Fomos recebidos por diversos atenciosos atendentes do Centro de Treinamento de Leipzig. Nos conduziram numa sala com diversas poltronas e, na frente destas, um grande écran preto. Estava desligado, mas todo esse preto me deixou um pouco angustiado. O próprio Diretor do Centro, bem atencioso, nos instruiu sobre os procedimentos.
– Logo mais, exatamente na hora estabelecida, o écran mostrará os líderes da expedição dando algumas informações de caráter geral. Desta forma, podem os familiares inteirar-se de muitos fatos, evitando-se a necessidade de cada um dos “viajantes” perder um tempo precioso, que pode assim ser investido na conversa com a própria família.
– Obrigado, senhor Diretor. Quanto tempo vão demorar as mensagens?
– Exatamente dezoitos minutos. Teremos a duração da mensagem dos líderes, de três minutos e, imediatamente a seguir, virá a mensagem do vosso familiar, Eric Cristiansen, de quinze minutos. Haverá um intervalo de dez minutos e, continuem aqui mesmo, porque iniciará a gravação da vossa mensagem para ele. Prestem atenção, o écran funcionará como um espelho, o que vocês verão neste espelho será o mesmo que ele verá.
Enquanto o Diretor falava, a Ingrid achou um pequeno divã, e pôs-se a empurrá-lo para ficar frente ao écran; logo que pude a ajudei e, com um grande suspiro, ela se sentou, bem no meio do pai e da mãe.
O écran se iluminou. A seguir, três pessoas se revezaram falando sobre diversos aspectos da viagem. Queria ouvir, mas mãe e filha conversavam animadamente, sem prestar a mínima atenção ao que estavam dizendo…
– Pai, quando o Eric vai aparecer?
– Depois dos três minutos das conversações dessas pessoas, eles são os líderes da expedição e que queria ouvi-los, mas vocês não me deixaram…
– Desculpe, pai…
– Não se preocupem, vocês duas. O Eric deve logo aparecer.
E apareceu. Parecia estar com bom aspecto, mas não estava sozinho: ao lado uma loira e, na frente deles, duas crianças. Sua voz sempre forte e, desta vez, nada irônica, logo explicou.
– Mãe, pai e querida irmã, espero que nos estejam vendo. Ao meu lado, minha esposa Fiona, a nutricionista da nossa expedição. A linda menina que está louca para ver os seus avós se chama Ludmilla, o nome da mãe da Fiona e tem oito anos. O menino tem seis anos, o seu nome é… Cristian. É mais um Cristian na nossa família. Estamos todos bem, e bem cansados. A política dos nossos líderes é de deixar nós todos exaustos de trabalhos, estudos, simulações e tudo mais. Eles acham que se estivermos bastantes cansados, não vamos pensar em bobagens. Fiona, quer dizer alguma coisa para a minha família?
– Quero sim, queria muito poder conhecê-los e agradecer por terem criado o Eric, o homem mais gentil e carinhoso do nosso grupo, pai sem igual, sempre atento a educação dos filhos… Quanto a alimentação, não se preocupem. Ludmilla, quer dizer alguma coisa aos teus avós?
– Sim quero, mas também quero dizer algo a minha tia Ingrid, eu tenho uma tia Ingrid… não é, mãe?
– Sim filha, tem sim.
– Então, tia Ingrid, te mando muitos beijos, o meu pai, sempre fala de você… ele diz que você é espi… espevi…
– Espevitada.
– Isso, espevitada! Ele diz que sou espevitada como você.
– Você sabe o que quer dizer “espevitada”?
– Não, não sei. Mas eu sou espevitada como a tia Ingrid, não sou?
– Sim, e muito. Esse aqui, o Cristian, não é espevitado, ele e muito calmo, graças a Deus…
– Esta é então a minha família. – Continuou o Eric…, tenho muito orgulho dela, como tenho muito carinho pela minha família de origem. Mãe, um grande beijo, e um forte abraço, penso sempre em você. Um abraço para você também Ingrid, quantas boas lembranças… e aí pai, tudo bem? Me lembro de uma coisa que você me disse um dia: deve se lembrar também… sobre isso, você tinha razão. Bem… é tudo. Abraços carinhosos de todos nós.
Fim da gravação. Agora entendi o porquê do intervalo de dez minutos; era para todo mundo se refazer, um pouco, da emoção. De fato, filha e mãe estavam abraçadas e chorando. Eu também fiquei emocionado…, mas respirei fundo e, escamoteando uma lágrima que, teimosamente, queria sair, falei para as duas mulheres:
– Vamos queridas… podem chorar à vontade mais tarde. Agora… sim, Ingrid, pare de chorar… se você não parar, sua mãe não para também… isso… isso mesmo… assim… Temos de nos preparar para gravar a nossa mensagem. Se lembram o que disse o Diretor? O écran vira espelho durante a gravação. Imaginem o Eric ver apenas duas mulheres aos prantos…
– Sim pai, vamos nos recompor… não é mamãe?
– Sim… Sim, filha… tem um pente aí?
– Tenho sim, toma. Pai, quanto tempo temos de gravação?
– Disseram que seriam quinze minutos. Sugiro dividir em três períodos de cinco, um para cada um de nós, eu avisarei quando faltarem trinta segundos. Acho melhor tua mãe iniciar, depois, tu, Ingrid, continua… eu serei o último. Agora, quietas as duas… pensem no que vão dizer… por favor.
O écran iluminou-se, a gravação já estava em andamento. Em voz baixa Ingrid incentivou a mãe a falar, e ela falou. O que disse, não sei, estava olhando o meu relógio e pensando na frase surpreendente do Eric.
– Trinta segundos, Herta.
Surpreendente, também, porque parecia que queria repassar a informação de uma maneira reservada…
– Trinta segundos, Ingrid…
Finalmente chegou minha vez.
– Alô… querido Eric, parabéns pela tua bela família. Um grande beijo para os meus maravilhosos netos. Até meia hora atrás, não sabia que era avô de duas belíssimas crianças, mas sou, sabe, já estou sentindo-me mais velhos. Gostei da tua esposa, Fiona, e pelo jeito vocês nunca vão passar fome… Eric, devo-te duas informações: a primeira e que me deram o Prêmio Nobel da Literatura, o segundo que escrevi um livro, sobre a vida do Collins… e neste livro demonstro… sem dúvida alguma… o que você disse. Eric… Eric… um abraço do teu pai…
– Trinta segundos, pai.
– Trinta segundos de beijos para vocês todos, beijos… beijos … beijos…
O écran voltou a ficar preto.
***
– alô Willie, estou incomodando?
– Nem um pouco. Como foi a gravação do Eric?
– Muito boa, ele já tem família, uma bela e carinhosa esposa e dois filhos, uma menina e um menino. Desse lado tudo tranquilo, mas… tem algo de muito esquisito na mensagem… você percebeu?
– O que que é isso, Cristian? Acha que eu vou bisbilhotar um encontro familiar tão peculiar? Nada disso, Cristian.
– Willie. Escuta bem o que te digo. Você tem que ouvir a gravação…, tem que a ouvir, entendeu? Imagino que você poderá ouvi-la, aí em São Francisco. Se não puder, eu levarei a minha cópia da gravação e podemos vê-la juntos. É importantíssimo… não sei… estou bastante atordoado, devemos falar sobre isso. Irei para São Francisco. Pegarei o primeiro sub-orb. Estamos de acordo?
– Estou um pouco confuso, não entendi muito do que me disse, mas será um prazer rever-te. Você disse que tenho que ver a gravação do Eric? Você me autoriza a fazer isso?
– Está autorizado. Pense tudo que queira pensar depois de assisti-la. Eu farei o mesmo. Teremos muito sobre o que falar. Até logo, Willie.
– Até breve, Cristian.
O Willie e a Betty me estavam esperando no espaço-porto de São Francisco.
– Oh, que bela surpresa ver vocês aqui me recepcionando. Tudo bem com você, Betty? E você, Willie?
– Tudo ótimo conosco. Fez boa viagem? Não pense que eu e a Betty viemos aqui para recepcioná-lo… tire isso da sua cabeça.
– Ora… o que mais poderia ser?
– Viemos aqui, eu e a Betty, para sequestrá-lo, raptá-lo, seja qual for o termo mais apropriado… vamos te levar diretamente para o Santa Marina, o nosso novo yacht, iremos para a baixa Califórnia mais uma vez.
– Willie, mas… você viu a gravação do Eric? É importante. Temos que falar disso…
– Assisti, e a Betty também… como você disse, a mensagem contida nela é importante. Estonteante, eu diria. Como consequência devemos nos embarcar no yacht e lá, tranquilos e sossegados, podemos discorrer sobre tudo isso. Tomei a liberdade de nomear a Betty, como… como uma espécie de moderadora, ou testemunha das nossas conversações… e conclusões. Sim, principalmente as conclusões, se a isso conseguiremos chegar.
– Será com imenso prazer que verei a participação da Betty. Não sei, porém, se ela está a par de todos os detalhes da questão que temos que abordar.
– Não tema Cristian, tudo que sei…, ela também sabe. Vamos ver se as melhores notas do seu doutorado, comparadas com as minhas, terão algum valor real.
– Betty, sendo assim, terei muito prazer que participe das nossas análises dos fatos e das consequentes conclusões. Além disso… um ponto de vista feminino poderia ajudar.
– Obrigado Cristian, obrigado para me aceitar no vosso seleto grupo de dois membros. É bom deixar claro que, desde o começo, o eficaz Presidente do INA é formado pela dupla Willie e Betty.… surpreso, Cristian?
– Surpreso sim… mas, é a melhor surpresa possível. Porque, Willie, você não me revelou isso antes?
– Foi para manter a majestade da Presidência, ora.
Enquanto conversávamos, fomos de transfer para o porto, e lá, na imensa marina do golfo de São Francisco, paramos ao lado de um majestoso yacht.
– Willie… o que que é isso? Vamos dar a volta ao mundo? Porque um yacht tão grande?
– É porque a presidência do INA está me dando grandes dores de cabeça. Para compensar, nada melhor que um grande yacht.
Embarcamos. Se era impressionante por fora… o interior o era mais. A minha cabine… cabine? Melhor seria dizer: o meu apartamento era amplo e confortável. Tomei um demorado banho, parecia que me estava livrando de todas as preocupações e apreensões que me estavam angustiando desde a mensagem do Eric…, mas não, elas não me abandonaram… tinha que as exorcizar de outra forma. A única possível seria de debater a questão, destrinchá-la… tentar torná-la acessível à mente humana. Chega, vou me vestir. Vamos ver no que isso dará.
Willie e a Betty já estavam no deck superior apreciando umas bebidas e a saída, lenta e majestosa, da Santa Marina, da baia de São Francisco para o imenso Oceano Pacífico, que estava na nossa frente e parecia que estivesse nos aguardando.
– Muito bem Cristian, te vejo mais relaxado do que quando chegastes no espaço porto. Essa Santa Marina faz milagres.
– É verdade, me sinto bem melhor, mas, não por isso os nossos problemas desapareceram. Quando acha oportuno que os enfrentemos?
– Vamos perguntar a nossa Presidente em exercício. Betty, ouviu a pergunta do Cristian?
– Sim, a ouvi. Já saímos da baia e faltam duas horas para o jantar, podemos começar, sim. A palavra é sua, Cristian, vamos ouvir primeiro o nosso convidado especial.
– Agradeço, Betty. Estou um pouco indeciso sobre o que dizer. Não sei o quanto o Willie te contou das nossas elucubrações?
– Como ele já disse, e eu confirmo, estou a par de tudo que vocês discutiram até agora. Fique à vontade, se precisar de um esclarecimento, pedirei.
– Que assim seja. Então, antes de entrar no mérito da mensagem do Eric, gostaria de sugerir que é muito provável de estarmos nos adentrando no segundo ciclo do Collins, não seria assim, Willie?
– Sim, acho que sim. É bom salientar que estamos entrando nesse segundo ciclo, sem que eu, como temia, ter que tomar alguma iniciativa.
– Posto isso como pano de fundo, vamos a mensagem do Eric. De imediato, na hora mesmo que a ouvi, cheguei a duas conclusões: a primeira, e a mais óbvia, é que estariam confirmadas as nossas deduções da existência “deles”, e da propensão em nos auxiliarem… de que forma, ainda não sabemos. A segunda, muito mais perturbadora para mim, seria que os líderes da expedição, os que apareceram na mensagem inicial, não queriam que, nós, aqui na terra, ficássemos sabendo de uma “ajuda” “deles”. Um mistério dentro de um mistério.
– Bela síntese, Cristian. Com muito menos clareza, cheguei às mesmas conclusões. E você Betty, o que acha disso tudo?
– Gostei da síntese também, …, mas gostaria de saber por que o Cristian deduziu que os líderes não queriam que nós, da terra, soubéssemos disso.
– O Eric é pessoa muito franca. Diz abertamente o que pensa. Às vezes, de maneira um tanto indelicada. É a característica dele. Na mensagem, ele, apresenta a sua família… e depois cumprimenta a mãe e a irmã, finalmente em tom casual, se dirige a mim, seu pai, lembrando umas nossas conversas anteriores, e dá, calmamente, as notícias espantosas que nós ouvimos. Este não é o feitio dele, estava, conscientemente, infringindo uma diretiva desses líderes. Tenho certeza disso.
– Sorte nossa que podemos contar com esta situação de pai e filho. Se entenderam, sem muitas palavras. Betty, o que acha?
– A dedução do Cristian é muito plausível…, prestei muita atenção ao comportamento da esposa dele, ao contrário das crianças, bem descontraídas, me parecia tensa, talvez soubesse o que o marido iria dizer, e, talvez, não concordasse. O objetivo maior dela, como mãe, seria de proteger os filhos, ela não se importa nem um pouco com os “eles” e os objetivos magníficos “deles”; ela se importa somente com os filhos e, acha que a “mensagem proibida”, digamos assim, poderia prejudicar o marido e, consequentemente, os filhos.
– Depois do jantar, sugiro revermos a gravação e tentar averiguar se suas deduções, Cristian e as de você, Betty, são plausíveis. Em caso positivo, admitimos que sejam reais, e vamos examinar o que isso pode significar.
Jantamos principescamente, porém mal toquei nos saborosos pratos. Os meus pensamentos estavam voltados para a gravação que iria ouvir novamente.
A vimos e ouvimos duas vezes, a primeira, na íntegra e num silêncio absoluto, cada um tentando interpretar os mínimos sinais que, talvez, esconderiam alguma recôndita mensagem; a segunda, focados em trechos específicos distintos, para tentar averiguar um aspecto ou outro.
– Então Willie, o que acha de nossas deduções?
– Não sei se fui induzido por ter ouvido vossas interpretações, ou se de fato é uma conclusão minha, mas as considero altamente plausíveis. Sugiro por isso, considerá-las como fatos reais e vamos ver no que resulta.
– Concordo com você, Willie. O que acha, Betty?
– Sempre apreciei a sua capacidade de síntese, Cristian. Poderia nos dizer quais seriam os fatos ou as situações derivadas disso que nós vimos e interpretamos?
– Vou tentar, Betty. Willie, me auxilie quando puderes. Então, a primeira e mais grave questão é da aparente vontade dos líderes dessa expedição de ficar com a exclusividade dos contatos com “eles”. Tenho uma interpretação em relação a essa atitude. Antes disso, porém, sugiro parar de nos referirmos a “eles” como “eles”; vamos dar um nome, mesmo provisório, acho que isso facilitará as conversações.
– Boa ideia Cristian, tenha a honra da primeira sugestão.
– Obrigado. Gostaria de me reportar a gravação do café da manhã, aquele café de logo antes de iniciar a denominada “epopeia de Washington”. Você se lembra disso, Willie?
– Na verdade, não. Sei que lá escolheram o nome de “nauta”, nada mais do que isso. Sinto desapontá-lo, Cristian.
– Problema algum, você lembrou do principal; foram apresentados diversos nomes, que tal escolher um deles? Teríamos, assim, uma bela correlação histórica.
– Não seria interessante, Betty? Uma certa ligação com o Collins. Diga-me Cristian, você se lembras dos nomes?
– Não tão bem como gostaria. De qualquer modo, entre tantos que me pareceram banais, me ficaram na mente os “azuis” e os “celestes” … e, parece-me, os “navegantes”.
– “Os Celestes”, gostei. O meu voto é por este nome, o que acham vocês dois?
– Acho que Betty acertou. Devemos averiguar porque os líderes da expedição não querem que nós tenhamos contato com os Celestes. Viram como as ideias fluem mais facilmente agora que eles têm um nome?
– É verdade. Está posta a primeira questão. Cristian, com certeza, tem uma boa hipótese.
– Tenho algumas ideias na cabeça, ainda meio confusas… não sei, vou tentar esboçar alguma teoria. Parece que estamos repetindo a situação da descoberta do Novo Mundo.
– Essa, Cristian, não entendi. Aliás, acho que não existe paralelo algum, cadê o Novo Mundo? Ainda não o descobrimos.
– Willie, o ‘’Novo Mundo’’ é o universo dos conhecimentos dos Celestes?
– Betty, também você acha que pode ser isso?
– Não tenho a mínima dúvida, para mim isto está claro como água cristalina.
– Então eu seria, nesta nossa confraria, o único a não entender essa conclusão?
– Não é bem isso Willie, eu acho que entendeu e, provavelmente, concorda. Está fingindo de não entender para me provocar; não acha isso, Betty?
– Acho sim, ele costuma fazer isso até comigo.
– Muito bem, podemos ir em frente. Agora temos que continuar com as comparações com a nossa própria história. O que fizeram os nossos antepassados? Escravizaram e exterminaram as populações autóctones do novo mundo. Isto evidentemente não será possível com os Celestes, são eles que detém mais conhecimento, a arma suprema. Posto isso, o que mais pode nos dizer a história ligada ao nosso novo mundo?
– Cristian, vejo que você está utilizando as técnicas de um excelente professor: instigar os alunos com perguntas estimulantes. Vou arriscar uma resposta: seria o comportamento meramente colonialista e mercantilista da Inglaterra ao lidar com os colonos que se instalaram no novo mundo.
– Nota máxima, e com louvor, meu caro Willie. Não podemos nós, nesta nossa situação, nos comportarmos como a Inglaterra daquela época. Não devemos impedir ou hostilizar o desejo de independência dos colonos americanos, mas ao contrário incentivá-los e, se for possível, ajudá-los.
– No nosso caso, não podemos nos melindrar com a postura dos líderes da expedição de querer manter o monopólio dos contatos com os Celestes, mas incentivá-los a prosseguir nesse caminho. O resultado desta política será benéfico para todos.
— Mas por que seria benéfico? — perguntou Willie.
— Bem, foram os próprios celestes que resolveram contactá-los. Eles devem saber o que estão fazendo, certo?
– Betty, o nosso professor me convenceu; o que você acha?
– Também me convenceu. O passo a seguir seria, o que podemos fazer de concreto para implementar a política que o Cristian sugeriu?
– Esta é uma boa pergunta, parabéns, Betty. Cristian, teria alguma sugestão?
– Tenho, sim, porém precisaria de algumas informações. Por exemplo, temos meios de nos comunicarmos facilmente e permanentemente com os nossos expedicionários?
– O problema é que não sabemos, neste momento, quanto demora uma mensagem. São cinco anos luz de distância; com as nossas tecnologias, a demora deverá ser medida em anos. Os Celestes devem ter achado um meio de encurtar sobremaneira este prazo. O que pensa fazer, Cristian?
– Eu enviaria, inicialmente, o meu livro, isto demonstraria a esses nossos “colonos” que sabemos que existe um “novo mundo”. A seguir, fazer o contrário do que a Inglaterra fez. Incentivá-los a manter o contato com os Celestes, e não nos preocupar-nos, nem um pouquinho, se eles pretendem manter o monopólio do relacionamento.
– E por que não deveríamos nos preocupar? Concordo em incentivá-los a manter o contato, mas, porque diabos, incentivá-los a manter o monopólio desses contatos me parece um despropósito.
– Não é um despropósito, Willie e Betty….
– Espere um pouco Cristian, quem disse que era um despropósito foi o Willie, eu não disse nada, digo somente que estou acompanhando essas sugestões com a máxima atenção.
– Perdão Betty, retifico. Não é um despropósito, Willie; você deve considerar os Celestes. Já sabemos, ou supomos saber, o que os Celestes querem. Reputamos que eles querem o nosso bem, como um bom exemplo, eles conseguiram estancar a violência e o egoísmo, caminhos que a humanidade trilhava irresponsavelmente até os tempos do Collins. Com a nossa política de incentivo aos líderes dos expedicionários, nós demonstramos que aprendemos a lição. Não somos egoístas.
– Ao contrário, a tendência desses líderes, a de buscar uma situação de monopólio dos contatos com os Celestes, demonstram que eles são audazes, sim, mas ainda egoístas. Um pecado capital para os Celestes – de acordo com nossas suposições sobre eles, ao menos.
– Betty, eu estava supondo, e me preparei para isso, que deveríamos passar um mês inteiro em discussões para chegarmos a traçar uma política com os expedicionários e os Celestes e, este nosso amigo aqui, em uma única sentada, depois do jantar, resolveu todos os problemas. O que acha passar para ele a Presidência do INA?
– Boa ideia Willie, assim podemos ficar indefinitivamente nesse nosso yacht. Cristian, por favor, aceita a oferta do Willie. Please…
– Amanhã darei uma resposta… agora estou cansado, acho que chegou a hora de ir dormir.
– É isso mesmo, vamos todos descansar, temos um mês inteiro de sol e mar pela frente, precisamos descansar. Boa noite, Cristian.,
Dormi bem, me pareceu que todos os meus problemas sumiram; talvez não, mas pelo menos assim me parecia, e isso já foi o suficiente para eu adormecer de imediato.
Levantei-me cedo. O céu já estava claro, era a transparência do ar logo antes do sol surgir; andei pelo deck superior, apreciando o leve oscilar do barco e o ar fresco da madrugada. Me apoiei na amurada, olhando as ondas e pensando em absolutamente nada. Somente agora, nesta clara madrugada é que percebi os enormes esforços que despendi ao longo destes últimos anos. Mas estava em paz.
– Já de pé? – A voz do Willie afugentou os meus devaneios.
– Vejo que você, também, levantou-se bem cedo; não conseguiu dormir?
– Ao contrário, dormi muitíssimo bem, deve ter sido o efeito de termos, aparentemente, resolvidos os nossos problemas.
– Sim, os problemas imediatos, sempre se as nossas hipóteses se demonstraram corretas, mas existe uma série infinita de problemas a resolver, se for nossa intenção resolvê-los. Mas não esqueça que os podemos deixar para outros.
– Nesta bela madrugada não estou nem um pouco propenso a me preocupar com problemas, muito menos de uma série infinita, como você disse.
– Concordo com você, vamos nos concentrar nos peixes que não conseguiremos pescar.
– É isso aí, Cristian, vamos nos dedicar a pescaria; amanhã chegaremos na área de bons peixes, os fáceis de pescar. Nenhum de nós é um artista nessa tarefa, mas até lá, somente por mera curiosidade, em lugar de uma” série infinita de problemas”, como você disse, poderia adiantar somente dois ou três?
– Foi você quem pediu, Willie, não venha depois se queixar que estraguei as tuas férias.
– Não farei isso. Vá falando.
– Nós, em conjunto, conseguimos descobrir “QUEM” deu os poderes ao Collins. Agora deveríamos descobrir “ONDE” eles estão e, finalmente, “POR QUÊ” estão fazendo o que estão fazendo.
– Somente isso…? – E ambos caíram nas gargalhadas.
F I M D O L I V R O 1 : “ Q U E M ? “