Bettina, a minha secretaria, que tomava conta também do call center, me avisou que um certo Richard Verstein queria falar comigo com uma certa urgência. Pedi que fizesse a ligação de imediato.

– Alô Richard, bom dia, sou o Edward da escola…

– Sim, Edward, bom dia, tem um minuto de tempo?

– Todo o tempo que quiser, Richard.

– O nosso Presidente me pediu para te perguntar se poderia se encontrar com ele.

– Naturalmente, quando e onde quiser.

– Neste caso a sugestão dele é de vir aqui, quando achar conveniente.

– Se não for incômodo, poderia estar aí em meia hora, antes de ficar envolvido nesta teia de aranha que é o meu escritório.

– Excelente, avisarei o McCann, nosso presidente, que você já está a caminho. Tem mais uma coisa, um favor muito pessoal, agradeceria muito se o fizesse.

– Claro Richard, fique à vontade.

– Deve saber que, aqui na nossa empresa, temos uma política muito rígida em relação as nossas candidatas nos concursos que patrocinamos, muito rígida mesmo. No caso de uma ex miss, não tem nada de estabelecido, mas tenho certeza de que um relacionamento social, se não for extremamente público, não seria visto com bons olhos.

– Entendi Richard… acho que você teve um encontro com a senhorita Jane aqui, no nosso escritório.

– É a isso mesmo que me refiro… Agradeço muito.

– Que é isso, Richard, não precisa agradecer.

O escritório deles, bastante luxuoso, estava numa rua transversal à Broadway; achei a localização bem escolhida e, digamos, emblemática.

McCann, presidente e maior acionista da empresa, me acolheu com muitas cerimonias, mas, uma vez bem instalados nas cômodas poltronas do seu escritório, entrou imediatamente no âmago da questão.

– Se bem entendi, senhor Collins, parece que o senhor gostaria de entrar no nosso negócio.

– Dito assim, mil perdões, parece até que gostaria de ser um concorrente da sua organização. Não é bem isso.

– Então, … o que seria?

– Como certamente já sabe, miss Jane, vossa criação, trabalha conosco em uma posição de relevo. O recente passado dela, e a sua beleza, permeiam o nosso ambiente de trabalho e, às vezes, por uma razão ou outra, se discorre sobre esse passado. Foi nessas circunstâncias que me veio a ideia de querer saber o que poderia ter acontecido com as Miss Universo dos últimos dez anos.

– Entendo. Pareceu–me, porém, que ocorreu um pequeno desentendimento, pelo menos assim me disse o Richard.

– Sim, é verdade. Receio que eu fui o culpado; discutimos na empresa os detalhes dessa ideia, e a senhorita Jane achou oportuno transmiti-las à sua organização através do senhor Verstain,

– Não me disse qual foi o desentendimento e nem porque o senhor teria alguma culpa nisso.

– A minha parcela de culpa provém do fato que, na hora marcada para o nosso encontro – o encontro da senhorita Jane e eu mesmo, com o senhor Verstain – tive que sair rapidamente devido a um assunto relevante para o nosso questionado negócio.

– Sim imagino, a famosa escola…

– Ainda não é famosa, mas já é bastante contestada. Ia dizendo que, eu não estando, a senhorita Jane, apresentou o esboço do nosso plano. Derivou daí o equívoco. O senhor Verstain achou que a ideia era da senhorita Jane, portanto, estava no âmbito da experiência dela como Miss Universo e, de consequência, da área de competência da vossa organização. Bastante natural. Ele, enfim, entendeu que o plano era da senhorita Jane; eu entendia que o plano lhe foi transmitido através a senhorita Jane.

– Entendo, então, que o plano é seu, e que devemos negociar com você?

– Deus me livre. O plano é meu sim, mas não quero “negociar”; somente sugeri, mera sugestão, duas condições, … assim, de leigo.

– E quais seriam?

– Que a senhorita Jane fosse a âncora de todo o programa televisivo, e que um dos programas fosse realizado na nossa sede na Quinta Avenida.

–Somente isso? Parece–me que, se for somente isso, fizeram uma tempestade num copo d´água.

– Sim somente isso. Acho que esse assunto não deveria fazer perder o seu tempo e nem o meu a dizer a verdade; mas, já que nós estamos nos entendendo, gostaria de colocar mais uma condição que me ocorreu agora.

– Mais uma então. Seria alguma compensação financeira?

– Absolutamente não. O que gostaria seria que, além da rede de televisão que usualmente transmite os vossos eventos, também a televisão do grupo Rubinstein participasse.

O até então sisudo presidente McCann, prorrompeu numa estrondosa gargalhada. Refeito, alguns segundos depois, se explicou:

– Desculpe–me senhor Collins. Peço desculpas. Vamos lá, …. em relação às suas duas condições iniciais, a princípio, não vejo nenhum problema para serem atendidas, em relação ao último, devo–lhe informar que, há pelo menos vinte anos, tentamos acrescentar uma outra rede de televisão ao nosso sistema de comercialização, mas, infelizmente, a rede que utilizamos se vale de um contrato que meu pai fez trinta anos atrás e que vence somente daqui a vinte anos.

O contrato, infelizmente, é extremamente claro e rígido, e tem a duração de cinquenta anos, como já disse. Por meio século, então, devemos ficar vinculados a ele e somente a ele. Tentei, de mil maneiras, convencer o cabeça dura do Sigmund, mas nunca consegui demovê-lo.

– Poderia tentar mais uma vez?

– Como?

– Telefonando–lhe e dizendo que essa é uma sugestão minha, de Edward Collins.

– Não está brincando?

– Não. Tente.

Ficou um bom tempo pensando, finalmente, pediu a ligação e começou a falar. Nesse momento achei oportuno me afastar para deixá-lo mais à vontade, mas ele fez vigorosos acenos para eu ficar sentado.

Logo finda a curta conversação, ele se reclinou na poltrona, fechou os olhos e murmurava repetitivamente:

– Não acredito. Não acredito….

Finalmente, depois de um bom minuto, endireitou–se, e com voz um pouco esganiçada gritava:

– Ele aceitou. Ele aceitou. – Pouco depois, mais calmo, repetia: – Ele aceitou de imediato, de imediato, logo que soube que era uma sua sugestão. Que diabos de poderes você tem, além de fazer com que as pessoas voem e outras concordem com as suas “sugestões”. Me diga, quais outros poderes ainda esconde?

– Nenhum. Nenhum outro, pode acreditar.

O “cabeça dura do Sigmund” era o tal de “Paul”, do encontro que nunca aconteceu.

Algumas das autoridades chamadas a tomar “providências” em relação a nossa escola enfim se manifestaram.

Foi todo o staff da esfera municipal que se fez presente. No curto período de três semanas, quatro órgãos municipais vieram nos visitar.

O primeiro foi o departamento de segurança contra incêndio, que averiguou, minuciosamente, se todas as disposições e regulamentos na área de competência deles continuavam sendo atendidas.

Acompanhei os sisudos profissionais durante toda a inspeção. A única, quase, irregularidade que encontraram, foi a distância de uma cadeira em relação a um extintor de incêndio. Eles achavam que a cadeira, estava perto demais; eu argumentei que a distância era apropriada, mormente considerando que, as normas nada esclareciam sobre este caso. No fim acedi, e afastei a cadeira de quatro polegadas.

O segundo foi o departamento de vigilância sanitária. Eles entraram logo em ação no primeiro minuto e nos intimaram a não utilizar “essa” cozinha para preparar as nossas refeições. Informamos que nunca a utilizamos, a encontramos assim quando alugamos o local e que, todos nós, almoçávamos fora do escritório. A copa, que era utilizada intensamente, minuciosamente inspecionada, foi aprovada.

O terceiro foi, vejam só, o departamento no qual trabalhei por dois anos e meio. Falei para esses inspetores, que sim, podiam verificar tudo o que queriam, mas, por eu ser um mero inquilino, portanto isento de qualquer responsabilidade em relação as estruturas e as instalações elétricas e sanitárias, achava oportuno, afirmei com ênfase, que deveriam convidar o proprietário do imóvel para esta vistoria.

Acrescentei, ainda, que agradeceria muito por qualquer irregularidade encontrada, que, uma vez sanada, aumentaria a segurança e conforto de todos os que aqui estão trabalhando.

Por último, mas bem mais enfadonhos, vieram os inspetores da área tributária para verificar se todos os impostos de alçada municipal foram pagos, conforme as alíquotas corretas e, principalmente, nos prazos estabelecidos. Esta tarefa era da alçada de Ernest, e ele se saiu bem, como era de se esperar.

Fiquei tentado a enviar uma carta de agradecimento ao senhor prefeito por ter privilegiado, em detrimento de outros, as instalações nas quais, eu e os meus colaboradores, estávamos confinados pela maior parte da nossa vida ativa.

Terminaria dizendo: A ação conjunta dos departamentos municipais garantiu a nossa segurança e aumentou o nosso conforto, e por isso agradecemos efusivamente Vossa Excelência.

Tinha, porém muitas coisas sérias com que me preocupar. Esqueci o prefeito.

A principal preocupação, que estava na minha cabeça desde o momento que pus o pé em Lawrencburg, foi de tentar descobrir o que as autoridades federais podiam fazer em detrimento da minha escola e, consequentemente, estudar o que podia fazer para precaver–me.

Depois de muitas conversas com os meus advogados mais experientes, fui para Washington, instalei-me em um confortável hotel e me dediquei a montar um serviço de informações que me alertasse sobre eventuais medidas restritivas às minhas atividades e ao meu objetivo final.

Cheguei às primeiras conclusões durante o jantar no restaurante do hotel. Estava demasiado cansado para fazer explorações gastronômicas ou etílicas na cidade.

Primeira premissa. A esfera federal era composta por três ordens distintas: o legislativo, o executivo e o judiciário.

Primeira conclusão: As ameaças podiam vir da ação ou, até, da inação de cada uma dessas ordens, seja autonomamente ou em conjunto.

Segunda premissa. As três ordens são diversas, não somente em relação as próprias competências, mas, também, na estrutura, na origem do poder, na duração dos mandatos, e, consequentemente, diversas também são as esferas legais e funcionais nas quais operam. Finalmente, diversos são os homens reais que nelas atuam, e diversas, finalmente, são as culturas que se foram criando ao longo do tempo. Como resultado disso tudo, cada um dos três poderes, tornava-se um universo específico com as suas próprias peculiaridades.

Segunda conclusão. Contratar e montar um sistema único de inteligência não seria muito produtivo; seria mais produtivo dispor de três organizações diversas, porque bem diversos são os universos nos quais atuam.

Terceira conclusão: Já chegou a sobremesa, depois de terminá-la, vou para o meu quarto e, antes de desmaiar de cansaço, vou dormir.

Não foi fácil, nem rápido, mas consegui.

Tinha montado três grupos de pessoas que fariam o serviço de acompanhamento de tudo quanto ocorria no âmbito dos três poderes; queria a relação de fatos, eventos, programas e projetos de leis, enfim, de qualquer movimento político, legal ou programático que pudesse colocar em risco o funcionamento da escola.

Custou cansaço e dinheiro, mas três sistemas de acompanhamento da evolução do que aconteceria na capital, estavam constituídos. Dei–me alguns dias de descanso e aproveitei a oportunidade para visitar muitos dos locais públicos que somente conhecia através de filmes ou fotografias.

Visitei assim, com os tradicionais grupos de visitantes acompanhados e vigiados, a Casa Branca, o Congresso e outros locais notáveis. Quando visitei a Biblioteca do Congresso aconteceu comigo um fato curioso: entrei perto das dez horas da manhã e comecei a consultar uma coisa e outra e, uns quinze minutos depois olhei o relógio, … eram já cinco da tarde; nesse tempo todo, não senti fome, sede ou cansaço.

Tenho de considerar, como possível lugar para passar as minhas férias, quando as conseguir usufruir, a Biblioteca do Congresso.

Programei que os três Reis Magos, apelido jocoso que apliquei aos três grupos de coleta de informações, me entregassem uma síntese do que tinha acontecido nos últimos dez dias. Antes de colocar esses relatórios na mala, dei uma rápida olhada: me pareciam razoáveis, considerando que eram os primeiros relatos.

Os relatórios dos poderes judiciário e executivo não evidenciaram nada que me pudesse preocupar. Algumas informações no poder legislativo, e mais precisamente no Senado, poderiam resultar num possível cenário negativo. Por enquanto eram somente dois senadores que pediram aos seus auxiliares informações sobre essa tal escola de voo humano.

Preciso ficar de olho nesses dois e, para começar, pedirei que me enviassem um perfil, dos posicionamentos deles, sobre matérias relevantes que ultimamente transitaram no Senado.

Enfim, voltei para New York.

Encontrei a Jane um pouco preocupada. Dizia–me, aflita:

– Quatro candidatos, sobre mil e trezentos, passaram com o máximo de notas nos exames do segundo estágio.

– Uma média de um para trezentos e poucos, é um dado que devemos acompanhar sempre. O que te preocupa?

– Não é nenhuma média que me preocupa, é que já pagaram e querem saber quando as aulas começam…

– Já pagaram?

– Sim.

– E nós já recebemos?

– Sim, o Ernest já confirmou.

– Deixe–me pensar um pouco.

A esta altura as instalações provisórias já deviam estar prontas, devo telefonar para confirmar. O problema é que tenho que contratar de imediato os quatro professores e instrutores que ainda faltam e que estão no aguardo da convocação; a mais, tenho que providenciar o pessoal de apoio: restaurante, serviço de quarto, administração, vigilância e não sei o que mais. São mais de vinte pessoas para somente quatro alunos.

– Jane, me diga, quantos alunos poderiam passar nos exames e pagar, digamos, num prazo de um mês?

– Difícil prever, bem difícil. Imaginando, como exemplo, manter a média atual, com todos os processos já em andamento e os demais que deveriam ainda chegar, penso que poderiam ser três, …ou o dobro, …ou a metade.

– Então, Jane querida, você acha que nos próximos trinta dias podemos ter, a mais, um aluno e meio?

– Não disse isso.

– Disse.

– Lá vem você de novo com as suas brincadeiras.

– Vamos então para os assuntos sérios: contate os candidatos já aprovados para virem aqui na segunda feira próxima, as nove horas de manhã, alugue um jato para oito pessoas para nos levar ao nosso centro de treinamento lá na Virginia, depois arrume a sua mala e prepara–se para vir junto.

– Eu, …eu? Por que tenho que ir?

– Ora, por uma série de razões: por mera curiosidade, para conhecer o nosso centro de treinamento e, se bem me lembro, você queria fazer um curso para pilotagem de aviões, se lembra?

–Sim, eu o disse por dizer…

– E agora vai fazer. Informa a Bettina e o Ernest que eles também irão.

– Eles? Aqueles dois?

– O que significa: “aqueles dois”?

– Você não sabe? E deu uma risadinha.

– Não…?

– Sim.

Assim fomos todos nós no jato para a Virginia. O piloto me avisou que o aeroporto do centro de treinamento não estava ainda homologado para operar jatos e que poderíamos pousar em Washington ou Rockville, que era o aeroporto mais perto do destino requerido. Escolhi Rockville e mandei providenciar transporte terrestre para o nosso centro.

No avião, Ernest, agora rápido andador depois da operação, e a Bettina se instalaram nas duas últimas poltronas e nos ignoraram durante todo o voo. Os quatro alunos, todos entre trinta e quarenta anos, depois dos primeiros momentos de constrangimento, por estarem na companhia de uma Miss Universo, se prodigaram em tentar agradá-la e atrair a atenção dela em mil maneiras diversas.

Era evidente que, na forma mais educada possível, nutriam segundas intenções, e até terceiras e quartas… Eu me diverti muito com as manobras deles e, mais, com a preocupação que demostravam a meu respeito. Sem dúvida, poderiam pensar que existiria um relacionamento especial entre mim e a Miss Universo. Para deixá-los à vontade fingi que estava imerso na leitura de uma revista.

No centro de treinamento vi que as obras estavam mais adiantadas do que poderia esperar; todas as estruturas em concreto ou aço já tinham sido concluídas, estavam agora atuando nos acabamentos internos dos edifícios. Externamente, estavam fazendo uma limpeza geral e já estavam plantando algumas palmeiras. A piscina perto do bar e restaurante estava pronta, com águas cristalinas convidativas; a piscina olímpica, locada entre o edifício central e a pista do aeroporto estava ainda no estágio do lançamento do concreto, demoraria dois meses para terminar.

As acomodações “provisórias” eram ótimas, e na chegada fomos acolhidos com um serviço de buffet satisfatório. Tive que telefonar ao arquiteto responsável por tudo isso e cumprimentá-lo por ter cumprido, egregiamente, com o compromisso que tinha assumido.

Depois de instalados, refrescados e alimentados, todos nós, em solidária comitiva, atravessamos a pista de aterrisagem e fomos cumprimentar os nossos vizinhos, os membros do aeroclube. Apresentei todos os integrantes do nosso grupo e percebi que, depois da apresentação da Jane, ninguém mais do aeroclube se interessou em saber quem alguém era ou o que fazia. Terminada a parte social, voltamos para o Centro.

Deixei todos livres para fazerem o que bem entendiam; convidei os quatro alunos a me seguirem. Fomos nos encontrar com o Billy, o mecânico, e com o James Thornton, o instrutor de voo e, ao mesmo tempo instrutor de navegação aérea. Ele foi mais um dos recomendados pelo aeroclube. Aumentar e dobrar a pista do aeroporto estava dando bons frutos.

Depois de alguma conversa dos alunos com James e Billy, evidentemente, depois deles terem suficientemente contemplados os aviões, os conduzi para a sala de estar do alojamento provisório; ali instalados fiz o necessário e esperado discurso de esclarecimentos.

– Bem amigos, quero inicialmente vos agradecer pela confiança que depositaram na nossa Escola. Posso garantir que o escopo último, pela parte que cabe a Escola, será conquistado. Vocês sabem, está nos contratos que assinamos, que antes de iniciar a parte final do treinamento, que é a razão de nós todos estarmos aqui, serão realizados exames, testes, nem sei como poderia chamar esta etapa.

Será nesse momento que serão analisadas, com mais profundidade as vossas aptidões físicas e psicológicas. Não devem preocupar–se com as condições físicas, até um portador de deficiência física grave ou um doente poderia voar. Claro que um cego deverá encontrar algumas dificuldades.

Uma boa risada geral aliviou a tensão deles todos.

– A maior dificuldade será nas áreas psicológicas e éticas.

– Mas por quê? Interpôs um deles.

– Pensem um pouco: um assassino contumaz, deveria poder voar?

Um coro de “não” respondeu à pergunta. Continuei.

– E trambiqueiros e ladrões, deveriam? – Um deles, deveria ser o mais gaiato da turma, respondeu:

– Não, não deveriam, porém eles, certamente, poderiam facilmente pagar o curso.

– Correta a resposta, percebo que vocês já entenderam o espírito da coisa, passamos então para um assunto de vosso interesse direto.

Vocês, por serem os primeiros alunos e por não gozarem, ainda, de todos os confortos deste Centro de treinamento, terão um benefício que não consta no contrato. No caso de alguém de vocês, não conseguir passar para a etapa final, terá devolvido integralmente o valor que pagou.

Claro que, mesmo com isso, será um desapontamento, mas vejam a coisa toda deste ângulo: passaram uma boa temporada de férias, fizeram novos amigos e viram novos lugares, Washington está aqui perto e, também, obtiveram um brevê de piloto de avião, tudo isso gratuitamente. Acho que não é pouco, concordam?

Um deles respondeu:

–Sim, é verdade, mas acho que todos nós gostaríamos de terminar o curso.

Os demais alunos concordaram com a assertiva.

– Eu também espero. Pena que não pude vos conhecer melhor. Tentarei, porém, vir aqui de vez em quando… seria ideal se pudesse passar aqui alguns dias a cada mês.

Enfim, os deixei mais descontraídos e mais informados.

Passamos dois dias prazerosos e voltamos para New York. Nem todos, porém o agora andarilho Ernest, queria mostrar Washington para a Bettina.

Poucos dias depois, entra na minha sala a responsável da abertura da correspondência e do seu encaminhamento: parecia preocupada.

– O que a aflige, Ester?

– Recebemos uma carta registrada contendo um cheque a nosso nome, nome correto, do valor de um milhão e seiscentos mil dólares. Verifiquei e constatei que o nome da remetente não está na lista dos aprovados, nem na lista dos entrevistados. Ninguém aqui a conhece, uma tal de Louise Brighton. A carta veio de Syracuse.

– Verifique se está na lista telefônica de Syracuse.

– Já fiz isso, não está; o papel timbrado é de uma casa de repouso, “Casa de Repouso Morro Luminoso”; anotei para o senhor o nome da remetente e o endereço, tem aqui uma cópia da carta, o cheque entreguei ao senhor Ernest para guardá-lo no cofre.

– Muito bem Ester, fez tudo certo, me deixe a cópia da carta e por favor, chame o Ernest.

– Olá Ernest, o que pensa desse belo cheque?

– Não sei o que pensar. É muito estranho, uma pessoa que está numa casa de repouso, deveria ser uma pessoa idosa suponho; a mais, nos envia a lista das pessoas que, diz ela, querem fazer o nosso curso. Seriam, contando ela, oito mulheres, provavelmente todas idosas. Os nomes delas não constam em nenhuma das nossas listas.

– Sim, a Ester me disse isto. Além de estranho, não acha isto perigoso?

– Perigoso? Como?

– Por exemplo, alguns dos nossos “amigos” poderiam dizer que nós, com o nosso discutibilíssimo curso, estamos extorquindo dinheiro de pobres velhinhas indefesas.

– Não tão pobres se podem pagar o curso.

– Sim, mas continuam mulheres idosas. E, essas mulheres idosas, ricas e ingênuas, são as presas prediletas daquele bando de picaretas que se instalaram na Quinta Avenida para atrair os incautos. O que acha?

– Começo a me assustar.

– Assustar–se é bom. É o ponto de partida para poder estudar e tomar medidas apropriadas de defesa.

Convoquei com urgência um dos nossos advogados e, com mais a Jane, discutimos longamente a questão. O resultado foi: a) colocaríamos o cheque com a carta num envelope lacrado, com os dizeres “Abrir somente no caso de falecimento de Edward Collins”; b) esse envelope ficaria no cofre dos nossos advogados, sob a tutela do sigilo profissional; c) seria requerido a um dos nossos bancos um cheque bancário em meu nome, do mesmo valor do que recebemos; d) eu iria a Syracuse para descobrir o que seria isso tudo.

Definido tudo que era para fazer, passamos à ação.

– Bettina, verifique se o AMTRAK para em Syracuse, tenho certeza de que sim, e verifique também se tem um vagão leito, e a que horas chega. Se tiver o trem noturno, me compre uma cabine para hoje à noite.

Assim, na manhã seguinte, cheguei em Syracuse. Para poder circular livremente me instalei em um hotel, mesmo que tivesse que voltar no mesmo dia. Um taxi me levou a casa de repouso com o esquisito nome de “Morro Luminoso”; que diabo, um morro pode ser alto, baixo, pedregoso, ou com prados e flores e não sei o que mais, mas luminoso?

Mas fazia sentido: numa encosta voltada para o sol nascente, prados, árvores, residências bonitas faziam jus ao nome, era um lugar devera luminoso.

Me apresentei na casa de repouso, como um velho amigo da Louise.

– Ela disse que não conhece nenhum Edward Collins.

– Coitada, deve ter esquecido o meu nome, ela sempre me chamava de Eddy… Poderia vê-la por um minuto. Pode ser que se lembre.

– Somente se for aqui no saguão e ela concordar.

– Não esqueça de dizer–lhe que é o seu velho amigo Eddy, … o Eddy de Baltimore.

Diacho, pensei, deve ter conhecido algum Eddy, ou alguém de Baltimore.

Ela veio, uma senhora alta, elegante, com cabelos bem arrumados e uma expressão de perplexidade no rosto. Aproximei-me rapidamente e segurei as suas mãos e, com o tom mais carinhoso possível, exclamei:

– Oh Louise, minha querida Louise…

– Eddy? Não conheço nenhum…

Antes que ela terminasse a frase e antes que alguém intervisse, sussurrei.

– Como que não me conhece? Você me mandou um cheque de um milhão e seiscentos mil dólares….

Um segundo depois, talvez um segundo e meio, os seus olhos se iluminaram e exclamou:

– Oh Eddy, … Eddy, quase não o reconheci… você mudou bastante.

– E você nem um pouco, continua elegante e… – em tom bem baixo.

– inteligente.

Satisfeita assim a preocupação da recepcionista, e de uma supervisora que veio correndo para verificar o que estava acontecendo, fomos para uma saleta, onde conversamos sem bisbilhoteiros e sem interrupções.

Perto de meio dia ela avisou a recepcionista dizendo que ia almoçar “com o seu querido Eddy”. Fomos num restaurante, onde continuamos a conversar. Chegamos a um acordo e depois de levá-la de volta, nos despedimos calorosamente, até me deu um beijo no rosto. Olhei para a recepcionista como a dizer: viu, ela reconheceu o velho Eddy.

Voltei para New York na mesma noite, com o AMTRAK.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *