Parecia que o pior do inverno já tinha passado, as ruas de New York não estavam mais encharcadas de água suja e resquícios de neve. Ainda fazia frio, mas a visão das ruas, finalmente secas, e um olhar ao calendário, faziam renascer, nos corpos e nas almas, a esperança de um clima mais ameno, chegaria a primavera.
Isso, ruas secas e calendário apontando para a primavera, porém, não é garantia nenhuma de bom tempo, assim me disseram os moradores mais idosos da cidade: já aconteceu de nevar em plena primavera.
Independentemente dos frígidos temores dos mais velhos, eu usufruía de uma primavera particular; a minha filha viria passar uma parte das suas férias aqui em New York, para ficar junto ao seu velho “papi”, e ver se ele se alimentava bem…. Aproveitei a oportunidade e me mudei para um hotel mais glamouroso, de acordo, supunha eu, com as expectativas dela.
Fui aguardá-la no espaço porto, bastante longe da cidade, lá chegavam, além dos estratos jatos, também os suborbitais. Estes, em meros oitenta minutos iam de Londres a New York, claro estava que, do espaço porto ao centro da cidade, mesmo com o confortável trem subterrâneo, demorava quase o mesmo tempo gasto com o sub-orb de Londres até aqui. Enfim, ela chegou e gostou de tudo. Gostou do hotel, gostou do clima, um pouco melhor do que o de Hamburgo, gostou das lojas, gostou dos restaurantes e, finalmente, gostou de ver o pai.
– Pai, – me disse no segundo dia, enquanto estávamos jantando num restaurante italiano – nestes dias que eu estou aqui, será que você vai dar alguma palestra, fazer um discurso… coisas assim?
– Sim, quinta feira, às três da tarde, tenho que dar a segunda das três palestras programadas, na Universidade de New York, uma das mais antigas dos Estados Unidos. Tenho que arranjar uma companhia para você para essa tarde, ou poderia visitar mais um mall, ou um teatro, talvez…
– Nada disso, lojas e teatros os posso ver em qualquer dia, ouvir o papi… somente nesta quinta-feira. Sabe que nunca ouvi você falar em público, ou nas aulas? Estou curiosa… e agora, logo mais, vou satisfazer esta minha curiosidade.
– Acho que vai se arrepender, é matéria enfadonha, somente pode interessar a poucas pessoas, aos interessados nesse campo específico.
– Quer dizer que serão poucas as pessoas que te estarão ouvindo, é assim pai?
– Nada disso, normalmente o auditório está lotado, mais de quinhentas pessoas….
– Quinhentas pessoas…? Quinhentas pessoas querendo ouvir o meu papi? Que maravilha, vou registrar tudo e mostrar para as minhas amigas e… posso mostrar para a mamãe?
– Pode fazer o que quiser, mas, te aviso novamente, é matéria maçante, acho que não vai te interessar.
***
– Oh papi… foi maravilhoso…maravilhoso – Ingrid abraçou o pai, logo após os cumprimentos de praxe dos muitos que assistiram a palestra.
Saíram assim, abraçados, e tomaram um transfer público, que os levou a um restaurante, onde Douglas os estava esperando.
Sentamo-nos após as apresentações, e, com um suspiro, esvaziei de um trago só a minha taça de champanhe. Temia que, a presença da minha filha na plateia me criasse alguma inibição. Que nada… depois de um minuto já estava mergulhado, de corpo e alma, na minha matéria preferida.
– Então, filha, gostou da minha palestra?
– Adorei, adorei imensamente. Registrei tudo, tudo mesmo, do início até o último aplauso.
– Muito bem. E diga-me, qual a parte que gostou mais, teve alguma preferência?
– Nenhuma, gostei de tudo.
– E você, Douglas, de que parte gostou mais? Esta palestra, que acabei de dar, é a mesma que fiz em Harvard, quinze dias atrás.
– Se a senhorita Ingrid me permite…
– Permito sim, senhor Clifford…
– Pode-me chamar de Douglas, se quiser, como o seu pai me chama.
– Melhor assim, Douglas. Então, qual a parte de que mais gostou?
– São muitas, na realidade são todas, essa palestra é uma obra de arte oratória sem defeito algum. Tem uma robusta linha lógica que vai do começo até o fim. Para responder à pergunta, direi que a parte que me interessou mais, por apresentar alguma correlação com o meu trabalho: seria a da possível antítese, e consequente análise, entre o devenir casual e o devenir imposto; as influências sobre o status cultural são totalmente distintas. A demonstração disso foi de uma clareza exemplar.
– Papi, do que está falando Douglas?
– De fato, Douglas, essa demonstração, torna inevitável… pardón, filha… o que você disse?
– Oh, pai, me desculpe…e você também, Douglas… eu, na realidade não entendi nada de nada… nada disso tudo que meu pai falou, somente prestei atenção às reações dos presentes: quando estavam atentos, quando estavam surpresos, quando estavam perplexos… coisas assim. Perdoe-me pai, e você também Douglas, me perdoe; o meu mundo está a mil milhas de distância do vosso. Sim, não entendi patavina, mas gostei, gostei imensamente de presenciar meu pai falando e, mais de quinhentas pessoas, ouvindo… e, finalmente, até aplaudindo. Que mais posso desejar?
– Congratulações, Ingrid. – Douglas se antecipou a uma minha resposta – O teu posicionamento não somente é correto, mas foi também brilhante, acompanhar a palestra, prestando atenção às reações da plateia, podendo fazer uma correlação entre o que foi dito, …, mas não, vamos deixar esta parte para nós mesmos… mais tarde. Agora quero assegurar que, invertendo as posições, seriamos nós a entender “patavina” de uma eventual palestra sobre a sua área de trabalho.
– Acho que não, vocês entenderiam tudo direitinho, vocês são grandes intelectuais. Tenho certeza de que vocês entendem perfeitamente o que seria uma subscrição in transit incondicional, sem tag along, claro que entenderiam.
– O quê?
E todos nós demos boas gargalhadas. O jantar, depois do intermezzo erudito, foi alegre e descontraído. Foram dias agradáveis os que passei com a minha filha, mas, estes dias passaram e ela teve que, com meu grande pesar, voltar para Hamburgo, … com muitas mais malas de quando chegou.
***
Agora que a Ingrid se foi, parecia-me que o inverno recrudesceu. Nem as ruas agora limpas e secas, nem o que me dizia o calendário conseguiram me alegrar. Era para mim evidente que o triste inverno que me afligia era totalmente subjetivo. A ausência da Ingrid, depois das semanas da sua exuberante presença, resultou numa áurea cinzenta que tudo abrangia.
E Eric? A simples menção deste nome me jogava num poço cheio de lembranças e dor. Cada dia que passava, fazia aumentar as recriminações que sempre me fazia desde a sua partida. Podia ter feito algo melhor do que somente recriminar a sua decisão; podia ter agido de forma mais inteligente de que somente lamentar a sua partida.
Mas, fazer o quê…? Dizer o quê? Mesmo agora, depois de tantos anos, não consegui achar argumentos ou maneiras que o poderiam fazer desistir.
Tenho que parar de me recriminar inutilmente…. a única coisa a fazer é mergulhar, já e profundamente, no trabalho.
Vejamos; as notícias provindas dos jornais quotidianos serão captadas pelo sistema de levantamento, seleção e avaliação que já montei. Farei o mesmo em relação aos numerosíssimos artigos em revistas semanais e mensais. Vou esquecer tudo que se passou na televisão; não tinha nem condição nem vontade de imergir no oceano de notícias e… pseudos notícias sobre o Collins, que assolaram o planeta por duzentos anos.
Achei um nicho de notícias que já tinha classificado de inúteis, …, porém, queria, não sei por que, conhecê-las. Tratava-se de cerca duas dúzias de livros, publicados meses depois do primeiro voo das Nautas. Eram, pela maior parte, livros de jornalistas que queriam ganhar notoriedade entrevistando pessoas que tinham encontrado Collins.
Em todos esses livros era bem evidente que o jornalista e autor do livro procurava algo interessante em fatos e discursos que não o eram. Não, não tinham forjado fatos inverídicos, somente ficava bem evidente que tentavam criar alguma dramaticidade em situações corriqueiras. Até me diverti um pouco com essas leituras.
Um bom exemplo é o livro de um tal de Iran Robson com o título estrambótico de “A Origem – Do Tennesse às estrelas… via Washington”. Cito o trecho da entrevista com um certo Benjamin “Pallet”, entrevista que ilustra o gênero desse tipo de livros
“- Senhor Benjamin, então o senhor falou diretamente com ele?
– Exatamente, falei com ele.
– E o que ele disse?
– Disse para fazer uma bela embalagem do coiso.
– Coiso? O que seria este “coiso”?
– Ora… o coiso que o Collins me deu… que ele me deu e me pediu para fazer uma bela embalagem de madeira, … sim… foi isso mesmo que me disse: uma bela embalagem de madeira…
– … e como era este coiso?
– Bem… era de um metal lustroso, … bem lustroso e liso… não tinha nada de nada para poder enganchar, prender… liso, liso, liso… foi o diabo manuseá-lo para encaixá-lo direitinho.
– Sim entendi. Me diga, quanto pesava esse coiso, tem ideia?
– Ah…. sim, pesava um bocado.
– Um bocado? Disse que pesava um bocado?
– Sim, disse que pesava um bocado.
– … entendi. Me diga, tem uma ideia aproximada do tamanho do coiso? Sabe: altura… largura… coisas assim?
– Claro: altura, seis pés e uma polegada e sete oitavos; largura quatro pés e um oitavo; espessura três pés, duas polegadas e um tiquinho mais de três quartos de polegada, … é isso, sim.
– Parabéns pela precisão…, mas como…
– Tinha que cortar as madeiras para encaixá-lo, né? Tinha que serrá-las na medida certa, se queria encaixar bem o coiso, como ele pediu, não acha?
– Acho sim… e de novo parabéns… pela memória.
-Memória nada, …é que vieram mais jornalistas me perguntando isso, então escrevi as medidas num papel… agora, depois de repetir isso muitas vezes, … agora as sei de cor e salteado.
– Entendo. Eu, porém, não sou um jornalista, … sou um escritor, escritor de livros.
– Livro? O senhor vai escrever um livro sobre o coiso?
– Sim, também sobre o coiso, mas, principalmente sobre o Collins, mas me diga, não achou algo de estranho em relação ao coiso?
– Ah sim. Achei muitas coisas estranhas…
-. Por exemplo?
-. Não ter nenhum ponto que servisse para agarrar ele, ele era completamente liso, como já disse.
– O que mais?
– Quem o construiu estava bêbado, sim… embriagado.
– Como, embriagado?
– Sim, não tinha lógica nenhuma nas medidas… que eu saiba ninguém faz coisa de seis pés e algumas polegadas, se usa fazer com inteiros de pé… oras.
– Não podiam as medidas serem em metros, centímetros, sabe… o sistema que se usa ainda na Europa…
– E por que isso? Nós estamos nos Estados Unidos, não estamos?
– Sim, … acho que sim.
– A mais, recebi pallets europeus, … sim, tinham escritas em língua estrangeira… alemão ou holandês, sei lá; mesmo assim, as medidas dos pallets eram em polegadas.
– Sei, sei…, mas, me diga não achou tudo isso um pouco estranho?
– Estranho, como? Tudo que tinha de estranho já lhe disse.
– Estranho, sim. Como por exemplo, … que podia provir de um veículo extraterrestre.
– Veículo extra… ah, não. Não, veio no caminhão do velho Max, fui eu mesmo que o tirei daí, com a ajuda dele, é claro.
– Entendo, sim, entendo… então deveria falar com o Max, …o velho Max, é isso?
– Sim, é isso. Todos os outros jornalistas foram falar com o velho Max.
– O velho Max, então?
– Sim, o velho Max…, mas ele não é tão velho assim, ele deve ter uns pares de anos a menos do que eu… e ninguém me chama de “velho Benjamim”. Ninguém mesmo… queria ver alguém me falar assim … queria ver.”
O diálogo com o velho Max não diferia muito deste registrado com o Benjamin Pallet. Neste, também, depois de exauridas todas as perguntas, sugeriu-se uma possível origem extraterrestre. Registro somente o que o velho Max respondeu a esta possibilidade.
“- Origem extraterrestre? Claro que sim. Garanto que nenhum veículo terrestre passou por aí, deixando o coiso. Não tinha nenhum rastro, não tinha nenhum arbusto amassado, … nada de nada. Como já disse, nenhum veículo terrestre poderia ter deixado esse coiso lá, naquele descampado… eu garanto. Somente poderia ter vindo do ar…com um helicóptero ou algo do tipo.
– Algo do tipo, do gênero, disse?
– Sim, disse.
– E este algo do gênero não poderia ser um veículo extraterrestre? De alienígenas, por exemplo?
– Coisas como de discos voadores, quer dizer?
– Sim, algo assim. Não poderia? Não suspeita, ou viu algo que poderia… sei lá, sugerir esta origem?
– Bem, meu senhor, aqui em Lawrencburg, que eu saiba, ninguém acredita nessas bobagens.”
Depois desse diálogo, o autor do livro, se baseou nas afirmações do velho Max, de que não podia, o coiso, ter sido levado para esse descampado, por nenhum veículo terrestre, até um hovercraft teria deixado um rastro bem visível.
Daí, estimando um peso razoável do coiso, chegou a afirmar que num raio de oitenta milhas não existiam helicópteros com essa capacidade, afora o de um serviço de transporte médico e de uma base militar que tinha diversos desses aparelhos com a capacidade de transportar esse coiso… para qualquer lugar… sem deixar rastros.
A leitura dessas bobagens todas me distraiu um pouco. Sim, eram bobagens, porém recriaram o ambiente físico e humano dos primeiros momentos de Edward Collins em Lawrencburg. Depois, vieram as entrevistas com uma funcionária bancária, com uma telefonista tagarela, e finalmente com o xerife Stodler.
Ele não disse nada. “Não quer dizer nada, por que lhe foi imposto algum sigilo?”
– Não, meu senhor, somente porque eu não quero dizer nada.
– Mas o senhor, xerife Stodler, não deveria zelar pela ordem pública?
– Exatamente.
– E esse estranho coiso, não poderia ser algo que poderia perturbar a ordem pública?
– De que maneira?
– Sei lá, ninguém soube explicar, até agora, a origem… de onde veio esse objeto.
– Perguntou ao proprietário do objeto? Perguntou isso ao Edward Collins?
– Não… ainda não.
– E por que não perguntou?
– Não consegui, até agora, falar com ele.
– Tente. Tente de novo.
– Assim farei, pode ter certeza. Ele sabe se esconder…. sumir…, mas um dia, conseguirei achá-lo…
– Ótimo. Se conseguir alguma informação interessante, por favor me avise, …eis aqui o meu cartão de visita.”
O xerife Stodler ficou firme e não entrou no jogo do jornalista. Deu até um toque de humorismo na coisa toda com o seu cartão de visita.
Enfim, perdi um par de dias lendo coisas desse tipo; estas leituras, porém me distraíram um pouco dos sombrios pensamentos desencadeados pela partida da minha filha Ingrid… e de lembranças ainda bem mais doloridas.
Tinha ainda algumas palestras a proferir; depois dessas, podia me dedicar integralmente a coletar as informações necessárias para o trabalho que me demandaria cerca de vinte anos para concluí-lo. Vamos em frente, então. Tenho muito tempo, mas isso não quer dizer que devo desperdiçá-lo. Não mesmo.