Esta estória da mina de diamante está atrapalhando a minha verdadeira história. Resolvi, então, contá-la sinteticamente, para não me atrapalhar mais daqui em diante.
O que eu fiz, depois de ter tomado a decisão em seguida ao primeiro encontro com a Miss Universo 2020, foi de pesquisar na internet tudo que constava sobre os diamantes e, principalmente, sobre a maneira de conseguir uma concessão para explorar uma mina, aqui nos Estados Unidos.
Estas informações tinham, pela maior parte, origem num famoso site de buscas, no meu entender de baixa credibilidade. Depois disso, fui obter orientações diretamente da agência responsável pelas concessões de exploração mineral. Saí de lá com uma grande quantidade de dados e com a constatação que a legislação era bastante complexa; não desanimei e passei diversos dias mergulhado nesta.
O passo seguinte foi de arranjar mapas em escala detalhada dos estados do Vermont e Maine. Depois de bem estudados, comprei um motorhome, não muito grande e bastante usado, o enchi de apetrechos que, eu imaginava, poderiam ser os de um prospector de aluviões diamantíferos. Na realidade não me importava nem um pouco de encontrar diamantes ou não. Eu somente queria encontrar um lugar que deveria parecer com uma área aluvial diamantífera.
E lá fui eu, por uns dez dias para cima e para baixo nas regiões dos estados do Vermont e Maine, perto da fronteira com o Canadá. Na realidade, para mim, aqueles dias de trabalho duro, de perambular de um córrego para um riacho, de um riacho para uma morena (no sentido geológico), eram de puro descanso, afastado, como estava, das preocupações com o projeto que estava desenvolvendo – que é a história principal que estou contando.
Antes de voltar para New York, com ajuda de uns escritórios de estudos geológicos, dei entrada, nas agências estaduais, de autorização para prospecção de diamantes em três locais: um em Vermont e dois no Maine. Voltei, então, tranquilo e descansado para casa.
No devido tempo, e foi bastante tempo depois, recebi as autorizações para exploração mineral nos dois locais do Maine. Estava dado o primeiro e essencial passo para a obtenção de uma concessão para exploração de diamantes. O restante da história contarei depois, se me lembrar.
Voltei então para New York, tinha chegado o momento de fazer uma visita a redação do “Financial Times”. Arrumei–me com a roupa mais distintas e entrei no Departamento de Publicidade, aguardei um pouco e depois entrei numa sala que tinha na porta a placa “Anunciantes Institucionais”. Gostei do ambiente, era bem mais tranquilo de que as áreas que tinha atravessado.
Fui interpelado por um senhor que parecia bastante simpático.
– O senhor é um anunciante institucional?
Deu para perceber claramente que ele achava que eu não o era.
– Não, ainda não, mas gostaria de sê–lo.
O olhei firmemente nos olhos e continuei:
– Seria possível fazer um anúncio de página inteira? E, antes que ele se refizesse da surpresa, acrescentei: uma vez por semana. Quanto custaria por um período de três meses?
Sem dúvida que eu fui mesquinho em me deleitar com o assombro dele, mas, pelo ar de suficiência com que fez a pergunta inicial, ele merecia.
– O senhor…, bem, o senhor…, tem aí a sua arte?
– Arte?
– Sim a arte, o “layout” do seu anúncio.
– Não tenho, não. Eu supunha que vocês a podiam fazer. É um simples texto, não precisa de muita sofisticação, podemos discutir sobre isso em seguida; agora gostaria, se possível, saber qual o custo: página inteira, uma vez por semana, por doze semanas.
– Deixa eu ver, hum…, uma vez por semana., por doze semanas…, resultaria em….
E lá se foi ele, pronunciando uma quantia absurda e olhando–me na expectativa do meu espanto.
– Razoável, …deveras razoável.
Continuei sendo mesquinho, mas ele gostava de provocar.
Rendeu–se:
– A transação é muito relevante, seria melhor chamar o meu superior.
Foi–se, um pouco mais humilde, para chamar o seu superior.
Não o vi mais. Logo em seguida apareceu uma moça convidando–me gentilmente a segui-la. Entrei, então na sala do “superior”, um homem de cinquenta anos talvez, com ar severo.
– Por favor, pode sentar se, senhor…?
Apresentei o cartão da escola. Ele o olhou longamente.
– Quinta avenida, …. Conheço o edifício, um belo edifício. Em que andar?
– É na entrada B, são todos os três andares.
– Interessante, há quanto tempo estão aí?
– Há cerca de seis meses.
– É aí que vocês dão o curso de…, diz aqui: ‘voo humano’, isto é, se entendi, um homem voaria sem nenhum aparelho… É isso?
– É sim, é isso mesmo; parece inacreditável, mas é isso mesmo.
– Mas como… como…?
– Como? Quando os irmãos Wright voaram, nem eles sabiam “como”. Agora sabemos tudo sobre a aerodinâmica.
– E vocês dão o curso aí… na quinta Avenida?
– Evidentemente que não. Os cursos, são diversos, serão dados num aeroporto que estamos construindo, lá, perto de Washington.
– Sim, sim, sim…. Está tudo claro. Este é um assunto no qual eu não posso decidir sozinho. Vou falar com o Diretor Financeiro. Melhor ainda, vou falar com o Vice–Presidente responsável pela Editoria, sim… sim, é isso mesmo. O senhor não se importaria com a delonga, não?
– Nem um pouco. Agora, porém, tenho um outro compromisso. Poderiam, por favor, entrar em contato comigo? O meu e–mail está no cartão.
Se passaram três dias e não recebi nenhum e–mail provindo do Financial Times.
Estava analisando e corrigindo alguns formulários, quando a secretaria me anunciou que um certo senhor André Hofer queria falar comigo.
– André Hofer? Não conheço nenhum Hofer…
– Ele disse que é do Financial Times.
– Sim, sim, por favor, faça–o entrar imediatamente.
O “superior” da publicidade entrou.
– Prazer em revê-lo! – exclamei – Por favor, pode sentar-se.
– Belíssimas instalações que vocês têm aqui, belíssimas…
– Então o Financial Times não quis enviar um e–mail informando que não podiam publicar o anúncio; alegando, talvez, que já estavam compromissados pelos próximos doze meses…
– Não… não entendi bem.
– Sim, entendeu perfeitamente. Eu quis aplicar uma rasteira no Financial Times e eles responderam com sagacidade. Nada de e–mail comprometedor. Somente uma visita que não deixa rastros; parabéns para vocês. Aceita alguma bebida?
– Não… sim… um café seria ótimo.
– Sabe também, que com o valor que o seu auxiliar me pediu, poderia inundar New York de cartazes por um ano…
– Sei sim, aquela foi uma leviandade. Já recebeu uma reprimenda.
– Não o punam por isso. Fui eu que arrumei a arapuca; ele caiu, mas o Vice–Presidente não. Enfim qual seria a decisão do Financial a respeito do meu anúncio?
– Tenho que convir que é, basicamente, o que senhor me disse antes de eu ter dito qualquer coisa.
– Então, agora as posições estão bem claras entre nós e o Financial Times. Imagino que se vocês estivessem em Jerusalém dois milênios atrás, não publicariam o discurso das Beatitudes, alegando, talvez, que não era um assunto econômico. Pena que, este discurso, mudou a economia do mundo, acabou com o conceito da escravidão.
Fiz uma pausa e concluí:
– Poderia fazer um favor para mim?
– Sem dúvida.
– Transmita ao Vice–Presidente, ou a aquele que o enviou aqui, os meus cumprimentos e os parabéns por ter conseguido escapar, por enquanto, da minha arapuca. Confesso que o objetivo do meu anúncio era empossar–me dá credibilidade do jornal. Não consegui, pena… De qualquer maneira, após o primeiro grupo de alunos terminarem o curso, ele os verá voar. Diga a ele, também, que depois desse dia, eu gostaria de contar com os seus préstimos. Pode dizer isso?
– Sim, posso, e o farei com grande prazer.
– Então adeus, foi um grande prazer ter conversado consigo.
Tinha que procurar outros jornais, com um anúncio menos bombástico. Talvez fosse uma boa ideia apenas informar da inauguração da sede da escola ou pouco mais, somente o essencial. As entrevistadoras já estão bem treinadas, os protocolos definidos e a Jane têm um bom controle sobre tudo isso. Vou redigir um novo texto, o enfoque será a inauguração desta sede e que o centro de treinamento propriamente dito está prestes a ser concluído. Será oportuno fazer uma lista de convidados? E quem convidaria? E por quê? Vou deixar estes assuntos todos para amanhã; agora estou cansado e vou para casa.
Retemperado por um longo sono, fiquei pensando sobre a situação. Todos os arranjos possíveis foram feitos, alguns, como o centro de treinamento e o aeroporto, estariam logo operacionais. Os equipamentos necessários, inclusive os aviões, já foram adquiridos, o sistema de seleção, na realidade o sistema de informação subliminar, também estava concluído; vamos ver como funcionará na prática.
Para finalizar, o longo processo burocrático para obter uma concessão para exploração de diamantes, que não tem nenhuma relevância nesta história toda, também já estava em andamento.
O que faltava? Faltava somente tomar a decisão de tornar pública a natureza do centro de treinamento. A descrença, naturalmente, será universal.
O problema que deverei enfrentar, porém, estará nas pessoas que, mesmo não acreditando, por sentir que o resultado do que nós estamos fazendo poderia tornar–se um potencial entrave aos seus interesses, tudo fariam para destruir o centro de treinamento, e tudo e todos os que estão nele envolvidos. Coitada da Jane, quando perceber no que se meteu.
Não tem sentido protelar. Tenho, porém, ficar bem consciente que terei que enfrentar a indústria mundial do petróleo, a indústria automotiva, os fabricantes de aviões, a indústria da borracha e outras tantas das quais nem sei da existência.
Tenho que considerar, também, a comunidade científica mundial da medicina, da neurologia ou coisa parecida; eles deverão, suponho que na sua maioria, estar ferozmente contra qualquer coisa que não consigam entender.
E, principalmente, não esquecer de todos os governos da terra. Todos? Não sei, talvez o Principado de Andorra e a República de São Marino fiquem ao meu lado. É um começo.
Depois de ter choramingado, inutilmente, sobre a situação toda, respirei fundo e fui enfrentar o que me esperava.
O anúncio singelo apareceu nos principais jornais do país. Nem todos, como o Financial Times, o quiseram publicar:
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INAUGURAÇÃO
DO CENTRO DE SELEÇÃO DE CURSO DE TREINAMENTO PARA PESSOAS INTERESSADAS EM PODER VOAR SEM NENHUM TIPO DE EQUIPAMENTO
Endereço do local, data e a hora da inauguração
A seguir apresenta–se sucintamente informações sobre os cursos da Escola.
“Os interessados deverão agendar através do telefone…………………………………. ou do e–mail……………………. a data e hora, para a entrevista preliminar que visará avaliar se o candidato, possui condições físicas e psicológicas para enfrentar o treinamento que será dado no nosso Centro de Treinamento na Virginia.
O curso terá a duração aproximada de dezoito meses e constará, inicialmente, das matérias necessárias à obtenção do “brevê” de primeira classe, utilizando os aviões do Centro de Treinamento.
A seguir serão dados curso de diversas disciplinas, visando aumentar os conhecimentos gerais relacionados à segurança deste tipo de voo.
Os alunos que superarem essa fase, iniciarão os cursos básicos, teórico e prático, para voo humano sem auxílio de equipamentos.
Aos alunos mais capacitados será ministrado, sem custo adicional, um treinamento para voos estratosféricos.
O preço do curso, que inclui alojamento em hotel de classe cinco estrelas, e amplas instalações esportiva e de lazer, compreende também: alimentação de alta qualidade, assistência médica e psicológica e seguro de vida, totaliza US$ 200.000, a serem pagos antecipadamente.
Este texto foi publicado na quinta feira anterior ao domingo da inauguração.
A lista dos convidados para o coquetel da inauguração da sede da Quinta Avenida era encabeçada pelo Prefeito da cidade, pelo Chefe da Polícia, Chefe dos Bombeiros, Chefe do Departamento de Estradas e, claro, pelo chefe do departamento no qual trabalhei.
Convidados foram também todos os diretores dos Jornais da cidade, e naturalmente o senhor André Hofer do Financial Times. Não foram esquecidos os diretores das estações de rádio e televisão e a imprensa correlata. Finalmente, para encerrar a lista, os reitores de todas as Universidades locadas no estado de New York e todos os diretores dos Hospitais públicos, bem como de diversas clínicas privadas, selecionadas, principalmente, entre as do ramo da neurologia.
Estes convites foram enviados, aos destinatários, uma semana antes do evento. Pessoalmente fui convidar o chefe da polícia do nosso distrito, convite extensível a todos os seus auxiliares.
Na sexta feira reuni todos os funcionários do nosso centro de seleções: e todo o pessoal contratado para a ocasião: o mestre de cerimônia, o pessoal do serviço do buffet e os do serviço de segurança. Convidei também, os advogados do escritório que me dava assistência legal e os diretores e gerentes da empresa que me prestava assistência contábil e tributária e, finalmente e em apoio a Jane, o advogado Andersen.
Em resumo, o que disse a todas essas pessoas foi o seguinte:
Foram convidadas centenas de pessoas e aqui caberiam, no máximo, cem.
O buffet foi previsto para quinhentos convidados. A minha expectativa é que, o número de pessoas presentes deve variar de dois a quinhentos… bem, dois eu garanto. É muito provável que vocês todos voltarão para casa carregados de petiscos e garrafas de vinho branco suficientes para chegar até o Natal.
É imprescindível que entrem somente as pessoas que possuem o convite. O nosso chefe da segurança deve–se contatar e colaborar com os policiais que, suponho, estarão aí fora, na nossa calçada.
A nossa anfitriã e rainha será miss Jane, que dará brilho e beleza a esta reunião, se alguém vier.
Finamente veio o dia pelo qual tinha–me preparado com afinco. Não importava se vinham muitos ou poucos convidados, o importante era saber quem, não quis vir…
A hora marcada para o início do encontro era às dez horas de manhã. Uma hora antes, nós todos, preparados e nervosos, estávamos a postos. A última hora foi longuíssima, mas finalmente, passou. Como combinado, a porta de entrada foi aberta exatamente as dez horas e começarem a entrar umas pessoas que já tínhamos entrevisto pelas janelas; vimos também um discreto número de policiais que circulavam nas calçadas.
Tinha organizado um serviço de informação telefônica da entrada para a minha sala; queria saber “quem” veio; tinha estabelecido que o convidado que julgava ser de meu interesse seria discretamente acompanhado por alguém do staff, permitindo–me, assim querendo, encontrá-lo. Pessoalmente, eu não conhecia nenhum dos convidados.
As dez e meia o local já estava quase lotado, e o ambiente começava a esquentar pela farta distribuição de bebidas. Do ponto de vista de um encontro social, escapamos de passar vergonha. Analisando a lista dos presentes, constatei que as pessoas mais relevantes não vieram.
Não veio o Prefeito e nenhum dos convidados da administração municipal. Aconteceu até um fato interessante, entrou uma pessoa com o convite do chefe do meu antigo departamento, fui ao encontro dele, através das indicações do meu sistema de detecção. Quando vi a pessoa indicada, constatei que não era o meu ex-chefe.
O acompanhei a distância para verificar se era alguém do departamento. Infelizmente, não o identifiquei como alguém que eu poderia conhecer. Avisei a segurança para que pedissem a identificação dele – queria saber quem era – e depois o expulsassem discretamente.
A grande maioria dos presentes era constituída per gente da televisão e das estações de rádio. O segundo grupo era da imprensa escrita, porém, não veio ninguém dos grandes jornais, com exceção de André Hofer, do Financial Times. Ele, porém, veio a título pessoal. Nenhum dos reitores das universidades do estado estava presente. Alguns médicos, e só.
O “establishment” não se fez presente.
Pouco depois das onze horas comecei a circular. Após ter sido reconhecido, fui interpelado por muitos dos convidados que queriam saber o que era realmente essa escola de voo humano.
Respondia, educadamente, que se tratava “somente” de uma escola de voo humano, nada mais, e que, se queriam saber algo mais, bastava somente ir à Virginia para visitar o centro de treinamento.
Depois de circular por uma hora e meia respondendo com monossílabos a pessoas que já estavam bastante alegres pelas bebidas, consegui conversar alguns minutos com os donos de duas redes de televisão da cidade e acordamos que poderíamos nos encontrar num dos próximos dias.
Nada de relevante ocorreu no evento; porém, a existência de uma escola que pretendia ensinar o homem a voar sem nenhum equipamento auxiliar agora era de domínio público.
No meu entender o verdadeiro objetivo foi alcançado: estar oficialmente na berlinda.