Tinha que falar com a BCC, a Boeing & Collins Company de Seattle; mas, como poderia chegar até eles? Seattle está do outro lado do continente, em relação a New York. Não seria fácil encontrar, daqui quem me apresentasse a alguém proeminente dessa companhia. De outro lado, por ter o nome” Collins”, devem ter alguma ligação com a Escola; acho bom tentar este caminho, vou chamar Don Garret, o diretor do Centro de Treinamento na Virginia.
Ele foi muito atencioso comigo quando soube que queria visitar o Memorial: “Tem pouquíssimas pessoas interessadas nas documentações que temos aqui” – me disse na ocasião – “a maioria gosta dos brinquedos e dos simuladores do Museu, portanto, Professor Cristiansen, seja bem-vindo e fique à vontade no nosso Memorial”
Isto aconteceu cerca de seis meses atrás, será que se lembrará de mim? Será que poderá me dar algumas informações sobre como acessar a cúpula da BCC? Não adianta ficar remoendo, devo chamá-los e fim da estória.
– Olá… estou falando com o Centro de Treinamento da Virginia?
– Exatamente, senhor…?
– Cristian Cristiansen…, gostaria de falar com o Diretor Don Garret… se possível.
-Para o senhor, é para já.
– Como?
– Professor Cristiansen, o Diretor Garret irá falar com o senhor agora.
– Alô… Diretor Garret?
– Sim, professor Cristiansen, que prazer em vê-lo e ouvi-lo, pensei que tinha se esquecido de nós.
– Digo o mesmo, e não, não esqueci da sua gentiliza quando do nosso encontro, ao contrário, tenho a vossa Escola no centro dos meus pensamentos…. É que estou tentando escrever a história da vossa Escola, desde o tempo do Collins, até hoje.
– Parabéns, e votos de sucesso; naturalmente sabe que já foram escritas dezenas, se não centenas, de histórias da nossa Escola, na maior parte fantasiosas, ou pouco críveis.
– Sei disso muito bem, e é por isso mesmo que quero escrever a história da vossa Escola de forma a tornar-se, no futuro, uma fonte, ou referência confiável.
– Louvável a sua intenção, a aprecio vivamente…. mas, como pretende alcançar este objetivo?
– É fácil dizer e bem mais difícil fazer. De qualquer forma, eis o meu roteiro: primeiro, somente consultar as fontes originais, segundo: planejar cuidadosamente todas as etapas, e nisso demorei quase um ano, terceiro e último: dedicar, a esta tarefa, os próximos vinte anos….
– Vinte anos! O senhor disse… vinte anos?
– Sim, disse e repito, vinte anos. É o mínimo, se quiser fazer uma coisa séria, não acha?
– Acho sim, mas… vinte anos, é muito tempo, muito mesmo.
– Não acho muito tempo, não, Diretor. Principalmente se considerar que os vinte anos vão passar, seja se você se empenhe numa tarefa notável, seja que não faça nada de especial. Os vinte anos passam da mesma forma.
– Não tinha me atentado a esta sua forma de ver o tempo. Porém, de fato, é logico e, ao mesmo tempo, interessante. Me diga, Professor Cristiansen, no que lhe posso ser útil?
– Obrigado Diretor Garret. Teria um pedido a fazer, mas antes disso gostaria que esclarecesse uma minha curiosidade….
– Pode pedir à vontade o que desejar, se estiver na alçada da Escola, sem dúvida, será atendido. Mas, qual seria essa sua curiosidade?
– É somente uma curiosidade, boba sim, mas intrigante. Quando o procurei, estava na expectativa de muitas perguntas, sobre como e por que eu queria falar com o Diretor do Centro de Treinamento mais famoso do mundo. Mas, ao contrário, fui imediatamente atendido. Achei muito bom, mas também estranho.
– Nada de muito estranho, na realidade. Devo ter relatado, quando da sua visita ao Memorial, que pouquíssimas pessoas o visitam. Quase todos preferem visitar o Museu repleto de simuladores, videoramas e mil brinquedos desse tipo. Todos os que visitam o Memorial, tem o próprio nome registrado e se tornam sujeitos a um tratamento especial, a começar com o atendimento imediato do próprio Diretor do Centro.
– Agradeço a inteligente forma de privilegiar os verdadeiros interessados na sua Escola. O pedido é bastante simples, poder-me-ia apresentar a algum dirigente da BCC de Seattle? Eu gostaria de ir lá, para poder ver alguma documentação original, se as possuírem.
– O seu pedido é de fácil atendimento, porém, se busca documentos originais, o melhor seria entrar em contato com o Instituto Neurológico Americano, o INA, em São Francisco.
– Não seria a ANA? A Associação Americana de Neurologia?
– Não. A ANA é a associação de todos os neurologistas americano ou estrangeiros que atuam no país. Ao contrário o INA é empresa privada, de propriedade da Escola, e que cuida somente dos interesses da Escola. Na realidade, o INA é a própria Escola, melhor dizendo, o cérebro da Escola. Para ser mais explícito, é o INA que controla todos os Centros de treinamentos nos Estados Unidos, e tem algum tipo de acordo com todos os demais Centro de Treinamentos espalhados por aí.
– Obrigado pelas informações. Nem sabia da existência dessa entidade, a confundi com a ANA. Me corrija, se me enganar de novo, foi para a ANA que ocorreu a palestra do Collins no auditório da universidade de Harvard?
– Exatamente. A INA surgiu logo depois, pela necessidade que o Collins sentia de atuar diretamente no campo da neurologia. Aliás, foi pela necessidade de interagir com a Boeing, que a INA foi criada. Aliás, mais uma vez, é a INA que controla e administra a Escola. Ela, também, é a proprietária de todas as participações em empresas comerciais, aqui e lá fora, como a BCC de Seattle, por exemplo.
– Percebo que é na INA que deveria ir primeiro. Uma pergunta mais, porque eu e, suponho, muitíssimas outras pessoas, nunca ouviram falar desta INA?
– Vou dar a minha interpretação pessoal. A INA nunca se escondeu, sempre fez tudo o que tinha que fazer de forma ética e legal, somente que não se expunha à curiosidade pública; não fazia alarde da sua existência junto a mídia e, por isso, junto ao grande público. Se alguém tiver interesse em saber algo da INA deverá somente consultar os vários registros nas diversas esferas, federal, estadual e municipal. Lá encontrará, sempre, devidamente registrada, a INA, que, por sinal, faz parte do Conselho Consultivo da ANA.
– Entendo tudo isso, mas, como se explica que, até eu, interessado na história do Collins e da Escola, não atinei com isso?
– Continuo com a minha interpretação pessoal: o termo “Escola” tanto podia significar a entidade toda, como o próprio Collins; usa-se dizer que a “Escola” assinou um acordo com um governo de outro país, na realidade foi a INA que redigiu o acordo e o assinou, e, é bom deixar claro, nos termos exatos definidos pela “Escola”.
Na realidade não se trata de “acordo” entre duas partes, mas sim de “contratos de adesão”; se você quer um dado serviço, este será fornecido pela prestadora deste, conforme padrões específicos e válidos para todos os interessados; exatamente aqueles que “aderem”. O governo de um dado país pode aceitar este “acordo” ou não. Neste último caso, evidentemente, não existirão “centros de treinamento” nesse país.
– Vejo que a INA é realmente a “Escola”. Devo ir lá sem falta. Quem, com conhecimento e importância suficientes, eu deveria encontrar?
– É com o Presidente, William G. Durant, que o senhor deveria se encontrar. Ele o está esperando há, pelo menos, seis meses.
– O que… Como? O senhor disse “esperando”? Como pode ser isso?
– Acha que uma grande organização, como a Escola ou a INA se quiser, aguarda passivamente o desenrolar dos acontecimentos? Nada disso, como todas as grandes organizações, a Escola tem um serviço de inteligência que, não por acaso, é uma divisão da INA, e esta já detectou o seu interesse sobre a Escola há mais de dois anos.
– Diretor Garret, o senhor não para de me surpreender. Entendo, então, que posso ir para São Francisco; é lá a sede da INA, não?
– É em São Francisco, sim, mas vou dar o endereço do escritório particular do Presidente. Assim poderão conversar com mais tranquilidade.
– Agradeço imensamente a sua cortesia, Diretor Garret; irei para São Francisco amanhã mesmo. Quando voltar para Washington irei a visitá-lo e agradecer pessoalmente pela sua cortesia comigo. Até nos ver!
Eis-me aqui em São Francisco, cidade que conheço somente através de filmes e documentários. Agora posso confrontar minhas imagens mentais com a realidade.
Para poder fazer isso, me instalei num hotel que tem o seu restaurante principal no último andar. Dali posso ver toda a baia com a velha ponte metálica conservada somente para manter a imagem famosa já há mais de três séculos. O tráfego rodoviário e ferroviário passa, e já faz tempo, através dos numerosos túneis embaixo da própria baia. Com muito custo deixei de admirar a paisagem, devia ir conversar com o Presidente da INA, pois havia já chegado a hora marcada.
– Presidente Durant, agradeço muito ter me recebido com tanta presteza.
– Bem-vindo à São Francisco, professor Cristiansen, a honra é toda nossa em tê-lo aqui na INA. Depois da nossa conversação, se concordar, podemos ir para nossa sede, não está tão longe daqui, lá podemos encontrar diversas coisas interessantes O Diretor do nosso centro da Virginia me informou que gostaria de consultar documentos originais do tempo do Collins, é isso mesmo?
– Sim, é isso mesmo. Me sinto um pouco constrangido em ter que justificar o meu pedido. O Diretor Garret me disse que a “Escola” já investigou a minha vida… sei lá… há muitos anos. Nem sei o que a Escola sabe ou não sabe. A situação me deixa um pouco confuso….
– Fique tranquilo, professor Cristiansen, nos da INA, em benefício da Escola evidentemente, entre as mil e uma coisas que fazemos, levantamos, também, os nomes das pessoas, de um certo relevo ao menos, que se interessam pela Escola. No seu caso, de forma positiva.
– Obrigado pelo “positivo”. Suponho, então, que acompanham também os “negativos”?
– Com toda certeza. Como toda e qualquer grande organização, precisamos saber o que podemos encontrar pela frente. Aliás, desde o início da sua aventura, o nosso Edward Collins teve que enfrentar uma fortíssima oposição. Ele conseguiu se precaver somente por ter montado um eficiente serviço de inteligência. Nós não inventamos nada, somente seguimos os passos dele.
– Entendo. O Diretor Garret já o deve ter informado da minha intenção de escrever sobre a vida e a atuação do Collins desde a fundação da Escola até o seu aparente desaparecimento…
– Sim, ele nos informou, mas tivemos também outras fontes de informações sobre a sua intenção. Acho conveniente que saiba, já, agora, que a Escola, isto é, o INA, nunca apoiou interessados em escrever algo sobre Edward Collins ou a Escola. O Senhor, professor Cristiansen, será a única exceção: o INA, ou a Escola, se preferir, dará todo o apoio necessário para a sua obra.
– Não sei como agradecer esta vossa disposição…
– Não tem que agradecer. Somos nós que agradecemos, por termos encontrado alguém com capacidade e isenção para executar essa obra que tanto faz falta para nós. Evidentemente já sabe que centenas de livros, ensaios, documentários, sobre Edward Collins, foram editados ao longo dos dois últimos séculos. Todos muito abaixo de um mínimo de verossimilhança; cada autor tinha um objetivo pessoal que, quase sempre, nada tinha a ver com os fatos ocorridos.
– Agradeço novamente toda essa consideração para comigo. Gostaria, se não for um abuso, que me ilustrasse como está organizada a Escola. O Diretor Garret me deu algumas informações, que somente demostraram que eu nada sabia realmente sobre a vossa organização. Acho que o termo “Escola” é genérico e nada elucidativo.
– Exatamente, é o nome que engloba todo o nosso universo técnico, legal, operacional e financeiro de forma genérica e, como o senhor mesmo já definiu, nada elucidativo. O melhor caminho, sugiro, é de examinar as entidades legalmente constituídas. Posso fazer isso?
– Nada melhor que o senhor mesmo para me orientar, siga o seu roteiro, espero não me perder.
– Não vai se perder, em qualquer momento pode pedir mais explicações. Às vezes, por conhecer bem todos os aspectos deste nosso universo, deixamos de reportar, a um estranho, algo indispensável para a compreensão dele.
– Agradeço o seu empenho, estarei atento e, caso surgirem dúvidas, o informarei de imediato.
– Ótimo. Vamos definir, de início, como é organizada uma das chamadas “Escolas”. Trata-se de empresa privada de ensino formada por dois blocos distintos. O bloco “seleção” que cuida da busca e seleção dos candidatos e o bloco “treinamento”, que treina os candidatos para torná-los Nautas.
– Nem todos o conseguem, entendo.
-De fato, nem todos o conseguem. Deve reparar, porém que, desde os tempos do Collins, o percentual dos alunos que não conseguem terminar o nosso curso vem declinando; isto é devido somente ao melhor aprimoramento do nosso sistema de análise e seleção.
– O “treinamento”, por sua vez é formado de dois sub-blocos totalmente distintos: o primeiro, torna, uma pessoa qualquer, em piloto de aeronave, portanto ciente de meteorologia, geografia, navegação aérea e outras disciplinas que o rendem apto a se deslocar no espaço.
E, é bom saber desde já, que este tipo de treinamento pode ser ministrado por quaisquer outras entidades que não a “Escola”. Qualquer piloto, se passar pela “seleção” pode se candidatar para a segunda parte do treinamento.
– Que, suponho, é área privativa da “Escola”.
-Exatamente. Somente nós, da “Escola”, com treinadores instruídos por nós, propiciamos este tipo de ensino. Este é um ponto fundamental. Disso nunca podemos desistir.
– Entendo, sobre este ponto gostaria de voltar mais tarde, mas, por favor continue a sua exposição.
-Toda esta organização é, então, uma empresa privada, cujos acionistas são as pessoas, ou melhor os descendentes das pessoas que o próprio Collins definiu como “sócios”. Nos possuímos a gravação original da reunião, aqui em São Francisco, na qual, entre outras coisas, o Collins, distribuiu as participações da Escola da Virginia e da Califórnia. A INA, o nosso instituto, detém trinta por cento das ações de cada “Escola”. Isto garante a cada escola o suprimento de treinadores capacitados para a tarefa de transformar pilotos em Nautas.
– Agora entendo melhor como está estruturada a vossa organização. Presumo, me desculpe se me antecipo a sua explanação, mas, quero verificar se eu estou assimilando bem. O Instituto de Neurologia Americano, o INA, é na realidade a “Escola”; é ela que detém o monopólio dos instrutores capacitados para o último estágio do treinamento.
– É isso mesmo. É o INA que, pelo monopólio que mencionou, que detém o controle sobre todos os centros de treinamento no mundo. Nos Estados Unidos diretamente e, no exterior, através de acordos específicos que fazemos com os governos interessados. Nenhum país quis ficar fora deste novo tipo de corrida para o espaço.
– E como seria estruturado esse acordo com governos estrangeiros?
– Na realidade são nove tipos de acordos básicos, que vão desde a entrega da responsabilidade da construção do centro de treinamento, e sua operação, integralmente para o INA, até, na outra extremidade das alternativas, somente a entrega dos projetos das instalações físicas e o fornecimento dos instrutores capacitados para o último estágio de treinamento.
– Em todos os acordos é preservado o nosso monopólio sobre os instrutores, em contrapartida nos comprometemos a fornecer tantos instrutores quantos queiram. Acho que ambas as partes saem ganhando.
– Do ponto de vista meramente comercial, concordo. Suponho, porém, que este vosso monopólio deve ter criado algum tipo de ressentimento. Ninguém gosta de ficar refém de terceiros.
– É verdade. Periodicamente surgem movimentos para tentar acabar com o nosso monopólio, mas, até agora, conseguimos rechaçá-los.
– Eu sei, superficialmente é claro, que ouve um movimento em 2.114 de cerca trinta países que, em sede ONU, queriam criar algum dispositivo que acabasse com o vosso monopólio. Isto é tudo que sei, extraído das informações obtidas via hipernet.
– É isso mesmo. Foram diversas as tentativas, mas a mais relevante foi justamente a de 2.114. Nesse ano ocorreu o desenlace, o movimento começou muitos anos antes. Gostaria de saber algo mais sobre este episódio?
– Gostaria sim, se não for muito incomodo para o senhor.
– Incômodo nenhum, até será um prazer reviver um pouco o episódio que consolidou, para os séculos futuros, assim espero, o nosso controle sobre o deslocamento do homem no espaço. Alguns países, entre médios e pequenos, liderados por um país que nunca demostrou tendências colaborativas em quaisquer outros campos, iniciaram um movimento na ONU, para, de forma transversa, acabar com o nosso monopólio, para usar a expressão usada pelo senhor.
– Por favor, se existir outra denominação mais apropriada, que me a diga.
– Não seria necessário. Monopólio vale tanto quanto “direito”. Fomos nós que ofertamos, de nossa livre vontade, esta possibilidade aos homens…
– … que tenham boa disposição para com os outros…
– …e os outros são todos os demais, inclusive tiranos, assassinos e estupradores. Vejo que ambos lembramos bem da cartilha básica.
– Por favor, desculpe a interrupção, pode continuar.
– O presidente da INA da época, Jan B. Hudisk, queria acabar com esse movimento exatamente onde nasceu, na ONU. Queria rebater as mentiras e calúnias, de forma enfática e contundente. Por sorte nossa, e a dele evidentemente, isso era totalmente impossível: nenhuma entidade que não fosse um país soberano poderia se manifestar na ONU.
Para resolver esse problema se passaram diversos meses, o tempo necessário para Hudisk se acalmar e estudar uma maneira melhor de contrastar esse movimento contra o nosso monopólio.
– Pode dizer “direito”, tranquilamente; concordo com o vosso posicionamento.
– Obrigado. O problema de um nosso representante poder falar na Assembleia Geral foi atacado de duas maneiras diversas. A primeira foi convencer o nosso poder executivo e legislativo que era conveniente rebater esse movimento que se tornou “antiamericano”, por atingir o “Instituto de Neurologia Americano”.
Isso era uma evidente inverdade, porque a Escola, ao longo de mais um século de existência, nunca se manifestou como “entidade americana”. Ao contrário, sempre se considerou, e realmente era e é, supranacional. Esta patente inverdade foi necessária para criar um movimento, interno nos USA, a favor de uma eventual “resposta” do nosso governo a “esse movimento antiamericano”.
– Isso ficou claríssimo. É a aplicação pura e simples dos ensinamentos de Machiavel. A moral individual, no caso “não mentir”, não pode ser aplicada ao Estado, isto é, aos governantes que, somente, devem se preocupar com o bem da comunidade…
– Correto, corretíssimo. A segunda frente foi, através dos inúmeros canais de comunicação de que dispúnhamos, tentar convencer cada representante desses mais de trinta países que seria muito oportuno “anuir” com a presença de um representante do INA. Assim, esse poderia ser “destruído” dentro da própria ONU, pelo fato incontestável da existência de um afrontoso monopólio.
– As informações da hipernet não mencionam toda essa trama dos bastidores.
– Acho que a hipernet está certa. A quem poderia interessar os detalhes dos bastidores? Somente a um estudioso da história, como seria o seu caso, não ao homem comum.
– Sem dúvida. Porém o homem comum sempre aprecia um bom escândalo.
– Justo. Então era necessário transformar um eventual “bom escândalo” em uma “enfadonha questão protocolar”, retirando, assim, o interesse do grande público. Coisa que o INA sabe fazer egregiamente.
– Percebo que o INA é muito mais sofisticado do que eu podia imaginar, mas, desculpe, pode continuar.
– Pois bem, convencionou-se, com o apoio de todos os envolvidos, que o Hudisk, seria agregado à representação americana na ONU, como consultor especializado na matéria em pauta e que, interpelado pelo Secretário Geral, podia se manifestar na Assembleia Geral, exclusivamente sobre a matéria. Pois bem, professor Cristiansen, temos a reprodução, em holograma, do discurso dele, podemos fornecer uma cópia, mas, se quiser, posso, agora mesmo, repetir alguns trechos.
– Agradeço a oferta, porém a curiosidade é tão grande que ouviria com prazer esses trechos que, por ter ficado na sua memória, devem ser notáveis.
– Todos os presidentes do INA devem ter bom conhecimentos dos fatos históricos da Escola, e este, se não é dos mais significativos, não deixa de ter a sua importância: Escola versus ONU.
– Já sei que a Escola venceu, gostaria de saber como.
– Vamos a isso. Logo depois dos cumprimentos protocolares, o Hudisk afirmou: – “Estão aqui reunidos os senhores representantes de todas as nações soberanas do mundo, para avaliar se é aceitável que uma empresa privada, seja de que país for, detenha o monopólio do treinamento para o deslocamento no espaço…”
– Ele usou, realmente, o termo: monopólio?
– Sim, e com isso tornou totalmente inútil boa parte dos discursos que os nossos adversários tinham preparados para demostrar que, sim, a Escola tinha o monopólio. Disse mais, afirmou com toda a ênfase possível que o monopólio é uma condição de mercado inadmissível, por permitir abusos inaceitáveis em qualquer sociedade bem-organizada.
– Aparentemente este Husdik, estava fustigando a própria Escola.
– Repare, porém, que ele disse também: “que o monopólio permite abusos inaceitáveis”. Deriva daí que seria suficiente demostrar que a Escola nunca praticou abusos, inaceitáveis ou mesmo aceitáveis.
– Esta, parece-me, uma jogada audaz, mas, também, perigosa…
– De fato, mas logo entrou no âmago da questão: “Ao longo de mais de um século, a empresa americana monopolista, nunca demorou um segundo além do tempo técnico necessário para atender aos países soberanos signatários dos ‘Contrato de Adesão’ nos tópicos de sua responsabilidade”.
Repare, professor Cristiansen, que ele disse claramente: “Contrato de Adesão” anulando, assim, outra grande parcela dos discursos desse pessoal que queriam demostrar que os denominados “Acordos de Colaboração”, este é o nome oficial do documento assinado entre o INA e país “requerente”, eram, na realidade “contratos de adesão”.
– Continua, o Husdik, com uma tática aparentemente suicida.
– Aparentemente sim, mas continuou: “Ao longo de mais um século, a empresa americana monopolista, nunca deixou de fornecer um único instrutor a menos do que estava acordado no contrato; ao contrário, inúmeras vezes atendeu a pedidos extracontratuais. Se existir ‘abuso’, e é bom realçar que a empresa americana monopolista não o considera dessa forma, de quem seria o ‘abuso’? Da Escola ou do país que requereu uma quantidade maior de Instrutores? Reitero que a Escola não considera este pedido extracontratual como ‘abuso’, mas, sim, como natural adaptação às situações reais emergentes.”
– Vejo que o Husdik, chama agora a “empresa americana monopolista” de “Escola”, a que se deveu esta alteração?
– Já ficou claro aos ouvintes que se estava discutindo sobre o monopólio de uma empresa americana; agora era oportuno apresentar claramente o objeto da discussão: a Escola, nome popularmente utilizado para definir a nossa organização.
– Entendi, desculpe as minhas interrupções, pode continuar.
– Continue pedindo esclarecimentos, não os considero “interrupções”. O nosso Husdik continuou, se bem me lembro, dizendo que o abuso básico de um monopólio é de obter mais benefícios dos que seriam possíveis em um ambiente de livre mercado, isto é, com concorrentes a prestar o mesmo serviço.
Acrescentou: “Vamos verificar, todos nós juntos, se a Escola fez isso, aumentar abusivamente os preços, graças a sua condição de monopolista. Todos devem se lembrar que o preço básico para um candidato se tornar ‘aluno’ era, nos primórdios, de duzentos mil dólares norte-americanos. Agora, cento e dez anos depois, continuam a ser duzentos mil dólares, estes, porém, correspondem em valor real, isto é, em capacidade de compra, de cerca um terço do valor inicial. Fique, portanto, registrado que, também neste aspecto, a Escola não se comportou como monopolista”
– Esta consideração, muito bem colocada, estava clara para mim, antes do discurso do Husdik. O que disse a seguir?
– Vai se espantar, tenho certeza. Depois de um breve resumo apresentando as conclusões as quais poder-se-ia chegar pelos argumentos apresentados, explode, literalmente digo, explode; no holograma pode constatar que o seu tom de voz, sempre calmo e pausado até então, alterou-se; aumentou o tom de voz e a velocidade de expressão; ao mesmo tempo aumentou significativamente, os intervalos de tempo, entre uma assertiva e outra.
– Parece que ele fez escola de teatro.
– Nada disso, além de ser doutor em neurologia, um dos maiores do seu tempo, era também formado em psiquiatria e psicologia. Era muita coisa… somente para enfrentar uma assembleia geral da ONU.
– Vejo que não tem a ONU em grande consideração.
– Não é bem assim. É a ONU que não se considera a si mesma, mas vamos ao que disse o Husdik, isso deve esclarecer esta minha posição.
– Vamos a isso. Este discurso do Husdik, parece-me mais interessante que um filme de suspense.
-Sem dúvida que é. Veja o que disse logo após o resumo. “Ficou claro, pela minha exposição de fatos, que a Escola não se comportou como monopolista, porém, ela realmente detém o monopólio do serviço de treinamento para deslocamento no espaço. Tomamos, então, entre nós todos aqui presentes, a decisão de retirar da Escola esse seu monopólio. O monopólio passaria, como uma das alternativas possíveis, de uma empresa privada de uma dada nação, para uma entidade supranacional criada nesta assembleia geral da ONU. Concordam com isso?” No holograma poderá constatar, professor Cristiansen, que o consenso foi geral.
– Mais uma vez, o nosso Husdik, parece ir contra os interesses da Escola.
– Parece, sim. Ele continuou: – “Esta entidade supranacional que a ONU criaria, seria embasada nos princípios gerais da ONU? Esta é uma pergunta que faço a todos os presentes. Percebo que é consenso de todos os ilustres representantes aqui presente. Ótimo, vamos continuar, concordam também que dever-se-ia avaliar a isenção e a capacidade do novo monopolista? Com prazer constato que, também neste aspecto, todos concordam. Agora eu farei uma pergunta deveras difícil e intrigante, mas, necessária, porque todos nós concordamos em avaliar a idoneidade do novo monopolista, a entidade criada pela ONU à sua própria imagem e semelhança.
– Estou temeroso em ouvir o que o Husdik, mesmo tendo passado quase um século, irá dizer.
– “A pergunta, – disse o Husdik – não tem nenhuma conotação desairosa para com a ONU, é somente o enunciado de um fato: quantos milhões de homens e mulheres morreram pela ação ou inação da ONU, desde a sua fundação até o dia de hoje? Evidentemente não é necessário que os senhores deem uma resposta. Posso melhorar a pergunta, em lugar da quantidade total, pode-se fornecer a quantidade por décadas. Neste caso descobriríamos, com grande satisfação, que os números assombrosos das primeiras décadas, se reduziram drasticamente…”
Neste ponto o Secretário Geral da ONU, interrompeu Husdik, afirmando, que ele estaria saindo do tema em pauta. “Não está em discussão o que a ONU fez ou deixou de fazer – disse o Secretário Geral – mas discorrer e avaliar a licitude do monopólio de uma empresa privada sobre matéria de interesse universal”. O meu antecessor interrompeu o seu discurso e encerrou a sua apresentação dizendo: “Se saí da pauta, peço mil desculpas, e retiro o que disse. Que fique claro, porém, que, na minha opinião, não saí do cerne do problema: definir quem irá fornecer os treinadores. Senhor Secretário Geral, encerro a minha exposição e renovo o meu pedido de desculpas se, de fato, ultrapassei os limites da matéria em discussão. Muito obrigado a todos pela honra de ter sido ouvido nesta Assembleia.”
– Terminou elegantemente.
– Elegantemente e eficientemente. A votação sobre se, a Assembleia Geral da ONU, deveria se manifestar sobre um monopólio de uma empresa privada sobre matéria, também de cunho privado, terminou com um estrondoso não, de 512 votos, face a 11 de “sim”, e duas abstenções, a dos Estados Unidos e a do Reino Unido.
– Parabéns, também, pela sua memória.
– Não é assim tão boa como parece. Acontece que, de vez em quando, revejo alguns hologramas antigos, assim, simplesmente para contrastar com a demasiada tranquilidade dos tempos atuais.
– Este foi um episódio interessante, não tanto pela matéria em discussão, quanto por ter envolvido nada mais que a ONU.
– Não acha que a matéria era de fato de grande interesse?
– Talvez eu peque por ingenuidade, mas, teria resolvido a questão com uma única pergunta.
– E qual seria, se me for lícito perguntar.
– Quem, além da Escola, teria capacidade de treinar os instrutores?
– O senhor me deu um susto terrível, por um segundo pensei que ia perguntar: quem deu esse poder a Escola?
– Esta seria outra pergunta legitima, penso eu.
– Sim. Perfeitamente legitima. Podemos voltar a ela depois da sua volta de Seattle.