Os cursos teóricos terminaram. Todos os alunos “normais” tiveram desempenho excelente, as “distintas senhoras” nem tanto. Tinha que continuar o meu programa com o que podia dispor; mais tarde pensarei como remediar as deficiências teóricas destas alunas “especiais”.

Para comemorar a conclusão desta primeira etapa, decidi conceder uma pausa a todos, alunos e instrutores. Três dias em Washington: hotéis, restaurantes, teatros com todos os custos a cargo da Escola. Ficou decidido que as damas ficariam em um hotel e os cavalheiros em outro; os instrutores declinaram o convite para ficarem em um hotel separado dos demais, e confraternizariam com os alunos.

Fretamos um helicóptero de vinte lugares que, para levar todos nós, teve que fazer duas viagens. Na primeira destas, embarcamos: eu mesmo com as senhoras e alguns cavalheiros, na segunda viagem, todos os demais. Pedi ao piloto que, se possível, fosse de imediato para a autoestrada Eisenhower e depois a acompanhasse até chegar perto da cidade. “Posso seguir a Eisenhower até a bifurcação com a perimetral, daí tenho que utilizar as rotas permitidas”, foi o que ele disse. Respondi que isso estava ótimo.

Durante a curta viagem, quis trocar umas palavras com os alunos; iniciava sempre perguntando pela profissão. Um deles me respondeu:

– Médico, sou médico; ou melhor, era; agora sou um mero aluno.

– Interessante. O doutor William sabe que você é médico?

– Sabe sim. Ele, até, acha que eu sou mais qualificado do que ele próprio, para tratar dessa nossa turma toda. Sim, muitíssimo mais qualificado, seja pela minha capacidade, reconhecida amplamente em todo o estado de New York, seja pela minha especialidade.

– Perdão, e qual seria a sua especialidade?

– Pediatria.

Uma gargalhada geral encheu a cabine, iniciando assim, alegremente, o nosso passeio para Washington.

Chegou, enfim, o dia em que começaria a treinar os alunos para voar, voar sem nenhum tipo de aparelho. A primeira turma seria das mulheres, elas não continuariam com o curso regular que consistia em aulas práticas de pilotagem de aviões. Os demais alunos é que o fariam, com grande satisfação do instrutor de voo que tinha ficado ocioso pela maior parte do tempo. Daquele dia em diante o ronco do velho biplano nos acompanharia durante todas as nossas atividades.

Reuni as minhas alunas perto do domo. Elas estavam vestindo um macacão azul turquesa bastante elegante. Tinha suposto que, por serem mulheres, não teriam gostado de vestir um macacão qualquer. Ostentavam, também, um capacete da mesma cor e luvas brancas. As duas “inspetoras” vestiam o mesmo modelo de macacão, mas de cor “pink”. – Um amor – disseram elas.

– Bem, minhas amigas, chegou o momento tão esperado. O momento de iniciar o treinamento pelo qual todas vocês esperavam. Não é, Louise?

– Sim, é isso mesmo. Eu mesma estou bastante apavorada, acho que todas nós estamos.

Todas assentiram, e ficaram aliviadas por Louise ter verbalmente manifestado o que sentiam.

– Não se preocupem em demasia. Não chegaram até aqui? Acho que ninguém de vocês podia imaginar que chegariam tão longe, não é verdade?

Um murmúrio de consenso foi a conclusão desta minha introdução.

Comecei então a explicar os conceitos básicos, devagar, bem devagar. Elas, excluída a Louise, eram mulheres “caseiras”, tiveram sempre uma vida tranquila ou quase: casa, marido, filhos, com todos os prazeres e dissabores que isto representavam. O que falei foi:

“A gravidade. A gravidade – exordiei – é um atributo indissociável da matéria; se tem matéria, esta terá a sua gravidade, sempre. Não existem os tais de gravitons e não existem as ondas gravitacionais, que alguns cientistas supõem, e que outros procuram. Existe, para qualquer corpo, de qualquer tamanho, um campo gravitacional que lhe é próprio e que será máximo na sua superfície, e irá diminuindo progressivamente pela distância desde o baricentro, mas nunca desaparecerá.

Me acompanharam até aqui? Façam perguntas, sempre que não entenderam algo.

Sim, Edward… – Perguntou-me uma delas. – O que é um baricentro?

Nada mais que o centro da massa da matéria. Podem me interromper sempre que não entendem algo: uma palavra ou um conceito. Continuamos.

Todos nós conhecemos a gravidade da terra que faz nos grudar nela; conhecemos também a gravidade da lua. As marés são o efeito mais visível, mas, todos nós somos afetados pela atração gravitacional da lua, tanto quanto os mares e os oceanos; na realidade toda a superfície da terra, toda a terra é atingida pela atração da lua. Prestem bem atenção a este fato, da mesma forma que a lua atrai a terra, reciprocamente, a terra atrai a lua, sempre e em proporção as próprias massas e a distância.

“Massa” é a palavra que os cientistas usam, corretamente, para denominar o que nós, comuns mortais, chamamos de “peso”. A Elisabeth, portanto, quando estiver na lua, terá um “peso” diferente do que tem na terra justamente pela menor massa da lua e, derivado disso, pela menor atração gravitacional que a atingirá e que resultará, finalmente, no menor “peso” da Elisabeth; objetivo que ela mesma persegue, sem sucesso, há muitos anos aqui na terra.

Na realidade a Elisabeth sempre teve e terá a mesma “massa”, …seja na lua que na terra, porém um ”peso”, diferente e menor, quando ela estiver na lua, porque, como já afirmei, menor é a massa da lua em relação a massa da terra que, infelizmente, mantém a Elisabeth grudada nela com o seu “peso” terrestre.

Existem, portanto, pesos diversos para a mesma massa da Elisabeth, dependendo da massa do corpo celeste sobre o qual ela está. Todos nós vimos o Armstrong na lua ir andando e pulando, apesar dos pesadíssimos, na terra, traje espacial, capacete, tanque de ar, e muitos outros dispositivos.

Está tudo claro até agora?

Para dar tempo de assimilar estes primeiros conceitos, vamos fazer uma pausa e visitar o interior do domo e os diversos dispositivos nele contidos. Será neste domo que realizaremos todos os nossos treinamentos. Com o tempo necessário, vocês vão dominar todos os sistemas e equipamentos que aí estão.

Não fiquem preocupadas se não entenderem alguma coisa de imediato. Eu vos garanto que, logo mais, vão entender e que, as mais atrevidas de vocês – e olhei para a Tina – iram ainda dizer que tudo é muito simples, simplérrimo, …. depois de explicado.

Como dizia, nós todos estamos sujeitos a intensa gravidade da terra e, também, da lua com menor intensidade, mas, por termos nascido aqui, nesta condição de múltiplos campos gravitacionais, não os percebemos conscientemente.

Todos os campos gravitacionais, alteram a intensidade da sua força em função da distância entre o corpo trator e o corpo atraído. Reparem, porém, que a atração entre os corpos é sempre recíproca. A terra atrai a lua, como a lua atrai a terra. Tem um ponto, entre a terra e a lua, onde as atrações destes dois corpos se equivalem. Resumindo, mais distantes estão os corpos com as suas respectivas massas, menor será a atração recíproca, a qual, será sempre determinada pelas especificas massas dos corpos.

Estando tudo isso claro, – continuei – informo, algo a todas vocês que provavelmente desconhecem. Existe um outro corpo celeste que possui um campo gravitacional que nos atinge. É o sol. O nosso sol, tem um campo gravitacional imenso, proporcional a sua própria imensa massa. A influência do seu grande campo gravitacional é bem diminuta sobre a terra e, de consequência sobre nós todos, devido á grande distância entre o sol e a terra. Esta influência, porém, é perceptível.

Sabiam que as máximas marés ocorrem quando a lua e o sol estão alinhados em relação a terra? Pois é, é isso mesmo. Então estamos imersos, também, no campo gravitacional do sol. Todos os três campos de gravitação dos quais falamos: da terra, da lua, do sol, se integram e agem, conjuntamente, sobre nós. Não esqueçam, porém, um fato importantíssimo: a Louise, sim a Louise, também influencia o sol. O sol está sujeito ao campo gravitacional da Louise ou, melhor dizendo, de cada um de nós com o seu próprio campo gravitacional de intensidade infinitesimal, infinitesimal sim, mas, não nulo, não inexistente. Pode ser tão infinitamente pequeno quanto vocês queiram, mas existe, e permeia todo o universo, desde sempre.

Bem amigas, deixamos a Louise influenciar o sol, vamos descansar um pouco. Quem quer jogar dominó comigo?”

Todas queriam.

Na realidade somente eu, a Tina e a Elisabeth mergulhamos numa feroz competição de dominó; as outras, percebi, foram perto de um computador e aí confabularam até nos encerrarmos o jogo; Tina, a sapeca da turma, tinha ganho a maioria das jogadas.

– Edward, – disse-me uma das que estavam no computador, todas elas me chamam de Edward. Os demais integrantes do nosso Centro me chamavam de “senhor Collins”

– Edward, – disse – pesquisamos na Internet algumas das coisas que você nos disse, sabe, para nos entender melhor. A maior parte das informações que encontramos, coincidem com o que você nos ensinou, de diversas outras não conseguimos encontrar nenhuma menção e, de algumas, … bem, algumas estão em contraste com o que nos disse.

– Parabéns para vocês, por pesquisar. Deveriam fazer isso sempre. Em relação as discordâncias devo fazer a vocês uma pergunta simples: acreditam no que aparece na internet ou, acreditam no que eu vos digo?

Todas ficaram em silêncio. Não sabiam como responder. De um lado estava a onisciente internet com todas as miríades de sistemas informativos que cobriam a inteira face da terra e, de outro…. a pessoa que as tinha levado, com todas as improbabilidades possíveis, até a um centro de treinamento que prometia que poderiam voar sem nenhum tipo de aparelho. O que podiam responder? Não responderam.

– Deixem que eu respondo por vocês. Não devem ficar muito preocupadas com isso. A resposta é, com absoluta certeza, que devem acreditar no que eu vos digo. Atenção, muita atenção por este detalhe relevante. Vocês devem acreditar no que eu vos ensino, não porque é o Edward Collins que o diz, …não e não, … absolutamente, não. Devem acreditar porque esta é a única forma que vos permitirá voar.

Deixei passar um bom tempo para elas poderem assimilar o conceito, e continuei:

– Vou aproveitar a oportunidade para esclarecer um ponto: vocês não vão voar como os pássaros, por exemplo, ou como o Superman, com a sua capa azul e os braços esticados para frente. Não será este o tipo de voo; vocês, na realidade, não vão voar, entendam bem, vocês vão se deslocar, vão mudar a vossa própria posição no espaço, mudar como bem entenderem e sem as ridículas poses do Superman.

No dia seguinte, sempre no descampado perto do domo, agora com melhores cadeiras para tornar a aula menos cansativa, pelo menos fisicamente, voltei a matéria; fiz um breve resumo do que disse ontem e prossegui:

-Vocês certamente já sabem que o nosso sistema planetário, que tem no seu centro o sol, é composto de vários outros planetas além do nosso. Para refrescar a memória os citarei na ordem crescente a partir do sol, e já que citamos o sol, é bom saber que todos os planetas juntos são meras migalhas esparsas no espaço, quando comparados com o tamanho dele.

Enfim os planetas: Mercúrio, o mais próximo do sol, sugiro não ir lá, é extremamente perto do sol, e nenhum tipo de creme protetor contra queimaduras vos poderá ajudar. Depois vem Vênus, também quente e sempre envolta em véus, as nuvens perenes que a envolvem. O seu nome foi retirado de Vênus, a deusa da beleza dos antigos romanos. Depois desses dois vem a terra, que bem conhecemos. A seguir Marte, o planeta vermelho, um pouco menor que a terra.

Todos os planetas que mencionei são denominados de planetas rochosos, em contraste com os demais a seguir, que são formados por matéria em estado gasoso e estes, no caso do nosso sistema planetário, são imensamente maiores que os planetas rochosos. É possível, como alguns cientistas dizem, que o núcleo destes planetas gasosos seja rochoso. Pode ser, mas para nós, isso não importa.

Então o primeiro dos grandes planetas é Júpiter, o maior deles. Depois, o próximo gigante gasoso é Saturno com os seus belíssimos anéis. A propósito, o que acham criar um nosso emblema, o emblema da nossa Escola, com a imagem de Saturno?

Todas concordaram.

“- A seguir vêm os demais, sei lá se vem primeiro Netuno e depois Urano e Plutão, tanto faz, porém Plutão não é gasoso e nem é mais classificado como planeta. Então, este é o nosso sistema planetário. Como agora vocês sabem, cada um dele tem uma massa e cada um dele está rodando ao redor do sol a uma distância diferente dos demais, mas todos num mesmo plano. Bem, menos Plutão, mas Plutão não conta, deve ter sido capturado pelo sol bem depois da formação do nosso sistema planetário.

De volta a nossa matéria; como vocês já sabem: maior a massa, maior o campo gravitacional do planeta e, de outro lado, maior a distância da terra, menor será a influência dos campos de gravitação de cada um desses planetas sobre a terra.

Acho que esqueci de vos perguntar se ficou claro o conceito de “campo”. Campo é todo o espaço, quadrimensional “interessado” por um fenômeno. Interessado quer dizer somente que está relacionado. É bom conhecer esta e outras expressões do tipo, que vocês sempre encontrarão, quando consultarem livros ou revistas de divulgação científica.

– Desculpe, professor. – Era a Louise que me interpelou com esse inusitado termo – mas não queria dizer “tridimensional”?

– Não, eu disse “quadrimensional”, porque o tempo é uma dimensão e, da mesma forma que ocorre com as demais dimensões, se uma delas não existir, a matéria não pode existir. Podemos voltar aos nossos planetas?

Após uma breve pausa, continuei:

– Imaginem que, por um estranho milagre, cessariam sobre vocês, sobre os vossos corpos, então sobre as vossas massas, os efeitos gravitacionais da terra, da lua e do sol. O que aconteceria as vossas massas?

Ninguém se manifestou.

– O que aconteceria se as vossas massas ficassem no espaço sem nenhuma influência gravitacional dos corpos que mencionei? As vossas massas, se a ausência da gravitação da terra, lua e sol ocorresse num dado instante, manteriam, no instante sucessivo, o movimento rotacional da terra de vinte e quatro horas sobre si mesma, e o movimento de transladação da terra em relação ao sol.

Esta seria uma possibilidade, de outras falarei mais tarde. Além dos movimentos já mencionados, teriam, também, o movimento do sol em direção a uma certa estrela, da qual esqueci o nome, e mais, o movimento rotacional da galáxia, sem contar que, certamente, a própria galáxia, se movimenta em direção a, sabe-se lá o que… e onde.

– Calma, minhas distintas senhoras, não se preocupem com tudo isso, tive que mencionar, para não deixar fios soltos, mais tarde vão entender a relevância disso tudo. Agora voltemos as vossas massas. Pela hipótese que formulei, as vossas massas estariam praticamente no mesmo lugar, e movendo-se quase do mesmo jeito, do que de antes do desaparecimento da gravidade da terra, lua e sol, e assim permaneceriam. Então, as vossas massas seguiriam por aí, soltinhas no espaço.

Não falamos dos planetas? Os planetas possuem campos gravitacionais que, sem os poderosos campos gravitacionais que o nosso milagre eliminou, podem se fazer sentir; podem influenciar as vossas massas, não interessa se muito ou pouco; os campos de gravitação de todos os planetas vos atingirão. Está claro, ou devemos parar para descansar?”

– Não, vamos continuar. – Interveio a Louise – quero saber onde a minha massa vai estar. – Risadas gerais; todos queriam saber onde as próprias massas estariam, depois disso tudo.

– Muito bem, já que fomos agraciados por um milagre, admitamos mais um. Cada uma das vossas massas pode, a seu exclusivo critério, isto é, a critério de cada uma de vocês, eliminar a influência do campo gravitacional de um dado planeta ou, se quiser, de todos eles, excluído um específico planeta. O que ocorreria então?

Todas falaram, em uma confusão de vozes, todas queriam se manifestar.

– Calma, minhas senhoras, todas podem falar, mas uma de cada vez.

Todas, literalmente todas, inclusive as duas “inspetoras” de macacão pink, responderam, de maneira diferente, entre uma e outra, e de uma forma, à vezes, um pouco confusa, mas, todas elas, disseram que, a própria massa, seria atraída por aquele planeta.

– Parabéns para todas vocês, estão aprendendo bem, e rápido. Vamos deixar o restante para amanhã. Não esqueçam de verificar na internet tudo o que vos disse, para qualquer dúvida, me interpelem.

O amanhã foi bem diferente do que todos nós estávamos aguardando. À noite, Jane me telefonou, bastante apreensiva, para não dizer preocupadíssima.

– Chegaram, Edward, chegaram.

– Chegaram? Quem são, os que chegaram?

– Os da KGB, o chato do outro dia e um bonitinho que seria o tal de amigo estrangeiro.

– E….?

– Ele, o bonitinho, um loiro de olhos azuis, me apresentou o passaporte, ele é de Copenhagen, lá onde tem o Tivolí, e disse-me que queria muito fazer o curso, desde que não fizéssemos muita publicidade; assim, como já me disse o chato quando veio na primeira vez. Oh… Edward, o que tenho que fazer?

Um “loiro de olhos azuis”, o “parque de diversão Tivolí” …, isso era o mundo como o conheceu a Miss Universo 2020. Deixa para lá, o que eu poderia fazer a respeito disso?

– Deixaram com você algum documento?

– Sim, o passaporte, um cheque bancário do banco Merril Lynch e uma declaração pela qual se compromete a ressarcir qualquer prejuízo ou inconveniente que, involuntariamente, poderia causar.

– Ótimo. Por favor, envie-me cópia desses documentos, agora mesmo, por e-mail. Os originais, envie-os por courier para o hotel Regent Plaza em Washington a meu nome. Irei lá agora mesmo. Não se preocupe, os devolverei em seguida. E, diga-me, vai tudo bem por aí?

– Sim tudo bem. As entrevistas aumentaram bastante depois do programa das Misses. Tive que colocar uma quarta telefonista no call center. Por enquanto tudo corre bem. Somente temos o problema da KGB.

– Não deves te preocupar, deixa que eu resolvo o problema do loirinho de olhos azuis…

– Que loirinho é esse?

– Ora, é o teu agente da KGB.

– Ah, esse.

– Sim, esse mesmo.

No hotel, à noite, examinei com cuidado as cópias dos documentos do bonitinho de olhos azuis, não encontrei nada de particular. Devia esperar a chegada dos originais para ver se descobria algo que me desse a pista de qual agência de espionagem ele poderia ser. Às nove de manhã recebi os documentos originais, os examinei com cuidado e, a seguir, pedi a recepção do hotel que me providenciassem um carro para ir a Langley o mais rápido possível. Chegando a sede da CIA, demorei uma hora para descobrir com quem devia falar e o resto do dia para ser recebido. Já eram mais das seis horas da tarde quando finalmente fui introduzido no escritório do homem que, supunha, teria enviado um loirinho ao nosso escritório da Quinta Avenida.

Estava quase arrependido da minha ida a CIA. E se não foram eles que o enviaram? Poderia dizer então que, se não era da CIA, o loirinho de olhos azuis, podia ser de uma outra agência de inteligência estrangeira, e seria conveniente a CIA investigar. Enfim, uma sisuda secretária me convidou a entrar na sala do chefe, chefe de alguma coisa, come diziam os dizeres da placa na porta, dizeres que não me diziam nada.

No momento de atravessar a porta cheguei a pensar: “E se o loirinho fosse realmente de uma família conservadora da Dinamarca? ” Bah, … deixa para lá, … vamos em frente.

O homem que me recebeu não era notável em muitos aspectos, nem gordo nem magro, talvez cinquenta anos ou pouco menos. Notáveis eram os seus olhos, não eram frios, eram gélidos. Fui acolhido, porém, com uma inesperada cordialidade:

– Por favor, senhor Collins, se acomode, fique à vontade. Fiquei sabendo que o senhor passou quase o dia todo tentando falar comigo. Me desculpe por tê-lo feito esperar. Realmente, hoje, andei ocupadíssimo.

– Ao contrário – respondi – sou eu que devia pedir desculpas por retê-lo aqui, até esta hora tardia.

– Muito bem, estamos reciprocamente perdoados. Em que posso ajudá-lo?

– É muito simples: somente queria saber por que mandou um seu homem a matricular-se na minha escola.

O golpe foi dado e foi recebido. Ficou parado e em silêncio, os olhos gélidos se tinham estreitado, e tinha certeza de que a cordialidade desapareceria. Passaram segundos e segundos, e o silencio, sempre mais constrangedor, dominava o ambiente. Finalmente falou, com a voz somente um pouco menos cordial.

– O que o faz pensar que mandei alguém para a sua escola?

– Para começar, a estória toda estava muito bem engendrada, logo, pensei que somente poderia ser a CIA.

– Obrigado pelo elogio, mas porque a CIA mandaria um seu agente para a sua escola?

– Justamente esta é a pergunta que me faço, e que fiz ao senhor.

– Estamos num impasse então. Ambos queremos saber a mesma coisa e ambos não sabemos a resposta.

– É verdade, não me resta então que pedir desculpas por ter feito perder o seu tempo. Posso fazer duas colocações antes de despedir-me?

– À vontade.

A primeira é que, se não for da CIA, será de outra agência estrangeira, mas, que é um agente da inteligência, não tenho dúvida alguma.

– E a segunda?

– A segunda seria um convite para o senhor mandar-me, se quiser, quantos agentes queira. Serão todos bem-vindos.

Nos despedimos e não consegui descobrir, no seu rosto impassível, nenhum sinal que me pudesse dizer de como recebeu as minhas provocações.

Parabéns para ele.

No dia seguinte, do centro de treinamento, telefonei para a Jane.

– Bom dia Jane. Ontem mesmo te mandei de volta todos os originais. Não tem de se preocupar com o seu loirinho…

– Ele não é o meu loirinho. Poderia fazer-me o favor de parar com esta brincadeira?

– Sim Jane, me desculpe, eu somente queria que você soubesse que ele é realmente de uma família que não ficaria satisfeita em vê-lo na nossa escola. Portanto, fica tranquila e continua com o teu trabalho. Cumprimente todos por mim. A propósito, aqui no Centro tudo está funcionando, porém com pouco alunos em relação ao tamanho das instalações, mas como disse, tudo está funcionando. Acho que, a partir de agora, pode vir com a sua mãe para fazer a visita que combinamos, certo?

– Certo, falarei com a mamãe e, mais uma vez, eu e a mamãe te agradecemos muito.

Tenho que parar de brincar com certos assuntos com a Jane, ela se irrita facilmente.

Procurei Billy, o mecânico, na sua oficina

– Alo Billy, como vai?

– Muito bem, obrigado, chefe.

– E como vão as coisas por aqui?

– Até pouco tempo atrás, tudo meio parado. Ultimamente as coisas começaram a se movimentar, o nosso velho biplano começou a voar e não para o dia todo.

– Sim todos o estão ouvindo. A propósito você não acha que devemos ter mais aviões, destes, de treinamento básico?

– Sem dúvida chefe, devemos, pelo menos, ter outros dois. Aliás, tem um Stenton em ótimas condições a venda no aeroclube. Estaria disponível e de imediato.

– Boa notícia. Poderia pedir o preço e fazer uma vistoria nele?

– Que é isso, chefe? Já fiz a vistoria por conta do atual proprietário, o avião está tinindo de bom.

– Falta somente saber o preço que ele quer. Você não sabe?

— Não, não sei. Não seria melhor falar com ele e tratar diretamente?

– Certamente que sim. Você poderia marcar um encontro com ele?

– Claro chefe, é para já.

Assim, em menos de um dia, o Centro de Treinamento podia contar com mais um avião, e menos barulhento. Cheguei à conclusão de que eu errei quando decidi comprar o avião do motor em linha, novo, veloz e brilhante, mas, sem uso imediato para o treinamento básico que estávamos ministrando. Talvez num futuro não previsível poderia ser utilizado. Esse avião somente serviu para entusiasmar a Jane e fazê-la aderir a Escola; bem, para alguma coisa então serviu; a mais, impressiona muito os nossos visitantes. Devo começar a procurar já, pelo menos, dois aviões de treinamento básico e novos, de preferência.

Recebia os relatórios dos Três Magos, diretamente no Centro de Treinamento. Nas últimas semanas, nada de verdadeiramente preocupante foi relatado. Ao contrário, os desta semana continham notícias que demostraram que os que nos queriam destruir fizeram avanços significativos.

Na Câmara já se formara um pequeno grupo que acompanhava os movimentos que ocorriam no Senado em relação a nossa Escola.

No Senado, duas ações estavam em andamento.

A primeira era a elaboração de um projeto de lei, a ser oportunamente repassada a Câmara depois de ser aprovado no Senado. Este projeto de lei, não era um primor de lógica, porém era claríssimo em definir “crimes difusos com o objetivo de ludibriar pessoas incautas” e eram claras as penas correspondentes às várias classes desses crimes.

Na realidade, as penalidades não eram demasiado severas. Mas eram suficientes para imobilizar a nossa Escola. Se aprovada pela Câmara e novamente pelo Senado, seria facilmente sancionada pelo Presidente, sempre em busca de publicidade fácil. Se tudo isso acontecesse, seria o nosso fim; o fim da Escola, o fim da possibilidade de alcançar o objetivo final pelo qual me tinha comprometido.

A segunda ação era do envio de um requerimento, do Senado para a Suprema Corte, solicitando um posicionamento do próprio Supremo sobre a constitucionalidade do projeto de lei (anexado ao pedido) que, mesmo tratando de matéria de competência dos município, pelos interesses extremamente difusos, na realidade de interesse de toda a população dos Estados Unidos, e também pela urgente necessidade, devido ao fato que os crimes específicos definidos no projeto de lei, ESTAVAM SENDO REPETIDAMENTE PERPRETADOS e, ainda, em escala progressivamente crescente e que, por último, mas não por isso menos relevante, dizia que os instrumentos legais constitucionais do prefeito de uma das mais poderosas cidade do País, não conseguiram conter a nova e sofisticada modalidade de crime. E se, continuava e terminava a peroração, a mais poderosa cidade do País não conseguiu proteger os seus cidadãos, como o poderão fazer as demais cidades, progressivamente menores, e consequentemente menos aparelhadas?

Ufa…, a peroração era longa, mas bem estruturada. Até eu começava a me insurgir contra essa Escola, antro de novos e sofisticados criminosos.

O Rei Mago não pode descobrir nem os posicionamentos nem as tendências dos Juízes. O único indício era, ainda, a informação, de diversos meses atrás, do ar satisfeito do prefeito de New York, quando da saída do gabinete do presidente da Suprema Corte. As notícias não eram nadas boas e eu não tinha meios para acelerar o meu programa. Somente me restava tentar desacelerar o programa deles.

Enfim, tenho que voltar a falar com o senador do estado do Tennesse.

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