Chega de cogitações. Tenho que passar a ação.

Em Washington, fui para o Senado e procurei o gabinete do Senador pelo estado do Tennesse, Albert H. Crowdler. Apresentei à sua secretária ou assessora, sei lá, uma moça simpática o meu cartão de visita, o da Escola. Ela perguntou-me qual seria o assunto que iria tratar com o senador: respondi com o meu melhor sorriso, ela me olhou e, depois de uns segundos, também sorriu de volta e entrou no gabinete do Senador.

Tinha previsto que poderia ficar sentado bastante tempo em uma sala de espera, “antes” de poder entregar o meu cartão de visita, não depois, como estava ocorrendo. Contava sempre com a curiosidade generalizada que estava se formando em relação à Escola, principalmente depois do longo programa televisivo das Misses Universo que deu a conhecer, de costa a costa, a existência desta.

Mas, não… tinham se passados mais de quinze minutos até a mesma moça simpática, com o mesmo sorriso, me convidar a entrar. O senador era uma pessoa bem elegante, de uns cinquenta anos, com abundantes cabelos brancos. Mantinha, em ambas as mãos, o meu cartão de visita, e convidou-me a sentar numa das confortáveis poltronas postas à frente da sua mesa.

– No que posso lhe ser útil, senhor…. – E olhou para o cartão de visita – Edward Collins?

Eu, dentro de mim, ria. Fingindo de não saber o meu nome, depois de ter ficado uns bons quinzes minutos com esse cartão na mão. Devem ter feito, ele e a secretária, algumas investigações telefônicas e, provavelmente, mencionado o meu nome diversas vezes; mas tudo isso não tem importância, vamos ao que interessa.

– Inicialmente, Senador, tenho que lhe agradecer por receber-me, foi muita gentileza sua. Não sei bem como iniciar a minha exposição, mas, no fim, eu estaria lhe pedindo um grande favor.

– Não me agradeça, ainda. O senhor já identificou dois caminhos possíveis: dizer-me qual seria o favor, ou me contar as razões do pedido.

– Acho que lhe devo ambas as possibilidades que mencionou… mas, seria melhor pedir o favor para não lhe fazer perder muito tempo.

– Fique à vontade.

– Obrigado. Como provavelmente deve saber, está-se formando no Senado, um grupo de senadores, por enquanto ainda pouco numeroso, que estudam uma maneira de elaborar e fazer aprovar alguma medida legal que obstruiria o objetivo da minha escola, a” Escola de Treinamento para Voo Humano”, como pode ver no meu cartão.

– Um momento por favor. São muitas informações que devo processar, são muitas… deixa-me ver… Para começar, o senhor seria, mesmo, o promotor desta escola?

– Sim.

– Para treinar pessoas a voar… a voar… sem nenhum aparelho?

– Exatamente.

– E o senhor pensa que eu possa acreditar nisso?

– Para o favor que lhe queria pedir, não é necessário, em absoluto, acreditar nisso.

– Ainda bem. Qual seria, então, o favor?

– Seria de demover este grupo de senadores do intento de querer colocar obstáculos ou, até, de impedir o funcionamento da Escola.

– E por que, perdoe-me a franqueza, eu deveria fazer isso?

– Ora… É simples, seria para proteger o Senado.

-Proteger o Senado, disse? Proteger o Senado?

O rosto dele tinha ficado um pouco vermelho, a voz se tinha tornada mais aguda; cheguei a temer que me expulsaria da sala, mas, se acalmou um pouco e, com uma certa ironia perguntou:

– E como protegeria o Senado e de qual ameaça?

– Chegando ao âmago da questão direi: se após a decisão do Senado de criar alguma medida restritiva para a minha escola, o que subentende que a maioria dos senadores não acreditaram da possibilidade do voo dos homens sem nenhum dispositivo auxiliar, se isto acontecer, o Senado não ficaria profundamente atingido na sua credibilidade, no seu prestígio?

– “Se”. O senhor disse bem: “se”. Isso, este tipo de voo ser possível, acho extremamente improvável. Portanto, também improvável o Senado ser atingido.

– Em maneira absoluta? Poderia admitir, por exemplo, que para este tipo de voo, haja uma probabilidade de uma para um milhão?

– Bem, de uma para um milhão, sim; pode-se admitir. Como mera hipótese, claro.

– Então não seria oportuno evitar que o Senado corresse o risco desta infinitésima e pequena probabilidade?

– O senhor conduziu-me, habilmente, a ter que responder “sim”. Dou-lhe os parabéns pela brilhante argumentação, mas, que fique bem claro, claríssimo, que não me convenceu, nem um pouco.

– Muito bem colocado, claramente bem colocado. Nada me resta, então, que contar a motivação do meu pedido, como o senhor sugeriu, se a isso estaria disposto.

O senador, na sua poltrona se sentia muito bem à vontade, tinha derrubado as argumentações do interlocutor e saboreava essa pequena vitória; com bonomia, assentiu.

– Pode contar, poderia ser interessante.

– Sim, será interessante, mas, não seria eu a contar.

– E quem seria?

– Outra pessoa… com mais credibilidade.

– E como seria isso? Não tenho muito tempo. Sabe como é, compromissos de toda ordem.

Sim, imagino, mas se o senhor puder telefonar para o xerife de Lawrencburg, no Tennesse, será questão de poucos minutos.

– O xerife de Lawrencburg?

– Sim ele mesmo, ou melhor, o xerife de Lawrencburg de um ano e meio atrás, espero que ainda seja o mesmo que conheci.

O senador pelo estado do Tennesse Albert H. Crowdler, assumiu o seu papel de senador. Pediu à sua secretaria para fazer uma ligação urgente para o Xerife de Lawrencburg, – sim Lawrencburg no Tennesse – teve que acrescentar. Ainda pediu que perguntasse qual era o nome dele.

Nos cerca de cinco minutos que intercorreram até a ligação estar concluída, nenhum de nós emitiu qualquer palavra. O que tinha que ser dito, já estava dito.

– Senador, o xerife de Lawrencburg, Paul Stodler, na linha.

A ligação estava na modalidade de “viva voz”,

O senador pegou o telefone e antes de falar, me sussurrou:

– É ele?

– Não sei – respondi também em tom baixo – pergunta-lhe se ele conheceu um ano e meio atrás um novaiorquino….

O rosto do senador era de extrema perplexidade; eu tinha certeza de que, se não estivesse na linha com um eleitor do Tennesse, teria desligado e me mandado para o inferno ou, pelo menos, expulso da sala.

– Bom dia xerife Stodler. Aqui fala o senador Crowdler, do Tennesse, posso fazer-lhe algumas perguntas?

– Sem dúvida Senador, faça todas as perguntas que quiser.

– Ótimo, e muito obrigado. O senhor conheceu um certo novaiorquino, cerca de ano e meio atrás…?

– Não, acho que não…. O rosto do senador se encrespou e ficou-me olhando com ar interrogativo…

– Ah… sim, sim, …aquele novaiorquino sim, esteve aqui de fato um tempo atrás, pode ser um ano e meio.

– Ótimo. Muito bom, muito bom mesmo. Agradeceria muito se me pudesse informar algo sobre “aquele” novaiorquino: qualquer coisa, qualquer coisa que souber.

– Dele? Do novaiorquino? Não sei nada, mas se bem me lembro…, o nome dele era Edward… não sei mais nada, afora que ele me disse que trabalhou na prefeitura de New York e foi despedido.

– Que bom que o senhor estar se lembrando de algo. Ele, o novaiorquino Edward, está na minha frente e está lhe mandando um grande abraço.

– O Edward? O novaiorquino? Ele me está ouvindo?

– Sim, está ouvindo e agora lhe vai falar.

– Alô xerife, como tem passado?

– Bem, bastante bem, mas, o que está acontecendo?

– Nada de especial, nada mesmo. Somente que o Senador Crowdler queria saber algo a meu respeito, algo que você poderia contar.

– Contar o quê? Acho que não tenho muita coisa a contar, a mais do que contei.

– Como? Não se lembra que me intimou a revelar algo?

– Ah sim. É disso que se trata? Do coiso do Max?

– Sim, é disso que se trata. Gostaria muito que contasse tudo que aconteceu e, se quiser, qual seria a sua interpretação. Pode fazer isso para o Senador Crowdler?

– Sem dúvidas que posso. Deixa-me reavivar a memória … sim posso, mas não vou dar nenhuma interpretação. Normalmente eu somente considero os fatos; um xerife deve somente ater-se aos fatos, não acha?

– Sim, acho também, e agradeço a gentileza que teve comigo naquela ocasião. Passo o telefone para o senador.

– Alô, xerife Stodler, vejo que tem algo para me contar. Sei que foi muito tempo atrás, mas talvez contando desde o início, poder-se-ia lembrar dos fatos. Poderia ser?

Assim, o xerife Stodler, agora sabia o nome dele, contou tudo que sabia. Contou que eu apareci, sem carro, com roupa novaiorquina e com pouco dinheiro, e que tinha um troço de metal, pesado e brilhante no meio do nada, contou que nem ele nem o Max, que transportou aquele objeto até a cidade, encontraram alguma pista, algum sinal de que, qualquer veículo terrestre naquele descampado pudesse ter transportado aquele objeto, … deveria ter sido posto aí por meio de algum helicóptero.

Contou, também, que me intimou a revelar o conteúdo daquela caixa e que eu me recusei. Contou muito mais, até fatos que desconhecia, por exemplo, revelou, que a telefonista, uma bisbilhoteira, tinha ouvido a conversação toda com a “suposta”, disse ela, ex esposa e revelado ao xerife, como” dedicada cidadã a favor da lei”, toda a conversação.

Contou, também, que ele admoestou a “cidadã dedicada”, informando-a que existem leis com penas severas para aquelas pessoas que escutam clandestinamente as conversações telefônicas dos outros. Enfim contou, e detalhadamente, tudo o que aconteceu. Para alguém que inicialmente dizia que não se lembrava de nada… Nada mau, nada mau mesmo.

– Xerife Stodler, agradeço muito a sua exposição, também o Edward agradece. Queria perguntar-lhe se, futuramente, eu pedir ao senhor e as demais pessoas envolvidas nesse episódio, uma declaração escrita, a poderiam fazer?

– Sem dúvida, Senador, que eu posso fazê-la. Das demais pessoas, não saberia dizer, mas, provavelmente sim, a poderiam fazer também.

– Muito bem, xerife, agradeço novamente.

E desligou.

Aproveitei o fato de já estar em Washington para ir ao Centro de Treinamento e averiguar o andamento das atividades Depois de cumprimentar a maior parte dos presentes, fiz uma exaustiva inspeção às instalações, demorando bastante no domo. Pedi, até, ao responsável de todas as instalações elétricas e eletrônicas, que operasse todos os sistemas na minha presença. Ao final pude constar que tudo funcionava perfeitamente, excluídas algumas pequenas e facilmente remediáveis falhas.

O dia seguinte o dediquei a verificar os sistemas que, poderíamos chamar de “suporte à vida”. O restaurante, o bar, a sala de música e de massagem, a biblioteca, que ainda estava bastante desguarnecida, as piscinas, as quadras de tênis e de vôlei, e muitas outras instalações que faziam parte do grande polo esportivo do nosso Centro de Treinamento. Como disse anteriormente, estava tudo muito vazio, apesar de, desde a última vez que cá estive, terem chegados mais alunos.

Como sempre fazia quando visitava o Centro de Treinamento, participei das aulas de todas as disciplinas e, em continuação, também queria saber, pelos professores e instrutores, do progresso de cada aluno.

Fato interessante e que diversos destes instrutores relataram que o empenho dos alunos tinha aumentado bastante logo depois da chegada das “distintas senhoras”, como as tinha apelidado Justin, o presidente do aeroclube, nosso vizinho do outro lado da pista. Um efeito colateral inesperado.

Por último fui ao centro médico. As notícias não eram boas.

– Veja, senhor Collins, mesmo com as suas recomendações de não ser muito exigente com as senhoras alunas, duas delas não tem a mínima condição para fazer quaisquer esforços por mínimo que seja.

– E quem seriam?

-A senhora Elisabeth Ferguson, com diabete crônica… seria muito difícil que conseguisse estar em condições para enfrentar as atividades que o senhor me descreveu.

– E a outra?

– Infelizmente a situação dela é um pouco pior, tem problemas cardíacos bastantes graves. A senhora Rotstein, Clara Rotstein, não teria capacidade para enfrentar quaisquer esforços prolongado. Lamento.

– E das demais, qual é a situação?

– Considerando os parâmetros mais brandos, conforme suas recomendações, estão em razoáveis condições de saúde. Devo reconhecer que, todas elas, não somente seguem estritamente as minhas prescrições, mas, diria, que as seguem entusiasticamente. Medicamentos, tratamentos, dietas, exercícios, são enfrentados por elas com prazer e alegria. Sim, é muito estranho ver pessoas que “adoram” seguir as recomendações médicas como elas o estão fazendo.

– Sim é bastante estranho. E é muito triste ter que cortar alguma delas do programa de treinamento. Infelizmente será necessário. E a senhora Louise, a líder delas, qual é o estado de saúde dela?

– Bom, muito bom. É visível que ela se cuidou durante a vida toda. Ela é viúva, aliás todas o são, mas, no caso dela, pode-se aplicar a alcunha de “viúva enxuta”, sem, naturalmente, faltar ao respeito que lhe é devido.

– Entendo doutor William. O agradeço pelo seu trabalho. Agora tenho a desagradável obrigação de anunciar que duas delas não podem continuar no programa.

Encontrei-me, a sós, com uma entusiasmada Louise.

– Oh Eddy, que prazer tê-lo aqui conosco por alguns dias – ela era a única pessoa que me chamava de Eddy. Nem a Jane ousaria.

– O prazer é todo meu Louise e se achar uma boa coisa a minha presença, informo oficialmente, de que passarei muitos dias exclusivamente com vocês todas. Infelizmente tenho também notícias nada boas.

Contei-lhe do diagnóstico médico. Ficou, como não podia deixar de ser, muito triste; quase chorou, mas felizmente isso não aconteceu. Eu não sei o que fazer ou dizer em situações como essa.

Enfim, depois de diversas procrastinações, convidei as duas senhoras que seriam eliminadas do programa a uma reunião comigo e a Louise.

Tentei ser o mais delicado possível, mas sem muito sucesso; a notícia era crua demais e, palavras bonitas, não seriam de nenhuma ajuda. Elas choraram e se abraçaram; a Louise as abraçou também e, chorou. Eu queria estar a mil milhas dali, mas, lá estava, e lá mesmo devia continuar, era uma obrigação da qual não me podia furtar.

Mais calmas, depois das lágrimas e abraços, a senhora Rotstein, com voz ainda embargada, dirigiu-se para mim:

– Senhor Collins, eu, e seguramente a Elisabeth, queremos agradecer muito o que fez para nós todas…- virou-se para Louise – e você também Louise, você… você… – e recomeçaram os choros e abraços. Mais uma pausa e, finalmente recomposta, continuou:

– Sim senhor Collins, o senhor e a querida Louise, nos propiciaram uma grande aventura, passamos dias maravilhosos, …maravilhosos. Nunca teríamos imaginado isso no Morro Luminoso. Lá voltando, ainda teremos estas felizes lembranças….

– Um momento, senhora Rotstein, posso chamá-la de Clara?

– Certamente que pode.

— Então me chame de Edward. Você, também, senhora Ferguson, pode-me chamar de Edward, se quiser.

– Com prazer o chamarei de Edward, …não deve esquecer que você poderia ser meu filho, pela idade poderia ser o meu filho mais novo.

– Muito agradecido pela comparação – e dirigindo-me a Clara continuei: – Clara, que estória é essa de você querer voltar para a casa de repouso?

– Fomos cortadas do programa, não fomos? Então o único lugar onde podemos ir será no Morro Luminoso, não temos outro para irmos.

– Um momento, queridas Clara e Elisabeth, é bom esclarecer algumas coisas. Vocês, por problemas de saúde certamente não poderão fazer os pesados exercícios que serão necessários. Isso, porém não significa que vocês devem sair daqui. Vocês continuam na equipe, fazendo, querendo, o que as demais vão fazer e sem a obrigação de se desgastar com esforços inúteis. Não é assim, Louise?

– Se você o diz, … certamente que sim. Mas não seria uma carga pesada? Me desculpem querida, Clara e Elisabeth, estou me referindo ao programa.

– Nada disso Louise. Primeiramente considere que você pagou o curso na integra; por acaso quer de volta uma parte do dinheiro?

– Não, não é isso, é que…

– Não precisa explicar, se você não quer o dinheiro de volta, elas ficam, está claro?

Clara e Elisabeth estavam radiantes; Louise também, mas estava, também, perplexa.

– Ainda tem uma coisa a resolver. Vocês duas, agora vão ter uma tarefa importante e devem me dizer se a aceitam.

– Tarefas? Nós? – Disseram as duas em uníssono – o que podemos nós fazer se estamos doentes?

– Isto de doenças é com o doutor William. Para mim o que deveriam fazer é vigiar as demais alunas. Vigiar se elas estudam, vigiar se elas se alimentam corretamente, vigiar se elas não brigam entre si e… ajudá-las.

– Ajudá-las?

– Sim, ajudá-las a manter-se sempre firmes nos propósitos pelos quais estamos todos aqui empenhados. Podem fazer isto?

Não esperei a resposta, estavam, elas e a Louise, aos prantos e abraços, de novo.

Voltei para New York e encontrei uma Jane bastante perturbada. Depois da “tournée” triunfal de quinze dias com as Misses Universo em diversas cidades do país, a volta à rotina da nossa sede não era tão entusiasmante como o foi no começo. A mais, estavam ocorrendo fatos que não sabia como administrar, apesar do apoio do sempre disponível Ernest.

– Me diga Jane, o que a aflige tanto?

– Não sei o que seria, mas me senti algo incomodada, aliás, muito.

– Poderia me contar o que seria?

– Não entendi muito bem, mas vou contar os fatos da minha maneira.

– Conta Jane, conta.

– Veio um dia uma pessoa, elegante, simpática e muito bem-falante. Queria falar com o responsável da Escola. O informei que você não estava e que eu era a responsável em exercício. Talvez tenha exagerado um pouco dizendo quais eram as minhas atribuições. Ele me reconheceu como a Miss Universo dos programas de TV, e mostrou-se algo descrente quanto às atribuições que me tinha atribuído.

Isto, infelizmente, me irritou sobremaneira. Era a costumeira ideia da “mulher bonita e burra”. Você nem imagina quanto isso nos desagrada. Desagrada até as mulheres bonitas e burras mesmo. Edward, sinceramente, você me acha burra?

– Jane, sinceramente também, você acha que existem muitas mulheres, bonitas ou feias, que conseguiriam fazer o trabalho que você está fazendo?

– Devem ter muitas, eu acho.

– Digamos que sim, …vamos supor que existem muitas aqui em New York, … que sejam mil, ou dez mil, …. se você quiser. E destas dez mil, todas capacitadas tanto quanto você, teria, por acaso, alguma mais bonita de você? Me responda simplesmente, sim ou não.

– Sim.

– Sim o quê? Que existe, entre estas dez mil novaiorquinas, uma mais linda de você?

– Sim, pode existir.

– Mais bonita que a Miss Universo 2020? Vamos, Jane não insista, eu escolhi você por ser bonita e inteligente, te falei isto no primeiro dia que nos encontramos e o repito agora. Por favor, continue com a sua estória.

– Enfim, irritada, irritadíssima, fiz coisas imperdoáveis.

– Que coisas imperdoáveis?

– Levei o sujeito na tua sala, me sentei na tua cadeira, chamei a Bettina e com a voz mais autoritária possível, disse-lhe que não queria ser interrompida, nem com visitas, nem com telefonemas e, logo após a saída dela, olhei bem nos olhos do sujeito e disse…

““- Muito bem, meu senhor, o que você quer da minha Escola?

– Bem senhorita Jane, é assim que posso chamá-la?

– Sim.

– Então vou direto ao ponto. Tem um amigo meu que está interessadíssimo em participar do vosso curso de treinamento, tem todas as qualificações físicas e psicológicas necessárias, pode fazer todos os exames que queiram fazer e, para não deixar dúvida alguma, pode pagar o curso.

– E o que o impede de inscrever-se regularmente, como todos fazem?

– Ele é estrangeiro.

– Nós aqui não fazemos nenhuma restrição, afora as que são divulgadas nos nossos textos publicados em jornais e revistas.

– Sim, isto é muito bom, ele presumia algo assim, por isso que eu vim. Ele achava que tinha alguma chance.

– Tem todas as chances do mundo.

– Entendo, entendo sim, mas, tem um outro problema…

– E qual seria? – Disse isso em tom um pouco brusco, estava, de novo, irritando-me com toda essa conversa.

– Acontece que ele é de uma boa família, um pouco tradicional, pode-se dizer, e que, seguramente, não verá com bons olhos uma iniciativa desta.

– E o que a Escola tem com isso? Ele é maior de idade espero.

– Sim, é adulto, sim.

– Não vejo problema algum em ele se inscrever no curso, imagino, porém, que o senhor queria fazer um pedido. Faça-o então.

– Obrigado, muito obrigado. O pedido dele seria, então, de inscrever-se sob outro nome e que a sua nacionalidade não seja mencionada, sabe como é, a família podia desconfiar… Seria possível?

– Deve convir que o pedido é bastante incomum….

– Sim concordo, deve ser bastante incomum, mas pensando bem, é compreensível, … a família…

– Sim sei, a família… Poder-me-ia deixar um tempo para analisar esta situação um pouco estranha. Poderia voltar com o seu amigo, não poderia?

– Sim, certamente. É ele o interessado.

– E, se possível me traga mais informações, algum documento, coisas assim. Isso facilitaria as coisas.

– Ele fará isso, com certeza. Do meu lado agradeço imensamente a sua compreensão.””

– Isso é tudo, Edward, aconteceu na segunda feira, pode ser que ele e o misterioso amigo aparecerão logo num dia desse. Acha que fiz besteiras?

– Não, decididamente não. Você se conduziu bem, frente a uma imprevisível situação. Como eu disse, e você não acredita, você é inteligente, às vezes um pouco insegura, mas, com certeza, inteligente.

Agora temos que pensar no que fazer. Ele e o amigo dele são seguramente estrangeiros. Isso, como você disse, não é problema algum; as probabilidades dessa família existir são mínimas. Esperava algo assim, mas, não sei o que poderia ser este algo.

– Como assim, … esperava algo e não faz ideia do que seria este algo? Não vejo muito sentido no que disse.

– Infelizmente é assim mesmo. Chama o Ernest, temos que pensar o que isso pode significar.

Ernest, estava ao par dessa visita, então entrei logo no assunto.

– A estranha visita, que a Jane teve que enfrentar, é o resultado da divulgação da nossa Escola e do seu objetivo. Como podem supor, a quase totalidade das pessoas não acreditam nessa possibilidade, mesmo aqui, na nossa organização, acho que os descrentes são a maioria.

Não, não, Jane, não é necessário justificar ou explicar, é bastante natural. “Eles”, porém, mesmo não acreditando, querem verificar qualquer possibilidade que lhes se apresenta, mesmo sendo altamente improvável. E nós somos a possibilidade improvável.

– Quem são “eles”?

– Para começar poderiam ser qualquer umas das organizações de inteligência existente no mundo.

– Quer dizer… espiões? – disse uma estranhamente entusiasmada Jane – poderia esse sujeito ser da KGB?

– Sim poderia ser; mas não da KGB, essa não existe mais, mas pode ser perfeitamente da organização que a substituiu.

– Então. temos uma organização inimiga que quer nos extorquir os segredos do nosso país? ( Jane continuava empolgada com a possibilidade de ter tido um encontro com um espião da KGB ou de outra agência de espionagem qualquer)…

– Jane, Jane, pare com isso; você deve ter assistido a muitos filmes de espionagem, talvez demais. O que acha, Ernest?

– Tenho também a impressão que a Jane assistiu a muitos filmes de espionagem. Acho bastante natural para ela, me desculpe Jane, que viveu num mundo cor de rosa, onde a beleza prevalecia e vencia. O encontro com um possível espião, um matador, como 007 por exemplo, deve tê-la entusiasmado.

– Não é nada disso, Ernest. Você é.… você é…

— Para com isso Jane. Voltamos ao assunto principal; não esqueçam que o misterioso visitante pode ser um dos nossos.

– Como nosso? – Perguntou Ernest.

-Sim poderia, o nosso visitante, ser da CIA, do FBI, sei lá, de alguma nossa organização que queria descobrir o que tem de real nesta estória toda.

– De uma das nossas agências? – Inquiriu Ernest, surpreso. Jane tinha ficado muda desde o momento que descobriu que o galante visitante não era da KGB.

– Sim, de uma das nossas agências, mas poderia ser também a Esso, ou a General Motors, ou alguma organização que englobe todas as grandes empresas que se sentiriam ameaçadas. Poderia ser a OPEP, o cartel mundial do petróleo, ou poderia ser a Cidade do Vaticano, ou, que sabe, o próprio Liechtenstein, seguramente em conluio com a República de São Marino e a Igreja Grega Ortodoxa, poderia ser…

– Pare, pare! – exclamaram juntos Jane e Ernest.

Parei.

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