Logo que voltei de Syracuse, convoquei Jane e Ernest, e fiz um pequeno relato dos acordos feitos com a Louise. O espanto foi grande e tanto Jane como Ernest, mostraram-se muito preocupados. Mandar para o Centro de treinamento oito velhinhas em lugar das centenas e centenas de homens e mulheres em boas ou ótimas condições físicas? Pareceu aos dois colaboradores que isso era um despautério.
A Jane chegou a questionar-me com veemência:
– Só porque já pagaram, essas mulheres devem ter este privilégio? E todos aqueles que fizeram esses exames exaustivos? Isso não vale nada? Será que estamos sem dinheiro?
– Calma Jane, vamos por partes. O Ernest pode te dizer que ainda temos dinheiro… e a propósito, Ernest, telefona ao advogado Madero e diga-lhe que a situação foi resolvida e que podem devolver o nosso envelope… e não esqueça de agradecer.
Após uma pausa, continuei:
– Veja Jane, de todas as centenas de candidatos que passaram pelos exaustivos exames, como você disse, somente quatro pagaram o curso; uma escola, qualquer escola, para continuar a ser escola, deve ter alunos, certo?
Ela, bem a contragosto, teve que anuir.
– Cheguei à conclusão que deveria explicar melhor certos aspectos do nosso trabalho, evitando assim equívocos, como este de vocês, agora. Portanto resolvi, até, como merecido voto de confiança para toda a nossa equipe, dar algumas informações adicionais e necessárias para manter o foco correto das nossas atividades.
– Jane, por favor, poder-me-ia organizar uma reunião de todos, aqui no nosso andar? Talvez seria oportuno fechar o portão de entrada e colocar um cartaz dizendo que vamos reabrir a uma da tarde, melhor às duas. Organize um belo buffet para todos nós, inclusive para os homens da segurança que, porém, deverão ficar embaixo, vigiando a entrada. Alguma sugestão, Ernest? Não? E você, Jane, tem algo mais a dizer?
-Não.
Ela estava irritada, a minha argumentação não a tinha convencido.
– Eu acho que sim.
– O que eu deveria dizer, então?
– Você, por exemplo, poderia dizer algo sobre o programa da visita das Miss Universo; eles definiram uma data?
– Sim, chegarão todas no dia nove do próximo mês, nove de junho.
– Acho que o prazo para uma boa organização é um pouco curto, não é?
-Não, acho que não, eles são profissionais e bem preparados para este tipo de evento.
– Já te deram um esboço do teu roteiro de atividades?
– Sim, já.
Vi que a irritação dela continuava, não adiantava insistir.
– Amanhã, então, teremos um enfadonho discurso e um buffet delicioso, assim espero.
Tentei não ser enfadonho no meu discurso, de qualquer maneira, as informações que ia transmitir, um pouco prematuramente no meu entender, seriam eclipsadas pelas dela, uma Jane hoje um pouco mais calma de como estava ontem.
– Bem, amigas e amigo – dirigindo-me então ao Ernest, o único homem da plateia,
– Estou aqui para dar-vos umas informações que estou devendo. Estou devendo, porque vocês se tornaram uma equipe competente, ativa, e mais relevante para mim… totalmente fiel ao objetivo da Escola.
– A oportunidade de dar-vos mais informações, derivou de um certo desapontamento por ter admitido a frequentar o curso de treinamento, algumas senhoras de uma certa idade….
– Velhinhas… gritou alguém da plateia, seguindo-se umas risadinhas de quase todos os presentes,
– Sim, velhinhas, como foi oportunamente corrigido. O que estas velhinhas possuem de especial, em relação às centenas e centenas de pessoas que vocês exaustivamente entrevistaram? O que elas têm de peculiar?
Ninguém se manifestou.
– Convém que ressalte inicialmente os objetivos das vossas entrevistas, as de primeiro e as de segundo estágio, conjuntamente. Dever-se-iam avaliar as condições físicas e psicológicas dos candidatos, para verificar se estariam aptos a conseguir o que a Escola lhes iria propiciar. Dessas duas características, a física e a psicológica, qual seria a mais relevante?
Também a esta pergunta não tive resposta alguma.
– Nem a pessoa que sabia que pessoas idosas, na realidade são “velhinhas”, saberia responder. Não quer ela nos dizer qual, destes dois requisitos, seria o mais relevante?
– A psicológica… eu acho. A mesma voz das “velhinhas”, tinha voltado a se manifestar.
– Correto, corretíssimo.
Após esta minha afirmação, murmúrios pervadiram a plateia, estavam discutindo entre si, em grupo de duas ou três, sobre a minha afirmação. Não podia deixar dúvidas. Tinha que intervir imediatamente.
– Me digam, quem vocês preferem para que possa voar: um saudável assassino, ou uma freira doente? Podem pensar todo o tempo que quiser, mas quero uma resposta sincera.
Aguardei alguns segundos e interpelei a Jane:
– O que escolheria?
– A freira doente, claro.
– E você Ernest?
– Certamente a freira.
Assim continuei perguntando a todas e a cada uma delas, sem exceções. A freira doente teve a unanimidade.
– Bem, amigas, agora que chegamos a um consenso sobre o que é relevante, podemos passar a coisas mais alegres. Senhorita Jane, pode tomar a palavra.
-Gostaria que o senhor fizesse uma introdução geral sobre o que vou dizer.
– De acordo. Não sei como começar, mas, vamos lá. Me dirigi a plateia.
– A Jane e eu muitas vezes discorremos sobre o que poderia ter acontecido na vida das Miss Universos do passado. Todos sabemos que a Miss Universo 2020, está trabalhando na Quinta Avenida e que é solteira, mas, e as outras? As outras dos anos anteriores, o que aconteceu com elas?
– Esta interrogação foi posta, pela própria Jane, a um dos diretores da organização que promove o concurso de Miss Universo. Adoraram a ideia. Vão fazer uma programação de duas semanas apresentando, ao vivo e a cores, as Miss Universo dos últimos dez anos e, cada uma, contará pessoalmente o que, nesses anos todos, lhe aconteceu.
– Vocês gostaram da ideia?
Um “simmm” estrondoso foi a resposta.
– Tem mais, muito mais; advinham quem conduzirá este programa fabuloso de quinze dias?
Pipocaram respostas, algumas faziam o meu nome, mas, a maioria, repetia o nome da Jane.
– Um muito obrigado para aquelas que pensaram que seria eu; mas não, não tenho capacidade para isso. Será a Jane. A Miss Universo de 2020, a nossa colega por todos querida, será ela que conduzirá esse programa. Palmas para ela.
Foram muitas palmas e muitos abraços. Depois de todos se acalmarem, prossegui.
– Como já disse, tem mais. Adivinhem onde será realizada o primeiro evento?
Ninguém sabia; ninguém, realmente, poderia saber.
– Será aqui, aqui no nosso escritório, na nossa sede da Quinta Avenida.
Após uns segundos de puro estupor, voltaram os gritos, os entusiasmos, os abraços entre elas, entre uma vintena de mulheres estonteadas.
– Finalizo, sim, finalizo, antes de passar a palavra à Jane, que vos orientará sobre o evento. Finalizo dizendo que Ernest tem uma boa quantia para todas vocês se arrumarem convenientemente…. Não, não é que vocês não estejam bem arrumadas, ao contrário, aqui parece até uma convenção de miss de alguma coisa. É que as exigências da televisão são outras; a Jane explicará tudo que for necessário para vocês ficarem lindas também na televisão
– Não esqueçam que o programa será transmitido de costa a costa e que será visto por milhões de pessoas ao redor do mundo.
Convidei a Jane a assumir o meu lugar e disse em voz baixa para ela:
– Exagerei?
– Sim, um pouco. Porém facilitou muito a minha tarefa.
– Então boa sorte, eu me vou.
– Mas por quê?
– Para você ficar mais à vontade. O palco é seu, divirta-se.
Nos relatórios quinzenais que recebia regularmente de Washington, nenhum dos Reis Magos me relatou algo que pudesse preocupar-me, até hoje.
O relatório do Baltazar, o segundo dos reis magos, responsável pelo poder legislativo, mencionou que ocorreu uma longa conversação do senador por New York com os dois senadores que se incomodavam com a nossa Escola. Dava para pensar; conversas muito longas entre estes senadores, no meu caso, não são um bom sinal. Precisarei saber qual a relação do senador por New York com o Prefeito da nossa cidade que, reiteradamente, agiu contra a Escola, como, as suas canhestras ações demonstraram.
Não podia iludir-me, a aparente ineficácia das ações do Prefeito deveu-se não tanto a uma possível incapacidade pessoal, quanto a limitação dos poderes que, constitucionalmente, são de alçada dos prefeitos.
Ao contrário, praticamente não existem limites sobre o que podem legislar os eleitos para a Câmara e o Senado. As limitações são as da Constituição, cuja interpretação, nem sempre unânime, dependia das decisões da Suprema Corte.
E foi por isso que contratei os serviços do terceiro rei mago, o Gaspar, responsável para acompanhar o que esta Corte era chamada a analisar e decidir.
O outro limite, que não seria bem um limite, seria o vastíssimo campo do confronto dos interesses diversos da sociedade. E é neste campo que me encontrava. Que interesses eu podia contrariar? A quem eu podia beneficiar? E de quanto poderes poderiam, estes últimos, dispor? Estas questões estavam sempre bem evidentes nos meus pensamentos.
Concretamente devia estar atento ao que se passa no Senado. Na Câmara, pelo relatório, não apareceu, ainda, algo que me poderia preocupar.
Tive que acompanhar as “velhinhas” ao nosso Centro de Treinamento. Elas vieram de AMTRAK desde Syracuse; as instalei em um bom hotel e deixei que elas se deleitassem fazendo compras e passeios. Muitas vezes as levei a restaurantes das diversas etnias que formavam New York: italianos, poloneses, tailandeses; abominaram a comida destes últimos, era apimentada demais.
Enfim, de jato alugado, fomos na Virginia, para o nosso Centro. Para minha satisfação o campo de pouso já tinha sido homologado para operar aviões à jato. Foi uma chegada triunfal; imaginem, chegar de jato diretamente ao coração do nosso Centro de Treinamento. Foi uma grande surpresa, para todos os que aí estavam, quando constataram que os “novos” alunos eram senhoras, distintas sim, mas, idosas.
Por isso, tive que ficar diversos dias bem atarefado até colocar pessoas e sistemas nos devidos lugares. Porém fiquei satisfeito em constatar que o quadro dos instrutores já estava completo e funcionando. A área residencial estava completamente pronta, porém criava uma sensação de desconforto ver tantas e tão boas instalações praticamente vazias. Tinha, porém, de encarar esta situação de outra forma: já tínhamos grandes e boas instalações prontas para atender a uma futura avalanche de alunos.
Fui cumprimentar Justin, o presidente do Aéreo Clube, que tanto me ajudou.
– Alô Justin, gostou da nova leva de alunos?
– Sim gostei, são todas boas e simpáticas senhoras, não as vejo, porém, pilotar aviões.
— E não vai ver.
– Como seria isto? Não vieram aqui para fazer o curso de pilotagem?
– Não, elas estão em um estágio bem mais avançado em relação aos alunos que já estão aqui. Sim, superior. Os demais alunos vão demorar um ano para chegar ao nível destas simpáticas senhoras, se vão chegar.
– Me perdoe sim, mas não estou entendendo nada, e nem tente me explicar.
– É simples, bem simples. Aqui elas farão o mesmo curso dos demais alunos para poder dispor de conhecimento de meteorologia, de geodésia, de rádio comunicação, de navegação aérea, e tudo o mais que um piloto deve saber, inclusive leis e regulamentos sejam nacionais que internacionais.
– E para que isso tudo, se não vão pilotar?
– Não vão pilotar, mas vão voar. Elas devem saber o que é um espaço aéreo, o que seria um cone de aproximação e coisas assim. Voando, não devem esbarrar em um Boeing 747. E para não esbarrar nos aviões, edifícios, linhas de transmissão de energia, e etecetera e etecetera, elas devem possuir os mesmos conhecimentos básicos de um piloto de um Boeing 747.
– Agora entendi… mais ou menos. Tenho, porém, uma queixa a te fazer, uma queixa bem pesada.
– Uma queixa? O que, diabo, eu fiz?
-Não fez. Este é o problema. Você não me apresentou a Miss Universo, mas me apresentou todas as simpáticas senhoras que chegaram agora.
– Não me venha com estórias, Justin; onde você estava quando ela veio?
– Se bem me lembro, estava pescando no lago O´Hara.
– E fez uma boa pescaria?
– Faz um favor para mim, Edward? Vá para o inferno.
Agora deveria explicar o porquê sete velhinhas estavam fazendo curso de piloto de avião da classe Boeing 747. É muito simples. Tenho, porém, que confidenciar, antes, quem é a Louise Brighton, qual foi a vida dela. É simples e rápido:
Filha de uma boa família de Syracuse, se apaixonou por um jovem engenheiro mecânico e se casou. Ocorreu que poucos anos depois o jovem marido recebeu uma oferta para ser o engenheiro mecânico de um grande navio de cruzeiro. Colocou, como condição, que a esposa devia ficar consigo no navio; eles nunca tiveram filhos. Assim, por doze anos, praticamente, a Louise viveu em grandes navios de cruzeiro, conheceu o mundo todo ou, pelo menos, o mundo acessível pelo mar.
Conheceu então milhares de pessoas e centena de lugares. Aprendeu a falar corretamente quase uma dúzia de línguas e, mais ou menos, mais umas dez ou quinze. Entendia o “pidgin” do Havaí, e o “creole” do Caribe. Para finalizar esta parte, e poder fazer entender no que se tornou a Louise, devo dizer ainda algo mais.
Quando numa das excursões, que os navios normalmente organizam para os passageiros, a comitiva dela foi ao local considerado como o da sepultura de Confúcio, era um grande prado com dezenas de pedras, ela lia as inscrições em ideogramas dos pensamentos do filosofo gravados nessas pedras. Era o resultado das longas horas solitárias, passadas quando o marido estava no seu turno de trabalho.
Enfim, depois desses anos todos navegando, ficaram em terra em diversos estaleiros navais por mais de uma dezena de anos. O marido, no seu devido tempo, morreu e ela se encontrou sozinha, sem filhos, agora sem mais parentes, sem amigos ou amigas. Não podia considerar como amigas as milhares de pessoas que encontrou, sempre por poucos dias, quando em navegação, ou em curtos períodos, quando seguia o marido para os diversos locais de trabalho.
Resolveu parar de andar. Para conseguir isso, ela entregou todos os seus bens a uma casa de repouso da sua terra natal, em troca de aí permanecer até o término da sua vida, amém.
O que fez a Louise, nos dois anos que passou na casa de repouso? Por ter tido uma vivência considerável de pessoas e lugares, e por ter lido muito e em muitas línguas, tornou-se o centro das atenções de todas as residentes da casa de repouso do Morro Luminoso.
Com o tempo, as residentes que continuaram com ela ficaram reduzidas a uma meia dúzia, mas, por isso mesmo, os vínculos da amizade se tornaram mais fortes. Elas eram, na maioria, bem letradas e tiveram, também, vidas movimentadas, ainda que terrestre.
Cerca de seis meses atrás, recebeu, inesperadamente, uma correspondência de uma empresa convidando-a a subscrever ações ou a declinar da oferta. Foi averiguar e descobriu que o finado marido tinha adquirido ações de uma companhia de navegação em nome dela.
Ela, por não possuir o considerável valor necessário, declinou a subscrição, mas ficou a par do valor das suas ações. Era considerável, e não podia ser incorporado ao valor que repassou, em contrato, para a casa de repouso.
Não falou com ninguém desse fato. Ficava cogitando o que podia fazer com esse dinheiro. Entre as várias alternativas que lhe vieram em mente, a mais aprazível, era de convidar as suas amigas para um belo e longuíssimo cruzeiro marítimo.
Foi nesses tempos que ela leu o nosso primeiro anúncio; se empolgou, falou com as amigas, muito reservadamente e, com a concordância delas todas, vendeu as ações e enviou o cheque à nossa Escola, pagando o curso para todas elas, sem se preocupar da existência e necessidade de outros requisitos.
Isso é tudo, … acho.
***
O nove de junho se aproximava. Jane já ficava pela maior parte do seu tempo fora do nosso escritório. Ela se tornou o centro de um turbilhão de atividades e, estas, um dia a levaram… para a nossa sede.
Veio com o famoso Verstain, e muitas outras pessoas. Estavam estudando como fariam as imagens do evento. Mediram espaços e intensidades da luz, instalaram cabos e possantes refletores, e muitos mais apetrechos de misteriosas finalidades. Três dias antes do evento resolvi suspender os trabalhos de entrevistas, não existiam mais condições para isso.
As nossas queridas colaboradoras adoraram, e sumiram; cabeleireiro, manicure, maquiadora, roupas, muitas roupas e sapatos – muitos sapatos – se tornaram, nesses dias, a razão de vida delas.
Mesmo com toda a confusão, Jane teve tempo para conversar por alguns minutos comigo.
– Edward, estou fazendo falta aqui?
– Nem um pouco, tudo funciona perfeitamente bem.
– Nem um pouco…?
– Nadinha de nada.
A decepção dela era bem visível no seu rosto. Se eu continuasse com isso, acho que choraria.
– Boba. Claro que faz falta. Todos se lamentam, mas suportam bem porque sabem qual é a finalidade da tua ausência. Você está fazendo algo inestimável para nós todos e, por isso, te agradeço infinitamente. Me diga, como tem passado? Está suportando as pressões e as cargas de trabalho?
– Bem, muito bem, nunca me diverti tanto na vida; somente que, quando volto para casa, caio na cama, morta de sono e de cansaço, com desespero de mamãe, que quer saber tudo que eu fiz, com quem falei e do que. Ela, evidentemente, está feliz, mas morre de curiosidade.
-É bem natural. O que acha, depois de terminar tudo isso, você levar sua mãe, num passeio, para o nosso Centro, para Washington… talvez, … sei lá, algo assim. Deve estar muito curiosa a respeito do que estamos fazendo.
– Maravilhoso, maravilhoso. – Depois com ar de dúvidas – posso telefonar e dizer isso para mamãe?
– Claro que sim, e diga-lhe que será um prazer recebê-la na Virginia. Cumprimente-a para mim, sim?
Quando da finalização do “domo”, tive que passar um bom tempo no Centro de Treinamento, para poder orientar os trabalhos. De fato, esta era a única construção incomum de todas as nossas instalações e a única necessária para o treinamento final do nosso curso.
Detalhei minuciosamente o projeto, especificando materiais e sistemas, na realidade era muito simples, porém com detalhes que, de simples, nada tinham. Descrevê-lo? Nada fácil, mas vou tentar:
O corpo principal da estrutura é de um cilindro formado por uma parede de concreto de dois pés de espessura; o cilindro tem trinta e cinco metros de diâmetro interno e vinte cinco metros de altura. Sobre o topo da estrutura de concreto ficava apoiada uma estrutura de tubos de alumínio que formava uma cúpula semiesférica, esta, por sua vez era revestida de espessas folhas de alumínio cuja finalidade era de propiciar isolamento ao conjunto, e apoio à cobertura contra as intempéries.
Todo o espaço interno do domo tinha como última camada de revestimento uma série de diversos estratos de espuma com densidades decrescentes a partir da parte encostada no concreto. Na realidade, a parede de concreto no lado interno tinha um revestimento inicial de cortiça; a espessura total da espuma era de cerca dois pés, e era revestida com um tecido grosso e resistente. Todo este revestimento não era contínuo, eram, na realidade, inúmeros hexágonos de dois pés de lado.
Por não existirem janelas, o ar e a luz provinham de pequenas hastes flexíveis, colocadas entre as interfaces dos hexágonos de espuma, e coligadas a redes, elétrica e pneumática, situadas abaixo das camadas de espuma.
Tinha somente uma porta de entrada, devidamente recoberta pela mesma espessura de espuma e, perto desta, situava-se um painel de controle que incluía um écran de computador que, quando não operado, ficava tampado com uma cunha de espuma que garantia que, o interior do domo, não tivesse qualquer solução de continuidade.
Todos os sistemas auxiliares, que não eram poucos, estavam alojados numa estrutura convencional contígua. Não sei se foi suficientemente claro, espero que sim. O grafismo aplicado sobre o tecido descreverei durante a explanação das modalidades de treinamento.
Como já disse, tive que permanecer um bom tempo nesta obra específica para dar orientações adicionais que não constavam no projeto, ou eram pouco claras.
Um problema que me afligiu era que a maioria dos profissionais engajados nesta construção queriam saber para que servia isso tudo. Sendo que não respondia a pergunta e, teimosamente, repetia somente o que queria especificamente daquele profissional, naquele momento e naquele especifico ponto, com o passar dos dias cessaram as perguntas.
Durante este período, acompanhei a evolução dos alunos e participei, como mero ouvinte, das aulas de cada disciplina ministrada. Felizmente, neste aspecto, tudo estava se desenvolvendo satisfatoriamente.
Voltando a New York, encontrei na minha mesa os relatórios dos Três Reis Magos das últimas semanas. Somente os mais recentes continham algo interessante.
O do Gaspar, o rei que ofereceu a mirra, e que, dois milênios depois, acompanhava as atividades do Suprema Corte dos EUA, informava que o prefeito de New York foi à Corte e, de imediato, foi recebido pelo presidente dessa instituição. Na saída o prefeito, entrevistado pelo jornalista de plantão, disse que a visita era só de cortesia. As visitas de cortesia não demoram uma hora e vinte minutos.
Gaspar, que também estava de plantão, reparou que o prefeito, quando da saída, mostrava um ar satisfeito; ao contrário de quando entrou, com visível semblante de preocupação.
Pontos para o Gaspar: detectou a ida do prefeito de New York e fez diversas e plausíveis interpretações. Então o nosso prefeito, sem dúvida, irritado pelo fato que os seus departamentos não conseguiram encontrar nada que pudesse incriminar a Escola, estava apelando para as esferas superiores; inicialmente o Senado e agora o Suprema Corte. Com evidente sucesso com o primeiro, e com algo positivo com este último.
Não podia permanecer por mais tempo aguardando. Tinha que pensar em algo. Mas o que? Eu não tenho nenhuma experiência nas artes da política; não sei circular nesse ambiente, não conheço nenhum político e, por fim, sou uma pessoa visada negativamente pela maior parte do “establishment”.
Tenho que pensar, pensar bem e rapidamente; a situação pode-se complicar. De um lado tenho o Centro de Treinamento concluído, mas praticamente vazio; tenho também quase uma dúzia de alunos que, com otimismo, podem chegar a uns vinte no prazo de um mês. Todos eles, porém, não serão operativos, isto é, poderão voar somente num prazo bastante indefinido, entre dez e quinze meses.
As andanças do Prefeito me dizem claramente que não possuo este prazo. É necessário, melhor, é imprescindível que eu atue procurando diminuir o prazo de formação dos alunos e, de outro lado, aumentar o prazo de conclusão de qualquer medida em gestação no Senado contra a Escola Não sei bem o que poderei fazer, mas, pelo menos defini com clareza dois objetivos.
Recebi, do Baltazar, informações relevantes, boas e ruins o mesmo tempo. Ruins porque demostram que os adversários da Escola estão progredindo na elaboração e implementação de medidas restritivas ou, até destrutivas em relação a mesma. Boas porque conseguimos um razoável conhecimento do que querem fazer e de como vão fazer.
O relatório do Baltazar em resumo, dizia que, infelizmente, nada conseguiu descobrir do que trataram, no primeiro encontro, o do prefeito de New York com o senador pelo estado homônimo, devido ao fato de ter sido uma reunião sem testemunhas e sem registro.
Ao contrário o encontro dele com os senadores em Washington contou com a participação, além dos cincos já engajados, de mais uma meia dúzia que queriam saber algo mais, para poder aderir. Além dos senadores, participaram diversos assessores e, um deles gravou todas as conversações. Baltazar conhecia bem essa pessoa, e lhe pediu que lhe fornecesse uma cópia da gravação. Com a firme recusa dele, conseguiu, depois de muitas insistências, que lhe facultasse ouvi-la.
O resumo da conversação, pela memória e interpretação do Baltazar, foi:
“O prefeito explicou aos presentes que, um trambiqueiro de marca maior, se instalou na sua, dele, Quinta Avenida e estava armando um embuste milionário. Estava vendendo a possibilidade de alguém poder voar, contra a bagatela de 200,000 dólares a serem pagos antecipadamente para um curso de…. dezoito meses. O clássico conto do vigário.”
“Ele tentou, com os meios que dispunha, coibir essa fraude, que conta com uma fachada aparentemente legal, mas, infelizmente, os poderes que a Constituição atribuiu a função de prefeito, não foram suficientes para a tarefa. Por isso estava apelando ao legislativo, que tinha poderes para conseguir enfrentar este magno embusteiro.
Terminou com a pergunta retorica: – Seria conveniente, para o país, que milhares de prefeitos enfrentem essa situação singularmente e com a escassa eficácia dos poderes que lhes são próprios, ou que, o Congresso, com uma única medida legislativa, resolva o problema?”
A seguir, o Senador por New York reforçou a posição do prefeito, e convidou os presentes a sugerir qual medida legislativa seria oportuna para o caso. Muitas soluções foram aventadas, mas nenhuma ganhou o consenso. Resolveram, portanto, criar um grupo de senadores que elaboraria diversas alternativas e que estas seriam postas, informalmente, a avaliação do grupo dos senadores já engajados. A reunião terminou com um patético apelo aos senadores presentes para que arregimentassem os colegas, independentemente da cor partidária.
O relato foi muito bom… as notícias, não.