Depois de três dias, dormindo, comendo e sem fazer nada além de tomar sol no tombadilho do yacht do Willie, me senti revigorado; já me tinha retemperado da exaustão das frenéticas semanas de trabalho que culminaram com a prova irrefutável da existência “deles”. Quis, então, falar sobre isso com o Willie.

– Nada disso, Cristian, estamos de férias e no meio do mar, com sol e bebidas. Nada de conversas complicadas, somente conversas leves… que até a Betty possa entender.

– Para com isso, Willie – interveio Betty, também se torrando ao sol da baixa Califórnia – caso contrário mostrarei ao Cristiana tua tese de doutorado e a minha…vai querer isso?

– Pode mostrar – redarguiu o Willie – depois, explica para o Cristian porque parou nesse ponto…

– É fácil responder. É porque me apaixonei, como todas as tolas mocinhas da minha idade, por um simpático neurologista e, entre uma coisa e outra, me dediquei a promover a carreira dele. É isto mesmo Cristian, não se deixe enganar pelas conversas desse senhor.

– Vamos continuar esta conversa no jantar dessa noite, será aqui mesmo, a lua cheia iluminará e, espero, tornará mais romântica a Betty. Veja isso, ela quer, de novo, mostrar e comparar os resultados dos nossos doutorados, coisa de muitos anos atrás. Diga-nos, Betty, quantas milhares de vezes eu te implorei para continuar a tua carreira, diga?

– Oh… somente umas poucas milhares de vezes, nada mais. E isto é o resultado. Casada com um renomado embusteiro que não me deixa ouvir as conversas inteligentes do nosso convidado. Sabe, Willie, que isso pode ser considerado como um típico exemplo de crueldade mental?

– Muito bem, doutora Elisabeth G. Pierce, você venceu; pode participar de todas as nossas conversações de trabalho; é bom saber que nós costumamos tratar de assuntos sérios às setes horas de manhã, está disposta a isso?

– Com certeza que sim. Cristian, ele, antes das oito, nunca se levanta.

– Desculpe, querida, me enganei. Seria às sete horas da tarde. Você poderia participar, ou teria que se vestir para um jantar ou um concerto?

– Se é para assistir a uma conversação com o Cristian, pode contar comigo sempre.

– Muito bem Betty, ouça, então, o que vou dizer ao Cristian; como disse, estamos no mar, tranquilos e relaxados, … nada de conversas complicadas. Me diga, Cristian, te lembras de quando ingressaste no meu clube?

– Como poderia esquecer? Uma quantidade enorme de pessoas me aplaudindo, sem eu ter dito uma única palavra.

– Veja Betty, para tentar arrancar o Cristian do estafante trabalho dele, o obriguei a entrar no nosso clube; ele gosta de nadar e de jogar tênis, os dois esportes mais prestigiados do nosso clube. Você sabe que para ser admitido, um candidato deve ser apresentado por três sócios e, depois de ter o seu “curriculum vitae” exposto no quadro de avisos por um mês, deve ter a aprovação de dois terços dos sócios, mais um.

Bem, quando eu, como presidente do INA, apresentei um prêmio Nobel, não se precisou de mais nada. Foi marcado um dia para a entrada oficial no clube e, naquele dia, centenas de membros vieram para vê-lo e aplaudi-lo. Se lembra disso, Cristian?

– Lembro-me muito bem, centenas de desconhecidos, aplaudindo outro desconhecido. Como diria meu tio Estevan, uma situação bastante kafkiana.

– Escuta mais, Betty. Naquele dia ele, o nosso Cristian aqui, tinha a unanimidade no consenso à presença dele no clube; sabe quantos, agora, não o querem ver mais rodando por lá?

– Oh… meu Deus, Willie… o que aconteceu de tão grave para causar este fato tão desagradável?

– Aconteceu que ele começou a jogar tênis, bastante mal, assim me disseram, e muitos, muitíssimos, quiseram jogar tênis com ele e, vencendo-o, poderiam se gabar de ter ganho de um “prêmio Nobel”. Ridículo sim, mas foi isso mesmo.

– Não sabia que tinham pessoas assim no nosso clube.

– Tinha e tem, mas escuta mais, Betty. Com o passar das semanas ficava sempre mais difícil ganhar do Cristian, e…. agora, é dificilíssimo ganhar dele. Qual foi o resultado? Todos aqueles que se gabaram de ganhar dele iam sendo instados pelos amigos a repetir a façanha, e, se o faziam, perdiam. Derivou disso que, agora, existem dezenas de sócios que gostariam que o Cristian não tivesse ingressado no clube.

– Que mesquinharia. Me diga, Willie, a ala feminina do clube, como está considerando este episódio? Isso se, por acaso, se interessaram por essa futilidade.

– Pode ter certeza Betty, que as mulheres do nosso clube, quase todas, se interessam por qualquer futilidade. Esta futilidade em particular, para muitas delas, não era o que parecia; o que estava em jogo era o próprio “status” do marido.

Algumas, a maioria felizmente, acharam boa coisa o fato de o marido ter sido “redimensionado”; esta postura foi adotada também por muitos “amigos” que costumeiramente iam sendo derrotados. Enfim, uma confusão total, como não se tinha visto há muitos anos no clube.

Eu, nessa altura da conversação, tive que intervir. – Willie, eu não sabia de nada disso, por que não me alertou? Poderia ter parado de jogar.

– E porque, Cristian, você teria que parar de jogar tênis? Não vejo razão alguma. Se alguns deles se incomodavam por ganhar ou perder, o problema é deles, somente deles.

– Concordo com você, sempre achei que ganhar ou perder não faz muito sentido, ou, talvez, se fizer algum sentido, é pequeno, ínfimo mesmo.

Agora Cristian, entre nós, porque escondeu que, além de todos seus demais predicados, és também um grande mestre de tênis?

– Não exagere, Willie, não sou nem um pequeno mestre em tênis. Imagine um “grande mestre.” Pare com isso. Se continuar, a Betty pode acreditar.

– Não paro, não. Me diga, nas últimas quatro semanas, quantos jogos de tênis você perdeu?

– Deixa eu pensar um pouco…, nas últimas quatro semanas, você disse? Sim, devo ter perdido dois ou três jogos… acho.

Willie levantou-se, de um salto, da sua espreguiçadeira, e gesticulando e com voz alta e irônica, gritava, entusiasmado:

– Está vendo, Betty? Está vendo? Temos um grande mentiroso a bordo. Nada menos que o prêmio Nobel dos mentirosos. Sabe quantos jogos perdeu nestas últimas quatro semanas? Sabe quantos? Você quer saber? Nenhum! Não perdeu um jogo sequer.

Mais calmo, mas ainda de pé, brandindo o seu copo de Pernod vazio a mó de espada, me interpelou:

– Confessa…. Confessa Cristian, confessa que mentiu.

– Sim, acho que, talvez, menti. Faz tempo que não perco um jogo, somente não sei se foi há três ou cinco semanas. Que diabo, Willie, eu jogo por pura diversão, não faço estatísticas…

– Eu sei, Cristian. Tudo isto é brincadeira minha. É para a Betty, doutora não sei do que, saber que também os homens sérios e responsáveis, que nós dois somos, podem brincar.

– Agora sou eu – interveio Betty – que quer saber do Cristian porque, jogando tão bem tênis, não disse isso para nós.

– O que é isso Betty? Teria algum sentido eu, alguns meses atrás, dizer para você e o Willie: “Olha aí, gente, eu jogo muito bem tênis”. Percebem o ridículo dessa frase, se a tivesse dito meses atrás?

– Acho que você tem razão – concluiu Betty – mas, me diga, como conseguiu alcançar tanta habilidade? Começou desde jovem, imagino.

– Sim, comecei desde jovem. Para compensar as longas horas de estudo, sempre sentado e imóvel, resolvi dedicar, todo dia, algum tempo a esses dois esportes, natação e tênis.

– Não me diga que é algum tipo de campeão, também, na natação?

– Nada disso. Nado somente de quinze a vinte minutos, antes de jogar tênis, somente para ter os músculos bem soltos na hora de jogar.

– Então este é o segredo que te permite vencer quase sempre?

– Bem… na realidade este é somente um, existem outros…

– E poderia confidenciá-los para nós? Eu juro que não os direi para ninguém. Faça jurar isso também o Willie, é bom se precaver.

– Eu também juro, Cristian, conte os teus segredos de jogador.

– Contarei… mas somente mais um, tem diversos outros, que poderei contar em outra ocasião, hoje falarei somente de mais um desses segredos; na realidade não são segredos no sentido literal da palavra, são somente técnicas que, se persistentemente aplicadas, aumentam as suas probabilidades de vencer, e já concordamos que “vencer” não tem significado real algum.

Contei, assim, a estória toda, incluindo os meus ensinamentos ao meu amigo Günter; ele queria, desesperadamente, aprender a “vencer” no jogo de tênis, eu lhe ensinei a esquecer-se dessa mania de querer vencer, mas de concentrar-se a não deixar, a maldita bola, ficar rolando no seu campo.

Voltei ao meu trabalho, já tinha alinhavadas ambas as histórias: a do progresso do desenvolvimento do deslocamento no espaço, em relação ao comportamento dos homens, e a história da jornada do Edward Collins, que era o meu objetivo real.

Em relação a influência da Escola, todos constataram que, paulatinamente, não somente a criminalidade pura e simples declinou, mas — fato que todos reconhecem mais relevante — foi que o relacionamento entre as pessoas se tornou mais colaborativo, em total contraste com o enfoque quase que completamente competitivo de até dois séculos atrás. Falta, ainda, muito para chegarmos ao “ama ao teu próximo como a ti mesmo”, mas estamos no caminho certo.

Falei disso tudo ao Willie, duas semanas depois do belo passeio que fizemos no golfo da Califórnia.

– Aparentemente é estranho – concluiu o Willie – que esta mudança de rota tão drástica foi causada por relativamente poucos nautas. Mesmo agora, duzentos anos depois e com um preço inferior a quarta parte do quanto se cobrava no início, eles não chegam nem a uma milésima parte da população mundial.

– Sobre isso ouvi, de um meu colega da universidade em Lódz, que a humanidade se assemelha a uma destilação fracionada, como a do carvão ou do petróleo. No início do processo, logo se separam os derivados mais leves e, continuando, os demais, progressivamente menos leves.

– Interessante a comparação, porém, esta não considera todos aqueles, e são muitos, que não querem ser destilados; tal como eu e você, por exemplo. Penso que esta comparação somente é válida no aspecto que os componentes mais leves se desprendem. Pode-se entender que as pessoas de maior valor, ou com alguma qualidade superior, “destilaram-se” e foram, literalmente, para o espaço. Como fizeram os nossos colonos na Lua e em Marte, sem contar o promissor satélite Europa que, nos próximos anos poderá se tornar a nova fronteira.

Neste ponto a nossa conversa parou. Ambos, presumia, estávamos pensando na missão do Sirio I. Foram bem além, muito além disso tudo. Para mudar o rumo da conversa, voltei a discutir o meu trabalho.

– Veja bem Willie, graças a tua inestimável ajuda, o meu programa de vinte anos, reduziu-se a somente cinco ou seis, dependendo exclusivamente da minha capacidade de sintetizar toda a documentação coletada. Como já sabe, visitei todos os lugares por onde o Collins passou, alguns não existem mais, como o prédio da Quinta Avenida que, junto com outros também demolidos, agora é o local do estonteante conjunto denominado a “Cascata dos Cristais”.

Outros, como o edifício do Senado, continuam praticamente iguais de como eram no tempo do Collins. Estive, até, em Lawrencburg. Ali, nada ficou do tempo dele; como poderia? Lá ele ficou somente um dia. Vi o obelisco que, provavelmente, vocês colocaram no local aonde supostamente chegou. Não se sabe, ainda, de onde.

– Sim, esse obelisco foi posto pelo Centro de Treinamento da Virginia, na oportunidade do primeiro centenário da “epopeia de Washington”.

– Visitei também e rapidamente, antes de vir para os Estados Unidos, os centros de treinamento de Moscou e de Leipzig, que foram os primeiros instalados na Europa, ainda na época do Collins. Não tenho nenhuma intenção de ver o de Pequim, onde não deve existir nem sombra da passagem dele. O que me intriga é de não poder saber para onde ele foi depois de Tóquio, com a sua namorada — presumo eu — a nauta dos cabelos vermelhos. Este seria o último ato, ainda desconhecido, de um drama que, para mim, não tem mais mistérios.

– Meu caro amigo Cristian Cristiansen, meu predileto Prêmio Nobel da Literatura, acho que posso te ajudar a satisfazer essa tua curiosidade. Posso te dizer para onde ele foi, e onde viveu, feliz e ignorado por todos, por muitos e muitos anos. Ir lá seria somente uma peregrinação sentimental, nada tem lá que possa lembrar a passagem do Edward Collins e da sua companheira.

– Oh, Willie… somente agora me diz isso? Esse fato me azucrinou o tempo todo. Você sabe realmente onde ele se escondeu? E mais, como ficou sabendo disso?

– Eu acho este fato irrelevante… talvez me engane. Mas o desaparecimento dele, não esqueça, junto com a sua bela companheira, parece-me como o epilogo de uma epopeia, seria o descanso do herói.

– Entendo isso. Tenho, ainda, fundadas dúvidas. Mas, diga-me, como ficou sabendo disso?

– Existem muitos segredinhos que passam de presidente para presidente, aqui no INA. E este é um deles. Existe uma carta, escrita do próprio punho do primeiro presidente do INA, o sucessor do Edward Collins. No envelope, lacrado, estava escrito: “Para o Presidente do INA – Abrir somente em 2.122”. Assim foi feito.

A carta era longa, e entre as diversas informações, dizia onde o Collins se refugiou, depois das intensas atividades que você, mais que ninguém, agora conhece bem. É uma ilhota, uma das milhares que existem no arquipélago das Marianas. Nessa ilha encontravam-se somente algumas famílias de pescadores, que, quando não pescavam, recolhiam cocos e produziam Copra, produtos que, duas vezes por ano, um comerciante recolhia, pagando com as usuais bugigangas. Fim da história.

– Fim da história coisíssima nenhuma. Primeira pergunta, por que cargas d’água você não me disse isso? Você sabia muito bem que este desaparecimento do Collins em Tóquio, me incomodava sobremaneira…

– Respondo a esta primeira pergunta, depois posso responder a outras que queira fazer. As informações contidas na carta eram e são privativas e exclusivas dos presidentes do INA. Não podemos transmitir nenhuma informação nela contida. Por ter relevado algo da carta, fiz uma indiscrição gravíssima, pela qual, não sei como, deveria me penitenciar.

– Puxa, Willie… me desculpe, sim? Me afobei, nem tinha percebido que isso tudo que você disse era confidencial. Eu sou o culpado dessa tua indiscrição. Peço mil desculpas… que tonto que fui.

– Para com isso, Cristian. A indiscrição foi minha e, a fiz conscientemente. Não esqueça que você vai escrever a verdadeira história do Edward Collins e, de consequência, pode e deve divulgar isso. Esta informação realmente é insignificante, perto da demonstração que você fez, sozinho, da existência “deles”; portanto, pare de se desculpar.

– Entendo o teu ponto de vista. Isso me tranquiliza bastante. Então, não preciso mais me preocupar com esse tal de desaparecimento, posso voltar para casa e, finalmente, redigir essas minhas Histórias.

– Nada disso. Recomendo que você vá para essa ilha e ficasse lá, pelo menos por duas semanas… para sentir o que o Collins sentiu. Todo o material que você coletou, nós o enviaremos, em seu nome, para a Universidade de Lódz. Podemos fazer isso?

– Certamente que sim, avisarei a Universidade disso. Assim, livre e solto, poderei ir nessa ilhota… nas Marianas você disse?

– Sim, nas Marianas, mas não esqueça: eu te darei o caminho certo que terá que fazer. Com muita discrição, você pode conversar com um dos pescadores…

– Claro que conversarei com os pescadores… mas porque, esse um, que citou, em especial?

– É que ele é um homem nosso, ele é do INA, tem sempre alguém do INA nessa ilha.

– Mais essa…, como já disse muitas vezes, vocês do INA são sempre surpreendentes…

– Peço que fale com ele quando estiver bem afastado dos demais pescadores, nenhum deles sabe que ele é um dos nossos.

– Que diabo, Willie, como pode passar desapercebido um homem do INA, junto aos nativos?

– É fácil, nós escolhemos um bom neurologista…

– O quê? Esse… esse… pescador é um neurologista? Mas como…

– Calma Cristian, deixa eu explicar esta estória toda. Escolhemos um bom neurologista entre os tantos que existem nas redondezas… Um indonésio ou um malaio… esse que vai conhecer é um malaio. Ele deve ter servido no INA, pelo menos dez anos e ter certos predicados… A mais, escolhido por essa missão, que durará entre seis e sete anos… ele poderá retornar aos quadros do INA numa alta posição, como compensação de ter passados anos… na praia e no sol… Nada mal, como emprego, penso eu.

Tem mais, antes de ir para essa ilha específica, ele deve ficar, por cerca de dois anos, perambulando nas ilhas vizinhas, assim ele poderá passar por uma pessoa de lá mesmo… terá histórias reais para contar. Enfim, você entendeu o espírito da coisa.

– Isso eu compreendi. O que ainda não entendo é para que tudo isso. Qual seria o objetivo?

– A dizer a verdade, eu não sei bem. Quando assumi a presidência, o meu antecessor me repassou, entre as mil responsabilidades, também essa, de dar continuidade a vigília nessa ilha.

– Vigília? Que vigília? Estão esperando o quê?

– Não sei, Cristian, e nem quero saber. Somente sei de boatos… simples boatos, passados de presidente para presidente que o real desaparecimento do Collins na realidade ocorreu nessa ilha, uns cinquenta anos depois, estimo eu.

– Agora entendi. Irei lá; é uma ótima sugestão. Falarei reservadamente com esse malaio e.…, espera aí, como faço para reconhecê-lo? O que tenho que fazer, para contatá-lo?

– Não tem que fazer nada, ele te contatará, a senha é simples: o meu nome, se ainda se lembrar de mim, depois de sair de São Francisco.

– Como poderia esquecer-te? Depois de todas as regalias e facilitações que me propiciaste? Esquecer-te? Você, Willie, encurtou o meu programa em quase quinze anos. Quinze anos. Como poderia esquecer? Você e a Betty foram…

– Pare com isso. Vá para a ilha e depois para casa. Quanto tempo vai demorar para passar tudo a limpo e entregar os textos para a editora?

– Penso que em um ano, ou um pouco mais, terei tudo pronto.

– Tanto assim? Estou ansioso para ver tudo publicado como um livro clássico, em papel. Acordamos que, na capa, além do título, constará exclusivamente o teu nome. Sugiro que, em algum lugar, seria oportuno informar que o INA, a BCC e a Universidade de Harvard, colaboraram colocando os próprios arquivos a disposição do autor. Pode citar, se quiser, também os Centros de Treinamento da Virginia e da Califórnia.

– Sugestão anotada. A CIA, a de Langley, também, me forneceu informações valiosas, mas, é de se esperar, que não queiram que se saiba disso, assim suponho.

– E o Senado, não te forneceram dados importantes?

– Sim, mas, esqueci, depois de ter vasculhados os arquivos deles, de obter aprovação formal para mencionar essa gentileza deles… que pena.

– Não te preocupes, eu consigo a aprovação.

– Bem, meu caro Willie, tratamos de tudo, mais uma vez agradeço a ti e a Betty… será que vocês dois não querem passar uma temporada na minha casa em Dwunska Wola? Seria estupendo. Pensa nisso.

– Vamos pensar, sem dúvida que a Betty gostaria. Eu também, é claro, somente que não me seria muito fácil me ausentar por demasiado tempo. Você sabe…

– Sim, sei. Bem, Willie, nos despedimos. Amanhã irei a Seattle para me despedir do Henry e da BCC toda, e depois… Ilhas Marianas.

Capítulo 32

Depois de três dias, dormindo, comendo e sem fazer nada além de tomar sol no tombadilho do yacht do Willie, me senti revigorado; já me tinha retemperado da exaustão das frenéticas semanas de trabalho que culminaram com a prova irrefutável da existência “deles”. Quis, então, falar sobre isso com o Willie.

– Nada disso, Cristian, estamos de férias e no meio do mar, com sol e bebidas. Nada de conversas complicadas, somente conversas leves… que até a Betty possa entender.

– Para com isso, Willie – interveio Betty, também se torrando ao sol da baixa Califórnia – caso contrário mostrarei ao Cristiana tua tese de doutorado e a minha…vai querer isso?

– Pode mostrar – redarguiu o Willie – depois, explica para o Cristian porque parou nesse ponto…

– É fácil responder. É porque me apaixonei, como todas as tolas mocinhas da minha idade, por um simpático neurologista e, entre uma coisa e outra, me dediquei a promover a carreira dele. É isto mesmo Cristian, não se deixe enganar pelas conversas desse senhor.

– Vamos continuar esta conversa no jantar dessa noite, será aqui mesmo, a lua cheia iluminará e, espero, tornará mais romântica a Betty. Veja isso, ela quer, de novo, mostrar e comparar os resultados dos nossos doutorados, coisa de muitos anos atrás. Diga-nos, Betty, quantas milhares de vezes eu te implorei para continuar a tua carreira, diga?

– Oh… somente umas poucas milhares de vezes, nada mais. E isto é o resultado. Casada com um renomado embusteiro que não me deixa ouvir as conversas inteligentes do nosso convidado. Sabe, Willie, que isso pode ser considerado como um típico exemplo de crueldade mental?

– Muito bem, doutora Elisabeth G. Pierce, você venceu; pode participar de todas as nossas conversações de trabalho; é bom saber que nós costumamos tratar de assuntos sérios às setes horas de manhã, está disposta a isso?

– Com certeza que sim. Cristian, ele, antes das oito, nunca se levanta.

– Desculpe, querida, me enganei. Seria às sete horas da tarde. Você poderia participar, ou teria que se vestir para um jantar ou um concerto?

– Se é para assistir a uma conversação com o Cristian, pode contar comigo sempre.

– Muito bem Betty, ouça, então, o que vou dizer ao Cristian; como disse, estamos no mar, tranquilos e relaxados, … nada de conversas complicadas. Me diga, Cristian, te lembras de quando ingressaste no meu clube?

– Como poderia esquecer? Uma quantidade enorme de pessoas me aplaudindo, sem eu ter dito uma única palavra.

– Veja Betty, para tentar arrancar o Cristian do estafante trabalho dele, o obriguei a entrar no nosso clube; ele gosta de nadar e de jogar tênis, os dois esportes mais prestigiados do nosso clube. Você sabe que para ser admitido, um candidato deve ser apresentado por três sócios e, depois de ter o seu “curriculum vitae” exposto no quadro de avisos por um mês, deve ter a aprovação de dois terços dos sócios, mais um.

Bem, quando eu, como presidente do INA, apresentei um prêmio Nobel, não se precisou de mais nada. Foi marcado um dia para a entrada oficial no clube e, naquele dia, centenas de membros vieram para vê-lo e aplaudi-lo. Se lembra disso, Cristian?

– Lembro-me muito bem, centenas de desconhecidos, aplaudindo outro desconhecido. Como diria meu tio Estevan, uma situação bastante kafkiana.

– Escuta mais, Betty. Naquele dia ele, o nosso Cristian aqui, tinha a unanimidade no consenso à presença dele no clube; sabe quantos, agora, não o querem ver mais rodando por lá?

– Oh… meu Deus, Willie… o que aconteceu de tão grave para causar este fato tão desagradável?

– Aconteceu que ele começou a jogar tênis, bastante mal, assim me disseram, e muitos, muitíssimos, quiseram jogar tênis com ele e, vencendo-o, poderiam se gabar de ter ganho de um “prêmio Nobel”. Ridículo sim, mas foi isso mesmo.

– Não sabia que tinham pessoas assim no nosso clube.

– Tinha e tem, mas escuta mais, Betty. Com o passar das semanas ficava sempre mais difícil ganhar do Cristian, e…. agora, é dificilíssimo ganhar dele. Qual foi o resultado? Todos aqueles que se gabaram de ganhar dele iam sendo instados pelos amigos a repetir a façanha, e, se o faziam, perdiam. Derivou disso que, agora, existem dezenas de sócios que gostariam que o Cristian não tivesse ingressado no clube.

– Que mesquinharia. Me diga, Willie, a ala feminina do clube, como está considerando este episódio? Isso se, por acaso, se interessaram por essa futilidade.

– Pode ter certeza Betty, que as mulheres do nosso clube, quase todas, se interessam por qualquer futilidade. Esta futilidade em particular, para muitas delas, não era o que parecia; o que estava em jogo era o próprio “status” do marido.

Algumas, a maioria felizmente, acharam boa coisa o fato de o marido ter sido “redimensionado”; esta postura foi adotada também por muitos “amigos” que costumeiramente iam sendo derrotados. Enfim, uma confusão total, como não se tinha visto há muitos anos no clube.

Eu, nessa altura da conversação, tive que intervir. – Willie, eu não sabia de nada disso, por que não me alertou? Poderia ter parado de jogar.

– E porque, Cristian, você teria que parar de jogar tênis? Não vejo razão alguma. Se alguns deles se incomodavam por ganhar ou perder, o problema é deles, somente deles.

– Concordo com você, sempre achei que ganhar ou perder não faz muito sentido, ou, talvez, se fizer algum sentido, é pequeno, ínfimo mesmo.

Agora Cristian, entre nós, porque escondeu que, além de todos seus demais predicados, és também um grande mestre de tênis?

– Não exagere, Willie, não sou nem um pequeno mestre em tênis. Imagine um “grande mestre.” Pare com isso. Se continuar, a Betty pode acreditar.

– Não paro, não. Me diga, nas últimas quatro semanas, quantos jogos de tênis você perdeu?

– Deixa eu pensar um pouco…, nas últimas quatro semanas, você disse? Sim, devo ter perdido dois ou três jogos… acho.

Willie levantou-se, de um salto, da sua espreguiçadeira, e gesticulando e com voz alta e irônica, gritava, entusiasmado:

– Está vendo, Betty? Está vendo? Temos um grande mentiroso a bordo. Nada menos que o prêmio Nobel dos mentirosos. Sabe quantos jogos perdeu nestas últimas quatro semanas? Sabe quantos? Você quer saber? Nenhum! Não perdeu um jogo sequer.

Mais calmo, mas ainda de pé, brandindo o seu copo de Pernod vazio a mó de espada, me interpelou:

– Confessa…. Confessa Cristian, confessa que mentiu.

– Sim, acho que, talvez, menti. Faz tempo que não perco um jogo, somente não sei se foi há três ou cinco semanas. Que diabo, Willie, eu jogo por pura diversão, não faço estatísticas…

– Eu sei, Cristian. Tudo isto é brincadeira minha. É para a Betty, doutora não sei do que, saber que também os homens sérios e responsáveis, que nós dois somos, podem brincar.

– Agora sou eu – interveio Betty – que quer saber do Cristian porque, jogando tão bem tênis, não disse isso para nós.

– O que é isso Betty? Teria algum sentido eu, alguns meses atrás, dizer para você e o Willie: “Olha aí, gente, eu jogo muito bem tênis”. Percebem o ridículo dessa frase, se a tivesse dito meses atrás?

– Acho que você tem razão – concluiu Betty – mas, me diga, como conseguiu alcançar tanta habilidade? Começou desde jovem, imagino.

– Sim, comecei desde jovem. Para compensar as longas horas de estudo, sempre sentado e imóvel, resolvi dedicar, todo dia, algum tempo a esses dois esportes, natação e tênis.

– Não me diga que é algum tipo de campeão, também, na natação?

– Nada disso. Nado somente de quinze a vinte minutos, antes de jogar tênis, somente para ter os músculos bem soltos na hora de jogar.

– Então este é o segredo que te permite vencer quase sempre?

– Bem… na realidade este é somente um, existem outros…

– E poderia confidenciá-los para nós? Eu juro que não os direi para ninguém. Faça jurar isso também o Willie, é bom se precaver.

– Eu também juro, Cristian, conte os teus segredos de jogador.

– Contarei… mas somente mais um, tem diversos outros, que poderei contar em outra ocasião, hoje falarei somente de mais um desses segredos; na realidade não são segredos no sentido literal da palavra, são somente técnicas que, se persistentemente aplicadas, aumentam as suas probabilidades de vencer, e já concordamos que “vencer” não tem significado real algum.

Contei, assim, a estória toda, incluindo os meus ensinamentos ao meu amigo Günter; ele queria, desesperadamente, aprender a “vencer” no jogo de tênis, eu lhe ensinei a esquecer-se dessa mania de querer vencer, mas de concentrar-se a não deixar, a maldita bola, ficar rolando no seu campo.

Voltei ao meu trabalho, já tinha alinhavadas ambas as histórias: a do progresso do desenvolvimento do deslocamento no espaço, em relação ao comportamento dos homens, e a história da jornada do Edward Collins, que era o meu objetivo real.

Em relação a influência da Escola, todos constataram que, paulatinamente, não somente a criminalidade pura e simples declinou, mas — fato que todos reconhecem mais relevante — foi que o relacionamento entre as pessoas se tornou mais colaborativo, em total contraste com o enfoque quase que completamente competitivo de até dois séculos atrás. Falta, ainda, muito para chegarmos ao “ama ao teu próximo como a ti mesmo”, mas estamos no caminho certo.

Falei disso tudo ao Willie, duas semanas depois do belo passeio que fizemos no golfo da Califórnia.

– Aparentemente é estranho – concluiu o Willie – que esta mudança de rota tão drástica foi causada por relativamente poucos nautas. Mesmo agora, duzentos anos depois e com um preço inferior a quarta parte do quanto se cobrava no início, eles não chegam nem a uma milésima parte da população mundial.

– Sobre isso ouvi, de um meu colega da universidade em Lódz, que a humanidade se assemelha a uma destilação fracionada, como a do carvão ou do petróleo. No início do processo, logo se separam os derivados mais leves e, continuando, os demais, progressivamente menos leves.

– Interessante a comparação, porém, esta não considera todos aqueles, e são muitos, que não querem ser destilados; tal como eu e você, por exemplo. Penso que esta comparação somente é válida no aspecto que os componentes mais leves se desprendem. Pode-se entender que as pessoas de maior valor, ou com alguma qualidade superior, “destilaram-se” e foram, literalmente, para o espaço. Como fizeram os nossos colonos na Lua e em Marte, sem contar o promissor satélite Europa que, nos próximos anos poderá se tornar a nova fronteira.

Neste ponto a nossa conversa parou. Ambos, presumia, estávamos pensando na missão do Sirio I. Foram bem além, muito além disso tudo. Para mudar o rumo da conversa, voltei a discutir o meu trabalho.

– Veja bem Willie, graças a tua inestimável ajuda, o meu programa de vinte anos, reduziu-se a somente cinco ou seis, dependendo exclusivamente da minha capacidade de sintetizar toda a documentação coletada. Como já sabe, visitei todos os lugares por onde o Collins passou, alguns não existem mais, como o prédio da Quinta Avenida que, junto com outros também demolidos, agora é o local do estonteante conjunto denominado a “Cascata dos Cristais”.

Outros, como o edifício do Senado, continuam praticamente iguais de como eram no tempo do Collins. Estive, até, em Lawrencburg. Ali, nada ficou do tempo dele; como poderia? Lá ele ficou somente um dia. Vi o obelisco que, provavelmente, vocês colocaram no local aonde supostamente chegou. Não se sabe, ainda, de onde.

– Sim, esse obelisco foi posto pelo Centro de Treinamento da Virginia, na oportunidade do primeiro centenário da “epopeia de Washington”.

– Visitei também e rapidamente, antes de vir para os Estados Unidos, os centros de treinamento de Moscou e de Leipzig, que foram os primeiros instalados na Europa, ainda na época do Collins. Não tenho nenhuma intenção de ver o de Pequim, onde não deve existir nem sombra da passagem dele. O que me intriga é de não poder saber para onde ele foi depois de Tóquio, com a sua namorada — presumo eu — a nauta dos cabelos vermelhos. Este seria o último ato, ainda desconhecido, de um drama que, para mim, não tem mais mistérios.

– Meu caro amigo Cristian Cristiansen, meu predileto Prêmio Nobel da Literatura, acho que posso te ajudar a satisfazer essa tua curiosidade. Posso te dizer para onde ele foi, e onde viveu, feliz e ignorado por todos, por muitos e muitos anos. Ir lá seria somente uma peregrinação sentimental, nada tem lá que possa lembrar a passagem do Edward Collins e da sua companheira.

– Oh, Willie… somente agora me diz isso? Esse fato me azucrinou o tempo todo. Você sabe realmente onde ele se escondeu? E mais, como ficou sabendo disso?

– Eu acho este fato irrelevante… talvez me engane. Mas o desaparecimento dele, não esqueça, junto com a sua bela companheira, parece-me como o epilogo de uma epopeia, seria o descanso do herói.

– Entendo isso. Tenho, ainda, fundadas dúvidas. Mas, diga-me, como ficou sabendo disso?

– Existem muitos segredinhos que passam de presidente para presidente, aqui no INA. E este é um deles. Existe uma carta, escrita do próprio punho do primeiro presidente do INA, o sucessor do Edward Collins. No envelope, lacrado, estava escrito: “Para o Presidente do INA – Abrir somente em 2.122”. Assim foi feito.

A carta era longa, e entre as diversas informações, dizia onde o Collins se refugiou, depois das intensas atividades que você, mais que ninguém, agora conhece bem. É uma ilhota, uma das milhares que existem no arquipélago das Marianas. Nessa ilha encontravam-se somente algumas famílias de pescadores, que, quando não pescavam, recolhiam cocos e produziam Copra, produtos que, duas vezes por ano, um comerciante recolhia, pagando com as usuais bugigangas. Fim da história.

– Fim da história coisíssima nenhuma. Primeira pergunta, por que cargas d’água você não me disse isso? Você sabia muito bem que este desaparecimento do Collins em Tóquio, me incomodava sobremaneira…

– Respondo a esta primeira pergunta, depois posso responder a outras que queira fazer. As informações contidas na carta eram e são privativas e exclusivas dos presidentes do INA. Não podemos transmitir nenhuma informação nela contida. Por ter relevado algo da carta, fiz uma indiscrição gravíssima, pela qual, não sei como, deveria me penitenciar.

– Puxa, Willie… me desculpe, sim? Me afobei, nem tinha percebido que isso tudo que você disse era confidencial. Eu sou o culpado dessa tua indiscrição. Peço mil desculpas… que tonto que fui.

– Para com isso, Cristian. A indiscrição foi minha e, a fiz conscientemente. Não esqueça que você vai escrever a verdadeira história do Edward Collins e, de consequência, pode e deve divulgar isso. Esta informação realmente é insignificante, perto da demonstração que você fez, sozinho, da existência “deles”; portanto, pare de se desculpar.

– Entendo o teu ponto de vista. Isso me tranquiliza bastante. Então, não preciso mais me preocupar com esse tal de desaparecimento, posso voltar para casa e, finalmente, redigir essas minhas Histórias.

– Nada disso. Recomendo que você vá para essa ilha e ficasse lá, pelo menos por duas semanas… para sentir o que o Collins sentiu. Todo o material que você coletou, nós o enviaremos, em seu nome, para a Universidade de Lódz. Podemos fazer isso?

– Certamente que sim, avisarei a Universidade disso. Assim, livre e solto, poderei ir nessa ilhota… nas Marianas você disse?

– Sim, nas Marianas, mas não esqueça: eu te darei o caminho certo que terá que fazer. Com muita discrição, você pode conversar com um dos pescadores…

– Claro que conversarei com os pescadores… mas porque, esse um, que citou, em especial?

– É que ele é um homem nosso, ele é do INA, tem sempre alguém do INA nessa ilha.

– Mais essa…, como já disse muitas vezes, vocês do INA são sempre surpreendentes…

– Peço que fale com ele quando estiver bem afastado dos demais pescadores, nenhum deles sabe que ele é um dos nossos.

– Que diabo, Willie, como pode passar desapercebido um homem do INA, junto aos nativos?

– É fácil, nós escolhemos um bom neurologista…

– O quê? Esse… esse… pescador é um neurologista? Mas como…

– Calma Cristian, deixa eu explicar esta estória toda. Escolhemos um bom neurologista entre os tantos que existem nas redondezas… Um indonésio ou um malaio… esse que vai conhecer é um malaio. Ele deve ter servido no INA, pelo menos dez anos e ter certos predicados… A mais, escolhido por essa missão, que durará entre seis e sete anos… ele poderá retornar aos quadros do INA numa alta posição, como compensação de ter passados anos… na praia e no sol… Nada mal, como emprego, penso eu.

Tem mais, antes de ir para essa ilha específica, ele deve ficar, por cerca de dois anos, perambulando nas ilhas vizinhas, assim ele poderá passar por uma pessoa de lá mesmo… terá histórias reais para contar. Enfim, você entendeu o espírito da coisa.

– Isso eu compreendi. O que ainda não entendo é para que tudo isso. Qual seria o objetivo?

– A dizer a verdade, eu não sei bem. Quando assumi a presidência, o meu antecessor me repassou, entre as mil responsabilidades, também essa, de dar continuidade a vigília nessa ilha.

– Vigília? Que vigília? Estão esperando o quê?

– Não sei, Cristian, e nem quero saber. Somente sei de boatos… simples boatos, passados de presidente para presidente que o real desaparecimento do Collins na realidade ocorreu nessa ilha, uns cinquenta anos depois, estimo eu.

– Agora entendi. Irei lá; é uma ótima sugestão. Falarei reservadamente com esse malaio e.…, espera aí, como faço para reconhecê-lo? O que tenho que fazer, para contatá-lo?

– Não tem que fazer nada, ele te contatará, a senha é simples: o meu nome, se ainda se lembrar de mim, depois de sair de São Francisco.

– Como poderia esquecer-te? Depois de todas as regalias e facilitações que me propiciaste? Esquecer-te? Você, Willie, encurtou o meu programa em quase quinze anos. Quinze anos. Como poderia esquecer? Você e a Betty foram…

– Pare com isso. Vá para a ilha e depois para casa. Quanto tempo vai demorar para passar tudo a limpo e entregar os textos para a editora?

– Penso que em um ano, ou um pouco mais, terei tudo pronto.

– Tanto assim? Estou ansioso para ver tudo publicado como um livro clássico, em papel. Acordamos que, na capa, além do título, constará exclusivamente o teu nome. Sugiro que, em algum lugar, seria oportuno informar que o INA, a BCC e a Universidade de Harvard, colaboraram colocando os próprios arquivos a disposição do autor. Pode citar, se quiser, também os Centros de Treinamento da Virginia e da Califórnia.

– Sugestão anotada. A CIA, a de Langley, também, me forneceu informações valiosas, mas, é de se esperar, que não queiram que se saiba disso, assim suponho.

– E o Senado, não te forneceram dados importantes?

– Sim, mas, esqueci, depois de ter vasculhados os arquivos deles, de obter aprovação formal para mencionar essa gentileza deles… que pena.

– Não te preocupes, eu consigo a aprovação.

– Bem, meu caro Willie, tratamos de tudo, mais uma vez agradeço a ti e a Betty… será que vocês dois não querem passar uma temporada na minha casa em Dwunska Wola? Seria estupendo. Pensa nisso.

– Vamos pensar, sem dúvida que a Betty gostaria. Eu também, é claro, somente que não me seria muito fácil me ausentar por demasiado tempo. Você sabe…

– Sim, sei. Bem, Willie, nos despedimos. Amanhã irei a Seattle para me despedir do Henry e da BCC toda, e depois… Ilhas Marianas.

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