Depois de quase três semanas passadas na ilha “do Collins”, fui para Hamburgo visitar a minha filha, não a via há muito tempo. Finalmente, em Lódz, depois de ter saudado o reitor da minha universidade e os amigos de lá, inclusive um entusiasmado Günter que, como me confidenciou, era quase imbatível no jogo de tênis, fui para casa.

Dediquei-me, então, por longos meses, na redação das minhas “histórias”; constatei, com uma certa surpresa, que a história da incidência do deslocamento no espaço sobre o comportamento da humanidade se tornava sempre mais interessante. Terminei admitindo, um pouco a contragosto, que essa seria a minha obra principal, o meu legado.

Para tirar um pouco do sabor amargo dessa minha constatação, parei de trabalhar nela e dediquei-me a terminar e revisar a do Collins e, consequentemente, da comprovação da existência “deles”. Isso, a existência de algo extraterrestre, não era bem uma novidade; desde os tempos do próprio Collins essa era a hipótese mais popular. Mas, desde então, ninguém se preocupou em estudá-la e, muito menos, de demonstrar a sua veracidade. Enfim, terminada, fiz uma videochamada para o Willie.

– Bom dia, Willie, tudo bem com você e a Betty?

– Tudo bem, obrigado. Ela está aqui ao meu lado e te manda um abraço.

– Diga para ela que sinto saudade dos nossos passeios na baixa Califórnia.

– Ela está me dizendo que basta você voltar…

– Gostaria muito, mas tenho ainda muito trabalho. E é por trabalho que estou te contatando: terminei com a história do Collins… fiz a ultimíssima revisão e estou te enviando o texto final.

– Ótima notícia, Cristian, verdadeiramente ótima, você disse que precisaria de um ano… mas, em somente cinco meses terminou, parabéns.

– Willie, gostaria de um favor teu. Não mande fazer uma revisão do meu inglês, mande publicar como está; se tiver alguma falha, que esta seja minha e não do revisor, como já me aconteceu.

– Nenhum problema Cristian, assim será feito. Diga-me, porém, de quais línguas você gostaria de verificar a tradução?

– Em quantas línguas vocês vão traduzir esse texto?

– No lançamento, que programamos será simultâneo, serão cerca de vinte idiomas, os mais falados. Depois, paulatinamente, para todas as demais línguas estruturadas que existem.

– Que absurdo, Willie, por que tudo isso? Me parece um exagero.

– Exagero nenhum. O INA quer que todos, literalmente todos os povos da terra, conheçam a verdadeira história de Edward Collins e, muitíssimo mais importante, que todos fiquem cientes que “eles” existem e que, ficou bem evidente, zelam para o nosso bem-estar.

– É uma operação imensa, esta que me está dizendo Willie, quanto tempo vai demorar?

– O tempo que vai demorar não tem importância. Importante é que a maior quantidade possível de pessoas tenha esse livro em casa. Depois, faremos edições em “braile”. E obviamente também uma versão em áudio…

– Vejo que pensaram em tudo… Respondendo a tua pergunta, gostaria de, antes de a publicar, ler a versão em polonês… imagina o vexame que teria que passar, se aparecesse alguma impropriedade nesta língua? Teria que deixar a minha casa em Dwuska Wola, coisa que não gostaria de fazer.

– Você não gostaria de verificar, também, outros idiomas, como por exemplo a tua língua materna, o dinamarquês?

– Graças aos meus pais, eu tenho diversas línguas maternas, além das escandinavas, o alemão e o italiano. Destas todas, porém, não me incomodo se resultar alguma falha. Nem um pouco, não estou vivendo lá.

– De acordo, te mandarei a versão em polonês. Confirmado então que você estará presente no lançamento mundial desta tua obra, em New York.

– Estarei sim.

Confirmado também que você assinará um exemplar em cada língua que será lançada nesse dia?

– Assinarei sim, um exemplar de cada língua, mas somente um.

– Você não quer assinar um exemplar para mim e a Betty?

– Perdão Willie, assinarei quantos exemplares quiserem… para você e a Betty, e para o pessoal da BCC, o Henry e o Glenn. Sim, também um exemplar para os Diretores dos centros de Treinamento da Virginia e da Califórnia, agora que me lembro. Deveria assinar diversas cópias para o pessoal de Harvard, e talvez, de forma reservada, também para a CIA.

– Não esqueça o Senado, tem lá alguém em especial que você queira prestigiar?

– Ninguém em particular; acho que os principais são mesmo os que citei.

– Muito bem Cristian, tratamos de tudo, somente queria-te informar de duas “cositas mais”: a primeira é que, os exemplares em todas as línguas que irás assinar em New York irão para o “Memorial do Presidente Crowdler”, em Nashville, no Tennesse. A segunda é que enviaremos cópias para todos os nossos deputados e senadores, para o Presidente dos Estados Unidos, para todos os governadores e seus vices, para todos os Secretários de estados, para todos os Embaixadores em Washington, para todos os representantes das nações na ONU, para todos…

– Chega Willie, chega, já entendi. Percebo que você não quer que essa obra caia no esquecimento.

– Claro que não, depois de todo o trabalho que você teve. Tem mais coisas que tenho que te dizer, mas o farei quando você vier para New York, de acordo?

***

Os quinzes dias que passei em New York, para o lançamento do meu livro em mais de vinte línguas, foi um pesadelo. Disse “meu livro”? Começo a ter sérias dúvidas. A participação do Willie foi notável, as contribuições do pessoal da BCC e dos centros de treinamentos, com os seus enormes arquivos escancarados, também me forneceu material valiosíssimo. E o que dizer do Vice-reitor de Harvard e do seu cético secretário geral?

Não, francamente este não é o “meu” livro, este é a obra de muitíssimas pessoas que eu, somente, reuni de forma coerente. A minha obra, cada vez me convencia mais disso, é a da história de como o deslocamento no espaço influenciou o gênero humano. Logo que voltar para casa, me dedicarei com o máximo carinho e entusiasmo nesta tarefa, leve o tempo que for necessário.

Tive que autografar manualmente mais de mil exemplares, tarefa estafante que, pelos cuidados do Willie, foi possível realizar sem eu sucumbir. A primeira medida que ele me obrigou a seguir, era de assinar a maior quantidade possível de exemplares no meu hotel. Foram quase três dias corridos, porém sem o atropelo de centenas de pessoas em volta, que seria o caso se tivesse que autografar tudo isso em um local público.

A segunda medida, que inicialmente estranhei, mas que foi a minha salvação, foi que ele colocou a sua eficiente secretária sentada na minha frente, que me mostrava em cartões o que eu teria que escrever. Depois da primeira centena de exemplares, realmente eu não sabia bem o que escrevia, somente seguia o que os cartões me diziam.

Enfim, depois de centenas de apertos de mão e milhares de fotografias com ilustres desconhecidos, o pesadelo terminou. Declinei o amável convite do Willie e da Betty para ir descansar na baixa Califórnia, e fui para o espaço-porto, pegar o sub-orbiter que me levaria para Varsóvia e, dali, mais um pulinho para a minha casa em Dwunska Wola.

Sentado na poltrona do sub, peguei no pequeno pacote que o Willie me tinha entregado quando nos despedimos. “Abra somente quando estiver bem instalado na tua poltrona” me disse. Muito bem, pensei comigo, estou bem instalado, posso abrir; o que será que o Willie me está dando?

Era um livro, a capa era totalmente branca, nada dizia do conteúdo, vi que eram centenas de páginas. Bem, pensei comigo, vamos ler, tenho algum tempo até chegar em Varsóvia.

Na minha frente via uma planície de terra estéril com arbustos esparsos e ressequidos, os maiores deles não passavam de cinco pés. A umas duzentas jardas, ou pouco menos, entrevia uma estrada asfaltada, um risco cinza- azul que cortava a larga paisagem árida onde predominava a cor ocre…

Continuei lendo tranquilamente até que me deparei com o seguinte trecho:

“…a cidadezinha de Lawrencburg…”

Aí, com um choque terrível, parei. O que diabo seria isto? Lawrencburg é a cidade onde o Collins iniciou a sua jornada. O que o Willie me deu?

Corri, freneticamente, para outras páginas, li breves trechos e, finalmente, depois das últimas páginas que li na integra, fechei os olhos e me reclinei, arrasado, na poltrona. O que tinha na mão era um fac-símile do meu livro, aquele que ia ser distribuído em milhões de exemplares em todas as línguas existentes…. Li rápida e afoitamente algumas dezenas de páginas…, sim, …. Era praticamente a mesma história do meu livro…, porém, estava notando, com um certo embaraço, mais vivida…, parecia, até, que a estória toda estava em cores… e a minha, em comparação, parecia cinza, um cinza miserável.

Não aguardei mais um minuto; estávamos aterrissando em Varsóvia. Do espaço-porto mesmo televisionei para Willie.

– Willie… que diabo de livro você me deu?

– Oh, Cristian… fez uma boa viagem?

– Para com isso, Willie, o que é isso que me deu para ler?

– Então já leu… leu ele inteirinho?

– Não somente pedaços… o suficiente para saber que parece ser uma quase réplica do meu livro…

– Interessante. E o que acha dessa versão?

– Pelo pouco que li, parece que seria uma versão melhorada do que eu escrevi.

– Melhorada, você disse?

– Sim melhorada… sei lá, parece que tem mais vida… Willie, para, e me diga o que é isso que você me deu?

– Bem, meu caro amigo Cristian, inicialmente devo pedir desculpas pelo que fiz, ou melhor, pelo que não fiz.

– O que seria este “não fiz”?

– Não te informei que o INA, isto é, o presidente do INA, tem o original das memórias que o Collins escreveu. E, preste bem atenção para este detalhe, e que ele queria que ficasse de conhecimento público, somente muito tempo depois de ele as haver escrito.

– Willie, já estava confuso e, com estas tuas explicações, estou mais confuso ainda. Por favor me explique direitinho, se quiser, claro.

– Vou explicar desde o começo. O Jan Kennet, o que deu continuidade a obra do Collins e fundou o INA, tinha instruções taxativas do Collins, que ele, o Kennet, seguiu escrupulosamente. Uma delas era que, pelo menos, a partir de cem anos depois da, posteriormente chamada “epopeia de Washington”, o presidente do INA deveria procurar alguém, de alto nível, especificou o Collins, que escrevesse sobre ele e a Escola, demonstrando, racionalmente e irrefutavelmente, que “eles” existem. De fato, passaram-se mais cem anos, até o INA, encontrar alguém com os predicados que o Collins queria.

– Então esse “alguém” … seria eu?

– Certamente que sim. Você foi o único que o INA constatou que atendia aos requisitos postos pelo Collins.

– Entendo isso. O que não entendo é o porquê, tendo na mão a história original, você foram buscar uma péssima imitação dessa.

– Péssima, você disse, Cristian? Você acha péssima a sua obra?

– O que você acha? O original escrito pela própria personagem ou uma cópia extraída, dois séculos depois, de frios arquivos?

– Compreendo o que você está dizendo. Deve considerar, porém, depois de ler integralmente o livro do Collins, que ele nunca admitiu a existência “deles”, isto estava sempre subjacente, nunca explícito. Penso eu que o que ele queria era que alguém, utilizando tudo o que fez e tudo que disse, demonstrasse irrefutavelmente que “eles” existem e, ainda, que são bem-dispostos para conosco. Deve ter tido boas razões para isso; não pergunte para mim.

– Está bem, Willie, entendo o que você diz. Perdoe o meu desabafo, fiquei aturdido mesmo. Bem, vou para casa agora, … vou ler com calma o livro, e depois te contato de novo. De acordo?

– Sim, Cristian, desculpe-me pelo transtorno que te causei. Mas… foram as instruções diretas do Collins…

– Diretas do Collins? Não são mais uma interpretação bastante liberal tua dos desejos dele?

– Pode ser, Cristian. Falaremos disso mais tarde. Agora vá para casa e descanse um pouco.

***

Passei diversos dias perturbado, depois de ter lido atentamente o livro do Collins. Por sorte, a elaboração do meu segundo livro me absorveu tanto, que deixei essa descoberta — embaraçosa para mim — bem no fundo da minha consciência.

Eu me absorvia sempre mais na elaboração dessa obra. Dizendo melhor, eu me divertia sempre mais. Uma vez estabelecida a sua estrutura geral, agora retomava cada parte e a melhorava. Isto incluía, inicialmente, manter a lógica do discurso, depois a correta concatenação de fatos e das consequências e, finalmente, tudo isso, redigido num linguajar descontraído e leve. Não queria redigir um enfadonho texto de um pedante professor. Será que serei, eu, um pedante professor? Acho que o livro do Collins me demonstrou que sou mesmo, ou, melhor, que era.

Tinham-se passados diversos meses desde a minha volta de New York. Meses prazerosos. Toda manhã nadava, relaxadíssimo, na minha piscina. Se em casa tinha alguns amigos que ousavam jogar tênis comigo, me divertia, ganhando ou perdendo; não odiava mais a “ultra maldita bolinha”. O trabalho corria bem, cada vez o apreciava mais; se os futuros leitores apreciariam o texto, não sabia, e nem me importava. O que me importava é que criando essa obra, me sentia realizado, e isso me satisfazia plenamente.

Um dia, na realidade, uma noite, fui acordado pelo sinal sonoro do televisor. Sonolento — pudera, eram as três e meia da madrugada — atendi.

– Alô…?

– Alô, Cristian, está acordado? Era a voz do Willie, não tinha imagem.

– Agora sim, Willie… agora, estou acordado.

– Tenho certeza de que vai me desculpar. Está sentado?

– Que pergunta… Claro que estou, ainda não acordei completamente.

– Cristian, quero que você esteja bem acordado e… sentado. Ouviu?

– Sim, estou ouvindo, e sentado… alguma péssima notícia?

– Não, ao contrário, muito ao contrário. Deixa-me ver… exatamente dezessete minutos atrás, o Sirio I entrou em contato com a terra. Ouviu Cristian, entraram em contato! Estão… estão….

– Tem certeza disso? Entraram em contato, você disse?

– Certeza absoluta, o Henry me informou disso poucos minutos atrás… e eu achei que te tinha que informar imediatamente.

– Claro! E agradeço muito… mas, o que disseram sobre a falta de comunicação destes anos todos?

– Ainda não disseram nada. São os sistemas automáticos da nave que estão em contato com a base. Por enquanto somente está transmitindo os dados sobre o estado de todos os sistemas. É a rotina. Por enquanto todos os sistemas indicam estar em perfeito funcionamento.

– É bom saber disso, muito bom… mas quando poderemos saber… de algo mais… das pessoas?

– Temos que aguardar algumas horas, ainda. Este sistema de transmissão dos dados de status da nave tem prioridade absoluta… somente depois de tudo terminar a contento é que os tripulantes poderão entrar em contato conosco.

– O que quer dizer “terminar a contento”?

– você deve saber que os computadores da nossa base terrestre são muito mais poderosos dos computadores embarcados e que, de consequência, pelos dados que estão recebendo, podem querer transmitir algumas instruções complementares…

– Não entendi exatamente…

– Vou fazer um exemplo, totalmente hipotético, somente para explicar, como funciona esta interligação entre os computadores. Repito, é um exemplo sem base real alguma; caso resultar que o computador da nave transmitir que o sistema de oxigenação está com capacidade inferior a demanda, os computadores na terra, muito mais potentes, darão instruções de como superar esta situação.

– Agora entendi. Isso somente foi um exemplo, espero.

– Somente um exemplo, nada mais, fique tranquilo. Puramente didático, e provavelmente simples demais, porque não sou especialista no assunto.

– Agradeço a gentileza de me informar… e espero que continue assim, qualquer notícia…. por favor, me avise.

– Já fiz isso, e continuarei fazendo. Não te preocupes, te informarei de imediato.

Assim… o Sírio estaria ainda operando e viajando. Os sistemas estão operando, isto é bom, mas, e a tripulação? Ainda não se sabe nada sobre a tripulação… deve-se esperar que os sistemas terminem de interagir e, esperar, também, que não sejam necessárias… como disse o Willie? Ah, sim, de “instruções complementares”. Não vou informar disso nem a mãe do Eric, nem a Ingrid. Não adianta criar esperanças que podem não se concretizar. Depois de confabular bastante comigo mesmo por mais de uma hora, tomei um copo de leite morno e tentei voltar a dormir. Não consegui.

No fim da tarde, finalmente, novo telefonema do Willie.

– Alô, Cristian, imagino que você deve estar ansioso por notícias.

– Pode ter certeza disso.

– Boas notícias, muito boas. Terminaram as averiguações automáticas dos computadores, e recebemos, logo em seguida, a mensagem dos líderes da expedição. Inicialmente se desculparam pela interrupção das comunicações que, disseram, deve ter angustiado todas as famílias e amigos, deles todos. A medida se tornou necessária para estancar um sentimento de saudosismo que estava tomando corpo entre eles, enfraquecendo a vontade inicial de descobrir, seja o que for, no sistema planetário de Sírius. A medida surtiu efeito e, agora, podiam retomar os contatos com a terra. Listaram a seguir dados demográficos: quando saíram, eram 140, agora já eram 204, e com diversos outros em andamento. Informaram, também, que todas essas informações seriam repassadas a todos os familiares e amigos que queiram receber uma mensagem pessoal de cada membro da expedição.

– E quando eu poderia receber a mensagem do Eric?

– Tomei nota, será às 15 horas de Greenwich, desta quinta-feira, menos de dois dias então. Eles disseram que, em vez de mandar as mensagens, condensadas em microssegundos, preferiram enviá-las em tempo real, por desejar que, imediatamente, logo depois de a ter recebido, cada família possa responder de imediato, serão 15 minutos de gravação.

– Boa ideia que eles tiveram. Me diga, Willie, como poderei aceder a esta mensagem?

– Todas as famílias foram informadas para dirigirem-se ao Centro de Treinamento da Escola mais próxima, lá tem o equipamento retransmissor que permitirá receber e transmitir a mensagem de resposta. Acho que o centro de treinamento mais próximo de você deve ser o de Leipzig, ou me engano?

– Não, é isso mesmo, irei para Leipzig imediatamente.

– Avisarei o Diretor do centro da tua chegada…para facilitar-te, no que for possível.

– Agradeço todas as informações que você me deu, mas… escute Willie… você, não sei como dizer… tem certeza de que, enfim, que o Eric aparecerá na mensagem? Não gostaria, sabe… queria convidar a mãe dele e a irmã. Não gostaria que houvesse um anticlímax… entende?

– Entendo perfeitamente. Pela mensagem dos líderes, todos estão bem e em boa saúde. Assim disseram, e não teria por que duvidar.

– Sim, tem razão.

– A mensagem deles foi bem clara a respeito, e mais, eles não marcaram dia e hora para o recebimento da mensagem? Não ter preocupes, Cristian e me informe de tudo logo que puder.

Logo a seguir chamei a Ingrid.

– Escuta, minha filha, amanhã mesmo…

– Pai, o que é isso? Nem fala bom dia ou como vai?

– Desculpe filha…é que estou um pouco transtornado… acho que você também vai ficar aturdida com a informação….

– Que informação?

– O Eric vai entrar em contato conosco…

– O Eric? Tem certeza disso, pai? Como… como pode ser isso?

– A nave dele, o Sírio I, depois de anos de silêncio, voltou a se comunicar com a terra; e é por isso que te telefono: deves ir para Leipzig, amanhã mesmo. É no Centro de Treinamento da Escola de lá que nós entraremos em contato com o Eric.

– Não é nenhuma brincadeira, pai? Vamos mesmo falar com o Eric?

– Não, não vamos falar. É ele que falará conosco. Depois podemos responder… sei lá quanto tempo demora para ele receber a nossa mensagem.

– Pai, estou aturdida… não sei o que pensar.

– Não pense em nada. Somente venha. Seria bom que você avisasse, com cuidado, a sua mãe. Venham as duas juntas. Não esqueça: Centro de Treinamento da Escola em Leipzig.

***

Mãe e filha chegaram juntas ao centro de treinamento. As duas elegantes e com os olhos vermelhos de choro. A minha filha estava bastante mais recomposta do que a sua mãe, mas demonstrava, também, sinais de ter passado por uma grande emoção. Quando Herta, minha ex esposa, me viu, veio me abraçar e continuou com o choro…

– É verdade… é verdade, Cristie, é verdade que o Eric vai falar conosco?

Eu nunca gostei dela me chamar de “Cristie”, mas hoje não me importei.

– Sim é verdade. Todos os familiares dos tripulantes, ou viajantes, sei lá como chamá-los, receberão uma mensagem. A do Eric está programada para amanhã as cinco da tarde. Devemos chegar aqui pelo menos uma hora antes. Vocês já se instalaram num hotel?

– Não pai, viemos diretamente para este endereço, como você disse.

– Fizeram bem. Vamos no meu hotel, já reservei dois apartamentos para vocês.

Fomos jantar lá mesmo, no restaurante do hotel. Ambas estavam mais calmas. Logo que nos sentamos, Herta me disse:

– Cristie, me desculpe por não ter te parabenizado pelo prêmio que ganhaste…

– Não se preocupe nem um pouco, vamos falar…

– Pai, para, escuta o que ela quer dizer… por favor.

– Sim, me desculpe. Continue.

– Bem…, já te tinha dito que, ganhando esse prêmio, iria lançar a minha linha invernal de moda feminina, com o nome de “Prêmio Nobel”. Assim fiz… foi uma frenética atividade para preparar o lançamento… você não faz ideia.

– Imagino.

– Não, você não faz ideia, são mil detalhes que você deve organizar… bem, eu estava bem no meio dessa loucura, quando recebo uma chamada estranha… era alguém que se dizia ser da Academia Cientifica…

– Não, mãe, é da “Academia de Ciências”

– Tudo bem, vocês entenderam. O que ele disse é que eu não podia usar o nome “Prêmio Nobel”. “E por que não posso?”, respondi. “Porque nós do Prêmio Nobel não queremos. É uma marca registrada e, se a utilizar, vamos processá-la em todos os tribunais do mundo.”

Assim, tive que desistir desse nome. O ruim era que tinha conseguido um ótimo monogramo com as letras “P” e “N”, de Prêmio Nobel, e este monograma estava em todos os modelos que ia apresentar, … um desastre, entrevia um verdadeiro desastre. Somente que…

– Somente que… o quê? – Interpus eu, algo incomodado com essa conversa sobre o mundo da moda feminina.

– Somente que eu tenho uma filha inteligente. Ela me sugeriu de mudar o nome dessa linha de roupa de inverno, de “Prêmio Nobel” para “Polo Norte”; assim, os meus belos monogramos poderiam ser utilizados. Foi um sucesso. Foi tanto o sucesso que resolvi que, a linha “Polo Norte”, não fosse somente o nome da coleção de inverno desse ano, mas que fosse um padrão permanente de roupas invernais.

– Gostou da minha ideia, papi?

– Gostei sim, sempre elogiei a tua vivacidade e a tua…

– Não terminei ainda. No ano seguinte, lancei a linha “Polo Norte” para adolescentes, de doze a dezesseis anos, também com sucesso. Pretendo, para a próxima estação invernal, lançar a linha infantil, de 4 a onze anos, e tenho a intenção, também de…

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