Telefonei para a minha filha dando-lhe a boa notícia. O seu pai era, agora e para todo o sempre, um Prêmio Nobel. Ela não parava de gritar e rir no televisor, não conseguia dizer duas palavras coerentes, afora, é claro, “o meu papi”, termo que nunca apreciei, mas que, naquela ocasião, achei oportuno e simpático. Finalmente, depois dela ficar rouca e não poder mais falar, consegui dizer-lhe o que queria.

– Escuta, minha filha, escuta o que vou te dizer…

– Fala meu papi Nobel; fala, fala, fala…

– Poderei fazê-lo se você parar de dizer bobagens…

– Sim pai, pode falar. Filha na escuta.

– Você não tem jeito mesmo. Escuta então. Você será a minha acompanhante na cerimônia de entrega do prêmio; entendeu o que eu disse?

– Sim pai, entendi. Por que não poderia ser a mamãe?

– Porque nós nos divorciamos, e não seria de bom tom receber o prêmio abraçado com a ex-mulher. Seria extremamente ridículo. Ao contrário, ir com a filha, seria bastante elegante e simpático. Concorda?

– Concordo sim, papi; o que tenho que fazer?

– Não se preocupe, o cerimonial deles vai dizer para nós o que fazer e o que vestir.

– O que vestir?

– Sim deve ser algo apropriado; não esqueça que na cerimônia participarão o Rei e a Rainha da Suécia…

– O casal real…? Oh…., meu Deus, o que tenho que vestir?

– Não se preocupe, iremos a Estocolmo uma semana antes, assim nós poderemos nos aprontar convenientemente. A propósito, você pode convidar, se quiser, as tuas amigas…

– Pode ir também a ruiva?

– Que ruiva seria esta?

– Ora, é a mesma ruiva que você esquadrinhava, sempre que ela não olhava para ti.

– Para de falar bobagens. Se você quiser, e ela concordar, pode convidar também a sua mãe, na condição de que, após os cumprimentos de praxe, não tente ficar perto de mim. Tenho um cerimonial próprio a cumprir e, por ser divorciado, a ex esposa não está no protocolo. Ficou claro?

– Acho que ela não vai aceitar.

– Não posso fazer nada. Não sou eu quem dita as regras. Convida ela, nas condições que já te disse, se as aceitar, terei grande prazer se ela fosse.

– Posso dizer isso para ela?

– Pode sim, mas não crie absurdidades na sua cabeça.

A cerimônia transcorreu sem imprevistos. Foi bastante movimentada, mas bem agradável. O casal real se comportou como um… casal real. Todos os membros da Academia foram muitos simpáticos comigo e com todos os demais laureados. Um destes me confidenciou que a minha filha foi muito apreciada pelo seu contagiante bom humor e esfuziante beleza. Fiquei meio constrangido, não soube como responder; mas senti um alívio, enfim, tudo acabou terminando da melhor maneira possível.

Depois da cerimônia passei quase duas semanas na minha casa em Dwunska Wola. As árvores, plantadas mais de dois anos atrás, tinham crescido. Agora a casa me aparecia completa; na maior parte do tempo a tinha visto em construção, ou com obras ao redor. Dava vontade de lá ficar para sempre, mas, ainda não podia fazer isso. Depois de passar um dia inteiro respondendo a todas as mensagens de felicitações que tinha recebido, passei três dias preparando a festa que dei, na própria casa, a todos os meus ex-colegas da universidade, liderados pelo meu amigo Günter.

Antes da festa, fui convidar pessoalmente o Reitor e agradecer o empenho que ele e os seus colegas tiveram na consecução desse prêmio.

Sugeri, se estivessem interessados, que podia fazer uma visita de agradecimento a todas essas universidades e, se os reitores quisessem, poderia dar uma palestra sobre qualquer tema que cada Reitor desejasse.

– Esta, meu caro senhor prêmio Nobel, é uma atitude nobre do seu lado. Tenho certeza de que todos gostariam que você desse uma palestra no auditório deles. Vai ser um acontecimento social e tanto.

– Não seria sociocultural?

– Sim seria; a parte cultural seria sua, a parte social deles todos. Uma coisa que me veio em mente agora… para a nossa universidade você deveria dar duas palestras…

– Até três, se desejar.

Assim passei mais de um mês dando palestras em quase todas as universidades da Polônia. Talvez tenha cansado, mas, essa maratona toda me tirou da depressão que me tinha acometido em Everet, bem mais que o prêmio Nobel em si.

***

– Bem-vindo a São Francisco, professor Cristiansen, bem-vindo.

Quem era, que assim me cumprimentava, logo na saída do espaço-porto? Entrevia uma multidão de homens e mulheres que acenavam para mim e articulavam frases desconexas e, agora o reconheci, entre eles encontrava-se Willie, o presidente do INA. Ele me pegou pelo braço e entre sorrisos e curtas frases, me levou até o transfer dele.

– Willie, que bom revê-lo, mas, que diabo foi aquilo?

– Ora Cristian, não é todo dia que chega a São Francisco um Prêmio Nobel.

– Isso é já assunto velho, de mais de dois meses atrás….

– Para São Francisco é a novidade do dia. Para podermos passar entre eles com uma certa rapidez tive que prometer que você daria uma entrevista coletiva amanhã à tarde, será possível?

– Se você prometeu, assim farei. Não sei, porém o que deveria dizer.

– É a coisa mais fácil do mundo: somente responder tranquilamente as perguntas deles. Se possível, de forma jocosa.

– Onde acontecerá esta entrevista coletiva?

– No auditório do INA. Nunca o utilizamos para banalidades como essa, perdoe-me Cristian, não quero depreciar a tua entrevista, mas podes facilmente imaginar que neste auditório nunca chegaram bandos de jornalistas.

– Entendo, não se preocupe, vou satisfazer as curiosidades deles.

– Obrigado por isso. Depois, ou amanhã mesmo, te explicarei o que pretendo fazer. Convocar os jornalistas foi o primeiro passo…

– Foi você que juntou aquele bando?

– Sim, fui eu mesmo, mais tarde te explicarei o motivo.

– Deve ser um bom motivo para te emparelhar com os caçadores de novidades do momento.

– De fato, acho mesmo que é um bom motivo, faça a entrevista, depois falaremos disso.

Dei a entrevista aos jornalistas que me assediaram no espaço- porto. Como bem disse o Willie, tudo decorreu tranquilamente, bastava somente responder, se possível jocosamente, às perguntas deles. Neste aspecto devo ter conseguido bons resultados, visto que no noticiário da noite, fui chamado de “um prêmio Nobel alegre e descontraído”. Willie deve ter gostado desse comentário.

– Muito bem, Willie, enquanto aguardamos a chegadas dos pratos que encomendamos, que tal me explicar essa tua nova propensão em adular a mídia?

– Nestes meses todos, fui remoendo na minha cabeça tudo o que você me disse sobre o teu objetivo, que conseguirá após de vinte anos de trabalho…

– Já passaram dois, ou melhor, dois e meio. Restariam ainda dezessete e meio. Presumo, agora, que serão necessários bem mais que os vinte inicialmente previstos.

– Imagino que sim, pelo volume das informações que deverá consultar. O que acharia se eu te apresentasse um plano que encurtaria tremendamente esse seu prazo?

– A princípio, agradeceria muito, muitíssimo. Logo a seguir viria a pergunta crucial: como pretende conseguir este milagre?

– Não é milagre nenhum, somente seria o fato de eu colaborar mais intensamente na conclusão do teu trabalho. Evidentemente, se concordar com isso.

– Você, Willie, já foi de inestimável ajuda até agora. Não sei como poderia fazer mais do que já fez. Eu já te devo muito; quer aumentar a minha dívida de gratidão contigo?

– Cristian, você sempre esquece que, nós também, te devemos muito.

– Vamos parar esta troca de cumprimentos, me diga como seria o seu plano.

— Eu não tenho plano nenhum, porém além da disposição de te ajudar, posso colocar à tua disposição todos os recursos técnicos e financeiros do INA. Eu diria mais, porém, estou vendo que os nossos pratos estão chegando e, de qualquer maneira, não seria oportuno discutir isso num almoço. O que acha marcarmos uma reunião no meu escritório, digamos, às nove horas de manhã?

– De acordo, estarei lá às nove horas, come vocês dizem irracionalmente, às nove horas antemeridianas.

– É irracional, sim, mas nem tanto; simplificamos dizendo: 9 AM.

– E, já que estão dispostos a simplificar, por que não “nove”, e nada mais?

– Não saberia dizer; mas… que tal degustar estes nossos robalos?

***

– Bom dia Cristian, acomode-se bem, acho que a conversa será longa, suponho que levará o dia todo, almoçaremos algo simples, aqui mesmo no escritório. Não se incomoda com isso?

– Nem um pouco, a vontade de trabalhar, agora num prazo mais curto, me empolga muitíssimo.

– Ótimo. Hum…. Sei muito bem o que deveria dizer, mas não sei como começar.

– Sugiro, se me permite, começar pelo começo. Parece redundância, mas não é. Eu faço muito isso, e quase sempre com bons resultados.

– Vamos começar pelo começo, então. Vejamos… todas as ações do nosso Edward Collins, fazendo abstração do que ele dizia ou não dizia, resultaram no que, em relação ao devenir do gênero humano?

– Bela pergunta, e de grande empenho, se consideramos, ainda, que esse seria somente o começo. Bem, lá vai uma tentativa de resposta. A seleção, para poder frequentar a Escola, excluía os, digamos assim, sujeitos de mau-caráter. De uma certa forma, começou-se a inserir, na mentalidade média do ser humano que, ser “pessoa de bem” não seria somente um imperativo ético, suficiente de per si, mas também uma vantagem material: deslocar-se no espaço se assim o desejar.

– Nada melhor do que dialogar com um Prêmio Nobel.

– Para com isso, eu sou o mesmo professor escandinavo de meses atrás. O prêmio não me deu uma grama a mais de sabedoria.

– Entendo e concordo. Vamos adiante. A tua resposta é correta. O que viria, após, digamos, ter-se milhares e milhares de pessoas se deslocando no espaço no mundo todo?

– De início a consolidação do princípio: homem bom, voa, homem mau, não, fica confinado à terra. Os bons vão para o espaço, os ruins ficam grudados ao solo. Abre-se, então, uma solução de continuidade, nas perspectivas do progresso humano: os mocinhos de um lado, e os vilões de outro. Estão criadas, assim, as condições para o nascimento de duas raças diversas. Exagerarei um pouco? O que você acha?

– Não acho exagerado, Cristian. Se tivesse continuado o crescimento da criminalidade, no ritmo de como estava crescendo nos tempos do Collins, a tua hipótese poder-se-ia concretizar. Justamente, foi o fenômeno, que a Escola provocou. Em poucas décadas, os atrativos que a criminalidade proporciona perderam relevância.

– A prova disso é que, cinquenta anos após Collins, os detentos nas prisões, já eram a metade, isso pelo menos nos Estados Unidos, no resto do mundo não sei ao certo, mas, deve ter ocorrido uma redução também notável. Muitas cadeias famosas, como Sing Sing em New York e Alcatraz aqui, se tornaram shopping centers ou hotéis de veraneio.

Cristian ficou pensando um pouco, depois perguntou:

-Tem alguma ideia de como se processou este fenômeno? Que a criminalidade se reduziu, isto nós já o sabemos, mas como? Quais foram os mecanismos efetivos que provocaram esta inversão da rota que a humanidade trilhava havia séculos, melhor, milênios?

– No meu entender, foram diversos os mecanismos. Cito um que deve ter tido um efeito inicialmente pouco perceptível, mas que, ao longo do tempo se demonstrou poderoso. As crianças….

– …as crianças? No que as crianças poderiam influenciar?

– Não é bem isso. É a noção da possibilidade de deslocar-se no espaço que incidiu sobre as crianças, mesmo, e principalmente até, sobre as mais jovens, as de quatro ou cinco anos. Pode-se supor que, com milhares de nautas circulando no ar, uma criança, qualquer criança, quando fica vendo uma, ou sabendo que existem pessoas que “voam”, no entendimento delas, logo manifestam às próprias mães o desejo de também voar. O que, necessariamente, esta mãe responderia?

– Entendi. Diria que deveria se comportar bem… assim, um dia, poderia voar. Deriva disso que este forte desejo de “voar” coloca a criança, sem traumas e inevitavelmente, na trilha do bem.

– Então, meu caro Cristian, este é o mecanismo que a Escola propiciou à humanidade, para, como se dizia antigamente, sair da senda do crime.

– Posso, daqui em frente continuar?

– Fique à vontade.

– Quando você disse “o mecanismo que a Escola propiciou”, pode-se entender, também, como: “o mecanismo daqueles que deram ao Collins os poderes para isso.” Pode-se concluir assim, não acha?

– Sim, mais que “pode-se”, diria, “deve-se”. Com esta tua colocação você facilitou muito a exposição de uma minha ideia.

– E qual seria essa tua ideia, Willie?

– Cheguei a conclusão, depois de pensar muito sobre isso, que a primeira etapa do programa do Collins foi concluída.

– A primeira etapa? O que seria?

– Seria de reduzir a criminalidade a somente poucos elementos, somente aqueles que são patologicamente levados a isso. Antigamente a carência de meios para permitir a todos uma vida satisfatória e mais, saber que existiam pessoas que viviam muito bem, materialmente falando, tornava-se em mola propulsora para a satisfação de desejos dificilmente alcançáveis de modo honesto. Esta, no meu entender, foi uma das causas principais que alimentaram a criminalidade. Isto ocorria com pessoas que, geralmente, não eram criminosos patológicos. A maior quantidade de criminosos era formada, nos tempos do Collins, por “criminosos ocasionais”, isto é, por criminosos criados pelas circunstâncias da época e lugar.

– Então – interveio Cristian — agora que temos somente poucas dezenas de milhares de criminosos patológicos em tratamento em instituições apropriadas e o resto da humanidade vive razoavelmente bem e em paz com o seu semelhante, podemos considerar concluída a primeira etapa do plano do Collins?

– Sim, meu caro Cristian, acho que é isso. Realmente estou perplexo. Como presidente do INA, herdeiro, portanto, dos planos do Collins, não sei se devo continuar com o “status quo”, ou fazer um passo ousado para a frente. Para frente sim …, mas, para onde?

– Calma Willie, estou meio perdido. Vejamos, se eu entendi direito. Você disse que, talvez, terminou a primeira etapa do plano do Collins que, como já concordamos, pode ser o plano de “quem” deu os poderes ao Collins. É isso?

– É isso mesmo.

– Portanto… veja bem, estou somente divagando… você, isto é, o INA, continuador da política do Collins, deveria fazer esse tal de “passo ousado para a frente”, sem saber que raio de passo seria isso. Sem saber se o momento de considerar concluída a primeira etapa já chegou e, pior, sem saber qual seria a segunda etapa, se ela realmente existir.

– É isso, ou quase isso. Estou me atormentando com pensamentos do gênero há muitos meses, sem ninguém com quem trocar ideias. Por sorte minha, chegou um prêmio Nobel que está dividindo comigo as minhas perplexidades.

– …. e que, não por acaso, estaria tão perplexo com as tuas colocações, quanto você mesmo. Então, estamos ambos perplexos; na minha opinião, estar perplexo em dois é bem melhor que estar perplexo sozinho. O que acha de enfrentarmos este problema juntos?

– Te agradeceria muito, já me sinto um pouco aliviado. Agora não seria um bom momento de fazermos uma pausa, comer algo, e retornar a este problema mais bem dispostos?

– De acordo, já sinto um bom apetite, e, para mudar de assunto, eu deveria ir à BCC, para me desculpar de minha saída abrupta.

– Nem pense nisso. Vamos ver o que a minha secretaria preparou para nós.

– Vejo que ela imaginou que estamos sem nos alimentar há três dias. Aqui tem comida para meia dúzia de pessoas.

– Melhor assim. Vejo, porém, que foi parcimoniosa com as bebidas alcoólicas.

– Eu que digo, então: melhor assim.

***

– Muito bem Willie, agora, bem alimentado, me sinto em melhores condições para enfrentar o nosso problema. Posso dar uma sugestão que vai facilitar o nosso trabalho?

– Fique à vontade Cristian, qualquer sugestão que consiga nos ajudar, será sempre benvinda.

– Sugiro, é somente uma mera sugestão, de pararmos de falar do “plano do Collins” ou da “política da Escola”. Vamos direito ao ponto: o que querem que nos façamos, os “quem”?

– Acho que não entendi bem…

– Deveria. Repito mais claramente: os que deram ao Collins poderes e meios para fazer o que ele fez, tinham um propósito bem claro e que, aparentemente foi conseguido. Portanto, não devemos mais falar de Collins ou da Escola, mas, simplesmente, temos que aceitar a existência destes “eles”. Devem, forçosamente, existir esses “eles” e, admitindo francamente esta existência, ficará mais fácil analisar a situação.

– Concordo. Estes “eles” devem existir. E não serão um grupo de neurologistas, como o Collins, fraudulentamente, deu a entender quando proferiu a sua palestra em Harvard.

– Muito bem, já limpamos a área, agora podemos ir em frente. Comecemos: Concordamos que ouve uma intervenção?

– Concordamos.

– Concordamos que esta intervenção veio de entidades não do nosso planeta?

– Digamos que seria uma hipótese bastante plausível.

– Então continuamos com esta linha de raciocínio; se isso nos levar a algo implausível, retrocederemos. De acordo?

– Vá em frente.

– Concordamos, também, que a intervenção, pelos resultados, foi benéfica. Agora, vem a parte mais escabrosa, ou coisa que o valha. Se a intervenção, benéfica ocorreu, disso deriva que “eles” tinham conhecimento da nossa situação que, para justificar esta intervenção, não deve ter sido considerada boa.

– Diria mais, devem ter feito alguma extrapolação das tendências e julgado que, por exemplo, em cinquenta anos, iriamos de encontro a uma catástrofe….

– …ou ao início de um processo regressivo da civilização.

– Corretíssimo. Deduzimos, disso tudo, diversos aspectos, todos interessantes e que listarei; me interrompa, quando não concordar:

* A princípio, seriam uma espécie bem avançada, em relação a nós;

* Indo aos detalhes, sempre em relação a nós, seriam eticamente muito mais avançados;

* Possuem capacidade poderosa de análise situacional;

* Nas específicas áreas científicas e tecnológicas devem estar milênios à nossa frente;

* Pelo interesse que demonstraram, em relação a uma raça muito perturbada, que não encontrou em si mesma um razoável equilíbrio, diria que eles são caridosos e altruístas; as mesmas qualidades das mensagens da Escola.

– Pode continuar, parece que você acendeu uma luz e tudo se tornou muito claro. Agora somente falta saber se, este bendito ciclo terminou, este que estamos vivenciando e, se existir um segundo ciclo, o que dever-se-ia fazer para entrarmos nele. Sempre se, realmente, existir um primeiro e um segundo ciclo.

– Existem boas probabilidades que estes ciclos existam, e se as minhas deduções estiveram corretas, é mais provável ainda que, por serem expertos em análise situacional, eles contam que, em dado momento, aparecerá algo ou alguém que dará início a um segundo ciclo.

– Admitindo tudo isso, o que me parece bastante plausível, e supondo que o presidente do INA, herdeiro do programa “deles”, deva ser o desencadeador deste fantasmagórico segundo ciclo, resulta, simplesmente, que este presidente aqui não tem a mais pálida ideia do que deveria fazer.

– Eu, se fosse você, não me preocuparia nem um pouco. “Eles” são os expertos em análise situacional. E “eles” tem conhecimento de que, iniciado o primeiro ciclo por Edward Collins, o segundo poderá ser desencadeado por um presidente do INA, não necessariamente por você mesmo.

– Espero sinceramente que as tuas deduções estejam corretas; e que um meu sucessor resolva a questão. Eu realmente me sinto perdido, neste cipoal de deduções e hipóteses.

– Não deveria se preocupar; a lógica da análise situacional diz que quando as circunstâncias se tornam favoráveis, o que tem que acontecer, acontecerá inevitavelmente. Não deve, em absoluto, preocupar-se, também porque não necessariamente será uma pessoa ou instituição que dará início a este eventual segundo ciclo. Poderá, também, derivar de algum fato marcante.

– Tudo o que você me disse, me tranquilizou bastante, o suficiente para voltar a mesa de refeição e degustar esses deliciosos pastéis de salmão. Acho que pedirei a minha secretaria para providenciar alguns fresquinhos, se ainda os tem. Cristian, o que você gostaria de comer?

– Obrigado, já comi o suficiente…, mas fique à vontade. Enquanto se deleita com os seus pasteizinhos, o que acha voltar a discutir sobre uma minha visita a BCC?

– Dois erros numa única frase, meu caro Cristian. Depois das tuas admiráveis deduções, você se perde em assuntos banais.

– Poder-me-ia explicar, por favor, onde me perdi?

– Primeiro erro: uma tua visita à BCC não seria objeto de discussão. Segundo erro: você não precisa de nenhuma autorização para ir. Satisfeito?

– De fato, ainda não me acostumei a todas as regalias e privilégios que me estão propiciando. É difícil acostumar-me.

– Você já se acostumou a ser tratado como um Prêmio Nobel?

– Na realidade, sim. Não é, porém, a mesma coisa. As regalias tuas e dos demais do INA nunca param. Todo dia tem uma novidade.

– E você acha que não as merece?

– Francamente, não saberia como responder. Deduzo, porém, pela análise da situação, na qual nos encontramos, que amanhã irei para a BCC, correto?

– Corretíssimo e, já que faz um bom tempo que não visito o nosso amigo Mortimer III ou IV, nunca me lembro destes números, quando são expressos em caracteres romanos. Em suma, irei também.

– É III. O IV é o seu filho Glenn, bom sujeito; terei prazer em revê-lo.

– Muito bem. Seattle, nos aguarde; amanhã estaremos contigo.

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