A maneira mais fácil de descobrir algo que aconteceu muitos anos atrás, no meu caso, duzentos anos, seria a de ler os jornais da época, não porque todos os jornalistas souberam ou quiseram relatar a realidade, mas porque cotejando jornais diversos, eu conseguiria obter uma visão razoável do que realmente aconteceu. Convencionei, comigo mesmo que, quando poderia cotejar três fontes diversas, eu teria evidenciado cinquenta por cento do que de fato aconteceu.
A estratégia, que eu tracei, seria de me limitar a este cinquenta por cento iniciais e percorrer todo o arco de tempo que deveria investigar, em duas etapas bem distintas: primeiro exploraria os três anos e meio de atividades de Edward Collins e, na segunda, verificaria o que ocorreu, na sociedade humana, desde o seu aparente desaparecimento em Tóquio até os dias de hoje.
Somente depois de ter terminado tudo isso, é que viria a parte mais difícil, descobrir os restantes cinquenta por cento da realidade, que incluía, evidentemente, saber quem seria o “Quem”.
A tarefa parecia monumental, como de fato descobri, quando fiz o planejamento disso tudo. Somente para fazer este planejamento, demorei cerca de seis meses; claro que somente podia utilizar o tempo livre, depois das minhas atividades docentes na universidade.
Finalmente, resultou que devia demorar cerca de vinte anos, para concluir isso tudo. Ficava também claro que não tinha a mais pálida ideia de saber se ia conseguir realizar esse meu intento. Somente tinha a esperança.
Os meios de que dispunha eram: o tempo que me propus a empregar nessa tarefa, e a sagacidade e persistência em manter, por vinte anos, a minha mente focada no objetivo.
Resumi, para mim mesmo, o que teria pela frente. Mas faria isso somente depois das duas semanas que passaria com a minha filha e as amigas delas.
Chegarão amanhã. Já aparelhei a parte da casa que iremos usar e, também preparei um esboço dos possíveis roteiros, inclusive do mosteiro de Chestakova, já que a minha filha Ingrid continuava supondo que na Polônia cada aldeia, cada lugarejo, teria o seu próprio convento.
Para estes roteiros, achei oportuno convidar o Günter, com um ou dois colegas da universidade, solteiros naturalmente, para não ter que suportar, sozinho, as atenções das três amigas que, tinha certeza, teriam a incumbência de me excluir do rol dos solteiros.
– Viva papi… estamos aqui. Chegamos, finalmente. Vejo que você se escondeu muito bem no meio dessa densa floresta…
– Bem-vinda filha… não é nenhuma floresta, são somente bosques… não vais me apresentar as tuas amigas?
– Ah sim papai… esta é a Greten… e estas são Cristiane, tua homônima, e Raffaelle, de família francesa, e…
– Minhas amigas, este é o meu pai, do qual tanto falei e que, vocês já constataram, não quer sair desta floresta.
– Muito prazer, sejam todas bem-vindas. Já perceberam que a casa e o seu entorno ainda não estão conclusas, por isso, vos convido a voltar aqui futuramente, quando quiserem.
– Claro papi, qualquer feriado de uma semana aqui estaremos. Pai, nessa floresta, não estariam escondidas bestas selvagens?
– Você é como sua mãe, colocou uma ideia na cabeça e esta não sai mais. Repito, estes são bosques. As bestas mais selvagens são passarinhos e lebres, ou coelhos selvagens.
– Viram, amigas? Não disse que tinha bestas selvagens? O meu pai confirmou.
– Vamos parar com isso, vou levar vocês todas para os vossos quartos, podemos nos reencontrar aqui em uma hora? Mostrarei a casa e o entorno; cuidado, se preparem, podemos encontrar passarinhos assassinos e lebres carnívoras…
– Para pai, já estou assustada, não precisa me lembrar do que posso encontrar lá fora.
Enfim, passamos duas semanas bem prazerosas. Günter e dois nossos colegas ajudaram bastante em tornar agradáveis os nossos passeios e entreter as amigas da minha filha. Tenho que reconhecer que eram, todas elas, bonitas e interessantes.
Evidentemente, nenhuma dela tinha o comportamento infantil da Ingrid. Uma delas, me parece a Greten, me confidenciou que achava divertido ver a sua amiga Ingrid — em Hamburgo uma exigente e séria executiva – comportar-se aqui como menina mimada e inconsequente. Talvez, concluiu ela mesma, seria uma sua maneira de reviver a infância que, pelo que estava vendo, deveria ter sido uma época feliz.
Enfim, se foram. Não tinha percebido, até a saída delas, como a casa estava vazia e silenciosa, até, um pouco triste. Elas irão, qualquer dia destes voltar.
Daqui a uns dias voltarei para New York, e é nisso em que devo me concentrar.
***
Em cerca de um mês, consultando principalmente os arquivos de diversos jornais de New York e Washington, consegui ter uma visão razoável do que aconteceu nos dias do evento que acabou conhecido como a “epopeia de Washington”.
Tracei, superficialmente, o roteiro que Edward Collins fez daquele dia em diante, até o seu desaparecimento. Anotei os períodos e os eventos que poderiam ser mais reveladores, para, no futuro, fazer uma melhor e mais profunda investigação e análise. Uma das atividades correlatas seria, portanto, descobrir onde encontrar mais informações.
Jornais e revistas da época que ainda continuam existindo atualmente, possuem ótimas reproduções eletrônicas. Além deles, outras boas fontes eram o sistema de registro das empresas comerciais e o registro de pagamento de impostos, inclusive dos de renda.
Existia também o enorme acervo de informações nas “Escola de Deslocamento no Espaço”. Estavam lá registradas as centenas de milhares de entrevistas — somente consultei umas dezenas — bem como os resumos anuais dos perfis dos alunos, que, portanto, eram cerca de duzentos e bem volumosos. Lerei somente um de cada década.
Levantei, também, as aulas teóricas do deslocamento no espaço, sejam as aulas iniciais do Collins, sejam as posteriores, muito mais elaboradas. Somente as levantei, poderei estudá-las apenas mais tarde, bem mais tarde; o volume das informações necessárias estava se tornando gigantesco. Seria similar a busca de diamantes num depósito de cascalho aluvionar.
Teria, nesse caso, que processar diversas toneladas de material, para poder achar um diamante de poucos quilates ou, com maior frequência, de frações de quilate. A busca de diamantes atualmente é realizada com a ajuda de diversos equipamentos mecânicos; no meu caso metafórico, estaria, eu sozinho, suportando toda a carga de trabalho. Cheguei a cogitar que vinte anos seriam ainda pouco, frente a tarefa que se estava delineando.
Falando em diamantes, deveria investigar a empresa, agora gigantesca, que vendia os diamantes do Collins. A hipótese que provinham das jazidas das concessões que ele detinha para exploração de aluviões diamantíferas no estado do Maine, não me convencia nem um pouco.
Por exemplo: quem os lapidava em tão grandes quantidades e, que me perdoem o trocadilho, tão brilhantemente lapidadas? Seguramente as jazidas aluviais diamantíferas no Maine jamais existiram.
A falta de informações sobre uma necessária instalação de lapidação de diamantes era mais uma prova disso; outra prova era que ele dispunha de diamantes cerca de um ano e meio antes que lhe foi dada a concessão da exploração. Todos os registros apontam claramente para isso.
Enfim, depois de um mês mergulhado nesse mar de notícias, tive que catalogá-las para analisá-las, somente quando tiver tempo… Consegui descansar dando uma série de palestras em diversas universidades nos estados da costa atlântica.
Foi nesse período que consegui me encontrar com o meu amigo e confidente, Douglas G. Clifford, o cético secretário geral da Reitoria da Universidade de Harvard. Nos encontramos num tranquilo restaurante em New York.
– Que bom revê-lo, Cristian, já faz mais de um mês desde que você me telefonou que tinha voltado a New York; por que esta demora toda para nos encontrarmos?
– Nem me fale, iniciei as famosas investigações…. e, puxa um fio daqui, …puxa um fio dali, sem perceber, lá se foi um mês ou mais, me desculpe Douglas, sinceramente…
– Não tem que se desculpar, somente queria saber.
– Enquanto não chegarem os nossos pratos, e antes de te contar o que fiz até agora, posso te perguntar se conhece a origem do teu nome?
– Douglas ou Clifford? Realmente não conheço a origem de nenhum dos dois.
– Douglas, vem do gaélico, seriam duas palavras, nem me lembro mais como se escrevem em gaélico, mas seriam como “dou” e “glas”, respectivamente: água e preto, isto é, “águas pretas”, podendo significar também “águas turvas”, mas, mais provavelmente, águas pretas mesmo, por ser a região da língua gaélica uma região carbonífera, lignite e antracite em abundância.
– Percebo que além das letras latinas você entende também das “letras nórdicas”, ou sei lá como se chamariam essas do norte da Europa.
– Talvez, sem querer, você deu a denominação correta: “Letras do Norte”, das regiões do norte da Europa, que formam um grande conjunto, como seria o das letras latinas. Em relação aos meus conhecimentos dessas letras nórdicas, como você as chamou, para eu ser proficiente no meu campo, devo, obrigatoriamente, conhecer razoavelmente os campos contíguos que seriam, as já citadas letras nórdicas, as eslavas e finalmente as do oriente próximo. Estão chegando os nossos pratos, vamos parar com essa minha indigesta conversa.
– Ao contrário, Cristian, não é nada indigesta, gostaria, se quiser, que continuasse.
– E, como fica a nossa conversa sobre o que estou fazendo?
– Fique à vontade, diga o que você quer dizer… será sempre interessante.
Contei tudo que podia sobre as matérias que investiguei, ou melhor, que levantei. Eram todas informações da costa atlântica que consegui levantar. Agora teria que ir para a costa do Pacífico e fazer o mesmo. Devem existir, lá na costa oeste, pelo menos três núcleos de interesse: o próprio Centro de Treinamento, perto de São Francisco, a Boeing & Collins Company em Seattle, e os misteriosos arranjos feitos nas semanas que antecederam a saída do Collins para Pequim, a sua misteriosa viagem para Pequim e Tóquio, e o seu desaparecimento.
– Em relação a história do desenvolvimento do deslocamento no espaço, resolvi reunir os dados por décadas; se não fizesse isso, ficaria submerso em um mar de dados e não conseguiria mais sair. Me afogaria neles.
– Boa ideia. Me diga, quantas décadas já pesquisou?
– Quantas décadas? Nem consegui terminar a primeira. São milhares de informações que tenho que achar e reunir. Expurgar as inúteis e as falsas ou dúbias, cotejar as informações verdadeiras para poder finalmente dispor de uma sequência de fatos verossímeis. Veja bem, Douglas, verossímil, isto é, com boas chances de representar o que de fato aconteceu.
– Isto me parece um trabalho imenso e, parece-me, mais apropriado para alguns assistentes, uns auxiliares… não para uma sumidade, como você é.
– Obrigado pela “sumidade”, mesmo não sendo tão “sumo” assim; entendo, porém, que, se não fizer isso pessoalmente, as chances de se perder algo significativo seriam bem maiores.
– Entendo. Mesmo não tendo concluído a primeira década…, primeira década, isso me lembra os famosos “Discursos sobre a primeira década”, de Machiavel.
– Somente no título, evidentemente. Os comentários do Machiavel sobre específicos tópicos da história de Roma, contadas por Tito Lívio, portanto sempre de segunda mão, são uma obra prima de síntese; ao contrário, a minha “década”, que é somente um gigantesco acúmulo, ainda disforme, de informações.
– Poderia pincelar algumas destas, assim, de mera curiosidade?
– Posso. Consultando os arquivos do Centro de Treinamento na Virginia, acompanhei o aumento crescente dos Nautas e de como foram enfrentados os problemas legais decorrentes do deslocamento no espaço.
– Problemas legais? Como assim?
– Sim, problemas legais. Já, depois de cinco anos, existiam mais de mil e trezentos nautas provindos do Centro da Virginia; da Califórnia, não sei ao certo, mas deveria ser quase um milhar; então com dois mil sujeitos indo pelo espaço a seu bel prazer… acha que o “estado” não ia colocar o seu bedelho?
– Não saberia responder. Mas hoje…
– O “hoje” é o resultado da luta do Jan Kennet, o sucessor do Collins, na gestão da Escola. Igualmente capaz e esperto. Ele soube aproveitar bem os anos de perplexidade do “estado”, depois da desastrada tentativa do Senado de impor restrições às atividades da Escola. Outro fato que deixou as autoridades algo perplexas foi que não sabiam o que fazer para controlar os Nautas. De fato, todos eles, tinham o brevê de piloto, inclusive homologado pelas autoridades competentes do setor de controle das atividades aeronáuticas, e poderiam, por isso mesmo, voar à vontade; somente que, no caso deles… sem uma aeronave. Já sobre o Kennet… quanto a ele, as informações foram obtidas do “Memorial”, no Centro da Virgínia….
– Ah, sim, sei que existe um museu ou algo assim…
– Existe um Museu, cheio de curiosidades, para o público em geral, e existe um Memorial, restrito a pessoas interessadas, estudantes, professores, estudiosos, com objetos mais interessantes, e informações bem relevantes.
– Desculpe a minha interrupção.
– Não se preocupe. Dizia que, pelas informações contidas no Memorial, sob diversas formas, gravações de conversas telefônicas, vídeos de reuniões da diretoria da Escola, relatórios anuais, etecetera, eteceteras… resultou que o Kennet, tinha receio de duas possibilidades: a primeira era a de uma intervenção canhestra do estado.
Ele entendia que o estado tinha não somente o direito, mas sim a obrigação de garantir que o “deslocamento no espaço” não prejudicasse os demais cidadãos que não o podiam fazer.
Kennet tinha, também, plena consciência de que, qualquer dispositivo legal criado para esta legitima preocupação, inevitavelmente, conteria também medidas esdrúxulas que poderiam contrariar a Escola e os Nautas.
– E o que ele engendrou?
– Chegarei lá. Antes vamos falar da segunda preocupação do Kennet: os criminosos. Sim, os criminosos, de todas as espécies e qualidades, os criminosos já condenados pelo estado e, por esse mesmo estado, colocados em prisão por tempos geralmente longos. Na época tinham mais de três milhões de criminosos nas cadeias…
– Três milhões? Hoje não chegam a dez mil…
– Hoje, bem o disseste, mas, naquela época, além desses três milhões já presos, deviam ter mais do que o dobro desse número, livres e soltos, perpetrando toda sorte de maldades para a sociedade. Kennet não queria, como também Collins não queria, que este “exército” de dez milhões de elementos sem escrúpulos, investissem contra uns poucos milhares de nautas.
O conjunto desses nautas era, ainda, demasiado débil para ter condições de enfrentar esse exército de criminosos. Ele tinha que engendrar, como você sugeriu, algo eficiente e imediato; imediato, ou quase de imediato. Tinha que aguardar, preocupadíssimo, que a ocasião ocorresse e, finalmente, ocorreu.
– Qual foi a ocasião?
– Antes de revelá-la, gostaria de lembrar do teor de algumas perguntas nos testes para admissão de candidatos para o treinamento.
– Isso tem alguma relevância para deter o exército dos criminosos?
– Toda a relevância do mundo, aliás é a essência da Escola, a Escola do Collins e do Kennet…
– Agora Cristian, estou perdido, juro que não te interrompo mais, mas, por favor me explique.
– A seleção dos candidatos excluía as pessoas que possuíam tendências antissociais, como a violência, o roubo, a mentira e coisas do gênero; tendo algumas dessas características, o candidato era rejeitado. Isso implicava em duas considerações essenciais: a) para se deslocar no espaço precisava ser o que convencionamos definir como um “homem de bem”; b) todos os demais, que não estivessem nessa categoria se sentiriam frustrados e — preste atenção, Douglas — os criminosos, além de frustrados, se sentiriam afrontados e poderiam agir contra a Escola e os Nautas, da única maneira que sabiam: a violência, a fraude e demais coisas do gênero. Claro até aqui?
– Claríssimo, e interessante.
– Mais interessante ainda é que, a seleção dos candidatos, excluía também, as pessoas, mesmo de bem, envolvidas na repressão a estes criminosos.
– Estranho, né? Pessoas envolvidas com a repressão aos criminosos: policiais, investigadores, agentes carcerários… e, até os militares, imagino.
– Imagina corretamente. Nada relacionado a violência — nem mesmo a legitima, do estado — era admitido.
– Saberia me explicar esta aparente incongruência?
– Certamente. Esta é a essência da Escola. Não quer coibir nenhuma ação antissocial. Em absoluto. Quer somente, pelo ensinamento das Escolas e pelos resultados que beneficiam as pessoas de bem, que todos percebam, por si próprios, que é mais conveniente ser uma pessoa de bem que um criminoso.
– E as pessoas, digamos, “normais” ou de “bem” como você disse, que não possuem nenhum desejo de deslocar-se no espaço, como ficariam nessa estória toda?
– Estas pessoas, como eu mesmo e talvez vocês, você já as classificou, são as pessoas normais que não precisam de incentivos para ser “pessoas de bem”. Podemos voltar a ocorrência que Kennet esperava com ansiedade?
– Sim, claro, estou ansioso por isso.
– A boa notícia, para o Kennet, claro, infelizmente foi uma tragédia. Numa cidadezinha do Kentucky, uma escola de primeiro grau pegou fogo, a maioria dos alunos, guiada pelos professores, conseguiu sair a tempo. Um grupo de alunos, porém, ficou isolado no último andar, no laboratório de química. As chamas os impediam de descer pelas escadas.
Os bombeiros fizeram tentativas desesperadas para alcançar esse grupo de alunos; continuavam lutando contra as chamas, enquanto aguardavam, ansiosamente um helicóptero para alcançar os alunos isolados, quando…
– …. quando?
– …. quando, de uma station wagon de alguns turistas de passagem, saíram dois homens e uma mulher que, voando, foram para o topo do edifício. Enquanto, a mulher ficou junto das crianças para tentar tranquilizá-las, assim dizia o relatório dos bombeiros, os dois homens transportaram rapidamente todos os alunos a salvo, no chão, perto das ambulâncias que já estavam lá. Finalmente, até o professor de química foi salvo, ele que quis ser o último a ser carregado pelos dois nautas. Finalmente, todos juntos — a mulher nauta estava suja e despenteada — saíram daquele braseiro de chamas e fumaça. Fim da estória, agora começa a história do Kennet.
– Que coisa impressionante, não sabia disso. Não morreu ninguém, espero.
– Infelizmente morreram duas crianças, e uma professora que tentava salvá-las.
– E o Kennet, o que fez o Kennet?
– O Kennet, aproveitando-se da emoção do momento e da ampla cobertura da televisão que dispunha, ainda não sei por qual motivo, lançou a campanha dos “Nautas do Kentucky”, sugerindo que, os nautas de cada estado, se associassem em grupos similares aos dos “Nautas do Kentucky”.
Os nautas da Califórnia e os nautas de New York, na época os mais numerosos, se organizaram rapidamente e se colocaram, ostensivamente, a disposição das autoridades para qualquer situação em que os nautas, por serem nautas, pudessem ajudar. Os registros da Escola mostraram que esta financiou abundantemente os grupos que iam se formando em todos os estados da União. O único requisito era de, em cada estado, existirem pelo menos cinco nautas.
– Isto eu sei, esses grupos existem até hoje, mas, parece-me mais voltados a aspectos legais, desculpe a minha ignorância na matéria.
– Não é ignorância, é isso mesmo. O Kennet financiou estes Nautas de cada estado da União para, oficialmente, ajudar no que for possível nos eventuais acidentes: incêndios, inundações, naufrágios, e assim em diante. Extraoficialmente, ficariam atentos a quaisquer fatos ou ocorrência que pudessem pôr em perigo um nauta singular ou todos os nautas, coletivamente. Conseguiu assim o Kennet dispor de uma vasta rede, que aumentaria sempre mais, e que contava com o apoio incondicional de toda a população, para a proteção da Escola e dos Nautas.
— Inteligente esse Kennet.
– Não terminei. Na mensagem com a qual criou os “Nautas do Kentucky”, ele ressaltou que, esses grupos estariam à disposição das autoridades para quaisquer necessidades, excluídas, terminantemente, as de natureza policial e, também, as de natureza militar. Explicou ainda que, essa exclusão não derivava de algum menosprezo para com a ação da polícia ou dos militares, mas somente do fato que, por serem nautas, não conseguiriam, nunca, da maneira mais absoluta, colaborar nas atividades dessas instituições. Cessaria, se assim o fizessem, a condição de ser nauta. Perderiam a capacidade de continuar a se deslocar no espaço caso, mesmo por uma única vez, tivessem infringido este preceito.
– Com esta simples declaração, então, o Kennet conseguiu, tranquilamente, neutralizar toda ação hostil, deliberada e generalizada, dessa numerosíssima classe de cidadãos não muito “cidadãos”.
– Isso mesmo, Douglas, você entendeu perfeitamente as táticas sutis da dupla Collins-Kennet. Ainda tem muita coisa para se descobrir, e tenho que fazer isto nos intervalos entre as minhas palestras.
– Se quiser, essas palestras, podemos… sei lá, reduzi-las de número… de duração.
– Nada disso, que continuem como já planejado; para mim, essas palestras, são um descanso, … falar somente sobre algo que conheço.