Antes de vir para São Francisco tinha imaginado que, em uma semana ou duas, teria esgotado os arquivos do INA; agora, passadas já cinco semanas, percebi que, querendo realmente tomar conhecimento de tudo o que o INA tinha amealhado em dois séculos, deveria ficar em São Francisco por um ano ou dois.

O Presidente do Instituto de Neurologia Americano, cérebro e músculo da Escola, doutor em neurologia William G. Durant, agora para mim somente Willie, me tinha alertado, desde o começo da minha ida a São Francisco, que um mês ou dois não seriam suficientes nem para fazer um levantamento superficial da documentação que o INA tinha acumulado.

– Veja bem Cristian, se você quer mesmo escrever algo substancial sobre a vida do Collins, você deveria ficar aqui em São Francisco por alguns anos. Você não me disse que queria gastar vinte anos na sua obra? Então, comece a pensar em alguns anos aqui mesmo, nos imensos arquivos do INA. Seria bom que você procure uma boa instalação residencial, apartamento ou casa, como você preferir. O INA, poderá, com facilidade, prover um bom subsídio mensal para você trabalhar com total tranquilidade.

– Willie, a tua oferta é muito tentadora, gostaria muito de mergulhar, por bastante tempo, nos arquivos do INA, mas o custo seria alto para o vosso instituto, eu presumo.

– Temos dinheiro sobrando, Cristian, e aplicá-lo para financiar a tua obra não será problema algum. Posso considerar, então, que você aceita a oferta do INA?

– Sim, aceito e agradeço muito. Gostaria, antes de me afundar nos vossos arquivos, ir visitar a BCC. Isto está na minha cabeça há muito tempo, devo ir lá, nem sei o que posso encontrar, mas tenho que ir lá primeiro, se quiser trabalhar com tranquilidade.

– Não tem problema, você fará a sua própria programação, conforme achar melhor. Para a visita a BCC, acho melhor que o nosso Vice-Presidente, Thomas Wilmer, te acompanhe.

– Obrigado, mas, não acho necessário; somente uma tua recomendação, suponho eu, seria mais que suficiente.

– Cristian, você está redondamente enganado. A BCC não é o INA; eles são uma indústria que somente visa produção, vendas e lucros. Acho melhor que o Thomas fique consigo pelo menos uma semana, até eles entenderem que você é o ilustre recomendado do sócio da metade da empresa. Vá por mim, o Thomas é a pessoa que sabe lidar com eles.

– Se assim você acha, assim será. Quando o Thomas irá para Seattle?

– Errou de novo. O correto seria perguntar: quando o Cristian quer ir para Seattle?

– Você me deixa constrangido, não me perece que eu seja uma pessoa tão importante assim.

– Não sei quanto aos outros, mas, para nós do INA, Cristian, você é uma pessoa importante. Vá se acostumando com isso.

– Agradeço muito pela consideração. O que acha eu ir para Seattle na próxima segunda feira?

– Ótimo. Eu avisarei o Thomas para te buscar no hotel. Sábado e domingo você é convidado da minha esposa Betty no nosso yacht, vamos pescar no golfo da baixa Califórnia. Esta é a desculpa oficial, se chegarmos até lá, ou conseguirmos pescar alguma coisa, pouco importa. Tem muitos restaurantes no caminho que servem bons pratos de todo tipo de peixes. De acordo, Cristian?

– De acordo. Vamos experimentar os peixes da baixa Califórnia e compará-los com os do mar Báltico.

Eu e o Thomas fomos recebidos por um exuberante Presidente da BCC, um bostoniano que trocou o oceano Atlântico pelo Pacífico. Henry H. Mortimer III logo me deixou à vontade.

– Seja bem-vindo à Seattle, professor Cristiansen. Se o presidente do INA, o nosso amigo Willie, o recomendou, o senhor deve ser uma pessoa notável. Ele, nos seis anos que aqui estou, nunca recomendou alguém. Thomas, quanto tempo você pode ficar aqui? Temos um monte de assuntos a tratar.

– Ficarei todo o tempo que for necessário – respondeu o interpelado – mas vamos primeiro esboçar um programa para o professor Cristiansen…

– Por favor, se possível, me chamem de Cristian, é mais fácil…

– Então… Cristian, posso sugerir, antes de tratar dos assuntos que o trazem aqui, de visitar o nosso museu? Está aqui perto, em Everett.

– Parece-me uma excelente ideia.

– Ótimo. Vamos almoçar primeiro, depois direi a meu filho, o Mortimer IV, de acompanhá-lo, ele gosta muito do museu e, estando lá, não me atrapalha aqui.

O Mortimer IV, logo renomeado de Glenn, almoçou conosco, facilitando assim o relacionamento que iríamos ter. Disseram-me que se quisesse ver, mesmo, o museu, seriam necessários três dias ou mais. O Glenn gostava muito desse museu, portanto resultou ser um guia muito eficiente e que tornou até os aspectos técnicos mais enfadonhos em matéria interessantíssima.

O museu da BCC estava a mais de quinze milhas a nordeste do centro de Everett. No caminho, depois de cruzar umas colinas, um amplo vale, recoberto de inúmeras construções se descortinou aos meus olhos.

– Glenn, não me diga que tudo isso é o museu?

– É sim. Pode ser que não seja o museu mais interessante do mundo, mas que é o maior em extensão, sem dúvida que o é.

Fiquei contemplando as numerosíssimas cúpulas e torres de tamanho, estrutura e cores as mais diversas. Os intervalos entres estas estruturas era ocupado por vegetação, as vezes verdes gramados, as vezes pinheiros ou outras arvores que não conhecia. Fiquei, nessa contemplação, por um bom tempo. A palavra “museu”, apesar dos modernos museus se terem adaptado aos anseios de conhecimento fácil e dinâmico, desejado pela maioria da população, ainda era palavra que tinha uma conotação de poeira e coleções estáticas. Nada mais longínquo do que esta imensa extensão de construções fulgurantes sob o sol deste dia bonito.

– Vamos Glenn, me mostre este museu. Agora entendo por que seu pai disse que seriam precisos dias para poder visitá-lo.

Logo depois de ter atravessados as extensas áreas de estacionamento, de restaurantes e outras facilidades para os visitantes, ficamos na frente da primeira cúpula. Sabíamos que era uma das menores, mas, agora que estava na nossa frente, era impressionantemente grande. Sobre as amplas portas de entrada brilhava um grande letreiro: HALL DA GLORIA.

Entramos. Sobre as paredes internas da cúpula, numa luz ligeiramente azulada, me impressionaram imensas figuras de mulheres com macacões cor lilás, ao redor de toda a extensão desta.

– São as primeiras nautas – me disse o Glenn – repare que cinco delas tem um traje de uma cor, são aquelas que realmente foram as primeiras pessoas a se deslocarem no espaço. As duas outras, de cor diversa, foram as colegas que não o puderam fazer, por questões de saúde. Assim me disseram.

– O que seriam todos aqueles nomes abaixo de quatro destas figuras?

– Seriam os descendentes delas, até a quarta geração; nas postações com écrans, ali, logo abaixo de cada uma das quatros mulheres, você pode ver os nomes dos demais descendentes, até a época atual. Evidentemente, nesses écrans se pode ver muitos mais, se interessar. Vida, profissão, e outras informações e imagens. A intenção é de demonstrar que eram pessoas comuns.

– … e de uma certa idade, parece-me.

– Sim, naquela época uma pessoa com sessenta ou setenta anos, era considerada como pessoa “velha”. Repare que, a figura maior é a da Louise Brighton, o primeiro ser humano a se deslocar no espaço. Embaixo da figura dela não tem nome algum; ela não teve filhos, portanto nada de descendentes.

– Mesmo assim, tem uma postação com écrans, abaixo da figura dela também e, vejo, muito mais concorrida que a das outras mulheres.

– Deve ser por ter tido uma vida muito interessante, parece que viajou para todos os cantos do mundo e falava mais de vinte ou trinta línguas.

Este era, então, o Hall da Gloria, a homenagem às mulheres idosas que foram pioneiras no deslocamento no espaço. Na realidade se deslocaram no espaço por poucas centenas de pés e por cerca de quinze minutos. Também, os voos dos irmãos Wright e do Santos Dumont não foram muito mais do que isso. Em ambos os casos, elas e eles, foram os pioneiros, os que deram início a tudo que veio depois, no contexto das viagens aérea com aparelhos ou, de deslocamento no espaço, sem aparelho algum. Eles modificaram a maneira de viver de bilhões de pessoas.

Ampla e longa passagem, repleto de poltronas e mesinhas, levavam a cúpula a seguir: HALL DOS PIONEIROS, dizia a brilhante placa na entrada. Esta cúpula era maior do que a anterior; a luz já era diferente, parecia um pouco esverdeada. Viam-se, nas paredes do domo, onze figuras de homens vestindo algo parecido com um macacão de tecido, sem capacete, cabelos soltos ao vento.

– Glenn, não me diga que eles se deslocaram assim no espaço.

– Era assim mesmo, temos registros. Não esqueça, professor Cristiansen….

– Já te disse, nada de professor, somente Cristian. O professor, agora, será Glenn Mortimer IV. Você também nasceu em Boston?

– Sim, mas desde os quinze anos fui estudar em colégios e universidades diversas. Não tenho a ojeriza que meu pai tinha, e tem, em relação a Boston.

– Desculpe perguntar, por que teu pai tem tanta aversão a Boston?

– Não sei ao certo, parece-me que minha avó, tinha alguma coisa que obrigava meu pai a obedecer às ordens dela. Ela morreu quando eu tinha quinze anos, imediatamente meu pai me tirou do colégio de Boston, escolhido por ela, e me jogou em um colégio no Arizona. Foi um choque climático e cultural bastante intenso. Com o tempo, de choque em choque, estou agora à vontade em qualquer ambiente e situação.

– Desculpe perguntar, qual é a sua formação?

– Nada de especial, engenheiro aeronáutico, sem nenhuma especialização, meu pai sugeriu-me de fazer cursos de economia e de administração de empresas, ambos terminados poucos meses atrás. E eis-me aqui, agora, atuando, como guia de museu, do famoso professor Cristiansen.

– Não sei por que famoso… famoso por ter feito o quê?

– Na realidade, não sei; somente sei que todos dizem que é famoso.

– Deixemos estas bobagens, vamos em frente, tem mais coisas para ver.

Tínhamos saído da segunda cúpula, estávamos em um grande espaço livre repleto de árvores, flores, caminhos e bancos para descansar. Quem queria podia ir direto, através de uma passagem coberta para a próxima cúpula, imensa; um letreiro impressionante dizia: A ERA BCC.

Entramos no átrio que antecedia a cúpula propriamente dita. À esquerda, em vitrines bem iluminadas, se encontravam os trajes originais de outros nautas pioneiros, aos quais era dedicada essa cúpula: dez homens e uma mulher, esta, com uma flamejante cabeleira vermelha. Os trajes originais deles eram minuciosamente apresentados, inclusive com os detalhes sobre os materiais usados e demais características. Aqui, nesta cúpula, a denominada “segunda turma”, como ficou conhecida nos séculos a seguir, estava bem homenageada e ilustrada.

Entrando nesta terceira cúpula fiquei estonteado com seu tamanho, e com as impressionantes figuras retratadas nas paredes.

A partir da esquerda viam-se as primeiras combinações de voo da BCC, com indicadas as características técnicas de temperatura e cota para a qual foram projetadas. Logo a seguir vinham as demais, colocadas em altura superior às precedentes, e de assim em diante, demostrando visualmente a evolução dos produtos da BCC. A última figura era de um esferoide que permitia chegar aos 30.000 pés, portanto, acima do cume do Everest, equipamento que garantia a sobrevivência a uma temperatura negativa de 60 graus centigrados.

Inúmeros écrans, sempre ocupados pelos muitos visitantes, forneciam informações sobre a evolução dos trajes e as demais características destes.

– Impressionante, Glenn, deveras impressionante.

– Terá coisas mais impressionantes pela frente, Cristian, ainda estamos no começo do começo.

– Imagino que sim, mas sem dúvida que até agora este “museu” me impressionou. Museu? Não parece ser um museu, parece mais, com todo o respeito devido a esta belíssima instalação, com um parque temático para diversão educativa.

– Acho que acertou na denominação: “parque temático para diversão educativa”. Mais adiante encontraremos postações nas quais os visitantes poderão interagir com diversos tipos de simuladores. Sugiro deixar isso para amanhã, já faz mais de cinco horas que estamos aqui perambulando. É bom irmos descansar, amanhã teremos um dia bem cansativo pela frente.

– De acordo, voltaremos amanhã, mas diga-me, a que horas fecha o museu?

– Fechar o Museu? Ele nunca fechou, desde o dia da sua inauguração, 36 anos atrás.

Voltamos, bem revigorados, o dia depois e, às dez horas, retomamos a visita a partir do ponto que tínhamos chegado ontem. Foram horas e horas indo de cúpula para cúpula, de parques para jardins, de restaurantes para bares, numa sequência alucinante de informações e imagens que ilustraram todo o progresso do deslocamento no espaço, com os trajes da BCC. Na realidade existia uma cúpula na qual se apresentavam todas os demais trajes e apetrechos da concorrência de forma clara e simpática, até o aviso, ostensivamente comercial, que “somente os equipamentos da BCC são recomendados e garantidos pelo INA”. Supunha eu que, a maioria dos visitantes, não saberiam o que podia ser este tal de ”INA”, mas, se: “recomendavam e garantiam” os produtos da BCC, deveria ser alguma instituição especial e de grande relevância. Era um banal truque de marketing.

Às cinco da tarde eu e Glenn estávamos exaustos.

– Pensei de terminar a visita neste dia – disse-me o Glenn, um pouco desanimado – mas temos que voltar amanhã, será somente por poucas horas.

– Será necessário? Parece-me que esgotamos a matéria, o que mais teríamos para ver?

– Não deveria dizer, mas, falta ver a peça principal deste museu.

– Peça principal? Já vimos dezenas de peças principais, tem mais uma?

– Sim tem mais uma e, das inúmeras peças principais, como você disse, esta é a mais relevante.

– E o que seria esta peça tão relevante?

– Sinto muito, é melhor não antecipar nenhuma informação. Amanhã terá a visão completa.

Voltei para o hotel, um demorado banho me aliviou do cansaço de quase oito horas de andanças no imenso museu. Não jantei, tinha comido inúmeras guloseimas ao longo do passeio, preferi ficar no hotel e redigir notas sobre tudo o que vi. Amanhã, então, verei a tal de peça “mais relevante”. Não faço a mais pálida ideia do que poderia ser.

Acordei mais cedo, para poder estar no museu antes das nove, como o Glenn tinha recomendado. Em lugar de entrar, como usualmente fazíamos, pelo “Hall da Gloria”, o Glenn, com o seu transfer, me levou do hotel diretamente até a outra extremidade do museu. Uma larguíssima avenida, separava uma imensa construção do restante do museu. Curiosíssimo, subi as amplas escadarias que me levaram ao átrio. Neste uma escrita dizia simplesmente: “Sírio II”. Me virei para Glenn para pedir esclarecimentos, mas ele me pegou pelo braço e disse: “Vamos entrando”.

Atravessamos o átrio repleto de écrans, todos já ocupados pelos visitantes, e entramos numa larga galeria em leve aclive. No lado esquerdo via uma longa sequência de amplas janelas, no lado direito a parede era recoberta de inscrições, imagens e desenhos. Ainda não tinha entendido o que, isso tudo, seria, mas, uma leve apreensão me atingiu…” Sírio II”.

Olhei por um dos janelões, somente consegui ver uma superfície de cor amarelada sem nenhuma característica específica. Glenn me convidou a prosseguir. Depois de mais uns cem pés, voltei a olhar através de um janelão e somente vi o mesmo que tinha visto anteriormente: uma superfície amarelada que se estendia indefinidamente.

– Glenn, me explique, o que seria isso tudo?

– Isso é o Sírio II. Não é uma reprodução, é o próprio. Na realidade Sírio II não faz parte do nosso museu, está aqui, conservado em atmosfera de gás hidrogênio, até o momento de ser lançado.

– …lançado?

– Sim lançado. A BCC construiu, para terceiros, o SIRIO I, aquele que está viajando, há cerca de seis anos, para o sistema planetário de Sírius, uma das estrelas mais próximas do nosso sol. Para o mesmo cliente construímos também a réplica exata do Sirio I, este Sírio II; mas, em lugar de montá-lo no espaço, como fizemos com o primeiro, foi montado aqui na terra. Ele é formado de inúmeros módulos facilmente transportáveis e remontáveis numa órbita baixa…

Glenn continuou falando, mas eu não o escutava mais…. Me apoiei no vidro do janelão, as pernas estavam fraquejando…, não conseguia andar nem raciocinar… então este era o “Sírio“, a estrutura igual a aquela que estava viajando, a cerca de seis anos, para essa longínqua estrela, levando no seu bojo o meu filho Eric, a estrutura que, há cerca de um ano e meio, não entrou mais em contato com a terra…

– Glenn … por favor, me leve para o hotel.

– Cristian…. o que ouve? Você está branco… Quer que o leve para um centro médico?

– Hotel…

Finalmente sozinho no meu apartamento no hotel, deitado no sofá, pude me dedicar a minha dor. Dor, e inútil remorso. Foi eu que batizei o meu filho primogênito de Eric, fui eu quem contava para ele as estórias de “Eric, o Vermelho” que, com audácia, singrou os mares em busca do desconhecido, chegando, com um punhado de companheiros, até as terras de um novo continente.

Eu fui o maior culpado pelo seu desaparecimento, por ter incentivado essa ânsia para o desconhecido, para a busca de algo mais… além, muito além do conhecido, sempre rumo ao desafiante e misterioso desconhecido.

Agora se passaram anos dele viajando com outros aventureiros e aventureiras rumo ao sistema planetário de Sírius. Tinham a esperança, vejam só, somente a esperança de encontrar um planeta habitável… Que loucura, que loucura desvairada.

Voltei, em estado lastimável, para São Francisco. Não consegui me despedir condignamente das pessoas que foram tão atenciosas comigo. Futuramente, cheguei a pensar, vou me desculpar. Agora não quero saber de nada.

Fiquei analisando estes últimos anos da minha vida. De onde veio a estúpida ideia de descobrir “quem” forneceu ao Edward Collins os meios de conseguir tudo que acabou fazendo? Que interesse isso poderia ter para mim?

Ninguém, nem no tempo dele nem agora, se interessa por saber “quem” deu esses poderes para ele. O interesse de todos, sempre, foi somente de usufruir de um fantástico benefício, o deslocamento no espaço. O resto não interessou a ninguém. Porque eu, então, me interessei por este assunto tão banal?

Para sair desta profunda depressão fiz uma chamada para minha filha, a exuberante conversa dela me aliviou um pouco. Acho que o mais importante passo para a felicidade de alguém – cheguei a pensar – seria de buscá-la no seio da família. Depois disso fui dormir um sono cheio de pesadelos amarelos.

Após uma semana profundamente depressiva, voltei ao meu trabalho nos arquivos do INA. Consegui, não sei como, fazer o meu trabalho com a mesma eficiência inicial, porém, agora, sem interesse algum. Tinha que pensar seriamente no que poderia fazer daqui em diante. “Fazer”? Qual razão eu teria para “fazer” algo? Não era eu um aposentado? Poderia viver sem nenhuma preocupação. Aliás, poderia até casar-me com uma das numerosas e belas amigas da minha filha que, dizia ela, estavam louquinhas para casar comigo. Será que isso seria verdade? Será que um casamento seria a solução? Não acho. Em pouco tempo o casamento iria para o espaço. Mesmo casamentos baseados em fundamentos mais sólidos podem terminar, às vezes dolorosamente, como já aconteceu comigo. Imagine… quanto tempo poderia durar um casamento baseado somente na esperança de sair de uma crise existencial, como esta que não quer acabar? Vamos deixar as amigas da minha filha em paz.

Depois de duas semanas de trabalho e de pensamentos sombrios, uma noite, logo que fui para a cama, deveria ser pouco mais das dez horas, recebi uma chamada.

– Estou falando com o Professor Cristian Cristiansen? Era uma voz em inglês, mas com sotaque de algum país da Escandinávia.

– Sim, é ele mesmo.

– Desculpe tê-lo incomodado a uma hora tão tardia. Aí, em São Francisco, devem ser já mais que dez horas da noite.

– É sim, de fato, mas não é incômodo algum, estava lendo uma revista…, mas quem está falando?

– Aqui é da Academia de Ciências de Estocolmo. Tenho o prazer de informá-lo que, há poucos minutos, o senhor foi escolhido para receber o prêmio Nobel da Literatura. Quero ser o primeiro a parabenizá-lo. Sou o Secretário Geral da Academia.

– Como…? Verdade? Não será uma brincadeira de algum amigo meu?

– Não, não se preocupe muito com isso. Agora pode voltar a descansar. Amanhã de manhã estará na mídia, será a notícia mais importante da mídia neste dia. Depois, é bom saber disso já, será solenemente esquecido.

– Disso eu entendo…

– Então, Professor Cristiansen, boa noite. Amanhã, numa hora mais apropriada, voltarei a falar consigo.

Quando, na manhã seguinte, às oito e meia, fui tomar o meu desjejum na sala costumeira do hotel, encontrei o Willie de pé, perto da mesa que quase sempre utilizava. Estava com um amplo sorriso no rosto e, ao lado dele, uma bela moça, a sua secretária… me parecia, com um ramalhete de flores nos braços.

– Bom dia Willie, que bom que queira tomar o desjejum comigo.

– Bom dia professor Cristiansen, prêmio Nobel de Literatura.

– Ah… então é verdade. Um gaiato me telefonou ontem à noite….

– Parabéns professor Cristiansen. – A moça me cumprimentou, e me entregou as flores.

– Obrigado… obrigado. Ressalto, porém, que não sou uma diva de Bollywood… não sei se, para um aposentado, as flores seriam apropriadas.

– São apropriadíssimas, – respondeu-me o Willie, o todo poderoso presidente do INA – para realçar este dia especial. Por favor sentamos e tomamos algo. Você, como novo prêmio Nobel, não se incomodaria se a minha secretária tomasse um café conosco.

– Ao contrário, será um prazer. Espero que me fale algo, além do costumeiro “Pode entrar, Professor Cristiansen”.

Todos rimos e, assim, começou o meu primeiro dia de laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, um ano antes do prometido. Isto, porém, não o revelarei a ninguém.

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