor Cristiansen, indicado ou não indicado, para a universidade de Harvard, o senhor será sempre o melhor palestrante que já tivemos; pelo menos, durante o período da minha administração.
– Agradeço de novo as vossas boas considerações para comigo. Da mesma forma considerei a Universidade de Harvard, como a instituição preferencial de minhas atividades futuras.
– Ótimo, estamos combinados, vamos manter estreitas relações entre nós. – E dirigindo–se ao Douglas – Senhor Clifford, fica a seu cargo manter as comunicações com o Professor Cristiansen, está de acordo?
– Perfeitamente, senhor Vice–Reitor.
– Professor Cristiansen… estou vendo a sinalização de “Embarque Imediato” do seu sub–orb, está na hora de nos despedirmos. Boa viagem, e votos de nos encontrarmos novamente.
***
Cheguei em casa, no meu apartamento em Dwunska Wola, na quinta–feira à noite. Telefonei logo para o Günter e o convidei a visitar comigo as obras da minha nova casa. Poderíamos almoçar em Dwunska Wola mesmo e, logo a seguir, iríamos ver as obras e, mais importante, ele me esclareceria sobre o imbróglio da retirada da minha indicação.
– Então amigo Günter, pode me explicar essa estória da minha indicação e, logo depois, da minha ‘desindicação’?
– Posso fazer isso, aliás, eu vim aqui especificamente para isso.
– Ótimo, vai falando.
– Tem, porém, uma condição.
– E qual seria?
– Que você não me deve interromper até eu terminar.
– De acordo, e seja rápido e sucinto, por favor.
– Como você quiser. Então, antes do nosso colegiado apresentar a tua candidatura, “eles” já estavam propensos para um literato de Zanzibar, de etnia árabe, como a maioria dos habitantes dessa ilha, ilha que faz parte da Tanzânia, antiga Tanganica, país habitado por populações negras, portanto, país africano na acepção completa da palavra. “Eles” gostavam muito dessa escolha porque atendia a dois grupos muito sensíveis a quaisquer sombras de discriminação, os árabes e os africanos; estes últimos, em relação aos primeiros, de forma mais acentuada. Claro até aqui?
– Eu não estou interrompendo, você é que está.
– Muito bem, posso interpretar o que você disse, como uma afirmação. Continuando: foi logo após dessa decisão interna deles, que o nosso colegiado apresentou a tua indicação, muito apreciada, mas que contrastava com a intenção deles de atender a dois grupos melindrosos com uma única premiação.
O literato da Tanzânia era o melhor nome, antes de aparecer o teu, assim, depois de muito discutir entraram em contato com o nosso colegiado e caso fosse retirada a tua indicação, ”eles”, os suecos, garantiriam, daqui a dois anos, a tua premiação. Claro está que, dentro do colegiado dos reitores, ocorreram diversas manifestações de desagrado a este acordo, por julgá–lo não limpidamente ético. Um dos mais fervorosos opositores a esse acordo foi o nosso Reitor. Fim da estória.
– Parabéns, você foi claro e sucinto. Tenho que agradecer o nosso reitor pela sua posição, que coincide com a minha, pode fazer isso por mim?
– Com muito prazer.
– Deve entender, meu caro Günter, que esta estória toda me deixa bastante deprimido, não é através de barganhas que alguém pode desejar um reconhecimento. Estou bem deprimido e desgostoso com esta situação.
– Não sei por quê… Não ocorreu nenhuma barganha que implicasse algo pouco ético, mas somente um arranjo processual visando satisfazer mais envolvidos. Nada mais do que isso, entendeu?
– Eu entendi que, o que considero “uma barganha”, você chama de “arranjo processual”; posso conviver com isso. Enfim, já terminamos o almoço, podemos ir, ou prefere tomar outro café.
– Outro café iria bem; o almoço foi excelente, acho que exagerei um pouco, outro café e um vinho do Porto, ou um Madeira, cairiam muito bem.
***
Fomos para a minha futura casa; as obras estavam em bom andamento, pelo menos assim me parecia, passaram-se cinco semanas desde que estive aqui da última vez. Aproveitei a oportunidade para pedir a empresa construtora, se podiam terminar uma parte da casa, até uma semana antes do Natal. Depois de debatermos sobre o que podia ser feito e o que não podia, chegamos a um acordo que me deixou bastante satisfeito. Agradeci ao amigo Günter pelo seu empenho e pela sua boa companhia, e nos despedimos. Logo fui telefonar para Ingrid:
– Alô filha, tudo bem contigo?
– Sim pai, sei que faz mais de uma semana que voltou dos “states” e somente agora você me telefona?
– Para de brincar filha. Cheguei somente anteontem à noite, e totalmente exausto. Fui ver a construção da casa, uma parte já estaria disponível para o Natal; você gostaria de vir passar aqui um par de semanas?
– Certamente que sim, vamos ver os famosos conventos, não é pai?
– Vamos ver, também, os famosos conventos, se quiser…
– Tem acomodações também para uma amiga minha?
– Tem sim, até para mais de uma.
– Ótimo, então vamos chegar em três, as minhas amigas são bem simpáticas e…
– Para com isso, Ingrid.
– Parar o que pai? Não sei o que deveria parar.
– Sabe muito bem do que estou falando; podem vir as suas amigas, serão muito bem-vindas, mas… tire ideias estranhas da sua cabeça.
– Que ideias estranhas eu teria, papi?
Quando ela me chama de papi é que, realmente, tem alguma ideia estranha na cabeça.
Ela e a suas amigas virão dois dias antes do Natal, espero passar uns quinze dias bem divertidos e interessantes; agora, porém, tenho que me preocupar com o meu trabalho de fachada. A ideia é de estar redigindo uma estória do desenvolvimento do deslocamento no espaço do ponto de vista da sua influência sobre a sociedade, seja no aspecto meramente comportamental e, mais especificamente, nos aspectos culturais.
De fato, todas as diversas culturas deste planeta, de uma maneira ou outra, foram afetadas por este fenômeno abrupto que entrou subitamente na história do homem: o deslocamento do próprio corpo no espaço somente com o poder da mente.
Durante as pesquisas para alcançar o meu objetivo real, devo achar tempo e maneira de reunir informações sobre como as diversas culturas foram se adaptando a este fenômeno extraordinário. Para nós, que nascemos e vivemos com o deslocamento no espaço como fato corriqueiro, não fazemos bem ideia de como era a vida nas épocas anteriores.
Já foram escritos numerosos ensaios e tratados sobre isso tudo; tenho que achar um enfoque original, que não tenha sido, ainda, explorado. Tudo isso, porém, o farei daqui a alguns anos, se for necessário, ou tiver vontade. Agora somente reunirei informações dentro de um planejamento já definido que, na realidade, será somente uma enorme “data base”.
Qual seria, porém, o meu objetivo verdadeiro? Quero enunciar, mais uma vez, para que fique bem claro para mim, neste momento peculiar da minha vida. Ideias confusas deste tipo, já me ocorreram antes do desaparecimento do meu filho Eric, na jornada incrível de ir para o sistema planetário da estrela Sirius.
Era loucura total, lhe dizia sempre, e ele como reposta, ria e dizia “Alguém, um dia, irá até lá, porque não nós?” O “nós” era uma caótica organização que se propunha fazer essa viagem, e que a estavam preparando há diversos anos.
Estava agora bem claro qual era o meu objetivo: queria vasculhar a vida de Edward Collins: descobrir “quem” lhe deu os poderes que permitiram ao homem deslocar–se, pela simples sua vontade, no espaço.
Ele era inteligente e muito esperto, porém divertia–se demais com brincadeiras ousadas. A palestra que deu, duzentos anos atrás para a fina flor dos neurologistas da época, é uma prova disso. Chegar a formular a hipótese de que, alguém da plateia, podia ser o fautor da descoberta, foi de uma desfaçatez incrível.
É justamente pela sua propensão, a fazer este tipo de joguinhos, que eu, espero, descobrirei quem é, ou quem são, estes “Quem”.