Como disse Júlio César: “Os dados estão lançados”.

Agora, depois da inauguração da nossa sede na Quinta Avenida, todos os descrentes, a quase totalidade dos habitantes de New York, podiam, querendo, vilipendiar a escola de voo e o seu fautor.

O tempo para mim se encurtou sobremaneira, tinha que correr.  Corri então para a Virgínia, visando averiguar a situação das obras.   Lá constatei que as que ficaram a cargo do aéreo clube, como a nova e maior pista de decolagem, já estavam concluídas.  No momento, faltava somente finalizar a instalação dos novos sistemas elétricos e eletrônicos.

Ao contrário, as obras do complexo da escola ainda estavam longe de estarem terminadas.   Os responsáveis, o escritório de arquitetura e as diversas empresas contratadas, em reunião conjunta, demostraram–me que seriam necessários ainda cinco meses para a conclusão, mantendo os padrões que tinha estabelecido.  Finda a demonstração, concluí:

– Bem amigos, realmente, pelos compromissos que assumi, eu não poderia aceitar este maior prazo, que ultrapassa o estabelecido anteriormente.  Convenceram–me, porém, que a situação real é essa mesmo.

Darei então este prazo adicional, com a condição que, num prazo de um mês, vocês todos me conseguem terminar um espaço adequado ao alojamento de uma vintena de pessoas.  É possível?

O chefe do escritório de arquitetura, que sempre tinha demostrado que não se abalava com crises ou críticas, interveio:

– De fato, na programação inicial, nós não consideramos diversos pequenos contratempos que, somados, resultaram na presente situação.   Para terminar este complexo, conforme os padrões estabelecidos, infelizmente serão necessários diversos meses suplementares.  Com estes podemos fazer uma nova programação e, nesta incluir o seu pedido sem alterar o projeto geral.  Vamos nos esforçar para deixar pronta, num prazo de trinta dias, uma parte do alojamento e dos serviços essenciais para duas dúzias de pessoas.

Concordei. Resolvida essa questão, fui visitar os hangares que já estavam prontos. Eram construções modulares simples.   O chefe da manutenção dos aviões, que foi a primeira das minhas contratações, estava numa oficina imaculada, manipulando algumas peças numa bancada.

– Bom dia, Billy, algum problema?

 – Bom dia chefe, foi bom ter vindo.  Não, não tem problema algum.  Somente achei oportuno revisar todo o sistema de alimentação de combustível do biplano; é equipamento usado e é aconselhável fazer uma revisão geral; logo que termine este serviço, farei também uma revisão dos ailerons e dos sistemas do leme.

– E aquele avião novo, aquele não precisa de nenhuma revisão?

– Não acho necessário, já fiz uma rápida vistoria junto com o piloto da fábrica que o trouxe.  Esse avião é uma beleza, não é?

Fomos ver os dois aviões, o primeiro, um velho biplano, bem revisado, parecia até recém-saído da fábrica em 1940.  Sem uma cabine fechada, no posto de pilotagem do aluno, locado na frente do instrutor, este podia sentir, quando no ar, a velocidade, os movimentos e as imagens de maneira direta e contundente.

O outro avião era novo, brilhava e, como dizem as mulheres, era “lindo de morrer”…  O motor era de doze cilindros em linha, criando assim uma “silhueta” que ressaltava as suas qualidades aerodinâmicas; parecia de aço, brilhava como aço, mas, evidentemente, não era de aço.

– Bonito né?  – O rosto do Billy se iluminou todo, contemplando a sua aquisição.

Não entendo nada de aviões, quem definiu quais eram necessários para a nossa escola, foi o Billy, mecânico de avião com vinte anos de experiência e bem recomendado pelo diretor do aéreo clube.

Voltei para New York relativamente satisfeito; o centro de treinamento, que parecia mais um spa de luxo, ainda não estava pronto, em compensação, um lugar para acomodar os primeiros alunos estaria disponível em um mês.

Teria a escola alunos?   Esta era uma dúvida que nunca saia da minha mente.

Voltei para a Quinta Avenida, uma semana depois da inauguração.   Fiz isto propositalmente, para averiguar como os sistemas e o pessoal todo se comportariam sem a minha presença.

A maior criticidade ocorreu no “call center”; presumi que duas telefonistas atenderiam, com sobras, aos pedidos de informações; nem com uma terceira telefonista, colocada precariamente como medida emergencial, se conseguiu atender satisfatoriamente a demanda.

No setor de e–mails a situação estava um pouco melhor. Estavam as cópias em papel, destes e–mails, separados conforme o conteúdo: se eram pedidos de esclarecimento ou pedidos para frequentar o curso, seriam  encaminhados para o processo normal de atendimento.

 Os “demais” estavam separados em dois blocos, o primeiro era dos que, de uma forma ou de outra se manifestavam favoráveis a finalidade da escola, o segundo era formado de uma heterogênea série de mensagens que variavam desde o xingamento puro e simples até argumentações “científicas” demostrando a impossibilidade de alcançar o objetivo da escola.

O segundo bloco de e–mails, reunidos em diversas pilhas, foi colocado na minha mesa de reuniões, pois não cabia na minha mesa de trabalho. O primeiro bloco de e-mail, os favoráveis a escola… bem, era escandalosamente menor, como era previsível.

Já tinham sido realizadas mais de quarenta entrevistas presenciais iniciais.  Por cerca de duas horas as analisei, ainda não formavam um quadro nítido.    A amostra era ainda pequena.

Resolvi dedicar, todo os dias, o tempo necessário para a análise das entrevistas supervenientes, até ter uma percepção do perfil dos aspirantes a voar por conta própria.

Três semanas depois, com cerca trezentas e cinquenta entrevistas realizadas, pude ter uma visão bastante clara dos futuros alunos, se chegaria a este futuro…

A idade média variava entre 25 e 55 anos; existia um corte, pessoas com menos de 25 anos não seriam entrevistadas, mas não existia limite superior.  

À pergunta sobre a própria saúde, todos, literalmente todos, responderam dizendo que era perfeita.  Confrontando com a altura e peso, por eles mesmos declarados, ficava evidente que isso não era a realidade.

À pergunta crucial: se podiam pagar o valor requerido, somente vinte três disseram que sim, duzentos e poucos disseram talvez, e o restante disse que não, mas que gostariam taaaanto…

O grupo dos que “talvez” pagariam, foi o mais interessante; cerca de um terço declarou que tinha grande probabilidade de, num prazo razoável, dispor da quantia; o segundo maior grupo era de candidatos que disseram que iam vender alguma propriedade ou fazer empréstimo bancário para conseguir o valor, os demais se deleitaram no “talvez”.

O interessante foi que ninguém colocou, como fonte de pagamento, um pedido à própria família.

Por qual motivo queria voar?  A esta pergunta, simples e direta, o teor das respostas era tão heterogêneo que precisaria de uma amostra muito maior para descobrir alguma tendência, se chegasse a existir.

O mesmo aconteceu com a última e traiçoeira pergunta. Acredita que o homem pode voar sem nenhum dispositivo auxiliar?

Essa, percebi agora, foi uma crueldade da minha parte.   Os candidatos, nas argumentações, subiram nos espelhos para demonstrar que acreditavam nisso, sim, mesmo estando subjacente uma atávica, presumo eu, descrença que permeava a resposta.

Agora, inteirado da situação interna, dediquei–me a descobrir como estava a situação na frente externa.  Já tinha marcado um encontro num restaurante, campo neutro, com os donos de duas redes de televisão da cidade.

Aproveitei os dias de espera lendo os jornais; os de maior circulação ignoraram por completo o evento da inauguração da escola e tudo que nisso estivesse implicado.

Os de menor circulação, os de bairro ou setoriais, noticiaram a inauguração como um evento típico e próprio da Quinta Avenida, subjazendo, portanto, uma leve crítica a esta.   Não entraram no mérito se o homem podia voar ou não.

A informação que existia uma escola para isso, porém, foi bastante divulgada.

Para saber quais foram as notícias mostradas pela televisão, foi fácil; interpelei a Jane, que representava o grande contingente feminino da nossa organização.   “Nada, nada de nadinha… nem um pio”, garantiu.

Depois me convidou a entrar na “minha” sala, e com um tom de voz bem diferente, questionou–me:

– Diga–me a verdade, vamos ensinar mesmo a voar?

– Sim, sem dúvida.

Gostei do “vamos” dela, queria dizer que ela se sentia, ainda, parte da equipe, assim acrescentei: – com certeza que vamos fazer isso, a descrença era prevista.  O que acham as nossas beldades, creem nisso ou não?

– Elas nem creem nem descreem.  Gostam do ordenado, do ambiente e do serviço fácil e divertido, que mais poderiam esperar?

– Compreensível e natural. 

– Jane, tenho um favor a te pedir, antes deve saber que não pode comentar a respeito disso com ninguém, nem com sua mãe.

– Nem com mamãe?

– Nem com ela, e peço desculpas por isso; estamos de acordo?

– Sim, mas é bem difícil.

– Tente, é somente por pouco tempo.

– Okey.

Assim contei a ela do próximo encontro com os donos de duas redes de televisão da cidade. Disse também, que não tinha a mínima ideia do resultado e que, finalmente, precisava de um grande favor dela.

– Qual?

– Você poderia pedir à organização do concurso de Miss Universo se estariam interessados em promover uma reunião, aqui em New York, com uma série de eventos, durante uma semana ou mais, das Miss Universo, dos últimos cinco anos ou dez, sei lá?

– Mas qual seria a finalidade?

– Oficialmente?

– Sim, oficialmente.

– Bem seria uma resenha ao vivo e em cores do que poderia acontecer a uma ex Miss Universo ao longo dos anos.  Algumas terão casado, algumas dessas terão tido filhos, algumas terão filhos sem estarem casadas, e outras terão casado sem ter filhos.  A mais, o que estariam fazendo?  Trabalhando?  No quê?  Estudando?  O quê?   Não fazendo nada?  Por quê?  E como conseguem isso?  São infinitas as perguntas e as respostas.  Para a televisão, e para a curiosidade geral, este seria um grande evento.

– Que coisa interessante, … nunca teria imaginado uma coisa dessas, e como se poderiam trazer essas pessoas de tantos países longínquos e diversos?

– Já ouviu falar em aviões?

– Não brinque comigo, por favor, deixa eu pensar um pouco, sim?

– Sim, pode pensar.  Tem todo o tempo do mundo, desde que não ultrapasse meia hora.    Desculpe, mil desculpas; brinquei com você de novo.

Uma semana depois, Jane me disse que tinha marcado um encontro com um dos diretores da organização do concurso de Miss Universo, um tal de Verstain, muito estimado por ela.

Após o demorado almoço com o Verstain, Jane me procurou e passou a relatar o resultado. Já eram quatro da tarde quando voltou ao escritório.

– Almoçamos no “Reinold´s”, belíssimo lugar e boa comida.   O Richard pediu um vinho branco de Baume, uma delícia, e…

– Richard?   Que Richard?

– Richard… Richard Verstain, ora.

– Desculpe, continue.

– Como entrada o Richard aconselhou que eu pedisse um…

– Espera um pouco Jane, para com isso.   Quero saber o resultado do encontro, não o que constava no cardápio.

– Desculpe, pensei que você se preocupasse com o meu bem-estar e não com meros negócios.

– Sou eu que peço desculpas, conta então.

Jane explodiu em gargalhadas.

– Adorou, adorou imensamente a sugestão, quase me beijou durante o almoço de tão entusiasmada que estava.

– Para querer beijar você, não são precisas boas notícias comerciais, acho eu.    Mas, diga–me, o que pensou fazer?

– Oh, muitas coisas, falou sem parar por mais de uma hora.

– Você disse para ele que o primeiro evento deve ser aqui?

– Sim, acho que sim.

– Disse também que você deveria ser a hostess de todas as programações?

– Não, acho que não.

– Por acaso você esqueceu de dizer a ele que o evento seria uma ação conjunta deles conosco?

– Ah é?

– Bem Jane, me dê o telefone dele, que vou completar o seu trabalho.

– Você está zangado comigo porque não me lembrei das coisas?

– Nem um pouco, você fez um belíssimo trabalho, agora eu vou terminá-lo.

Fiz Jane telefonar para o “Richard”, e depois de apresentar–me, logo me passou o telefone.

– Alô Richard, boa tarde.   A Jane me disse que você foi um grande anfitrião, adorou o vinho de Baume e que você gostou da proposta.  Será que os demais da vossa empresa também gostaram?

– Boa tarde também.   Que bom que Jane gostou do almoço, nós também gostamos da proposta dela e já estamos trabalhando no projeto.

– Na proposta que ela transmitiu?

– Sim, sim,… na proposta que ela me apresentou hoje no almoço, essa mesma.

– Ótimo, então é aquela mesma que ela lhe transmitiu.

– Sim, é essa mesma, mas, francamente não estou entendendo muito do que estamos falando.

– Desculpe se nós não nos entendemos, a culpa deve ser minha; vou repetir e me corrija se disser algo errado.   Nós estamos falando da proposta que a Jane lhe transmitiu?

– Sim, já disse, é essa mesma.

– Mil perdões, é que eu não tive ainda tempo de almoçar e estou vendo que não estou na melhor forma.     Seria possível nos reunirmos para discutir a proposta, pode ser no seu escritório ou aqui no nosso, como achar melhor.

– Não sei do que podemos discutir, desculpe a franqueza, acha isso necessário?

– Não pediria se não achasse necessário.

– Mas trataríamos do quê?

– Naturalmente da proposta que a Jane lhe transmitiu.

– Para quê?

– Ora, para acordarmos o que vamos fazer e como vamos fazer.

– Bem, meu senhor, não entendi muito bem o que me disse, mas, mesmo assim, vou transmitir isso tudo ao nosso presidente.   Passar bem.

E o Richard desligou.

Telefonei imediatamente para os meus advogados, perguntei quem deles podia me acompanhar ao escritório de registro de marcas e patentes, aquele que estava a umas três quadras da nossa sede.    Deveria alguém do escritório estar, amanhã às dez horas, no saguão da entrada do edifício, sem falta.   Poderiam confirmar no meu telefone, ficarei no escritório até cerca de meia noite.

Depois chamei a Jane e pedi que me dissesse com a máxima precisão o que o querido Richard lhe tinha dito sobre a proposta, não sobre o cardápio.

Trabalhei diversas horas sobre um documento, e sendo que, o escritório de advocacia tinha confirmado o encontro, já às dez e meia fui para casa.

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