Fui o primeiro a chegar ao restaurante escolhido para a reunião reservada com os donos de duas das redes de televisão da cidade.  Este era um dos muitos restaurantes de New York, famoso pelo luxo e boa comida e, também, por manter um ambiente com uma certa discrição.  Fiquei esperando bastante tempo, cheguei até a pensar que tinham desistido. Mas não, chegaram, juntos e esbaforidos.

– Perdoe o nosso atraso, não conseguimos manter a necessária e educada pontualidade britânica.

– Não se preocupem, os britânicos eram pontuais porque tinham um império que lhes permitia isso.

– Belo.    Não pediu ainda nenhum aperitivo?

– Não, não costumo beber aperitivos.  Bebo somente durante a refeição; um bom vinho ou uma boa cerveja, dependendo do clima e do tipo de comida…

– Não se incomoda se nós tomarmos um aperitivo?

– Nem um pouco.

Pediram os respectivos aperitivos, se acomodaram melhor nas poltronas e…

– Como está indo a tal da escola?

Estavam indo direto ao assunto, sem preliminares inúteis.

– Estamos nas primeiras semanas.  Estamos fazendo a entrevista inicial com os interessados.

– São muitos?

– Por enquanto cerca de quinhentos.

– Quinhentos?    São muitos – Interveio o outro comensal que, até aquele momento tinha aberto a boca somente para mastigar petiscos e beber o seu aperitivo.

O primeiro, que chamarei de “Peter”, para não divulgar o seu nome, baixou o tom de voz e, fixando–me intensamente, sibilou:

–Esta reunião não está acontecendo, certo?

– Nunca aconteceu.  Foi a minha resposta, tentando imitar o seu sibilar.

– Ótimo.  Então qual é o objetivo da sua, digamos, escola?

– O objetivo final, não é certamente de ensinar alguém a voar, mas para chegar a este, devo obrigatoriamente ensinar a um bom número de pessoas a voar.

– Deixa eu digerir esta informação.  Bastante complexa, não é?

– Sim é.   O que disse para os senhores, até agora, não o disse a mais ninguém.  Acho que nesta reunião, que nunca aconteceu, devemos ser francos e reservados.  Devemos, penso eu, verificar, em que os nossos próprios particulares interesses coincidem e trabalhar nisso.

O comedor de pastéis, que chamarei de “Paul” interveio.

– Gostei da sua colocação, mas o que disse antes?

– Antes?

– Antes, quando disse que para atingir ao seu misterioso objetivo maior, tem que ensinar alguém a voar, é isso mesmo?

– É sim.

– Sim mesmo?  Você vai mesmo ensinar a voar?

– Sim, mas, para esta conversação, que nunca ocorreu, crer ou não crer é totalmente irrelevante, devemos…

Fomos interrompidos pela chegada dos pratos encomendados.

Vamos fazer uma pausa na nossa discussão – interpôs o “Peter” – podemos continuar depois enquanto tomamos um digestivo. O Senhor toma digestivos?

– Sim, tomo, …, mas podem–me chamar de Edward.

Os demais também declinaram o nome próprio.

Discutimos, depois do almoço, o que era de interesse deles e o que era o meu.  O deles era audiência, tão de agrado aos patrocinadores, sempre que isso não colocasse em risco a credibilidade da própria rede de televisão.

Do meu lado a coisa não era tão simples: num futuro não definido, daria a eles prioridade, em informações, sons e imagens, em troca de um apoio indefinido num porvir nebuloso.

Ambos pareciam satisfeitos.

– Uma curiosidade apenas – na despedida o “Peter” indagou: Parece–me que você não precisa de dinheiro, é isso mesmo?

– Não, não preciso.

– Isto é bom, muito bom.

Nada de bom, porém, encontrei nos jornais tentando compreender o confuso universo de opiniões que ia se formando ao redor da ideia de que “o homem pode voar sem o auxílio de qualquer equipamento.”

A grande maioria dava por óbvio que isso era impossível e questionavam qual podia ser o escopo dos fautores da tal escola, ficando somente nisso.

 Um segundo grupo ia mais longe, apresentavam uma série de possíveis objetivos, nenhum louvável, e afirmavam que alguma autoridade deveria investigar o caso.

Um terceiro grupo, bem menor, não questionava a possibilidade ou não do voo humano sem nenhum equipamento, mas o que isso podia implicar para as atuais estruturas econômicas e sociais.

Diversas e interessantes colocações foram feitas, todas bem plausíveis.  Todas, porém, pecavam pela escala.   Estava bem evidente nos modelos do futuro que prospectavam  que a totalidade da humanidade estaria voando.

Bem interessante foi o que escreveu um jornal de Albany, que afirmava que o custo do curso era barato, muito barato, com evidente espanto dos leitores desse jornal, dado que já era de domínio público que era necessária a quantia de 200.000 dólares para frequentar o curso.   Era tida como uma quantia considerável, se não, exorbitante.

O jornal afirmava que se se deduzissem as esbanjadoras despesas do luxo das acomodações e outras, como, por exemplo, o curso para obtenção do “brevê”, que consideravam desnecessário, resultaria que o custo final poderia ser de somente 30.000 dólares, não muito mais que o valor de um carro popular.

Seja o que for, estava–se cristalizando na opinião pública, além da conclusão preponderante de incredulidade, a certeza que isso implicaria em dramáticas e não positivas mudanças; milhões de empregos sumiriam.

Os aspectos positivos, raramente e superficialmente eram mencionados.  Após o inicial entusiasmo geral; muitas das possibilidades já estavam entrando no repertório dos humoristas e nos desenhos dos caricaturistas de diversos jornais.

A cansativa pesquisa que diariamente fazia, sobre o que se escrevia e se veiculava em relação ao voo humano e as suas implicações, foram extremamente úteis na correção de rota das minhas estratégias.  Não tardariam as “autoridades” a intervir, devido as já numerosas solicitações dos leitores, de esclarecer a situação e tomar as medidas cabíveis.  Quais seriam as autoridades e o que deveriam fazer, ninguém sabia e ninguém disse.

Eu, porém, pela atenta leitura dos jornais e revistas, sabia o que tinha que fazer, e rapidamente.  Entrei em contato com os meus advogados e dei instruções para que, na minuta do contrato que faríamos com os futuros alunos, constasse que o custo se referia somente as despesas reais inerentes ao alojamento e alimentação e aos vários graus de instrução que seriam ministrados na escola, e que o treinamento para o voo humano, propriamente dito, seria ofertado, aos mais capacitados, gratuitamente.

Isto de um lado me protegia de uma certa classe de autoridade, mas, de outro lado contrastava com o meu desejo de ter a maioria das pessoas “contra” a escola, preferia um grande choque coletivo quando, e se, os primeiros iniciassem a voar.

Ponderei que o teor do contrato viria a público somente passados alguns meses, e que, até lá, teria já a minha desejada e planejada oposição ao objetivo declarado da escola.

Com as grandes empresas que poderiam se sentir ameaçadas nos seus interesses, petroleiras, fabricantes de carros e etecétera, não me preocuparia por hora.

No devido tempo, isto é, no tempo deles, viriam com tudo, esmagando qualquer coisa, ideia, projeto ou somente a mera possibilidade se algo  pudesse se interpor entre eles e os seus lucros.

Enquanto pensava e trabalhava nisso tudo, dediquei–me a resolver um pequeno problema, pequeno para a humanidade, mas grande e sensível para Ernest Kalligan.  Quem seria este fulano?

Como todos já sabem, na nossa organização da Quinta Avenida trabalham mais de umas vintenas de mulheres, todas bonitas, inclusive as dos serviços de limpeza e de copa; de homens existiam somente quatro, eu, os dois homens da segurança que circulam entre a porta de entrada e as salas das entrevistas e Ernest Kalligan, o contador, tesoureiro e administrador da nossa pequena organização.

O que ele tinha de peculiar?    Seria melhor dizer o que não tinha; faltava–lhe uma polegada da perna esquerda.  Talvez por isso trabalhava muito na sua mesa e usava intensamente o telefone, reduzindo, assim, ao mínimo a necessidade de circular por aí com o seu problema.

Este, na realidade, se agravou muito depois de ter vindo trabalhar conosco; o ambiente feminino, para ele, era estimulante e constrangedor ao mesmo tempo.  Ele me foi recomendado por Robert, também exímio contador e atual marido da minha ex esposa.

Um dia, cansado de ler jornais, entrevistas, resumos e estatísticas, o convidei para vir na minha sala.

– Ernest, posso chamá-lo de Ernest?  –  Até aquele momento o chamava de senhor Kalligan.

– Pode sim, tranquilamente.

– Muito bem, Ernest, sente–se aí e fique cômodo.   Algo para beber?

– Não senhor.

– Me chame de Edward.

– Sim senhor.

– Como?

– Sim, Edward.

– Então Ernest, o homem que trabalha muito e bem, poderia dar licença para algumas perguntas?

– Quantas quiser…  Edward.

– Estou meio constrangido, são perguntas pessoais, delicadas.

– Pode fazê-las, sim, fique à vontade.

Percebi, porém, que quem não estava mais à vontade era ele.

– Vamos lá, mas se não quiser responder, não responda, de acordo?

– De acordo.

– Ernest, você já procurou resolver o seu problema?

A súbita vermelhidão do seu rosto demostrou que o tinha atingido no seu ponto sensível.  Baixou o rosto e respondeu com voz baixa.

– Já.

– E teria, desculpe, alguma solução?

Demorou a responder, mas enfim disse:

– Teria.

– E o que seria, fazendo o favor?

– Uma operação, uma operação na perna, isto que seria.

– Ótimo, amigo Ernest, mas porque não a fizeste? – O silencio foi tão longo que tive de acrescentar:

– Desculpe muitíssimo Ernest, se quiser podemos parar por aqui, mas gostaria muito de saber o porquê.

– Caro, muito caro.

Mais adivinhei do que ouvi.  A voz era bem débil.

– Suponho que sim, até para uma simples operação de apendicite cobram um monte de dinheiro… quanto seria no teu caso?

– Sessenta mil.

– Sessenta mil, então….

– Além de quarenta cinco dias parado, sem poder trabalhar.  Acrescentou amargurado.

– Entendi, Ernest, entendi.    Vou te fazer uma proposta.    Nós, a empresa, te emprestamos o dinheiro.    O devolverá quando tiver possibilidades de fazê-lo e em prestações, até de cem dólares por semanas.    O que acha?

– Que iria demorar muito tempo.

– Você está com pressa?

– Oh… não.

E, pela primeira vez, desde que entrou na minha sala, vi um sorriso no rosto dele.

Alguns anos depois, diversas pessoas me perguntavam: como eu conseguia ter amigos e colaboradores tão fiéis.    “Não sei”, respondia, “devo ter tido muita sorte”.

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